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Explicador da Rádio Observador, o último dia de campanha eleitoral, a caminho de umas eleições de resultado muito incerto. O número de indecisos é elevado e, por esta altura, já todos nós ouvimos ou até já dissemos: "Vais votar em quem?" ou "Nem sei em quem vou votar". Devo aproveitar para lembrar que temos disponível o Votômetro do Observador, que pode dar uma ajuda. É preciso responder às perguntas e afinar as respostas, e o Votômetro do Observador pode dar uma ajuda. Eu sou Ricardo Conceição e comigo está a Judite França. Judite, quem é que convidámos para refletir sobre esta campanha e sobre estas presidenciais?

Rita Figueiras, a investigadora na área da comunicação política. Bem-vinda, obrigada por ter aceitado o nosso convite. Olhando para esta campanha presidencial, em que é que ela foi diferente das anteriores?

Para já, a quantidade de candidatos com capacidade de ser eleito, neste caso, que se traduziu na quase certeza que teremos uma segunda volta. E isso só decorre, claramente, de termos vários candidatos com relativa igualdade de possibilidade de chegar a essa segunda volta. Portanto, uma elevada competitividade que decorre desta fragmentação, que traduz também o cenário da nossa política, que está num processo de transformação, como nós temos vindo a ver com a alteração do que tradicionalmente era o grande peso dos dois partidos mais tradicionais, os dois grandes partidos, essa fragmentação e estas eleições presidenciais completam o ciclo de eleições neste processo de reconfiguração. Portanto, também traduz algumas das mudanças que nós temos vindo a assistir através dos outros atos eleitorais e depois com a especificidade, claro está, de termos aqui essa campanha extremamente competitiva.

Entendo que há cinco candidatos?

Sim. Claro que nós vemos que as sondagens, os trabalhos feitos em cima das sondagens, nos dão a indicação que há uma maior probabilidade de estarmos a falar de três candidatos com maior possibilidade de passar a essa segunda volta.

André Ventura, António José Seguro e João Cotrim Figueiredo.

Exatamente. Mas a cautela também nos avisa que, efetivamente, até porque a quantidade de trabalhos sobre sondagens e reflexão em cima destes dados, e também da tracking poll diária, faz com que pode ter um efeito de aceleração de voto útil dos eleitores e, portanto, faz com que, face aos dados, as pessoas se situem, se posicionem e vão mudando um pouco entre as suas possibilidades de votos que vão pensando ao longo do tempo, que torna, de facto, o resultado com um nível de imprevisibilidade muito maior do que os últimos atos eleitorais.

Por acaso, ia perguntar-lhe precisamente qual é o efeito das sondagens na campanha.

De facto, tem dois efeitos aparentemente contraditórios. Por um lado, mobilizador, porque mobiliza quem está a apoiar um candidato e se vê o seu candidato numa trajetória ascendente, claro. Tem também um efeito desmobilizador quando se começa a perceber entre algumas hipóteses que se pode ter de escolha, uma delas está numa trajetória descendente. E, portanto, pode também ajudar a desmobilizar em relação a um determinado candidato, porque há uma coisa que se sabe: as pessoas tendem a querer estar com quem tem hipótese de vencer. E portanto, para além de ajudar também e refletir ou traduzir estas dúvidas que nós vemos nesta eleição também, de facto, um conjunto muito elevado de pessoas, as sondagens vão dizendo mais ou menos 50% de eleitores que não têm a sua escolha consolidada. Ou seja, que ainda podem alterar o sentido de voto ou só decidir mesmo quando chegarem à cabine de voto.

E esse é um número muito elevado, a avaliar pelos estudos, haverá muitos eleitores que vão decidir amanhã ou depois, neste fim de semana.

