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Gabinete de Guerra, edição da manhã de domingo, tem como convidado o tenente-general Marco Serronha, a quem agradeço a disponibilidade para estar conosco. Poucas horas depois do anúncio de que Omã e o Irão estarão muito próximos da assinatura de um acordo sobre a navegabilidade no Estreito de Ormuz. Há a indicação de que houve progressos significativos e que um acordo final pode ser anunciado nas próximas horas. Senhor tenente-general, muito boa tarde, bem-vindo. São boas notícias? Um eventual acordo entre Omã e o Irão aproxima-nos do final do conflito no Oriente Médio ou esse é um passo demasiado grande para aquilo que agora está a acontecer?

Bom dia, obrigado pelo convite. Vejamos, é um passo importante, mas não será só o necessário e o suficiente, porque tivemos informação, aliás, foi público, a agência de notícias iraniana publicou, que para a implementação deste acordo entre o Omã e o Irão, que é um acordo eminentemente técnico sob o ponto de vista dos canais de navegação e do controle das entradas e das saídas e dos mecanismos também de contactar com os navios no sentido de saber os fretes e eventualmente aplicar alguma fee a posteriori. Pressupõe-se que durante os primeiros 60 dias isso não acontecerá. A agência iraniana ontem, de ontem para hoje, publicou uma lista de quesitos, por assim dizer, para os Estados Unidos cumprirem antes da abertura do Estreito do Canal.

Não são aceitáveis essas exigências por parte das autoridades norte-americanas?

Vejamos, não sei, podemos discutir isso.

Estão a lamentar isso, não é?

Os Estados Unidos aceitem o primeiro pedido, que é a saída do dispositivo militar americano da região do Golfo Pérsico. Portanto, além de parar com a guerra, por assim dizer, exige a paragem do bloqueio naval e a saída do dispositivo militar do Oriente Médio. O que me parece difícil nesta fase que os Estados Unidos possam aceitar, naturalmente.

Há a informação associada a Dan Kane, o comandante das Forças Armadas dos Estados Unidos, há a indicação de que pretende evitar uma escalada da guerra com o Irão, que tem tentado persuadir a administração norte-americana a encontrar uma solução negociada para este conflito. Esta pressão não será suficiente para que, de facto, se deem passos significativos no caminho da paz e de um acordo?

O que Dan Kane pediu foi, de algum modo, uma clarificação de uma estratégia de saída. Ou seja, para as Forças Armadas americanas, que têm um conjunto de opções em cima da mesa pra continuação da guerra, de acordo com os objetivos políticos, o que Dan Kane de algum modo tentado fazer passar, em especial aos assessores do presidente, antes de ter uma conversa com o presidente, que vai ter a curto prazo, ao que tudo indica, de serem gizadas as condições políticas para criar opções militares de saída da guerra, por assim dizer. É evidente que o acabar da guerra está ligado à necessidade dos Estados Unidos atingirem os seus objetivos políticos e estratégicos, naturalmente, que não tenham sido muito claros. Foram mais claros inicialmente no início da guerra, com a questão de evitar que o Irão tivesse uma arma nuclear e reduzir a sua capacidade dos mísseis balísticos, mas percebemos que essas condições de natureza política e estratégica foram diminuindo e neste momento centram-se praticamente exclusivamente na questão da abertura do Estreito de Ormuz e de criar condições para o início de uma discussão sobre a capacidade nuclear do Irão. Coisa que o Irão, como sabemos, já desde o primeiro mandato de Biden, tentou, passe a expressão, chutar para a frente, para uma fase subsequente e, neste caso, o que indica é que pode estar disponível a discutir isso num modelo fora do quadro da guerra. Isso pode constituir um desastre estratégico para os Estados Unidos, porque ao cabo e ao resto, vai colocar Donald Trump numa posição pior do que Barack Obama há 10 anos. Sabemos que isso, em termos internos dos Estados Unidos, embora Donald Trump seja muito habilidoso a vender o sucesso das suas ações, será facilmente desmontada pela opinião pública americana, em especial, e mesmo há muitos senadores. Agora, toda a gente está, de algum modo, de acordo que os Estados Unidos não sairão desta guerra com tudo aquilo que queriam. Mas há limite mínimo, julgo eu, que terá que ser atingido.

