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E no Explicador de hoje temos Nuno Crato, antigo Ministro da Educação, professor universitário, presidente do Conselho Directivo da Iniciativa Educação. Vamos falar da perspectiva do encerramento das escolas que o Governo está agora a decidir, numa entrevista conduzida pelas Carla Jorge de Carvalho, Judite França e Paulo Ferreira.
Bom dia, Nuno Crato. Bem-vindo.
Bom dia. Obrigado.
O prazer é nosso. Com o que sabemos neste momento, fechar as escolas é de facto inevitável?
Isso é uma decisão que tem que ser tomada pelo Governo. O Governo é que está na base dos dados todos, ou deveria estar na base dos dados todos, mas parece-me que pelo menos fechar o ensino superior e o secundário e talvez o terceiro ciclo, é inevitável. Eu posso dar informações sobre aquilo que se sabe em termos genéricos. E aquilo que se sabe em termos genéricos é que é muito importante ter as escolas abertas, por um lado. Também se sabe, em termos genéricos, que o facto de as escolas estarem abertas não beneficia o sistema de contenção da pandemia que todos estamos a tentar pôr em prática. Portanto, há aqui um equilíbrio que tem que ser resolvido, porque, como é evidente, pôr as crianças em casa traz problemas muito grandes às famílias. É preciso ponderar isso. Assunto que não se passa da mesma maneira no básico, por um lado, e no secundário e ensino superior, por outro.
Sim.
Eu diria mesmo que no ensino superior, o atual sistema, que é um sistema misto, não será um sistema que esteja a funcionar muito bem. Repare, quando se fala em sistema misto, em sistema de ensino à distância, por um lado, ou sistema de ensino digital, e por outro lado, o ensino presencial, fala-se em algo programado, que é dividido nesse sentido. Ou seja, as experiências que existem anteriores à pandemia de um sistema de ensino misto, são experiências em que potenciam aquilo que pode melhor ser feito por cada um dos sistemas. Por exemplo, suponhamos que eu estou a dar uma aula de inglês ou de pronúncia inglesa, e eu quero explicar as diferenças de pronúncia da Austrália, etc. É muito melhor passar um vídeo com um australiano a falar, passar um vídeo com um inglês, com americano, canadiano, etc, do que estar o professor a fingir que consegue interpretar claramente essas diferenças de pronúncia. Ou seja, há coisas que são melhores com meios digitais. Mas, como é evidente, se eu estou a aprender uma língua, eu preciso de uma interação social. Está provado que a interação social é mais importante do que a interação à distância e, portanto, há certos aspetos desse ensino em que o estar presente é importante. Mas o que se está a passar nas universidades neste momento não é isso, porque o sistema não estava preparado, nós não estávamos preparados para o fazer. Ou seja, o que se está a passar nas universidades é que uma semana ficam os alunos em casa, outra semana ficam outros. Estou a falar na generalidade das universidades que eu conheço. Eu aqui estou a falar de experiência pessoal e experiência indireta. O que se passa é que os professores estão, por um lado, a dar aulas para os alunos que estão na turma, por outro lado, a dar aulas para os alunos que estão em casa. Cada vez mais alunos querem ficar em casa porque não querem deslocar-se ou porque têm receio, e acaba por não se beneficiar nem o sistema online, nem o sistema misto. Eu estou convencido, neste momento, mas não há estudos ainda, infelizmente, que suportem esta opinião. Estou a falar da minha experiência e da experiência dos colegas com quem eu falo, que não há uma grande desvantagem relativamente a este sistema atual misto, em fazer o ensino totalmente online. E como é evidente, há grandes vantagens do ponto de vista sanitário.
Então o que o Nuno Crato está a dizer é que há um ano as escolas tiveram todas de se adaptar com urgência e a qualidade, eventualmente, não teria sido o primeiro dos critérios. Um ano depois, não se evoluiu nessa matéria, não se melhorou na qualidade de ensino e dos recursos?
Evoluiu-se muito, mas isto que eu estou a falar, que é preparar um ensino que seja de facto um ensino híbrido, precisa de muitas coisas diferentes, precisa de muitos recursos organizados que estejam disponíveis online, que sejam adaptados às plataformas online. E isso não se faz de um dia para o outro, nem se faz de um mês para o outro. Isso é uma coisa que demora anos a construir, que alguns países começaram a construir já há alguns anos. Portanto, o que eu estou a dizer é que nós fizemos o melhor que pudemos, mas poderíamos ter feito mais se fosse daqui a cinco anos. Ou seja, o sistema de ensino está a evoluir de tal maneira que os recursos digitais vão ser cada vez mais utilizados, mas como complemento aos recursos presenciais. Não é isso, neste momento, que estamos a fazer, não tivemos tempo de o fazer. Foi algo que não tivemos tempo de fazer.
Falou-se já há 15 dias, depois da reunião de Infarmed, então isso foi muito claro com a maioria dos especialistas. Fazia diferença ter fechado só a partir dos 12 anos? Teria isso evitado, pelo menos momentaneamente, agora, fechar tudo?