Exatamente, por isso nós estamos a ver agora neste último dia, e não só hoje, mas também nos dias anteriores, duas grandes estratégias por parte dos candidatos. Por um lado, a mobilização e o apelo ao voto útil, com toda a dramatização e o medo, e também fazendo outra coisa, que é nesta estratégia de mobilização e de apelo ao voto útil, antecipando o raciocínio de segunda volta para a primeira volta, que é: se querem que determinado candidato esteja, então votem já na primeira volta em mim. Portanto, já se está a antecipar o raciocínio de segunda volta nesta primeira volta. O que isso significa? A tradicional ideia que na primeira volta vota-se em quem se gosta, na segunda volta vota-se por rejeição. Quem é o candidato que tem maior capacidade de derrotar aquele que eu gosto menos ou que não quero mesmo que ganhe, portanto, antecipando esse raciocínio já para a primeira volta. Por outro lado, também vemos a par desta estratégia de mobilização, de apelo ao voto útil, dramatizando, colocando um certo medo, receio, o que pode acontecer se o resultado for diferente daquele que esperamos. Também vemos um forte Em foco numa estratégia de desmobilização. Ou seja, digamos que ganhar eleições não depende apenas de mobilizar os eleitores. Também em eleições muito renhidas, como é o caso desta, evitar que os votos vão para os outros candidatos. Isso também é decisivo para ganhar as eleições, tentando diminuir o envolvimento, aumentando a dúvida nas pessoas e que isso as vá dissipando a ideia de votar num determinado candidato. Aqui tentando neutralizar os votos que se sabe que não vão para si, mas pelo menos que não vão para o outro candidato, que pode inibir a ida à segunda volta.

Rita Figueiras, podemos comparar esta eleição com a de 1986, em que também houve duas voltas?

Podemos comparar no sentido em que, de facto, em princípio, teremos duas voltas. Claro que é sempre interessante estabelecermos paralelos no tempo.

Ajuda-nos a ler melhor a realidade, não é? Quando fazemos essas comparações, às vezes.

Por um lado, ajuda a percebermos que não estamos sempre num tempo único, que é o nosso. Aquela ideia de que coisas excepcionais só acontecem na nossa vida. Não é verdade. Acontecem noutras fases das vidas também. Mas, por outro lado, também me parece que a excessiva comparação anula as especificidades desta campanha actualmente. E compreendermos esta eleição, como eu dizia inicialmente, como também fazendo parte deste tal ciclo de reconfiguração que nós vemos, e vemos uma cada vez maior presença de atores que têm um discurso antissistema, ou fazermos aqui uma divisão destes vários candidatos entre os que são mais institucionais e do status quo, e aqueles que são menos institucionais, mais disruptivos, mais antissistema, e vemos essa parcela de candidatos a ganhar mais força, o que também é qualquer coisa que diz muito sobre o tempo presente. E vemos também um crescendo do negativismo, e claro, também decorre da extrema competitividade e haver pouco espaço de manobra para cada um, porque há uma quantidade elevada de candidatos que de facto podem ter um êxito nas urnas no próximo domingo, e esse negativismo também que gera um elevado desgaste. Porque de facto aqui podemos pensar as campanhas eleitorais também como um momento muito crítico de vulnerabilidade reputacional dos candidatos. Tudo o que possa ser criticado pode contribuir para a tal neutralização e desmobilização do eleitorado que pode estar a cogitar a possibilidade de votar em alguém.

E tivemos esse exemplo, por exemplo, aqui protagonizado talvez por Gouveia e Melo e Marques Mendes. Gouveia e Melo lançou ataques duríssimos contra Marques Mendes, que aparentemente terão causado mossa, a avaliar pelos estudos de opinião. Esta luta entre os dois pode ser um exemplo do que está a dizer?

Sim, claramente, mas também poucas vezes os candidatos não fizeram ataques muito explícitos. Portanto, esta foi uma campanha, de facto, com uma intensidade de ataques, de agressividade, de negativismo muito elevada. Esse foi um exemplo muito claro, principalmente numa altura muito precoce, digamos assim, da fase que nos encontramos nos debates. Quando Gouveia e Melo passou um debate inteiro a atacar.

