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Este é o Som do Gabinete de Guerra das manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões. A análise hoje é do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno. Bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia.
Bom dia. Começamos pelo discurso de Donald Trump no Parlamento israelita. Disse que este acordo de paz não é só o fim da guerra e do terror, é o início da era da fé e da esperança. Bruno, estás tão otimista quanto o presidente dos Estados Unidos?
Estou talvez ligeiramente menos. Donald Trump tem realmente essa grande característica, e acho que é uma grande virtude, provavelmente, que é ser cronicamente otimista e às vezes até hiperbolicamente otimista. Se calhar, isso também foi crucial para ter confiança que ia conseguir fazer algum tipo de acordo no Médio Oriente, que é realmente um vasto cemitério de planos de paz e de ambições de paz. Mas realmente acho que temos de ser um pouco mais prudentes como analistas.
E que deem conta à História.
Exatamente. Inclusive, muitos presidentes norte-americanos, começando logo com o presidente Truman, mas passando por basicamente todos eles, a partir de 1948, tiveram algum tipo de iniciativa de paz, em alguns casos várias, e realmente ainda não temos paz, nem no Médio Oriente, nem sequer na questão palestiniana. Temos que ter alguma prudência. Acho que, em todo caso, é bom sinal que, de facto, tenha havido aquela cimeira no Egito, em Sharm el-Sheikh, e é um bom sinal que tenha havido um acordo nestes pontos iniciais e que esse acordo tenha começado a ser implementado, nomeadamente com a libertação de reféns e prisioneiros. Mas vamos ver agora o que se segue.
Exato. E Israel acusou o Hamas de criar entraves à entrega dos corpos dos reféns. O grupo islâmico nega, fala em limitações, mas Bruno, este pode ser o primeiro incumprimento do acordo?
Sim, e para já, há realmente duas queixas. Uma tem a ver com essa questão da entrega dos cadáveres dos reféns. É um número muito reduzido é que foi entregue. Trump pareceu não ter problemas em contrariar as críticas israelitas e, portanto, dar este sinal de que aparentemente continuará realmente a procurar ser aqui um pouco o mediador ou adjudicador, apesar da proximidade pública, que também ficou pública ontem com o Netanyahu, em relação ao qual até pediu, aliás, publicamente, digamos assim, perdão dos seus problemas judiciais. Mas apesar disso, de facto deu a entender que percebia porque é que era difícil a recuperação dos cadáveres e que era preciso alguma paciência e algum tempo. Mas a outra grande questão é a presença de homens armados do Hamas, terroristas do Hamas, publicamente na Faixa de Gaza. Esta ideia de que se iam desarmar também já foi contestada publicamente, de que isso ia acontecer. Parece haver, de facto, pelo menos numa parte do Hamas, uma resistência a essa ideia. Ora, essa parece ser uma condição fundamental para o processo poder avançar, inclusive também com alegações de que estariam a executar sumariamente alguns opositores internos, que é o que o Hamas faz sistematicamente. Não usa só esse tipo de violência terrorista contra os israelitas, mas também contra a população palestiniana em Gaza, desde que tomou o poder pela força em 2007 e até antes disso.
Com a assinatura do acordo de paz, Trump vai tentar reposicionar Israel depois de ter sido muito criticado nos últimos meses pela comunidade internacional por causa do excesso de força em Gaza?
Parece-me que essa não é a principal preocupação nem do governo israelita. Em relação a Donald Trump, realmente parece ter sido também um dos argumentos que ele utilizou.
E Netanyahu agradeceu muito a defesa de Donald Trump.
Exatamente, que iria ajudar Israel a ultrapassar estas críticas e a pressão que tem sido alvo. Mas realmente não me parece que essa seja a questão principal para Netanyahu ou mesmo para muitos israelitas que já estão habituados a estas críticas, que tendem a vê-las como excessivas e que têm muito a ver com uma posição a priori hostil a Israel. Do meu ponto de vista, não é muito crível que haja aqui uma alteração fundamental na posição de uma série de países que historicamente foram países aliados de Israel. Eventualmente, sim, mas em termos da opinião pública e sobretudo destes movimentos mais militantes, parece-me difícil que isso aconteça. Parece-me realmente haver aqui uma posição de hostilidade cristalizada em relação a Israel que dificilmente se irá alterar, mas obviamente, à partida, esse seria um dos objetivos, pelo menos de longo prazo, e seria o mais racional. Havendo aqui um processo de paz, por exemplo, deixassem de existir acusações do tipo de genocídio. Historicamente, não há assim muitos exemplos de um ator de um genocídio que tenha sido suscetível a um processo de paz.
Bruno, e o Hamas, qual é o futuro do grupo terrorista? Que não desarmou, nem sabe quando vai desarmar, se é que isso algum dia será possível.
