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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Hoje temos conosco o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, bem-vindo, como estás?

Olá, obrigado, tudo bem.

Vamos começar por falar nos 75 anos da NATO. A Aliança Atlântica faz hoje 75 anos. O dia tem sido aproveitado para sinalizar a importância da aliança, mas também as relações entre a organização e a Rússia. O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros russo disse que as relações entre o país e a NATO estão em níveis críticos, mas que Moscovo não quer entrar num conflito com os países da organização. São umas bodas de diamante, Bruno, que acabam por ficar aqui, de certa forma, ensombradas.

Seria sempre melhor não haver um conflito ativo nesta escala na Europa. Que fosse, no fundo, uma espécie de teste à capacidade de resposta da NATO. Agora, eu acho que isto só valoriza, só demonstra a importância vital da NATO, a enorme vantagem que é pra um país como Portugal, uma potência relativamente fraca, poder beneficiar de fazer parte, aliás, desde o início, Portugal foi um membro fundador, desde abril de 1949, que é realmente um membro de uma aliança que é a mais duradoura da história. Nunca tivemos uma aliança deste tipo que tivesse durado tanto tempo. Geralmente alianças muito amplas com muitos países são coisas bastante pouco duráveis, são para resolver um problema concreto, uma ameaça concreta, lidar com um inimigo concreto. E realmente a NATO é muito mais do que isso, transformou-se realmente numa organização político-militar, desde logo, portanto também tem uma dimensão política, diplomática. Aliás, hoje reuniram-se os ministros dos Negócios Estrangeiros dos países da NATO, que é uma reunião bastante regular, frequente, para coordenar a ação externa dos diferentes Estados. E nessa reunião, aliás, o nosso novo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, disse exatamente isso, que realmente este contexto mostra como é vital a existência da NATO para lidar com qualquer tipo de ameaça. No fundo, o que é aqui irônico é que a ameaça volta um pouco a ser a mesma, ou seja, o expansionismo russo-soviético, da Rússia comunista em 1949, da Rússia putinista atualmente. Portanto, o objetivo principal volta a ser o mesmo, mas o princípio fundamental mantém-se, que é uma aliança defensiva que através da sua coesão, da força do somatório de todos estes Estados membros e, em particular, é preciso sublinhar isso, dos Estados Unidos, que continuam a ser a principal potência militar a nível global, têm a capacidade de dissuadir, ou seja, evitar sequer que os países da NATO sejam atacados. E realmente, não houve nenhum ataque por outro Estado contra um país da NATO em todo este período. Houve o ataque do 11 de setembro contra os Estados Unidos e houve outros ataques terroristas contra outros membros da NATO, mas realmente por parte de um Estado isso nunca aconteceu. E é significativo, diria eu, é muito significativo que a própria Rússia de Putin não tenha optado, por exemplo, por atacar os países bálticos, que à partida, se estivessem sozinhos, seriam um alvo muito mais fácil, muito mais fraco, pela sua dimensão territorial, pela sua geografia, do que a Ucrânia. Não optou por atacar esses, mas a Ucrânia, a grande diferença é que os países bálticos são membros da NATO e inclusive têm de forma rotativa lá tropas de outros países da NATO, inclusive Portugal, o que significa que um ataque a esses países seria sempre um ataque também, nomeadamente a tropas do conjunto dos outros Estados membros da NATO.

E Bruno, vamos olhar aqui também pra outro tema em destaque, que são as declarações de Emmanuel Macron. O presidente francês diz que não tem dúvidas de que a Rússia vai ter os Jogos Olímpicos de Paris como alvo. São aqui declarações que podem deixar alguma consequência. Pergunto que efeito é que pode ter também Macron dizer isto publicamente, porque podia pensar, mas não verbalizar, diz publicamente isto Macron, e também pergunto com que objetivo é que o faz, com que objetivo é que diz isto publicamente?

Eu acho que é uma questão muito pertinente. Do meu ponto de vista é, por um lado, sinalizar à Rússia que nós sabemos o que é que vocês tencionam fazer ou o que é que estão a tentar fazer. Portanto, não pensem que isso vai escapar, e que nós não estamos cientes disso. Por outro lado, acho que é uma forma também de procurar um pouco dissuadir isso. Ou seja, mais uma vez dizer à Rússia: "Se isso acontecer, não só nós estamos preparados para lidar com isso, como vamos denunciar isso publicamente". Portanto, vamos deixar claro que isso está a acontecer e de onde é que vem. Portanto, eu acho que no fundamental são esses dois objetivos, e convergentes. No fundo, procurar dissuadir a Rússia, pelo menos de atos mais disruptivos, mais destrutivos, sinalizar que a França está preparada, vamos dizer assim, está atenta e que sabe que essa possibilidade existe. E de alguma forma também, uma mensagem de alguma segurança em relação ao público em geral, aos franceses e às pessoas que tenham interesse em ir aos Jogos Olímpicos, esta ideia de que a França está preparada, está atenta e que estará capaz de responder. Apesar de tudo, eu acho que importa sublinhar que aquilo que Macron disse que via como ameaça mais provável era operações de tipo de informação ou desinformação, se quisermos. E não propriamente ataques militares ou ataques mesmo terroristas ou algo desse tipo. Portanto, mais este género de operações híbridas, ataques híbridos, ciberataques, desinformação. Isso realmente é algo que a Rússia tem estado a fazer com alguma frequência contra múltiplos países ocidentais e portanto é normal que os Jogos Olímpicos sejam aqui um alvo particularmente apetecível, ainda por cima quando sabemos que a Rússia está num confronto com as autoridades olímpicas, sobre exatamente com que estatuto é que os atletas russos podem competir ou não.

O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai pro ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9:30 da manhã. Tem nova edição depois do noticiário das 16:00 e sabe, está sempre disponível em podcast. Eu sou o André Maia, até uma próxima.