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Abrimos a porta mais um Gabinete de Guerra, programa em que fazemos a análise aos conflitos em curso no Médio Oriente e na Ucrânia. Hoje junta-se a nós o major general João Vieira Borges. General, bem-vindo.

Muito boa tarde.

Boa tarde. Hoje começo pela Ucrânia. O representante de Donald Trump para o conflito no país diz que os Estados Unidos querem eleições na Ucrânia depois de um eventual cessar-fogo. Quererá isto dizer que Trump preferia ter outro líder em Kiev para ajudar as negociações?

Isto quer dizer que as pressões de Putin estão já a sentir efeitos. Portanto, como dizia ontem e anteontem Trump, já havia contatos, nós já tínhamos conhecimento desses mesmos contatos, daquilo que inclusivamente eram as imposições da parte de Putin. Inclusivamente, também a semana passada em jornais no "Corriere della Sera", em jornais italianos, havia entrevistas a assessores de Putin que diziam que esta era uma condição obrigatória, ou seja, novas eleições, porque não há legitimidade da parte de Zelensky para continuar no poder. Ora vai, isto é mais uma questão que nós sabemos que tem mais relação com o facto de não quererem negociar com Zelensky, quererem alguém no poder que lhes seja favorável, ganharem tempo para, obviamente, tal como fizeram nos Estados Unidos e fizeram no Reino Unido com o Brexit, e têm feito na Roménia e noutros países, poderem depois interceder no sentido de terem no poder quem quiserem, seja por desinformação, seja por outros meios. E portanto, os Estados Unidos estão a ceder aí, claramente. Esperemos que não cedam também em tudo aquilo que são as imposições de Putin.

O presidente russo Vladimir Putin, que disse em entrevista que considera que os políticos europeus vão acabar por obedecer a Donald Trump, usa a mesma expressão, "vão abanar a cauda em sinal de subserviência". Ainda não conhecemos os planos de Trump para acabar com o conflito, mas o que se pode esperar da resposta da Europa a estas negociações ou a esses possíveis planos?

A resposta da Europa, curiosamente, está hoje a ser discutida, não só a resposta, mas a maneira como vai ser dada essa resposta, sobretudo na dimensão militar, porque a União Europeia funciona em várias dimensões, não só de apoio humanitário, não só apoio financeiro, mas também apoio militar. Não é uma organização militar, é uma organização económica, política, tem uma dimensão diferente, os seus dirigentes pensam de maneira diferente, felizmente, daquela que pensa Putin ou que pensa Trump. Estão reunidos exatamente para encontrar os mecanismos e esses mecanismos implicarão certamente as respostas. E as respostas também já vimos quais vão ser. Certamente não vão ser de calar em função das taxas impostas por Trump e não vão ser de calar perante qualquer posição que tenha relativamente à Ucrânia, disso que estamos a falar. E, portanto, o apoio à Ucrânia vai se intensificar em termos militares. Isso mesmo foi dito há pouco, inclusivamente fora da própria reunião por Kallas, numa reunião já com o Ministro dos Negócios Estrangeiros. Foi claramente dito exatamente que esse apoio, que já é considerável, saliemos. Uma coisa são os apoios dos Estados Unidos prometidos, outra são os apoios reais. Como dizia ontem Zelensky, que dos 177 bilhões de dólares, afinal são cerca de, se não me engano, 76 bilhões que foram recebidos. E isto tem a ver com vários aspetos, não só por causa daquela pressão já da administrada dos republicanos no final de 23, com os tais 60 bilhões, mas tem a ver também com atrasos sucessivos da parte de apoio dos americanos. Aqui, a Europa, curiosamente, está muito próxima. Quando nós vemos que na prática, no teatro de operações, em termos militares, afinal, nós não estamos muito distantes, mesmo em termos militares, 60 para 76 mil milhões. Portanto, a resposta, agora em resposta concreta, eu acho que a Europa vai ter uma posição muito própria, não vai abanar a cauda, certamente, a Trump, até porque Trump, as medidas que tem tomado, a postura que tem tido, uma postura imperialista, claramente, tem incomodado particularmente a Europa, e não é só a Dinamarca, e isso terá certamente consequências na resposta. Não vai ser de abanar a cauda, certamente.

