Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Começa agora o Novo Gabinete de Guerra. Eu sou a Maria João Simões. Esta manhã contamos com a análise do Bruno Cardoso Reis, coordenador do doutoramento em História e Defesa do ISCTE da Academia Militar e que faz também parte do Cinco Continentes da Rádio Observador. Olá, Bruno. Bom dia. Muito obrigada por estar conosco.
Olá, bom dia. Obrigado.
O Tribunal Penal Internacional pediu mandados de detenção não só para Netanyahu, como para o ministro da Defesa Gallant, mas também para os líderes do Hamas. O tribunal alega que o primeiro-ministro israelita é responsável por crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Bruno, que efeitos práticos tem esta decisão?
Vamos ver. Para já, um efeito prático que parece ter tido é alterar um pouco as dinâmicas, pelo menos no curto prazo, em Israel. Ou seja, havia aqui uma pressão crescente sobre Netanyahu. A mesma pessoa que estava a liderar essa pressão crescente, o líder da oposição moderada que aceitou fazer parte do governo a partir de 7 de outubro, o general Gantz, que anunciou penso que há um dia ou dois aquele ultimato para Netanyahu apresentar um plano político para a saída da guerra, se não demitisse do governo, veio dizer que estava contra estas acusações e que aquilo que a generalidade dos israelitas rejeitam é que esta percepção de que há uma espécie de equivalência entre um grupo terrorista como o Hamas e um Estado democrático como é Israel. Em termos da guerra, os responsáveis americanos dizem que têm receio que isto torne mais difícil também chegar a um acordo, mais uma vez no curto prazo. A resposta do TPI, do procurador é, e para já é importante também dizer isso, isto não é uma condenação do tribunal, nem sequer o tribunal ainda emitiu os mandatos. É um pedido de mandatos do procurador, mas aquilo que o procurador alega é que ele não pode estar aqui condicionado por contextos políticos. Tem de avançar com acusações quando entende que deve avançar. Apesar de tudo, os Estados Unidos também referiram uma circunstância que realmente é curiosa, que é aparentemente ele estaria a preparar uma nova visita a Israel para recolher mais informações e a sua equipa iria chegar ontem a Israel e só à última hora é que isso depois acabou por não se verificar. Os responsáveis israelitas estariam preparados para o receber. Vamos ver depois qual é o efeito mais à praxe, se há aqui algum condicionamento na ação militar de Israel. Pode haver até nos dois sentidos, pode haver no sentido de maior restrição ou de maior contenção, ou o contrário, dizer: "Se vocês acham que nós não estamos a ter limites, então agora vamos mostrar o que é fazer esta guerra sem limites". Por exemplo, deixar de emitir avisos para a população civil ou pode ter realmente um impacto no sentido de uma maior contenção. Em relação ao Hamas, é muito duvidoso que tenha qualquer tipo de impacto, que apesar de tudo mostra também que realmente não há equivalência. Ou seja, ninguém está à espera que um grupo como o Hamas altere o seu comportamento, passe a preocupar-se com a população civil, não só israelita, mas até palestiniana, por causa das decisões do TPI.
Bruno, quem não concorda com esta decisão é Joe Biden. Diz, tal como estavas a dizer, que é impossível comparar Israel ao Hamas, que o que se passa em Gaza não é um genocídio e que tudo fará para que Israel continue a defender-se.
Sim, apesar de tudo, não há uma completa equivalência. Há várias acusações que são exclusivas para o Hamas. Aqui o tribunal também tinha uma posição difícil, embora se possa argumentar, e acho que se deve argumentar, que estas acusações ao Hamas já deviam ter acontecido, eram bastante evidentes e parece ter havido aqui uma espera para se fazer ao mesmo tempo. Mas acusações de tomada de reféns, que é um crime, convém lembrar, de rapto. De rapto não, desculpem. Tomada de reféns é o rapto. Mas de violação, de assédio sexual e tortura, tudo isso é exclusivo do Hamas. Mas realmente para Biden também são acusações complicadas de gerir. É verdade que os Estados Unidos não são parte deste tribunal, do TPI, precisamente por causa do receio que este tipo de tribunal muitas vezes não é sensível às dificuldades de conduzir uma guerra. Muitas vezes parece comportar-se como se estivéssemos todos a viver em paz. Mas há muita gente nos Estados Unidos que apoiam o TPI. Os Estados Unidos, de um modo geral, são defensores da lei internacional. É verdade que quando houve um mandado em relação a Putin do TPI, por aquela questão do rapto de crianças ucranianas, que isso foi muito referido pelos Estados Unidos e cria aqui um problema evidente, em particular a Biden e em particular num contexto eleitoral em que a maioria dos democratas estão contra a continuação da guerra, são muito críticos de Israel, mas 18% continuam a apoiar Israel. Há uma comunidade judaica importante, muito progressista, que tradicionalmente apoia, financia o partido e que também se opõe a estas críticas. É um equilíbrio realmente bastante complicado. Estas críticas parecem ir mais no sentido do apoio a Israel, de alguma crítica, mas, por exemplo, os republicanos querem ir muito mais longe. Já estão a avançar com a ideia de sanções contra os responsáveis do TPI que estão a avançar com estas acusações a Israel. E isso parece muito mais difícil que o Biden aceite fazer.
