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Daqui a oito dias, dia 24 de fevereiro, vão assinalar-se três anos do início da invasão da Rússia à Ucrânia. Estamos atualmente a 17 de fevereiro de 2025 e este conflito continua. Discute-se cenários de paz, mas discute-se também a possibilidade de países europeus colocarem tropas em terreno ucraniano. Este é o tema em destaque nesta edição do Gabinete de Guerra. Vou estar nos próximos minutos à conversa com o major general João Vieira Borges, a quem agradeço a disponibilidade para estar conosco aqui na "Rádio Observador". Major general João Vieira Borges, olhando para as notícias do dia de hoje, encontramos esta reunião convocada por Emmanuel Macron, reunião de urgência em Paris com líderes europeus, incluindo Keir Starmer, o primeiro-ministro do Reino Unido, e também o chanceler alemão Olaf Scholz. Vão estar também o presidente do Conselho Europeu, António Costa, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e alguns países, não todos os países da União Europeia, mas alguns países vão estar reunidos. O que podemos esperar, efetivamente, deste encontro numa altura, isto acontece tudo enquanto os Estados Unidos preparam para se sentar com a Rússia para discutir o futuro da Ucrânia?
Muito boa tarde. É uma altura em que em três, quatro dias, quer em Munique, quer em Bruxelas, quer em Paris, quer em Riade amanhã, finalmente se discute uma solução para a guerra na Ucrânia. A provocação, obviamente, vem na sequência, digamos que a espoleta foi o telefonema de Trump para Putin, e não só, e a linguagem usada quer por ele, quer pelos seus secretários, neste caso, mistos, secretário da Defesa, sobretudo, e a linguagem que pressupunha e pressupõe uma determinada estratégia dos Estados Unidos, mais global do que propriamente este conflito, e portanto, tem a ver com a arquitetura de segurança e defesa mundial e com a arquitetura de segurança e defesa, em particular europeia, fruto desta guerra, em que os Estados Unidos, em função daquilo que foram as posições manifestadas em Munique e em Bruxelas, digamos, remetem a questão da segurança europeia para a Europa, obrigando a Europa ou pressionando a Europa a investir mais em segurança e defesa, deixando assim mais espaço para intervenção, designadamente naquilo que é a sua área prioritária, que é o Indo-Pacífico, porque a situação do Médio Oriente é uma situação diferente, que existe desde 48 e há de continuar a existir, como nós sabemos, independentemente daquilo que se venha a verificar. Aquilo que é mais estruturante, isso sim, tem a ver exatamente com este posicionamento dos Estados Unidos que obriga a Europa a tomar posições, porque estamos em guerra há três anos. A Europa tem apoiado a Ucrânia com muito dinheiro, mas em termos de material de guerra mais limitado que os Estados Unidos, na ordem de 50 mil milhões, mas não fez o caminho que foi pressionado desde Gales, e já lá vão 11 anos, independentemente das administrações americanas serem democratas ou serem republicanas. Só que agora, a linguagem de poder, eu direi que aquilo que era a estratégia 2017 de Trump, que dizia que era a paz pela força, aqui é a paz pela força, pelo poder, pelo poder dissuasor. Aquilo que ele chamava de coragem, agora tem a ver com linguagem, mas está a mexer a Europa, como dizia Zelensky há pouco, em tão poucos dias mexeu tanto a Europa que estamos a ter todas estas reuniões. Agora, a resposta concreta à sua situação tem a ver com uma palavra-chave em todos os acordos que se chama garantia, ou três palavras, garantias de segurança. Aquilo que Zelensky pretende são garantias de segurança pra aceitar qualquer acordo. E quando se fala em garantias de segurança, obviamente, fala-se também, ou sobretudo, naquilo que são forças de interposição, que a própria Rússia não aceitava até há bem pouco tempo, e para ser aceito, vai ter que ser bem negociado. E essas forças de interposição, naturalmente, terão que ser forças europeias. E o problema é se há capacidade da Europa, não só em termos de militares, em termos de equipamento, para ser dissuasor também, mas também depois outras questões que foram faladas nas reuniões de Munique, que é também se estão ao abrigo do Artigo Quinto da NATO ou não estão. Há aqui muitas questões relacionadas com garantias de segurança. É uma questão-chave para que haja uma paz sustentada, porque justa não vai ser.
