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Este é o Som do Gabinete de Guerra das manhãs 360 esta terça-feira com análise do historiador Bruno Cardoso Reis, a partir dos Estados Unidos. Olá Bruno, bem-vindo.
Olá, obrigado.
Bruno, como esta semana só nos vamos cruzar esta manhã e porque estás em Washington, gostava de começar pelo Dia da Libertação amanhã, o dia em que Trump vai anunciar o seu grande plano de imposição de tarifas a milhares de parceiros comerciais. Estando tu aí nos Estados Unidos, não sei se terás acesso a mais informação do que nós, mas as dúvidas que todos têm é se Trump vai optar por uma política seletiva ou se vai aplicar uma política igual para todos.
Eu acho que todas as dúvidas em relação a Trump são justificadas, embora haja aqui um dado permanente que é realmente esta opção que ele tem pelas guerras comerciais, pela aplicação de impostos alfandegários, tarifas. Esta opção sempre o máximo de fechamento e isso realmente é algo que é recorrente nele há muitas décadas. Depois, também, indo mais diretamente à questão, há esta questão se ser seletivo, que eu diria que tende sempre a ser a política preferida de Donald Trump, ou seja, a grande vantagem também desta opção pelos impostos alfandegários é que corresponde a outra opção de Donald Trump, que é concentrar poder, controle da riqueza nele, nas pessoas próximas dele. Obrigar os outros actores políticos e económicos, seja países, seja empresas, a virem falar com ele, pedir favores. Supostamente, seria aqui uma espécie de grande declaração de um plano de guerra comercial geral, mas ninguém sabe muito bem o que vai acontecer. Aliás, muitos países, a própria União Europeia, um pouco a adiar medidas de retaliação, etc., porque querem ver exatamente o que é que vai avançar. Mas o grande problema aqui é que tudo isto aumenta muito a incerteza na economia global. Enfim, estavas a referir, eu estou aqui nos Estados Unidos, por exemplo, desapareceu o azeite que nós costumamos comprar, o azeite grego que costumamos comprar, porque está toda a gente com receio que subam muito os preços dos produtos que vêm da Europa. É difícil aqui arranjar bom azeite, azeite decente e as pessoas, mesmo que continue a estar disponível o produto, provavelmente vai ser mais caro e pelo sim pelo não, compra-se mais. Tudo isto aumenta a incerteza, aumenta a tendência, claramente, para os preços também subirem. Não sabemos em que proporção, até porque não é claro se Trump vai abrir aqui múltiplas exceções ou não, mas tendencialmente, também não sabemos se os vendedores, os compradores, em parte tentarão absorver um pouco desses preços, mas a tendência será sempre para produtos mais caros e também em termos das dinâmicas da economia, para mais dificuldades em avançar com grandes investimentos, porque não se sabe muito bem com o que se contar. Tudo isso à partida são más notícias para a economia americana e são más notícias para a economia global, inclusive para os principais parceiros económicos dos Estados Unidos, como é o caso da Europa. Vamos ver se têm consequências económicas e políticas também suficientemente rápidas para isso levar também a que Donald Trump possa ter isso em conta e eventualmente possa recuar nesta opção, que é realmente recorrente há muitas décadas.
Sobre o que se passa na guerra entre a Rússia e Ucrânia, Putin assinou um decreto para o recrutamento de 160 mil homens para cumprirem serviço militar. São mais 10 mil face ao ano passado. Bruno, isto é mais um sinal de que, como disse Zelensky, a Rússia não tem real interesse em propostas de cessar-fogo e que o conflito está para durar?
Sim. Para sermos completamente rigorosos, não seria de estranhar que um país que ainda está num conflito e que eventualmente a avançar seria para um cessar-fogo temporário, sem um compromisso mais amplo, continuasse a garantir que tinha tropas em quantidade. Aqui a grande contradição é que, obviamente, Putin exige este género de coisas da Ucrânia. Diz que é uma prova, ou seria uma prova, ou seria uma condição para avançar para a paz, a Ucrânia não se rearmar, a Ucrânia não estar a recrutar, etc. E depois ele próprio, obviamente, reserva-se o direito de fazer tudo isso. Essa combinação em si é que nos leva, de facto, a pensar que não está de boa fé e que o que está aqui a preparar-se é para tentar forçar o máximo de concessões da Ucrânia, aproveitando o facto de terem Donald Trump alguém que não quer saber propriamente da defesa da liberdade na Europa, da segurança dos países europeus, da defesa do direito dos ucranianos a definirem o seu próprio futuro, quer sobretudo aqui rapidamente um acordo, quer brilhar no palco internacional, quer extrair concessões também ao próprio da Ucrânia e de outros países e tentar fazer aqui um acordo que seja o mais vantajoso para ele, o mais complicado possível, o mais desvantajoso possível para a Ucrânia e depois, numa altura mais conveniente, quando já tiver recuperado equipamento, forças, etc, poder retomar uma ação agressiva contra a Ucrânia.
