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Está aberto o Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Neste programa, todos os dias falamos dos conflitos em curso, com destaque para a situação na Ucrânia e também no Médio Oriente. Vamos estar nos próximos minutos à conversa com o major-general João Vieira Borges, a quem agradeço mais uma participação neste Gabinete de Guerra. Muito boa tarde. Vamos começar com a situação na Ucrânia, até porque hoje o Parlamento ucraniano aprovou a extensão da lei marcial. Foi estendida até 6 de agosto. Pego neste assunto porque de facto esta lei marcial tem sido prolongada consecutivamente desde o início do conflito, mas é também esta lei marcial que acaba por impedir que a Ucrânia entre em eleições, algo que tem sido exigido pela Rússia, algo que até já foi defendido pelos Estados Unidos da América, e é uma situação que o Kremlin já hoje veio criticar. Mas perceber consigo, major-general, e até para quem nos ouve, para quem nos escuta conseguir perceber também este ponto, não há outra opção. A Ucrânia está em guerra, tem que aplicar a lei marcial.
Muito boa tarde. Efetivamente, não há outra opção, estando em guerra, e que guerra. Uma coisa era a situação que se vivia no Donbass depois da ocupação da Crimeia. Aí foi uma situação diferente durante vários anos, só circunscrito a um determinado espaço. Neste momento, não, está em guerra declarada contra a Rússia, obviamente está a lutar pela sobrevivência, necessita urgentemente de mais gente, é uma das lacunas. Não estamos só a falar de material, estamos a falar de pessoal. A Ucrânia tem sérias limitações. Mesmo a Rússia neste momento está com problemas, quanto mais a Ucrânia, e nesse sentido é obrigatório. Agora, a questão que tem sido sempre discutida tem sido quando terminar com a lei marcial, no sentido de depois caminhar para eleições. Isso quando é depois de um cessar-fogo e depois de um acordo de paz. Todas as pessoas, com exceção do Kremlin, percebem isso. Julgo que até Trump percebe isso. Se calhar com dificuldade. Mas é óbvio para todos nós que acompanhamos a guerra há mais de três anos, que logo que haja um cessar-fogo, aí sim, haverá pressões para que acabe esta situação e que depois comecem a preparar eleições. Isso será natural e não é só por pressão do Kremlin, será também por pressão interna dos próprios opositores a Zelensky, que são os anteriores presidentes, inclusivamente.
Mas são compreensíveis as críticas do Kremlin, uma vez que este é um dos pontos que a Rússia exige, de certa forma, para iniciar discussões ou para começar essa discussão em torno do cessar-fogo, que a Ucrânia entre novamente numa discussão sobre a liderança. Sabemos que a Rússia não tem propriamente poder sobre isso, mas tem colocado isso em cima da mesa como um dos pontos que é essencial também para avançar com a discussão em torno do cessar-fogo.
Sim, esse era um dos objetivos políticos da Rússia. Nós sabemos, desde o início, que tinha a ver o primeiro com a desnazificação, o segundo, obviamente, também com a proteção das populações do Donbass, e obviamente que outro tinha a ver com o regime. Tendo a ver com o regime, obviamente, pretendiam a substituição. Isso faz parte, obviamente, é o Estado de direito que felizmente ainda funciona na Ucrânia, independentemente dessas pressões da parte do Kremlin. É evidente que havendo um processo eleitoral, tendo nós consciência, e não só consciências, sabendo nós, tendo nós dados concretos daquilo que é a capacidade da parte da Rússia naquilo que é a intromissão nos assuntos internos dos outros países, nomeadamente em campanhas eleitorais, através de uma guerra subversiva global, obviamente que isso faz parte do pacote. Para além dos quatro oblasts, para além da Crimeia, e já nem estou falando a nova Rússia, que eu acho que naquela conversa de quatro horas e meia, também discutiram claramente a questão da nova Rússia, que inclui mais outros quatro oblasts e não é só a dessa. Para além da questão de não entrada na NATO, para além do enfraquecimento do exército ucraniano, que faz parte do processo. Também esta é uma questão fundamental, porque eles sabem que se mudar, mudará sempre para uma situação que lhes será mais favorável e, portanto, estão a defender os seus interesses no sentido de ter ali uma nova Bielorrússia. A única maneira de ter uma nova Bielorrússia é haver eleições e eles terem intromissão nas eleições.