Certo. Esta reunião em Paris, uma reunião de urgência. Eu há pouco referi que nem todos os países foram convidados. Tenho essa lista aqui à minha frente. Portanto, é a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, secretário-geral da NATO, Mark Rutte, e depois representantes da Alemanha, Reino Unido, Itália, Polônia, Espanha, Países Baixos e Dinamarca. Portugal não está envolvido nestas negociações. Como dizia também, na Arábia Saudita estão previstas essas negociações entre Estados Unidos e Rússia. E foi hoje comunicado que Zelensky também vai viajar para a Arábia Saudita. É de esperar, de fato, que seja possível ter representantes ucranianos, russos e Estados Unidos da América, todos à mesma mesa durante esta semana?
Eu tenho sérias dúvidas, porque há pouco uma intervenção de Zelensky dizia que não foi convidado. Ele está neste momento nos Emirados Árabes Unidos, numa agenda que inclui amanhã a Arábia Saudita, estará em Riade amanhã e estará também na Turquia amanhã, em reuniões que tinham uma agenda que, no caso da Arábia Saudita, incluía já há muito tempo, estava programada a questão do petróleo E a baixa do preço do petróleo, em especial num acordo com a própria Ucrânia. Portanto, ele diz que não foi convidado, mas também disse há pouco que tudo o que for acordado entre os Estados Unidos e a Rússia, ele não vai concordar minimamente. E, portanto, se não for ouvido, não concorda minimamente. A frase dele era mais ou menos esta. Aliás, algo que ele também já dizia antes, até porque ele pressionou a própria Europa também a estar presente, porque se a guerra é na Europa, a Europa tem que estar presente. Se a guerra é com a Ucrânia, a Ucrânia tem que estar presente. E, portanto, se não estão, não há acordo absolutamente nenhum. Ele tem sido muito duro, mais do que os próprios líderes europeus. Também é ele que tem sofrido, são os ucranianos que têm morrido pra defender determinado tipo de valores que defendemos ainda. Não sei se com tudo isto qualquer dia também a Europa deixe de defender determinados valores pra ir ao encontro dos interesses mais iliberais desta administração norte-americana. Veremos, o futuro dirá. Mas isto pra dizer que ele tem sido uma voz dura. Se não me engane a expressão dele é: "Nenhuma decisão sobre a Ucrânia sem a Ucrânia, nenhuma decisão sobre a Europa sem a Europa", qualquer coisa deste gênero. E ele voltou a dizer isto há pouco, transmitido nos órgãos de comunicação social ucranianos, e julgo que sentido pelo fato de não ter sido convidado. Julgo que tem a ver com isto.
Mas vamos olhar pra o que temos. Portanto, os Estados Unidos da América preparam-se para reunir com a Rússia, para se sentarem à mesa, pra discutir este tema. Se efetivamente Estados Unidos e Rússia, sem a presença da Europa, sem a presença da Ucrânia, chegarem a um entendimento, a um acordo para um cenário de paz, como é que fica a Europa? Como é que fica a Ucrânia? O que pode acontecer depois? Claro que depende muito também de que cenário é esse, mas se efetivamente for chegado a um entendimento entre essas duas potências e a Ucrânia simplesmente tiver que dizer sim a esse acordo, se tiver esse entendimento, como é que fica a posição da Europa?