Zelensky diz ainda que a Rússia tem que ser forçada a fazer a paz. Só com pressão poderá se ter. Bruno, quem o pode fazer se nem Trump parece estar a ter sucesso, mas sim, aparentemente a ser empatado enquanto Putin vai avançando na Ucrânia?
Realmente não há mais ninguém para fazer isso. Podíamos pensar aqui no cenário hipotético, a China, se a China alinhada com os Estados Unidos, enfim, se a Índia alinhada com todos aqueles países dos BRICS, por exemplo, que têm estado a ter aqui um papel importante em termos económicos, como mercado alternativo para a Rússia, por exemplo, a exportação de combustíveis Tudo isso realmente podia ajudar, mas isso não é muito realista. Não temos razões para esperar que isso aconteça. O grande problema é que realmente os Estados Unidos do Donald Trump, que até poderia, no fundo, é um pouco a tradição do Partido Republicano mais do que até do Democrático, assumir aqui uma linha dura em relação à Rússia. Havia certos setores no Partido Republicano que realmente pareciam apontar nessa direção. Realmente essa era até a tradição do Partido Republicano, portanto, no fundo, a ideia de que o que era preciso era reforçar as sanções, reforçar o envio de armamento sem limites para a Ucrânia. Eu, aliás, considero que essa realmente seria uma opção que faria todo sentido, porque realmente a Rússia também está numa situação muito difícil, inclusive em termos econômicos. Estamos a falar de taxas de juro acima dos 20%, taxas de inflação acima dos 10%, um enorme desgaste em termos de baixas, de material, etc. Mas não foi essa a linha, realmente, que Donald Trump seguiu e portanto, realmente, desse ponto de vista, não há alternativas, ou seja, a Europa por si só pode tentar compensar aqui uma retirada dos Estados Unidos, sobretudo manter a capacidade da Ucrânia se ir defendendo e portanto evitar um completo colapso da resistência. Mesmo isso implica alguns riscos, porque a Ucrânia já está numa situação difícil há vários anos e portanto, de repente, ficar numa situação ainda mais complicada psicologicamente também pode ter um impacto muito negativo. Mas a verdade é que realmente, não sendo os Estados Unidos, não se vê quem é que poderia fazer isso. E de fato, não há razões para acreditar que Putin negocie de boa-fé. Nunca fez isso em toda a sua longa carreira, que já vai em 25 anos. Sempre esteve à vontade em assinar acordos que a seguir viola, em fazer declarações, avançar com garantias que depois não cumpre. Enfim, eu recordo, basta pensar, por exemplo, na Crimeia. Em 2014, Putin garantiu que era o único território da Ucrânia que a Rússia queria, que era uma situação excepcional, não tinha mais nenhum interesse em nenhum outro território. Recordo que em 2022 e em 2021 passou meses e meses a negar que ia haver uma invasão e no dia da invasão disse que não ia anexar território ucraniano. E sabemos o que é que aconteceu a seguir. Portanto, realmente, isso significa que pode ser necessário negociar com Putin. Agora, confiar nele, confiar na boa-fé dele, é alguém que ninguém de bom senso fará.
Sobre o Médio Oriente, temos obrigatoriamente falar do caso Catargate. Dois conselheiros de Netanyahu foram detidos, ouvido como testemunha o primeiro-ministro israelita de estar a ser alvo de perseguição política. Bruno, o que mais se sabe e que impacto pode isso ter no conflito em Gaza?