Muito bem. Entretanto, a Ucrânia e os Estados Unidos da América, está a ser noticiado hoje, vão assinar um memorando de parceria econômica num futuro próximo. Quem diz isto é a ministra da Economia do país, Yulia Svyrydenko. Faz uma publicação no Facebook em que refere negociações com progressos significativos com o objetivo de chegar a este acordo. Os Estados Unidos não chegaram a assinar o acordo de minerais, estamos a falar de um acordo de parceria econômica. Podemos mesmo levar a sério estes entendimentos que vão sendo feitos entre Estados Unidos e Ucrânia? Entendimentos que vão sendo discutidos, mas acabam por não ser assinados.
Exato. As mensagens nos últimos dias têm sido positivas, depois de uma primeira fase, que já lá estão desde sexta-feira, os ucranianos em Washington, depois de uma primeira fase em que responderam à proposta dos Estados Unidos, proposta essa que, segundo vinham nas notícias dos órgãos de comunicação social ucranianos, basicamente destinavam-se a pagar Aquilo que Trump indicou como encargos dos Estados Unidos desde o início da guerra. Estamos a falar de um Estado de direito, independentemente do presidente Biden não ser propriamente próximo de Trump, há um assumir do Estado e todo o apoio que foi dado, é apoio dado, ponto final. Era isso que entendia a Ucrânia, é isso que entende qualquer especialista em direito internacional, não é preciso ser leigo. A questão é que tentaram e pelos vistos conseguiram, foi isso que eu fui vendo, que isso ficasse retirado como pressuposto das negociações. O que quer dizer que teremos um acordo diferente, aquele que virá ao nosso conhecimento, que beneficiará certamente as duas partes. E eu julgo que aquilo que beneficia indiretamente a Ucrânia é o fato de não sendo ou não havendo condições de segurança, como contrapartida, ela está lá a partir do momento em que os territórios são concedidos para exploração aos Estados Unidos, obviamente, que se forem ocupados pelos Estados Unidos, tudo aquilo que fez parte do acordo, deixa de fazer e, portanto, deixa de haver dividendos para os Estados Unidos. No fundo, é uma pressão indireta no sentido de haver condições de segurança.
Olhando aqui para este conflito ainda na Ucrânia, hoje há a informação de que vão continuar as conversações com a China sobre os prisioneiros de guerra. Estamos a falar de cidadãos chineses, dois que foram capturados na Ucrânia, que estavam a combater pela Rússia, mas estavam a combater, pelo que foi detalhado, sem insígnia, portanto por sua própria responsabilidade, mas estão detidos na Ucrânia. Entramos aqui depois num processo normal entre os dois países quanto a estes prisioneiros?
Sim, é um processo normal. Julgo que até a própria Ucrânia tem noção que os poucos combatentes chineses que ali estão, até pelos interrogatórios que fizeram, não têm qualquer relação com o Estado, e portanto, é uma situação mais fácil de gerir, independentemente, inclusivamente, de haver relações quer económicas e até políticas entre a Ucrânia e a China, e era bom que elas se consolidassem. A China não quer intrometer-se nos assuntos externos de outros países. Este é um caso excepcional. Estamos a falar de chineses que querem voltar à China, não querem ir pra Rússia, apesar de terem combatido ao lado da Rússia, já percebemos isso, e também percebemos porquê. Portanto, é uma situação em que, pra além, certamente, da troca dos prisioneiros, haverá uma aproximação maior, no sentido de maior intervenção da China em todo este processo de paz, que nós obviamente nem vemos cessar-fogo, nem parcial, nem total, e muito menos um acordo de paz, a partir do momento em que as declarações do representante dos Estados Unidos, Whitcoff, é de que todas as imposições da Rússia continuam e, portanto, não houve negociação de qualquer uma. É o que nós chegamos à conclusão cada vez que ele faz intervenções. O único sentido positivo da intervenção que teve lugar e que hoje foi explorado por órgãos de comunicação social norte-americanos, foi exatamente a questão da possibilidade da pressão no sentido de negociações económicas entre os dois países serem reforçadas, pressionar a paz. Portanto, o que está a pressionar a paz não é a injustiça da guerra. Pelos vistos, é mais uma vez as questões econômico-financeiras entre os Estados Unidos e a Rússia, e a Rússia bem precisa disso em função das sanções, é que poderá levar a uma paz certamente imposta e certamente injusta.