Qual será a opção menos má, senhor tenente-general?

Vamos ver, eu julgo que os Estados Unidos não conseguirão assinar nenhum documento relativamente a um cessar-fogo e uma possível paz no futuro, a seguir, que não contemple minimamente as suas condições pras duas situações que eu falei, nomeadamente a abertura do Estreito de Ormuz, de forma de passagem livre, que é o que está a ser negociado durante 60 dias e a partir daí serem aplicadas algumas fees à semelhança do que se passa no Estreito de Malaca. Embora depois o retorno do dinheiro das fees não se saiba ainda bem para onde é que vai. Se vai exclusivamente para o Irão e para o Omã ou se é redistribuído por todos os países do Golfo, porque no caso do Estreito de Malaca é redistribuído por um conjunto de países que de algum modo garantem ali a facilidade e a segurança no acesso ao estreito. Temos aqui também nesta questão do estreito e do Golfo os outros países, principalmente uma coligação liderada pela Arábia Saudita, relativamente a manter a segurança da traficabilidade do Estreito de Ormuz e dentro do Golfo Persa. Portanto, há aqui um conjunto de situações que são importantes e que os Estados Unidos querem ver integradas para de algum modo terem alguma garantia que os seus objetivos não saem completamente grátis. A outra questão é a questão nuclear, naturalmente. Não tenho dúvidas que, embora quando há notamment tudo é possível, que os Estados Unidos possam assinar algum documento que tenha a ver com o processo de cessar-fogo ou de paz, que não falte pelo menos a necessidade do início de um conjunto de negociações relativamente à questão nuclear. Até porque depois os Estados Unidos, de algum modo, e isso interessa também muito ao Irão e é uma da lista de exigências que o Irão também apresentou, que era o pagamento dos danos provocados pela guerra nos Estados Unidos e o retorno imediato dos ativos financeiros que estão congelados em diversos países. E nós sabemos que os Estados Unidos têm um peso muito forte na libertação desses fundos e desse dinheiro que o Irão muito precisa. Portanto, eu julgo que estes dois pilares, da mobilidade do estreito e questão nuclear, será o mínimo que os Estados Unidos terão que exigir. E já deixaram aqui pelo meio a questão dos mísseis e outras questões que já deixaram pelo caminho, em detrimento daquilo que era o objetivo inicial e que foi muito desenhado também com Israel, como sabemos. Portanto, os Estados Unidos, essa é a grande questão, não estão de facto numa situação fácil sob o ponto de vista negocial nesta fase, se não tiverem em cima da mesa opções de natureza militar que possam pressionar o Irão. Depois, nas margens da coisa, também temos aqui praticamente o início, julgo eu, de uma guerra civil outra vez no Iémen. O governo do Iémen está a atacar os houthis, e os houthis atacaram também, como sabemos, na última noite, no último dia, a companhia petrolífera na Arábia Saudita, mais uma vez. A questão estrita do Golfo e do Estreito não nos parece que seja a totalidade do problema do Oriente Médio e daquilo tudo que pode afetar a economia mundial. Voltando à sua primeira pergunta, é um passo importante que haja um acordo entre o Omã e o Irão, mas que também contribua de algum modo à aplicação desse acordo para o panorama geral de segurança e do restabelecimento das condições mínimas para a economia mundial poder continuar a andar em frente.

A ver, vamos o que ditam as próximas horas e os próximos dias. Sugeria que voltássemos agora o nosso olhar para o conflito no leste da Europa. Da última madrugada, a notícia de nova troca de ataques entre as forças russas e ucranianas. Aparentemente têm-se intensificado estes ataques nas últimas semanas. Um sinal de que estamos mais próximos ou mais distantes da mesa de negociações, senhor Tenente-General?

