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Abrimos a porta a mais um Gabinete de Guerra, programa em que fazemos a análise duas guerras em curso, uma na Ucrânia, outra no Médio Oriente. Junta-se a nós a partir de Washington, o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno Cardoso Reis, muito boa tarde. Queria começar a olhar contigo para a guerra na Ucrânia. Vladimir Putin quebrou hoje algum silêncio, diz que concorda com Donald Trump e que a crise na Ucrânia nunca teria acontecido novamente se o presidente dos Estados Unidos não tivesse sido privado da vitória nas eleições de 2020, que foram, na verdade, ganhas por Joe Biden. É uma aproximação que nós vemos entre Donald Trump e Vladimir Putin, que agora também já repete a retórica de Trump pra justificar que em 2020, na verdade, o vencedor das eleições foi ele.
Sim, boa tarde a todos. Sim, acho que é exatamente a interpretação acertada, ou seja, nós não temos nenhuma base factual pra dizer isso. O mesmo sistema eleitoral, os mesmos mecanismos de apuramento que em 2020 determinaram uma derrota de Donald Trump, aliás, por uma margem bastante superior àquela que agora o levou à vitória, derrotado por Joe Biden, foram os mesmos que lhe deram agora a vitória, exatamente em alguns dos mesmos estados, por exemplo, a Pensilvânia é um caso evidente disso. Sabemos que houve mais de 40 processos em tribunal, em muitos casos decididos por juízes nomeados por Donald Trump, em que a equipa dele não conseguiu apresentar nenhuma prova de que isso tenha acontecido. Portanto, a única explicação para o presidente da Rússia, que à partida será uma pessoa bem informada, dizer algo que ele sabe que é manifestamente falso, mas que se tornou uma espécie de mandamento central deste culto político em torno de Donald Trump, de que ele não terá perdido as eleições de 2020, é realmente esta ideia de que ele está a tentar mostrar que é um grande amigo de Donald Trump, mostrar que é um grande aliado a Donald Trump, que vai mais longe no apoio a Donald Trump do que vão, por exemplo, os seus aliados tradicionais ocidentais, que nunca aceitaram essa narrativa, e com isso tentar manipular o ego de Donald Trump e conseguir algum apoio dele para esta pressão crescente para um processo negocial, que ainda não se vê em termos concretos o que é que vai significar, mas em que claramente a Rússia tem interesse em que o mais possível os Estados Unidos estejam alinhados com posições russas ou pelo menos não deem grande apoio às posições ucranianas e às preocupações dos seus aliados europeus.
Nestas declarações que são citadas pela agência estatal Ria Novosti, Vladimir Putin diz ainda que a Rússia está sempre pronta pra negociações sobre a questão ucraniana, mas há questões que requerem atenção. Estou aqui a citar as declarações que são atribuídas ao presidente da Rússia. Que questões podem ser estas que ainda deixam Vladimir Putin reticente pra negociar um verdadeiro acordo de paz?
São as mesmas que fazem com que não seja credível esta ideia de que se não houvesse outro presidente nos Estados Unidos, não teria havido invasão, a não ser que esse presidente tivesse cedido a todas as exigências russas que foram apresentadas, por exemplo, nas vésperas da invasão. Basicamente, eram desfazer a NATO, acabar com qualquer garantia de segurança pros países do leste da Europa, enfim, se calhar Donald Trump não achará isso assim tão má ideia. Era aceitar o fim da independência da Ucrânia e de caminho acabar com a ordem internacional legal que tem sido a base das relações internacionais e da segurança internacional desde a Segunda Guerra Mundial, em que continua a haver muitos problemas, muitos conflitos, muitas queixas, abusos e erros, nomeadamente nas ações das grandes potências, mas pelo menos havia este princípio que tinham acabado as guerras de conquista. As grandes potências, os países mais poderosos não invadiam simplesmente outros porque queriam o território desses países e depois a seguir ficavam com esse território. Isso aconteceu muitas vezes ao longo da história, mas desde 1945, na lei e até na prática internacional, de facto não era suposto acontecer. Houve outras intervenções externas militares por grandes potências, mas pelo menos isso eles não fizeram. Os Estados Unidos invadiram o Iraque, mas nunca anexaram o Iraque. A União Soviética invadiu o Afeganistão, mas nunca anexou o Afeganistão. E, portanto, a Rússia também tem sempre muito essa postura, quer dizer, "nós estamos dispostos a negociar sem condições" e a seguir dizem que estão as condições em que a gente aceita negociar, geralmente em torno destas questões, inclusive a própria, neste momento, por exemplo, Putin diz: "Eu não reconheço o atual governo de Kiev", também já não o reconhecia antes, inclusive acusava de ser nazismo, mas agora o argumento é que não foram organizadas eleições no tempo devido, porque a lei ucraniana não o permite, a Constituição não o permite numa situação de guerra. Enfim, ele esquece desse pequeno detalhe, que as eleições não tiveram lugar precisamente por causa da invasão russa, mas usa isso, por exemplo, pra dizer que o atual governo ucraniano não é legítimo. Portanto, logo aí temos uma condição política bastante difícil de satisfazer, nomeadamente pelo atual governo ucraniano.