Sobre a sucessão do presidente iraniano, o líder supremo nomeou o vice-presidente como chefe de Estado interino, Mohammad Mokhber, faz parte de uma equipa de oficiais iranianos que visitou Moscovo em outubro e decidiu fornecer mais mísseis e drones às forças russas. Bruno, esta nomeação terá algum impacto na região e até indiretamente no conflito na Ucrânia?
Como já referimos ontem, é importante recordar que em termos de política externa, política de defesa, das grandes decisões sobre alianças, sobre apoio militar, seja à Rússia, seja ao Hamas, quem toma realmente essas decisões é o guia supremo. Não quer dizer que o presidente seja aqui completamente irrelevante como chefe do governo, mas realmente a autoridade máxima e com particular autoridade nesta área da política externa e da política de defesa é realmente o guia supremo.
Portanto, aqui será só um nome para ocupar o cargo.
Não percebi, desculpa.
Se é só um nome para ocupar o cargo.
Por um lado, é uma figura interina, portanto, teremos de ver se ele será ou não o candidato.
Sim, as presidenciais ficaram antecipadamente marcadas para 28 de junho.
O candidato para daqui a um mês, a 28 de junho. Será ele o candidato vencedor, já agora também. Mas à partida, se for o candidato do regime desta linha dura, será provavelmente o vencedor. Portanto, teremos de ver se será assim ou não. Se calhar seria a solução mais fácil. Agora, é verdade aquilo que dizias, que ele realmente foi muito responsável por esta aproximação à Rússia. Temos declarações dele a dizer: "A Rússia pode aproveitar a nossa experiência de muitos anos de sofrer sanções dos países ocidentais e continuar a conseguir desenvolver a nossa indústria de armamento, por exemplo, drones". Portanto, sim, desse ponto de vista, é claro que há uma continuidade, se há alguma coisa, até uma intensificação desta convergência com a Rússia. E é importante recordar isso. Realmente, o Irão é, a par da Coreia do Norte, o único país que nós sabemos que está ativamente a apoiar com armamento, com o fornecimento de armamento, a invasão russa da Ucrânia.
E sobre essa guerra na Ucrânia, os Estados Unidos garantem que a Rússia está a criar uma zona tampão ao longo da fronteira ucraniana. Bruno, no que é que isto se traduz?
Traduz-se, infelizmente, em mais destruição, mais mortes, ou seja, mais território ucraniano a ser ocupado pela Rússia com esse argumento de uma zona tampão, sendo que é evidente que se a Rússia deixasse de invadir a Ucrânia, se deixasse de ocupar a Ucrânia, não haveria qualquer razão para a Ucrânia continuar a atacar a Rússia, nem isso aconteceu antes da invasão de fevereiro de 2022. E mesmo esses ataques são ataques, de um modo geral, bastante mais limitados do que no caso dos ataques russos à Ucrânia, que são ataques numa escala, numa intensidade e também completamente indiscriminados contra a população civil, enquanto que os ataques ucranianos a estas regiões russas, por regra, têm visado alvos militares ou infraestruturas críticas que têm diretamente a ver com o apoio ao esforço de guerra russo.
E acreditas que esses avanços russos, aqueles a que temos assistido nas últimas semanas, são irreversíveis?
Nada é irreversível num conflito que está em curso. O conflito é dinâmico. Já vimos a Ucrânia recuperar praticamente 50% do território que perdeu inicialmente, a partir de fevereiro de 2022. É verdade que também as reconquistas da Ucrânia não são garantidas. Houve algum território no sul que voltou a ser perdido pela Ucrânia e agora nesta zona de Kharkiv também. É preciso recordar isso. Foi até a zona onde houve realmente uma contraofensiva bastante bem-sucedida, no sentido próprio do termo, ou seja, um contra-ataque ucraniano, quando os russos ainda não tinham consolidado linhas defensivas, quando ainda estavam a achar que estavam na ofensiva. Isso levou a uma rutura completa da frente russa e a muita perda de material e uma retirada completamente desorganizada e que permitiu recuperar muito território muito rapidamente. À partida, os ucranianos têm uma dificuldade, que é terem uma assimetria de base muito grande, têm tropas muito desgastadas, que estão praticamente a combater há mais de dois anos sem serem refrescadas. Tudo isso torna difícil, sobretudo se a Rússia depois fizer aquilo que fez nas outras zonas, que não tinha feito inicialmente, precisamente por subestimar os ucranianos, ou seja, fazer linhas defensivas, criar campos de minas, linhas de trincheiras, barreiras anticarro, antitanque. Se tudo isso acontecer, vai-se tornar muito mais difícil qualquer contra-ataque, qualquer nova ofensiva ucraniana.
Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela tua análise. Um bom dia, Bruno.
Bom dia, obrigado.