Mas é cada vez mais inevitável para a Europa aumentar os gastos em defesa?

Não, isso é indiscutível, e não é de agora, e não é de há três anos, já era antes, já era de há 11 anos, com Gallos. Todos tinham consciência, só que as democracias funcionam assim. As democracias, obviamente, têm os ciclos eleitorais, esses ciclos eleitorais vão ao encontro das expectativas das pessoas. Para ganhar eleições é preciso ir ao encontro dessas expectativas e, portanto, a defesa não fazia parte desses pacotes. E, portanto, independentemente da perceção maior ou menor da guerra da Polónia até Portugal. Agora, é evidente que a situação se foi agravando e a situação neste momento é tão crítica, quer no teatro de operações da Ucrânia, quer naquilo que tem a ver com a diminuição de apoio da parte dos Estados Unidos à própria NATO, e portanto, a obrigação de maior apoio para funcionar como dissuasão a organização. Como dissuasão, quer perante a Rússia, quer perante outro qualquer ator que apareça na Europa, mais tarde ou mais cedo. E portanto, nesse sentido, as pessoas, o cidadão comum também já tem essa perceção e esse fator não é um fator decisivo nos tais ciclos eleitorais. É importante, não é decisivo. Como nós temos visto, infelizmente, o mais decisivo têm sido as questões de imigração. Não foi só nos Estados Unidos, foi também na Europa Que está a ser na Europa, está a ser na Alemanha. É uma questão que ultrapassou a dimensão da defesa, é a questão da imigração. E a defesa as pessoas já vão aceitando em geral, agora a maneira como se faz, cada país fará da sua maneira, a maneira como se utiliza politicamente a questão da porcentagem do PIB em defesa é importante e cada país deve ter a sua autonomia própria para ir ao encontro daquilo que são as necessidades, as capacidades em termos militares, para se tornar verdadeiramente dissuasora e não verdadeiramente armamentista. E aí faz parte uma coisa que é muito importante, que é a questão da investigação em segurança e defesa. A investigação, a indústria de defesa, como vai no relatório Draghi, claramente relacionado com competitividade, com inovação, com crescimento. Isso é importante trabalhar nesse sentido como indústria de defesa e não como indústria de guerra, que é o caso da Rússia, que terá repercussões negativas, já está a ter, não visíveis, mas que terá repercussões negativas muito complicadas no futuro próximo.

Antes de passarmos ao Médio Oriente, hoje surge a notícia de que a Ucrânia já começou a usar tecnologias laser para atingir certos alvos russos. Que impacto é que estas novas tecnologias podem ter para as experiências ucranianas na guerra? E pergunto-lhe já agora, em que é que consiste o uso desta tecnologia laser no teatro de guerra?

Eu em 1984 passei a ser oficial de bateria antiaérea. Estive no SIAC em Cascais, nessa altura já se falava nesses testes com armas laser. O problema das armas laser era e continua a ser fundamentalmente as fontes energéticas para ter eficácia e sobretudo a uma distância de média e alta altitude, pelo menos até aos 5 km. E isso tem sido uma luta desde então, dos anos 80 até aos dias de hoje. Quem investigou ou quem fez maior investigação nessa área, o que é compreensível, tem sido Israel. E em simultâneo, neste período das guerras, a investigação da defesa acelera e os indicadores que temos é que efetivamente, quer em Israel quer na Ucrânia, já haverá capacidade para ter armas antiaéreas que façam a destruição dos alvos a distâncias superiores a 100 km com unidades de energia suficientemente pequenas, que é o caso de uma viatura com um contentor. Nós ainda não temos visto isso no terreno, é tecnologia de ponta, e estão a aparecer relatórios, tal como a questão dos robôs, nos quais se incluem os drones, na minha perspectiva, a evolução que têm tido nos últimos três anos dizem respeito exatamente à questão da guerra. E é na guerra que se testam, se faz testes em operações, e não é só a Rússia que os anuncia. A Ucrânia tem-nos feito independentemente de só anunciar no final. A Rússia usa isso como dissuasor. Mas estas tecnologias, obviamente, que vêm também da sociedade civil, não só da indústria militar, vão nos trazer certamente também coisas positivas para todos nós. Até porque o raio laser estava obviamente em várias áreas, desde a área médica até à área industrial, mas não tinha capacidade para destruição de aeronaves sem ter determinado tipo de efeitos colaterais. Tudo isso está a ser testado e certamente teremos novidades. Eu já espero por elas desde os anos 80, imagine.