Isso é muito interessante. Os diplomatas com quem trabalhei e de quem sou amigo costumam dizer que mais vale estar fora do que na mesa ao lado, porque se estiver na mesa ao lado, faz parte do menu. Ora bem, espero que a Europa não faça parte do menu e muito menos a Ucrânia. Isto é um princípio de negociação que terá necessariamente, essa será a perspectiva que vai ser apresentada no final dessa reunião na Arábia Saudita, se não estiver nem a Ucrânia nem a Europa presentes, e pelos vistos não vai estar, serão princípios de acordo. Princípios de acordo, não quer dizer que seja o acordo, são princípios de acordo. Que serão mais fáceis, na minha perspectiva também, de negociar sem presença da Ucrânia e da Europa. Sem presença da Ucrânia, porque tem consciência daquilo que são os interesses da Ucrânia, o plano de paz e o plano de vitória. Portanto, os Estados Unidos sabem isso. E também sabem quais são as posições da Rússia e vão tentar, esperemos, que a Rússia ceda, porque as negociações visam ceder. A presença do ator principal, neste caso da Ucrânia, implicaria que o ponto de partida fosse diferente. Ou seja, voltar às fronteiras, pelo menos já cedeu, queria as fronteiras de 91, Zelensky não abdicava das fronteiras de 91 até há bem pouco tempo. Depois da eleição de Trump, abdicou dessas fronteiras e agora não abdica das fronteiras de 2022, o que estava a referir há pouco, Miguel, do início da guerra. Vai fazer agora três anos e meio. E portanto, se tiver os europeus, é um problema de negociação, porque cada país europeu tem a sua posição. Ainda agora vimos em declarações alemães não concordam em ter forças de interposição, enquanto que o Reino Unido concorda, a Suécia concorda. Há de haver aqui na Europa várias posições relativamente a cada ponto das negociações. Eu não sei se isso era positivo para chegarmos à paz. Ora bem, dito isto, julgo que aquilo que vai haver é cedências da Rússia, porque as imposições já nós todas sabemos. E portanto, ao haver cedências e os americanos apresentarem que a Rússia cedeu, designadamente em termos territoriais, de troca disto por aquilo, tenho as minhas dúvidas, cedeu relativamente à questão de forças de interposição que não aceitava e passou a aceitar nos moldes X e Y. Isso é um princípio, então depois pra acordo para incentivar, neste caso, a Ucrânia a participar depois, porque o início já é um início em que há cedências da parte da Rússia. Vamos ver. Isto são suposições que todos nós fazemos em função da situação que se vai desenrolando e sobretudo dos discursos que vão sendo feitos, designadamente por Zelensky, em reação aos posicionamentos dos Estados Unidos da América.
Entretanto, temos a confirmação de que Zelensky não vai estar mesmo no menu, a Ucrânia não vai estar mesmo nesse menu que referia. Confirma que não vai participar na reunião entre Estados Unidos da América e Rússia na Arábia Saudita, o que já estava a referir há pouco, mas surgiu essa confirmação também de Zelensky. Falar aqui um pouco do Médio Oriente, ainda temos cerca de quatro, cinco minutos. Israel prepara-se para iniciar a retirada do Líbano, mas quer manter tropas em cinco posições estratégicas. As Forças de Defesa de Israel vão iniciar essa retirada amanhã, vão manter as posições estratégicas de acordo com o Times of Israel, os postos militares fora das áreas urbanas vão reforçar a defesa da fronteira com mais vigília e o triplo do número de tropas. Isto acontece num dia em que continuamos a noticiar um ataque também no sul do Líbano. O que é que podemos esperar também desta relação entre Israel e o Líbano, nesta fase em que Israel quer também retirar aqui algumas tropas?