A insinuar.

É. Mas a questão aqui, que também é interessante ver quando há uma elevada competitividade, porque há muitos candidatos com relativas iguais possibilidades de passar a uma segunda volta, que faz com que neste momento preciso, quando os candidatos estão a tomar uma determinada iniciativa, quer seja atacar, quer que seja a projetar algumas insinuações em relação a determinados candidatos, faz com que as capacidades do percurso de uma campanha nunca dependam exclusivamente do candidato. Isso também me parece uma questão importante. Nós pensarmos Gouveia e Melo perdeu, Marques Mendes perdeu, outros ganharam por decisões estratégicas da campanha, mas também por consequência de outras estratégias, de outras campanhas que conseguiram acolher melhor junto do eleitorado. Portanto, percebermos aqui que há uma dimensão que, claro, tem a ver com a estratégia da campanha, o como conseguiram responder, como conseguiram se adaptar ao que foi acontecendo, mas também há uma parte que ultrapassa as próprias campanhas e que é muito difícil de gerir, nomeadamente as coisas que correm bem aos outros.

E as coisas que correm mal aos próprios, como esta polêmica que envolve Cotrim Figueiredo sobre uma alegada acusação de assédio. É possível, nesta altura, medir a interferência e o peso de uma alegação destas na eleição?

Aqui, claramente, independentemente do caso em específico, porque não nos cabe a nós agora tomar posição sobre a situação, mas eu diria que pode ser enquadrado exatamente no sentido que eu dizia. Se pensarmos numa fase intensa da campanha, que é esta, da campanha oficial, em que de facto a visibilidade dos candidatos é intensificada e que tudo pode ajudar a mobilizar, mas também a desmobilizar, aqui é um momento em que pode Ajudar a redefinir a imagem que o candidato estava a construir de si, porque de repente há um novo dado que pode ser ponderado e pode alterar a percepção que se tem acerca do candidato e portanto a capacidade do candidato manter a imagem que estava a construir de si pode ficar comprometida. Por outro lado, obviamente também faz com que desloque o enquadramento da campanha, tem obrigatoriamente que estar a responder, e ontem o candidato falou intensamente sobre isso, o estar a deslocar a sua campanha sempre para esse tema. Portanto está a perder o controle da sua própria agenda enquanto candidato e claro, pode ter alguma influência em termos de mobilização dos apoiantes. Por um lado, pode ainda reforçar mais quem está com o candidato, se entender que claramente isto foi uma intervenção na campanha para cortar um momento a trajetória ascendente do candidato, ou aqueles que estavam mais indecisos e que interpretam a situação como suficientemente relevante para ter em conta, pode produzir o tal efeito de neutralização de desmobilizar para o voto.

António José Seguro tem feito uma dramatização em relação ao voto nesta reta final. Estas são estratégias que contam do ponto de vista comunicacional e que ficam na cabeça dos eleitores até domingo?

Sim, claro. E vemos todos os candidatos a fazerem exatamente o mesmo, porque principalmente os candidatos que vão aparecendo mais à frente nas sondagens, podem às vezes dar a percepção aos eleitores que já está ganho, para dizer de uma forma muito simples. E portanto é preciso mobilizar, porque como sabemos, uma sondagem é uma intenção. A ida à urna é um comportamento. E é esse comportamento que se pretende. Portanto, o voto útil e a dramatização têm como função apelar mesmo a que os eleitores vão votar, porque há aqui uma questão muito importante, como nós sabemos, que é a taxa de abstenção produzirá consequências em termos de quantos votos são necessários para passar à segunda volta. E portanto, daí a necessidade de facto de dramatizar, carregar os fantasmas, os medos, para que efetivamente se consiga mobilizar as pessoas para irem votar.

Rita Figueiras, muito obrigado por ter estado aqui neste Explicador da Rádio Observador. Rita Figueiras, investigadora na área da comunicação política.