Eu penso que mais próximos. E mais próximos por quê? Porque estes ataques em profundidade conduzidos pelos dois lados, que a Rússia já vem a fazer desde o início da guerra, como sabemos, mas que a Ucrânia conseguiu de algum modo equilibrar nos últimos meses, são, julgo eu, tanto ou mais importante que a situação no Donbass. Embora a situação no Donbass para a Rússia é importante, como sabemos, e para a Ucrânia também, são a situação que mais pode influenciar, em especial, uma mudança de atitude de Vladimir Putin relativamente a iniciar um processo negocial que ele tem estado muito difícil de aderir a esse processo, como sabemos. Isto por quê? Porque estes ataques em profundidade são os únicos, por assim dizer, que podem criar na sociedade russa e na administração russa a noção, que é aquela condição que é fundamental para um decisor político do tipo de Putin, sentar à mesa das negociações. Ou seja, é a percepção que o futuro da guerra vai lhe trazer mais problemas do que vantagens. Há uma altura, e isto faz parte da teoria geral da guerra e da condução da guerra e da finalização da guerra, que nos diz isso. Quando os líderes políticos, uma das condições, e normalmente é aquela que se aplica para início de um processo de negociações para a paz ou ponto de cessar-fogo, é quando ambas as partes percebem que têm muito mais a perder em continuar do que a ganhar.

Já chegamos a esse ponto na perspectiva da Rússia, senhor Tenente-General?

Eu julgo que na perspectiva da Rússia, há aqui um conjunto de questões que estão a trazer muitos problemas a Putin. Um deles é a Crimeia. A Crimeia tem estado sob elevado ataque, está praticamente isolada, com exceção da ponte Kerch. E eu estou convencido que os ucranianos ainda não atacaram a ponte Kerch, dentro daquela boa lógica também de não deixar o inimigo sem saídas, porque aí será mais complicado e pode haver uma escalada. Mas de qualquer modo, a Crimeia está em muito má situação, não só sob o ponto de vista da própria população civil, mas mesmo das unidades militares. A logística dentro da Crimeia está praticamente a colapsar, em termos de apoio logístico às forças militares, e isto traduz-se também às forças russas que estão em Kerch. Portanto, a Crimeia A infraestrutura logística e de produção de energia russa. Esta capacidade da Ucrânia tem vido a aumentar os ataques com mísseis e drones e destruir essa infraestrutura já está produzindo um efeito muito grande na economia russa. E agora essa questão da Wildberry, que é uma companhia muito importante em termos da economia russa também, e que por ali circulava muito da capacidade de importação que a Rússia tinha, em especial para coisas que até estavam sancionadas, conseguiam passar por aquela via, nomeadamente microchips e sistemas tecnológicos que a Rússia precisa pra construção dos seus mísseis, também está afetada, além de que pertence a um oligarca importante e que tem alguma influência sobre Putin. Portanto, há também uma pressão do estabelecimento político russo e econômico pressionar Putin de que está na hora de começar a pensar em negociar e caminhar pro fim da guerra. Agora, Putin ainda tem aquela questão que ele meteu na cabeça da conquista completa do Donbass. É fundamental pra Ucrânia também que consiga, de algum modo, manter essa progressão lenta que a Rússia tem tido no Donbass o mais lento possível. Para não ser o fator de ânimo de Putin, porque Putin se tiver um fator assim de ânimo, vai ser muito difícil aceitar que a Rússia se sente à mesa das negociações.

A opção, nesse caso, será continuar.

Mas os ataques em profundidade são o elemento mais perturbador para as duas partes. Para a Ucrânia, já percebemos por quê. E da Rússia também começamos a perceber que a economia russa está em sérias dificuldades. E há a questão, como falei, da Crimeia. A Crimeia é o elemento dourado desta operação militar que a Rússia conduziu, como sabemos. A possibilidade não é de perder a Crimeia, mas de a Crimeia ficar numa situação de colapso logístico e mesmo de dificuldade de vivência da população russa e da Crimeia que lá vive, deixa Putin numa situação muito desconfortável, no mínimo.

Um fator de pressão para o presidente da Rússia. Senhor-tenente Estenel Marco Soronha, muito obrigado pela sua presença neste Gabinete de Guerra e pela análise e interpretação que aqui faz de alguns dos fatos relacionados com o conflito no Oriente Médio e também com a guerra no Leste da Europa.

Muito obrigado. Bom domingo.

Obrigado.