Neste conflito diferente, temos de separar claramente que Israel está sempre no fio da navalha, porque compreendemos do passado recente que tem de ter sempre uma postura ofensiva, porque a partir do momento em que baixa as armas, imediatamente tem reações dos vários movimentos, seja no Líbano, seja no próprio território em Gaza, em função das próprias demonstrações de força em Gaza, que nós vemos. É evidente que o Hamas naqueles momentos de troca de reféns, afinal não vimos um militar guardado daquela maneira durante toda a guerra e de repente eles aparecem todos, e armados convenientemente e aquelas armas não apareciam ou estão todas enterradas ou continuam a ser abastecidos de alguma maneira. Mas no caso do Líbano a mesma coisa, é uma pressão enorme naquela região sul, designadamente do Hezbollah, com movimentos e com tentativas de pressionar com populações no sentido de quererem ocupar as suas casas, obviamente, mas pressionados pelo próprio Hezbollah, que também pressiona o poder político no sentido de já receber as aeronaves do Irã. Obviamente sabemos para quê. Não é para trazer rebuçados, é certamente para trazer armas e trazer determinado tipo de gente para dar formação. E, portanto, Israel tem que estar atento e estas situações são sempre justificadas. As pessoas se olharem para os jornais de Israel ou, neste caso, os órgãos de comunicação social em geral, Israel justifica todas as ações, ao contrário da Rússia, que nunca justifica nenhuma ação na Ucrânia. Aqui são todas justificadas, mas estão nesta linha. Não quer dizer que eu concorde, mas estão nesta linha. É pressão permanente. Nós estamos a falar de movimentos terroristas, é um bocado diferente falar de Estado. Com movimentos terroristas, a pressão de um Estado, seja Israel, seja a França quando é atacada, seja a Bélgica quando é atacada, a pressão tem que ser permanente. É nessa perspectiva que eu entendo, desde que não haja efeitos colaterais e a mortandade que houve das populações, desde que seja sempre justificada, que eu entendo essa pressão, porque caso contrário, acontece o que aconteceu há duas semanas com o Hamas a dizer que afinal não entrega os reféns porque uma parte do acordo que não foi cumprida. Portanto, é uma situação diferente, é um movimento de terroristas com um Estado, enquanto que na Ucrânia estamos a falar de dois Estados e de uma comunidade internacional que procura a paz de uma maneira muito diferente.
Major-General João Vieira Borges, uma última questão precisamente sobre esse acordo de cessar-fogo entre Israel e o Hamas. Nós tivemos mesmo a troca de reféns, três reféns israelitas libertados pelo Hamas durante este fim de semana, apesar dessas ameaças durante a semana passada de que o acordo não seria para seguir em frente, mas falta a discussão em torno daquilo que será a segunda fase deste cessar-fogo, que deveria estar em andamento, deveria estar já numa fase avançada. Ainda há muitas dúvidas sobre o que podemos ter dessa segunda fase. O que podemos esperar das próximas semanas quanto a este cessar-fogo?
O que podemos esperar é pressão de ambas as partes, mas sobretudo, a pressão neste momento, relativamente à sua questão, passou a estar do lado de Israel. Ou seja, o Hamas veio logo a seguir à libertação destes três reféns, depois de uma semana em que ficou o Hamas numa situação defensiva, ficou agora do lado de Israel. Por quê? Porque já se deviam ter iniciado as conversações. E as conversações, a ponto e ponto, há determinadas questões da segunda fase que já estão a ser cumpridas também. Ou seja, esta questão da retirada das forças de Israel faz parte desse processo. Há algumas questões que têm a ver com o revestimento, que têm a ver com feridos serem tratados fora de Gaza. Há aqui questões que são muito positivas de aproximação. Só que oficialmente, as negociações no Qatar, nós não temos representantes de Israel e a argumentação de Israel tem sido, como nós temos visto, está dependente de posicionamentos dos Estados Unidos da América, que foram muito duros logo relativamente àquela reação do Hamas que não ia libertar os reféns, mas que agora voltaram um pouco atrás, mas que obviamente vai ter que haver agora respostas em breve e vai ter que haver reuniões, porque é muito importante esta segunda fase, que é a fase em que há a libertação de todos os reféns, vivos ou mortos, em que é a retirada das forças de Israel, não só parcial, como disse há pouco, mas na sua totalidade, talvez com uma exceção, veremos. E, portanto, neste momento estamos aqui num certo suspense. Ainda temos algumas semanas, mas já deviam ter lugar e não estão a ter lugar. É uma preocupação grande, porque há a pressão dos extremistas do governo de Netanyahu, no sentido de logo que sejam libertos os reféns, avançar para a guerra novamente. E, portanto, essa pressão depois é a própria comunidade internacional, já não é só o Hamas, que pressionará Israel.
Sim. Major-General João Vieira Borges, muito obrigado por ter estado conosco nesta edição do Gabinete de Guerra. Vamos, claro, continuar ao longo de toda a semana a perceber o que vai sair também desse encontro de Paris e das reuniões que vão acontecer na Arábia Saudita em torno do conflito na Ucrânia.