Eu não sei se é a partir dos 12, se é a partir dos 15.
Mas do ponto de vista do ensino.
Se isso tivesse acontecido mais cedo, nós certamente teríamos uma situação sanitária que seria um pouco melhor. Agora, quanto melhor, eu não faço ideia. Não sou especialista nessa matéria, não tenho dados sobre isso. Aí terão que ser virologistas a funcionar.
Mas do ponto de vista do ensino, é mais fácil crianças de 12 anos estarem à distância do que crianças mais novas?
Sim, disso não há dúvida. É mais fácil e também tem maior independência. Esta faixa dos 12 aos 15, deixe-me, se não se importa, por um momento afastarmos um pouco dela, porque é uma faixa intermédia. Eu diria, dos 16 pra frente ou dos 15 pra frente, as crianças ou jovens têm muito maior autonomia, podem estar em casa, conseguem adaptar-se a um ensino à distância com relativa facilidade. Não trazem os problemas que trazem as crianças até aos 12 ou até aos 15. Até aos 12, certamente. Não trazem esses problemas que aos pais que precisam de trabalhar, a economia toda que precisa de andar. Portanto, eu não sei, de facto, qual é a solução deste problema. Eu não gosto muito de especular, não sei qual é a solução. Sei que há uma série de estudos. Por exemplo, saiu aqui há duas semanas um estudo feito nos Estados Unidos com o regresso às aulas universitário, que mostrou que as duas primeiras semanas de regresso às aulas nas universidades dos Estados Unidos, estamos a falar, portanto, de outro país, as conclusões tiram-se da maneira que podem ser tiradas. Que o regresso às aulas trouxe, em seguida, um surto de infecções nos estudantes universitários e uma semana depois, ou cerca disso, um aumento nas comunidades circundantes. Ou seja, aquelas duas semanas foram muito más do ponto de vista epidemiológico. Foram duas semanas muito más. Agora, que conclusão é que se tira daí? Pode-se tirar a conclusão de que é preciso atenção especial nas duas semanas de início. E pode-se tirar a conclusão que o melhor é não reabrir as universidades. Talvez fosse melhor não as ter reaberto. De facto, este é um problema muito polêmico. Eu não tenho os dados todos sobre a situação e não gostaria de me pronunciar definitivamente sobre isso.
Mas o que parece é que, de facto, vamos ter as escolas fechadas a partir de amanhã. São as informações que correm, estamos à espera da confirmação do Conselho de Ministros. E as escolas estão hoje mais bem preparadas para isso do que estavam há oito meses? Ou melhor, estar, estarão, mas fez-se nestes, não são oito, são 10 meses, aquilo que devia ter sido feito para as preparar, nomeadamente tecnologicamente, e para dotar também as famílias que não dispõem dos equipamentos necessários?
As escolas dizem que não e as famílias dizem que não. Poder-se-ia ter feito mais. Certamente, se poderia ter feito mais.
E esse mais passa por quê? Pela tal distribuição dos computadores às famílias mais carenciadas e por um acesso mais fácil? É só a questão de hardware que faz falta, Nuno Crato?
Não, não é só a questão de hardware. Há uma questão essencial neste ensino misto ou no ensino à distância. Aliás, há duas questões. A primeira questão é uma questão social, que é que o ensino à distância não é igual pra todos. Nós temos um estudo no site da Iniciativa Educação, que mostra que há porcentagens muito grandes da população, primeiro da população mundial, depois da população portuguesa, há porcentagens muito grandes, que não têm acesso à internet e que sofrem muito com esta falta de acesso. Estamos a falar uma porcentagem muito significativa, cerca de 23% dos jovens. E nós também temos a experiência, quando as escolas fecharam da primeira vez, que houve estudantes, houve jovens que praticamente desapareceram, porque tornaram-se incontatáveis. As famílias com menos recursos não têm a capacidade que outros têm. Nós tentamos ajudar algumas famílias com as quais trabalhamos, jovens com os quais trabalhamos, jovens em termos de leitura no programa A a Z, em termos de violência profissional, facultando-lhes tablets, mas havia famílias que respondiam: "Sim, eu tenho televisão por cabo, mas o que é isso de internet?" Ou seja, de facto, o país é muito desigual e quem vai sofrer mais, como sempre, são aqueles que têm menos recursos. E isso não há dúvida. Essa é a primeira parte do problema. Desculpa, eu estou a demorar muito tempo. Essa é a primeira parte do problema. A segunda parte do problema é que, seja ensino à distância, seja ensino presencial, é muito importante a ambição curricular. Ou seja, o que queremos que os jovens saibam? E que se perceba claramente quais são as metas, quais são os objetivos, e que se tenha um sistema de ensino muito eficaz, muito virado pra os resultados, resultados dos jovens. E desse ponto de vista, poder-se-ia ter feito um pouco mais, com certeza.
Há dias, o Secretário de Estado da Educação, João Costa, dizia que a escola era também um espaço de proteção social, que há crianças que não comem senão na escola, infelizmente. Que estão ali também protegidas de ambientes familiares violentos. Pomos em cima da escola todas as necessidades e deixamos para trás outras instituições do Estado que poderiam proteger as crianças?