À partida, aparentemente aquilo que o acordo pressupunha era que o Hamas aceitasse que não ia ter um papel político no futuro de Gaza ou até da Palestina e que também não iria ter um papel militar ou nesta violência armada, porque se iria desarmar. Esse parece ser o pressuposto do acordo. Mas é importante recordar que apesar de todas as declarações de ontem, de Trump e de outros líderes também, a verdade é que ainda só houve acordo nos quatro ou cinco pontos iniciais dos tais 20 pontos e não há aí um compromisso inequívoco nesse sentido. O que vimos até agora realmente não é isso. Pelo contrário, continuamos a ver, como eu referi, com o cessar-fogo, o que aconteceu foi que os homens armados do Hamas vieram publicamente para as ruas de Gaza. Não vemos sinais, para já, disso estar a acontecer. Em todo o caso, e mesmo que venha a acontecer, o meu ponto é sempre este, que é: como é que se garante o completo desarmamento de um grupo irregular, que tem toda uma tradição também de organização na clandestinidade, que está habituado a esconder-se no seio da população, a esconder armas, etc.? E mesmo que isso viesse a acontecer, pode sempre haver esta questão de que essas pessoas não vão simplesmente desaparecer. Inclusive, no acordo está prevista essa ideia de uma espécie de anistia também, até para quem esteve envolvido na violência armada. Essas pessoas continuarão lá, podem sempre voltar a organizar-se de outra forma, seja para a luta armada, e até com outro nome, seja para a luta política.
Bruno, ontem eu ouvi vários analistas, comentadores dizerem que é uma questão de tempo até tudo voltar ao mesmo, que nunca haverá paz naquela região. O papel dos Estados Unidos, Egito, Qatar, Turquia, que assinaram uma declaração com vista à manutenção de paz em Gaza, pode de facto fazer a diferença aqui?
Eu acho que também nunca se deve dizer nunca. Realmente temos de ver. Acho que uma coisa que pode realmente fazer a diferença, que pode ajudar a dar um impulso grande a este processo de paz, é haver um amplo consenso regional e até global, no sentido do processo avançar. É o facto de o Estado que mais se empenhou na promoção da violência armada nesta região, num processo de estabilização, de subversão violenta, que é o Irão, estar muito enfraquecido. Desse ponto de vista, haver aqui Estados, inclusive Estados que deram apoio importante ao Hamas nos últimos anos, como o Qatar ou a Turquia, também envolvidos no processo, é realmente bastante importante. Agora, o meu ponto é que o que a história também nos mostra é que por muito que haja um grande empenho regional, até de potências globais num processo de paz, se realmente as partes, se os actores locais não querem avançar para um processo de paz, continuam convencidos que a luta armada faz sentido ou é necessária, aquilo que a história nos mostra é que pode haver ali um período de acalmia temporário, mas depois o conflito volta a existir. Eu recordo, por exemplo, a questão de Angola, que durante muito tempo se dizia que a guerra civil era simplesmente uma questão da Guerra Fria global e de ser uma guerra por procuração, uma guerra indireta entre grandes potências, etc. E depois do fim da Guerra Fria e de um amplo processo de paz, que envolveu uma série de actores, a verdade é que a guerra acabou por regressar e depois só acabou por dinâmicas, sobretudo internas de Angola.
Sobre a guerra na Ucrânia, Donald Trump confirma que vai reunir-se com Zelensky em Washington, na sexta-feira. E há uns dias, Dmitry Peskov disse que o convite de Putin a Trump para visitar Moscovo continuava em cima da mesa e que Putin ficaria muito feliz em encontrar-se com o presidente norte-americano, que ainda não se pronunciou. Bruno, depois do Alasca e com o acordo em Gaza, qual deverá ser a posição ou a resposta de Donald Trump?
Eu espero que seja uma resposta negativa. Eu não tenho dúvidas que Putin gostaria que Trump visitasse Moscovo, seria mais uma grande vitória diplomática, independentemente do que acontecesse. Sabemos que Donald Trump é muito susceptível nestes encontros pessoais, muitas vezes acaba esses encontros um pouco a repetir a narrativa ou pelo menos aspetos da narrativa do interlocutor, do líder com quem se encontrou. Neste momento, realmente, parece haver sinais fortes de uma crescente impaciência de Donald Trump com Putin e com a Rússia, e de ter percebido ou de haver setores na administração que o fizeram perceber, e entre líderes também de várias potências tradicionalmente aliadas, que realmente a Rússia não estava a negociar de boa-fé, não está interessada num cessar-fogo e não estará enquanto não estiver convencida de que a Ucrânia não vai colapsar militarmente ou que não vai continuar a conseguir ganhos pela via militar, mesmo com enormes custos, quer para a população ucraniana, quer em termos de carne para canhão entre os soldados russos, que é aquilo que está a acontecer. Para isso é fundamental haver aqui um sinal forte de que os Estados Unidos não vão abandonar a Ucrânia, que vão continuar a armar a Ucrânia e até que eventualmente vão reforçar esse apoio. Toda esta discussão, por exemplo, em torno de fornecer mísseis de Tomahawk, que têm um alcance e uma potência muito superior aos sistemas de armamento que a Ucrânia já tem, pode ser aqui uma forma muito importante. Para já, já é uma forma de fazer pressão. Acho que provavelmente é isso que ajuda a explicar esse tipo de declarações de Peskov e não propriamente uma grande intenção de avançar com negociações de paz de boa-fé e acho que isso é crucial que continue e eventualmente se concretize.
Bruno Carlos Reis, obrigada pela análise. Até amanhã para mais um Gabinete de Guerra.
Obrigado.
Até amanhã, Bruno. Obrigada.