Isto parece ser, no fundo, mais um exemplo desta tendência que se está aqui a globalizar e em que a influência de Trump é evidente. E no caso de Israel, os Estados Unidos têm realmente uma particular influência, que é esta ideia de nunca reconhecer nada. Isso é supostamente atribuído ao velho advogado do Donald Trump, o Roy Cohn, também conhecido advogado da máfia, nunca confessar nada, nunca reconhecer nada, contestar sempre tudo, descredibilizar, atacar os procuradores, os juízes, quem nos acusa. E portanto, aqui, no fundo, aparentemente há provas sólidas de que dois assessores de Netanyahu estavam a receber dinheiro do Qatar para fazer lobby pelo Qatar ao mesmo tempo que estavam a trabalhar para o primeiro-ministro. E em vez de o primeiro-ministro se mostrar chocado com essa traição da sua confiança e dedicação exclusiva aos interesses nacionais de Israel, aparentemente acha que isto é uma coisa politicamente motivada e, portanto, que não há aqui nada. Obviamente, isto é especialmente grave porque o Qatar, ao mesmo tempo, era também o principal financiador do Hamas. Não há aqui nenhuma suspeita de que estes assessores, de alguma forma, estivessem ligados a essa dimensão da ação do Qatar, mas isto, no fundo, alimenta estas suspeitas de que Netanyahu e os seus próximos viam realmente nesta relação do Qatar com o Hamas, que era conhecida, e neste financiamento, não algo que fosse criticável ou que fosse muito negativo, mas eventualmente até uma coisa interessante para manter o Hamas sob controle, contente na Faixa de Gaza e não sendo uma ameaça mais violenta em relação a Israel. Obviamente, isso mostrou-se que era uma completa ilusão. Em parte explica também as falhas do 7 de outubro. Mas lá está, para Netanyahu, nada disso aparentemente é relevante, aquilo que é relevante é defender os seus próximos e dentro desta linha de lealdade política acima de tudo e de atacar a justiça quando ela se atreve a tocar alguém que lhe é próximo.
Entretanto, no terreno, as IDF emitiram um aviso de evacuação imediata em Rafah. Dizem que vão voltar a lutar com grande força no sul da Faixa de Gaza. Bruno, a segunda fase do acordo de cessar-fogo está cada vez mais longe.
Sim, falamos aqui várias vezes disso. Eu sempre mostrei grande ceticismo de que fosse muito realista esperar que avançasse com facilidade ou a todo. De facto, nunca avançou. A razão para isso é que realmente Netanyahu sempre mostrou que preferia a via militar do que qualquer avanço em termos de negociação mais política. Parece ter alguns resultados na dimensão militar, também há que reconhecer isso, embora esta campanha, uma campanha de contra-insurreição mais sistemática, vá ser uma coisa bastante mais custosa, com uma pressão adicional sobre as Forças Armadas israelitas que já estão muito pressionadas e muito desgastadas por um conflito já bastante mais longo do que aquilo que Israel costuma preferir. Mas em todo caso, isso também tem, além disso, vantagens políticas para Netanyahu, porque ele estava em risco de não conseguir aprovar o orçamento agora no final do mês, em 25 de março. Se isso acontecesse, teria de haver eleições, em vez de em 2026, e que ocorria o risco de ter um mau resultado. E portanto, com isto conseguiu recuperar os seus velhos aliados da direita radical israelita, da extrema-direita israelita, que voltaram ao governo, aprovaram o orçamento e portanto, do ponto de vista também da sua sobrevivência política, parece ser uma aposta que faz sentido, mesmo que do ponto de vista dos próprios militares israelitas, parece evidente que há alguns com dúvidas se esta será realmente a melhor aposta, sobretudo em termos dos manuais. Há aqui várias coisas que os israelitas provavelmente irão fazer e que corresponde aos manuais, ou seja, tentar fazer triagem da população, separar a população da guerrilha, fazer sistematicamente a limpeza das zonas e depois a ocupação dessas zonas e não aquilo que fizeram no passado, que era rapidamente retirarem. Mas aquilo que os manuais também mandam fazer é ter uma estratégia política de captação dessa população, lhes dar uma alternativa melhor do que manterem-se aliados à guerrilha, ao movimento armado. E realmente, nesse aspecto, não parece haver nenhuma disponibilidade de Israel para avançar nesse sentido.
Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela análise a partir dos Estados Unidos. Uma boa semana, Bruno.
Obrigado, boa semana.