Passamos então para o conflito no Médio Oriente. Hoje surge a notícia de que o gabinete de Benjamin Netanyahu recusa confirmar o cumprimento da segunda fase do cessar-fogo com o Hamas. Esta segunda fase previa a retirada completa das tropas israelitas da Faixa de Gaza e do corredor de Filadélfia. Que consequências é que esse não cumprimento desta segunda fase pode vir a ter?

Eu acho que não é bem não cumprimento, é um atraso e ele justificou porque está em Washington, tem amanhã um encontro com Trump, que visa, nas palavras dele, pelos vistos, redesenhar o Médio Oriente, ou seja, incluir neste processo outros atores e outras questões, para além das questões dos reféns, para além da questão do Hamas, é sobretudo a questão do futuro na região. E a relação com o Irão, todas estas questões vão ser discutidas. O atraso, por outro lado, teve aqui uma fase diferente em que se avançou já para a proteção dos feridos e mais de 50 feridos, sobretudo crianças, passaram a fronteira, que estava só previsto a partir de hoje, quando fosse a segunda fase. Há aqui muitas questões que eu acho que devem ser acauteladas numa perspectiva mais global e manter a esperança de que ela vai incluir o acordo, o retorno, que eu queria dizer, dos reféns vivos que faltam, os tais 33, pelo menos, em troca de prisioneiros de guerra, não direi todos, mas dos prisioneiros palestinianos, e sobretudo da retirada, não sei se será total ou será parcial, de Gaza. Isto é meramente uma questão de um dia, porque nós sabemos que inclusivamente há contactos. Ontem o primeiro-ministro do Qatar referiu que estava a haver contactos e encruzilhamentos já antes relativamente ao tema. Os atores serão eventualmente outros, que não propriamente os que estavam nas primeiras negociações. Estamos numa visão mais diplomática e não tanto militar. Vamos esperar pelo menos até amanhã para ver então a evolução, mas eu julgo que será um caminho mais positivo, que há interesse de todas as partes, em que pelo menos a segunda fase. A terceira fase é que eu julgo que será muito mais complexa, que tem a ver exatamente com a governança da Faixa de Gaza. Aí sim, será mais complexo. Agora nesta fase, eu julgo que não

Uma fase complicada como já é há várias décadas. Entretanto, o Benny Gantz, antigo ministro do governo Netanyahu e líder do partido a União Nacional Israelita, diz que chegou a hora de desmantelar o projeto nuclear iraniano. Quais são as hipóteses disso vir mesmo a acontecer e que papel os Estados Unidos poderiam vir a desempenhar nesse processo?

Há duas maneiras de o fazer. Uma maneira, um caminho mais diplomático com vários atores intervenientes, inclusivamente para além dos Estados Unidos, a própria Rússia e a China. O outro será de âmbito mais militar, que é o que tem acontecido ultimamente, com a destruição ou de centrais ou com a matança de líderes investigadores dos processos. É isso que tem acontecido nos últimos anos, atrasando todo o processo, se não estiver já em curso a capacidade ou se não for já real a capacidade do próprio Irão em termos de produção de armas nucleares. São as duas dimensões, nós não temos todos os dados. Certamente que isso será discutido amanhã. Aliás, ele também o disse publicamente, Netanyahu disse que ia discutir a questão do Irão. Portanto, quando se fala de Irão, é Irão como ameaça, não só pelos proxies, mas como ameaça fundamentalmente pela sua capacidade em termos nucleares. E isso incomoda não é só Israel, incomoda também a Arábia Saudita naquele processo complexo que estava a ter avanço em 2020, nos acordos de Abraham. E depois aquilo que foi a intervenção da própria China naquilo que foi, se não me engano, já em 2023, numa aproximação entre xiitas e sunitas, xiitas do Irão e sunitas da Arábia Saudita, no sentido de trocas, inclusivamente de embaixadas, de uma maior aproximação. Agora, é evidente, é uma ameaça para Israel, mas também é uma ameaça para a Arábia Saudita naquela região complexa em que os conflitos não são só contra os israelitas.

