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Este é o Gabinete de Guerra hoje com a análise do coronel José do Carmo. Bom dia, bem-vindo, coronel.
Bom dia, como está?
Começamos pelo discurso de Donald Trump no Estado da União. Quer garantias que o Irão não vai ter uma arma nuclear, mas não deu pormenores sobre se tenciona ou não avançar com uma ação militar. Disse também que já acabou com oito guerras e que a Ucrânia será mais uma, mas sem dar grande destaque ao tema. E sobre o México, colheu os louros da morte do líder de cartéis, El Mencho. Coronel, foi o discurso mais longo de sempre. O que lhe parece importante destacar?
Aquilo que não é destacar, mas é habitual, é o habitual tom hiperbólico sobre os seus feitos. Embora muitos desses feitos têm, de fato, a assinatura dos Estados Unidos. É verdade que a captura, neste caso a morte do El Mencho, tem muito a ver com a pressão americana e também com a parte de informações que é fornecida ao México. Sim, é verdade. A Ucrânia está-lhe atravessada e ele tem, de fato, essa intenção de acabar com a guerra, seja em que termos for. No caso do Irão, o que está ali a assistir-se é a um jogo de xadrez, em que os Estados Unidos querem negociar um acordo nuclear que seja melhor que o acordo assinado por Obama. Donald Trump está sempre em emulação com outros líderes, está sempre a classificar-se à frente de outros líderes, portanto tem que fazer um acordo melhor que o Obama. Se aperceber, e acho que está a aperceber-se disso, que o Irão está a arrastar os pés e está naquele jogo de xadrez, a ver quem é o primeiro a virar os olhos ou pelo menos sair da trajetória de colisão, ele vai mesmo desencadear ataques que sejam penalizadores para o regime. Não vai acabar com o regime com ataques desses, é evidente, não tem força lá para isso, não tem lá forças terrestres, não tem nada. Sim, mas é provável que nos próximos dias, se o Irão não vier a termos com propostas que sejam-
Concretas, não é?
Que sejam para os Estados Unidos considerem aceitáveis, irá haver ataques e depois vamos ver como é que a coisa escala.
Sim. Em relação aos quatro anos de guerra na Ucrânia, no discurso no Parlamento Europeu, Zelensky disse que os russos têm de aprender que a Europa não é um local de lazer. Pediu uma data clara para a adesão da Ucrânia à União Europeia e convidou Donald Trump para visitar o país. Coronel, que leitura faz de tudo aquilo que foi dito e também das declarações dos vários líderes ontem sobre os quatro anos de conflito?
De fato, Zelensky tem esta ideia, e é verdade que, neste momento, a parte que o apoia melhor e na qual sustenta a resistência ucraniana à agressão russa é a Europa. É a Europa, é a vontade europeia, são os meios europeus, são os meios financeiros europeus e depois há uma parte importante que é também a parte de inteligência americana. No fundo, é quase só o que resta em relação ao apoio americano à Ucrânia. Direto, porque depois há apoios indiretos, que são através da compra de armamento por outros países, mas o apoio direto, neste momento, dos Estados Unidos é este. É claro que Trump tem que fazer um jogo em que tem que equilibrar os humores do presidente da América, que reage de uma forma muito visceral às coisas, e os seus interesses, também interessa-lhe manter a negociação. É verdade que interessa que haja negociações, interessa que haja uma via de contato, porque mais tarde ou mais cedo, este conflito vai ter de acabar. Mas a Europa fez saber que a única maneira de isto acabar como deve ser é a Rússia abandonar a agressão, porque no fundo, a Rússia pode acabar com a guerra amanhã, basta retirar-se do território de um outro país. As coisas são assim de simples. E de fato, a Rússia só fará isso se houver uma resistência ucraniana e a Rússia perceber que não vai conseguir, vai haver um momento em que irá perceber isso, não vai conseguir que os outros países da Europa aceitem abandonar a Ucrânia e deixem, por medo ou por exaustão, deixem de apoiar a Ucrânia, que é a única hipótese da Rússia conseguir obter nas negociações, sem esgotar os seus meios e os seus homens em ataques. Só se formos ver bem, a Rússia desde 2022 conquistou um território inferior ao tamanho de Portugal. Portugal é um pequeno país nesta escala. E a perder cerca de 15 a 20 homens por quilômetro, que é uma coisa perfeitamente absurda. E portanto, isto não se vai manter muito tempo, mesmo em termos russos. E os russos estão a apostar nestes gastos. E a Europa tem estado a dizer, os seus líderes disseram isso também, nestas comemorações. Disseram que não irão abandonar. É claro, das palavras à ação, outra coisa pode acontecer, mas a ideia é essa, é dizer que estão lá e estão lá para o que der e vier, se a Ucrânia assim o quiser.