Eu percebo o problema que a escola tem, que a escola muitas vezes é quase uma família pra muitos jovens, e muito bem, e é um meio social onde os jovens se reveem e, portanto, é muito importante que a escola tenha esse papel. Mas a escola só consegue ter esse papel se tiver um papel educativo. Ou seja, a escola não é uma atividade de tempos livres, não é uma maneira de entreter os jovens. A escola é uma maneira de preparar os jovens pro futuro. E a preparação dos jovens está a sofrer com esta pandemia. Então nós devemos concentrar nessa preparação. Deixe-me citar-lhe um outro estudo que nós temos no site da Iniciativa Educação, que foi feito por dois economistas muito conhecidos, que foram contratados pela OCDE pra fazer uma primeira avaliação do impacto que esta epidemia está a ter do ponto de vista da educação e dos resultados econômicos futuros. E eles fizeram esse estudo pra Anochec. Perdão. Eles fizeram esse estudo para a OCDE E nós pedimos que fizessem uma versão para Portugal. O que se passa? E de facto publicámos essa versão. É um pouco assustador, porque um semestre de perda de ano letivo equivale, do ponto de vista deles, a 3% de rendimento futuro desta geração que desaparece. Um ano equivalerá a cerca de 7,5% da queda do PIB. Ou seja, isto tem impactos muito grandes, porque a educação dos jovens, a formação real dos jovens, não estou a falar de formação geral, estou a falar da qualificação real dos jovens, é aquilo que permite enfrentar os problemas económicos. E desse ponto de vista, eles recomendam no final, parece-me que é uma recomendação muito acertada, que a única maneira de combater estes défices de formação é concentrarmo-nos na qualidade da educação. A qualidade da educação deverá subir ao máximo, como forma de contrariar estas perdas que estão a ser feitas, que estão a acontecer.
No fundo, substituir o tempo, a quantidade pela qualidade, talvez. Esses números que citou são relativamente assustadores, Nuno Crato. Perante a decisão que nós temos agora, que de alguma forma pode ser inevitável em termos sanitários, acha que se devia ajustar o calendário escolar, precisamente compensando com menos férias de Páscoa, eventualmente com um fim mais tardio do ano letivo lá para o verão, precisamente para compensar as semanas que agora eventualmente vão ser perdidas com o ensino presencial?
É uma hipótese. Já se discutiu isso o ano passado, certamente é uma hipótese, mas eu não queria pronunciar-me sobre isso. Isso precisava de ser muito bem estudado. Não sabemos quanto tempo isto vai demorar, mas é muito provável que dure bastante tempo. Isto está sempre a ser pior do que nós pensávamos ou sempre a ser pior do que aquilo que é noticiado.
Nuno Crato, estamos a chegar ao fim do tempo, mas não posso deixar de lhe perguntar e já disse que a decisão é difícil. Ela estará a ser tomada nesta altura em Conselho de Ministros. O senhor foi ministro da Educação, tem experiência do que são estas discussões e que critérios é que passam sobre a mesa. O que é que poderá estar aqui a ser ponderado e de que forma é que o peso político do ministro da Educação pode pesar numa decisão com esta dimensão e com este impacto?
Bem, isso depende do peso político do ministro em causa. Agora, o que é que está a ser ponderado? O que está a ser ponderado, espero eu, que sejam exatamente estes dois pontos, que é as grandes desvantagens para a educação dos jovens e para a economia imediata, através da retenção dos pais em casa, etc. Tudo isso, portanto, as grandes desvantagens por um lado. Por outro lado, a gravidade atual da pandemia e o facto de que os jovens, pela sua circulação, pelos transportes públicos, continuam sobrelotados. A circulação dos jovens pode ser um fator de propagação da pandemia, por muito que as escolas tomem os seus cuidados e têm tomado.
Nuno Crato, agradeço-lhe ter estado no Explicador e por ajudar os nossos ouvintes a antever o impacto do encerramento das escolas. Boa quinta-feira para si.
Muito bom dia.
Rádio Observador, Grande Porto 98.4 e 88.1.
Encerramento das escolas, que é uma das notícias do dia. A qualquer momento, ao longo do dia, essa decisão irá ser anunciada ao país e que vai poder acompanhar aqui em direto na Rádio Observador, na Grande Lisboa, no Grande Porto e, meus caros, também na região de Aveiro. Na Grande Aveiro, pode dizê-lo. Na Grande Aveiro, em 88.1, a região para a qual estamos a transmitir desde ontem, desde as 15h. Bom, vamos colocar um ponto final nas manhãs 360 de hoje. Estamos de regresso amanhã, 17h57. Depois o Tiago junta-se 18h57, não é, Tiago? É para 20h59. Não me vou comprometer com os três. Rigor acima de tudo. Até amanhã! Até amanhã!
Até amanhã!
Stevie Wonder com Superstition a fechar as manhãs 360 de hoje.
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