E continuamos a falar do Irão, o porta-voz da diplomacia de Teerão diz que a proposta de Donald Trump, conhecida já a semana passada, de retirar os palestinianos da Faixa de Gaza, não é mais do que limpeza étnica. Eu pergunto se faz sentido esta reação do Irão e se este plano da Casa Branca é exequível.

O plano é exequível. O problema são os atores em causa, neste caso a Jordânia e o Egito, estarem ou não de acordo, e não estão de acordo por razões diferentes. Sobretudo a Jordânia, que tem mais de um milhão, eu agora não tenho presente o número, mas um número elevado já de palestinianos. O Egito também por outras razões de foro político e de estabilidade, e obviamente com números tão elevados levaria à instabilidade, não só na zona fronteiriça, com consequências exatamente para o próprio poder, que já está em situações muito complexas quando falamos de conflito entre sunitas e xiitas no próprio interior. Portanto, a linguagem do Irão é uma linguagem sempre extremista relativamente aos posicionamentos dos Estados Unidos. Eu acho que nem a linguagem de Trump é a mais adequada, muito menos a linguagem do Irão, de que seria uma limpeza étnica. Aliás, Trump às vezes é demasiado transparente na sua linguagem e fundamentalmente aquilo que ele queria era mais uma vez negócio, era retirar a população para fazer a reconstrução do território. Não se empenhou naquilo que seria o futuro, se seria uma Palestina. Se se tivesse empenhado nesse sentido, era diferente. E portanto, aquilo que vamos ver são sucessivas aproximações a uma solução de governança, e isso fará parte do processo, porque se ele der garantias que efetivamente essa população ao sair, podem não ser dois milhões, mas se for 700 mil ou 600 mil, favorece a reconstrução, mas por outro lado, favorece também aquilo que será a governança de um novo Estado palestiniano, os tais dois Estados naquela região, com aceitação de todas as partes também e reconhecimento do Estado de Israel também pela Arábia Saudita e outros países, obviamente que o Irão irá mudar de opinião, tal como os países ali à volta, a começar pelo Líbano e a acabar nos países até que têm tido intervenção direta, como é o caso da Turquia neste processo.

E para fechar, senhor general, mas este plano não poderia abrir uma crise de refugiados grave com tanta gente a sair da Palestina?

Eu acho que a crise já lá está. Portanto, a desgraça está lá. A dificuldade, seja naquele espaço, seja noutro concertado, obviamente que seria preparada todas essas zonas onde eles iriam, seriam acompanhados, as Nações Unidas aí teriam a intervenção que não podem ter aqui, quer porque Israel não apoia, quer porque também não há condições. Portanto, trabalhado, obviamente, acho que seria vantajoso. A ideia não é má no sentido em que tem é que ser dadas garantias, as condições de segurança e, por outro lado, dadas garantias de futuro. Agora, o problema é que neste momento também, se me permite, a situação no terreno, e basta ver as declarações de quem lá está, obviamente que não permite o mínimo de condições para seja o que for de recuperação, de reconstrução e de governança. Portanto, vai ter que ser trabalhado, porventura, com outros atores que não só estes diretamente belidados e que nós temos estado a falar. A própria China tem interesse na estabilidade na região e era importante que como ator também participasse, como já participou em 2023, a própria Rússia. Isso acho que era positivo para todas as partes e sobretudo para a paz na região.

Major General João Vieira Borges, muito obrigado por ter estado na Rádio Observador. Fica por aqui mais um Gabinete de Guerra. Estamos de volta amanhã.

Muito boa tarde.