E houve logo uma reação do lado russo. Putin avisa os aliados europeus que irão arrepender-se do apoio que estão a prestar a Kiev, apoio que os está a levar, eles próprios, ao limite. Palavras de Vladimir Putin. Coronel José do Carmo, Putin a ser Putin, com mais uma ameaça. Ontem, António Costa dizia que é essencial que a Europa se prepare para falar com a Rússia. Mas, coronel, falar e não ouvir, não é? Porque alguém tem que dizer a Putin como é, em vez de ouvir Putin a dizer como quer que seja.
Da parte da Rússia, faz parte da guerra psicológica, ou seja, da propaganda, no sentido de fazer crer ao adversário ou àqueles que ajudam os nossos inimigos e não nos deixam alcançar os objetivos como nós queríamos. Fazer-lhe ver que nós somos imparáveis, que somos imbatíveis, somos muito fortes, que não vamos desistir. Bom, no fundo, é o que se faz sempre em conflitos, até as coisas começarem a doer, é como ir a um combate de rua. As pessoas gesticulam, berram, chamam-se de nomes, eu faço, eu aconteço. E quando chega o momento da ação, vai ver quem é o primeiro a cansar-se. A Rússia ainda está convencida, ou parece estar convencida, ou quer fazer parecer que está convencida, que sim, que vai prevalecer e que está ali ad eternum perseguir os seus objetivos, o que também não é verdade. Há a intenção também europeia, mas há países na Europa que também estão cansados. No fundo, é aqui que se joga o conflito. Quem é que se cansa primeiro? Quem é que se desgasta primeiro? E a Rússia quer fazer crer que não, que eles não se gastam, eles não sentem, a eles não lhes dói. O que não é verdade.
Claro. Como ainda há pouco dizia.
A Rússia está a ficar lisanga em muitas matérias e as receitas estão a baixar bastante. Portanto, digamos que isto é uma questão de aguentar, em termos puramente pragmáticos. É claro que dizer isto Os ucranianos que estão a perder, que estão na situação em que estão. De cá de longe nós podemos dizer isto, que é só fazer isto, mas quem está no terreno é que sabe o que isso dói.
Entretanto, o chanceler alemão começa hoje uma visita de dois dias à China. A semana passada estiveram lá Macron e Sánchez ao mesmo tempo. Como é que devemos interpretar este beija-mão a Xi Jinping?
É um beija-mão diplomático. Há interesses muito directos da China na Europa, interesses comerciais, interesses económicos, mas a China tem os seus próprios interesses. E a Europa também tem os seus próprios interesses. Estes países têm os seus próprios interesses. Há muita coisa que se vende para lá e vem para cá. Por outro lado, a Europa tem que balancear os seus negócios com a China, tem que balanceá-los no quadro da relação também com a Rússia e com os Estados Unidos. De facto, a China tem uma estratégia de dominação mundial através do comércio, através da insinuação, uma série de cadeias de valor. E os Estados Unidos sabem disso, a Europa também sabe disso. Por outro lado, a Europa não pode isolar-se apenas nas relações com os Estados Unidos, que já mostrou que são, neste momento, muito voláteis e poderão voltar a sê-lo, independentemente de quem for o presidente, porque os presidentes mudam. E portanto, a Europa também tem que assegurar a sua própria autonomia, fazer os seus negócios possíveis com a China, se calhar também influenciar a China em relação à Rússia. Há aqui interesses cruzados que têm que ser balanceados. Vivemos num mundo em que todos estamos interconectados e não podemos isolar-nos uns dos outros, temos de ter cuidado na maneira como essas relações não se tornarão hegemônicas e não nos colocarão depois mais tarde numa situação de pendência, como aconteceu, por exemplo, com a Alemanha em relação à Rússia, com o gás. Estes países, como a China e a Rússia, não são países fiáveis em termos comerciais, são países que usam o comércio como arma.
Claro.
E portanto, em qualquer momento a podem usar, e se estivermos presos a eles, sofremos as consequências. Se ficarmos completamente dependentes de certas cadeias de abastecimento, isso é altamente vulnerável para nós e são utilizadas de forma política e estratégica, não apenas económica. Não estão ali apenas para ter lucro, estão ali para estabelecer uma relação de dominância. E esses cuidados têm que ter. Mas sim, temos que nos abrir à China nesse aspecto, com os cuidados próprios de quem sabe que eles não negociam de boa-fé também.
Coronel José do Carmo, muito obrigada pela sua análise. Em mais um Gabinete de Guerra. Um bom dia para si. Muito obrigada.
Muito obrigado.