Bruno, deixa-me perguntar-te também, ao olhar um bocadinho mais pra Europa, mas ainda aqui pra guerra na Ucrânia. Viktor Orbán calcula que a Hungria já tenha perdido 19 bilhões de euros devido às sanções da União Europeia contra a Rússia. Viktor Orbán que tem sido um dos principais dissidentes, uma das principais vozes críticas destas sanções comunitárias. O que eu pergunto é se conseguimos ver o fim da linha a estas sanções, até pela pressão de Donald Trump agora na Casa Branca
Havia certamente essa expectativa, nomeadamente da parte do Órban, que há muito tempo tem procurado se aproximar o mais possível de Trump e aparecer quase como uma espécie de vice-rei trumpista na Europa, do seu representante entre a política europeia. Parece-me que isso sempre foi uma ambição um pouco exagerada. Donald Trump gosta muito de ter líderes que o elogiam, que mostram que têm nele um ponto de referência, mas continua a reger-se sobretudo muito por relações de poder. A Hungria, e Trump sabe disso, não é propriamente, mesmo no contexto europeu, a potência dominante, o país mais importante. Houve esta expectativa apesar de tudo. Na verdade, as últimas declarações de Trump iam no sentido contrário e portanto se calhar até explicam estas declarações de Putin muito elogiosas, no fundo para tentar recuperar terreno. As últimas declarações de Trump iam no sentido de dizer que a Rússia tem de rapidamente resolver isto ou nós até podemos reforçar mais as sanções. Portanto, o sentido exatamente oposto àquele que provavelmente Órban esperaria e esperaria no fundo usar isso também para fazer pressão no contexto europeu. A verdade é que isto é uma situação muito dinâmica. Temos governos europeus nos países mais importantes, a Alemanha e a França, por exemplo, muito frágeis. Há aqui um papel tradicionalmente muito importante dos Estados Unidos na segurança europeia e um papel que foi absolutamente crucial neste conflito na Ucrânia. Se houver uma mudança de postura da parte dos Estados Unidos, não quer dizer que isso não possa levar a que mais líderes europeus possam voltar a pôr a questão das sanções, sobretudo se começarmos a assistir a viragens políticas importantes em países como por exemplo a Alemanha, onde vai haver agora eleições em fevereiro. A expectativa não é que os partidos mais hostis à Ucrânia e mais pró-russos, nomeadamente a Alternative für Deutschland, consigam vencer as eleições, mas há a expectativa de que consigam um bom resultado e portanto se isso significar que conseguem condicionar a agenda de um próximo governo alemão, por exemplo, isso pode ter um impacto muito significativo a par deste contexto internacional muito mais adverso para a Ucrânia por causa da eleição de Donald Trump.
A olhar para a guerra no Médio Oriente, Bruno, o cessar-fogo continua em vigor, o Hamas vai divulgar ainda hoje os nomes das quatro reféns, todas mulheres, que quer libertar já no sábado, as quatro reféns israelitas. Entretanto, as Forças Armadas de Israel dizem hoje também que não vão sair do território do Líbano até ao final do prazo previsto, que seria no próximo domingo, porque a situação ainda não está controlada. Foi o que disse o gabinete do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu. Só num minuto, quão confiantes devemos estar nós neste acordo de cessar-fogo?
Acho que temos que continuar a ter grande prudência, ou seja, foi um acordo muito difícil de alcançar, isso em si já é revelador da enorme desconfiança entre as partes. Sabemos que os próprios mediadores estão preocupados com a implementação e com o risco de o acordo acabar por entrar em colapso, portanto criaram um hub, um centro de apoio no Egito precisamente para acompanhar a implementação e tentar evitar em tempo real que alguma crise, algum incidente, leve a um descontrolo da situação e a situação no Líbano mostra exatamente isso. Ou seja, é um cessar-fogo muito frágil, houve muitos incidentes. Apesar de tudo, isso não levou formalmente ao fim do cessar-fogo, mas por exemplo já temos aqui um dado importante que é Israel não vai cumprir um dos elementos fundamentais desse acordo, com o argumento de que não tem garantias de que o Hezbollah realmente retirou, cumprindo até aliás acordos anteriores nesta zona do sul do Líbano mais próxima de Israel. Isto mostra realmente como é difícil conseguir acordos de paz duráveis na situação de conflito. Isso também se aplica à Ucrânia e em particular no Médio Oriente, em que há desconfianças acumuladas durante muitas décadas.
Bruno Cardoso Reis, muito obrigado. Esteve neste Gabinete de Guerra, um programa da Rádio Observador a olhar para os dois conflitos em curso. Bruno, muito obrigado.
Obrigado.
O Gabinete de Guerra regressa já amanhã.