Vamos falar aqui também do conflito no Médio Oriente, até porque estamos nos últimos dias, semanas já, a discutir aqui um possível entendimento entre o Hamas e Israel, os Estados Unidos a participarem também neste entendimento, a discutir aqui mesmo uma trégua, mas o Hamas afirma que para chegar a um acordo de tréguas, isso tem de incluir o fim permanente da guerra e a retirada de tropas israelitas de Gaza. Houve várias aproximações. Ontem foi noticiado que o Hamas não está disponível pra já para assinar o acordo, não tem estas garantias. É possível efetivamente chegar a uma garantia destas? É possível vermos Israel garantir que retira tropas de Gaza e garantir que não continua os ataques à Faixa de Gaza?
Não, não é possível. Já vimos que não. Basta ir nos "out times" de Israel e ver as declarações dos vários ministros, inclusivamente o próprio ministro da Defesa há pouco. E portanto, percebemos perfeitamente que essas quatro condições, no fundo, que disse há pouco, o fim da guerra, a troca de prisioneiros, ajuda humanitária, se não me engano, e a saída das forças, não será possível cumprir. Israel não aceita, há pouco foi dito, não aceita de modo algum retirar-se totalmente do território. A pressão, e a pressão internacional também devia ser nesse sentido, era finalmente o Hamas abdicar do seu instrumento armado e, portanto, não quer abdicar. A autoridade palestiniana, obviamente, já fez essa opção. A OLP tinha feito essa opção. Era uma esperança que havia neste cenário de grande pressão sobre o Hamas, mas o Hamas, obviamente, continua a esconder-se atrás do povo palestiniano, que continua a sofrer. E não saímos disto, não é possível. Isto são linhas vermelhas para as duas partes.
Mas é um problema quando estamos neste ponto em que não é apenas a sua análise, é de fato algo que temos ouvido praticamente todos os dias, que é não saímos disto. Estamos presos aqui em linhas vermelhas em que nenhum dos lados acaba por ceder.
Sim, ainda por cima, neste caso, o interlocutor Estados Unidos apoia deliberadamente Israel, inclusivamente naquilo que são as suas ações contra o direito internacional e nos crimes de guerra ou não, não sabemos, mas as imagens É preciso termos consciência de que efetivamente temos que ser neutrais nesse aspeto. Quando há mortandade, tanto faz ser na Ucrânia como em Gaza, e temos que olhar com o mesmo olhar, é isso que nós tentamos todos. E, portanto, os efeitos colaterais, quando falamos em efeitos colaterais em sul, temos que falar em efeitos colaterais na Palestina e temos que perceber que há um povo a sofrer e temos que perceber que Israel, ao fim de todo este tempo, não conseguiu, como queria, destruir o Hamas. Portanto, o problema está aí. E todos nós militares tínhamos dito que com o Hamas, era muito difícil destruir o Hamas. E portanto, o processo negocial, diplomático, em determinada fase, era importante, como foi desenvolvido, mas depois Israel volta atrás por razões que nós sabemos que têm a ver também com o seu primeiro-ministro, os problemas internos do seu primeiro-ministro, tem problemas até pessoais e também, sobretudo, com uma nova administração Trump errática em muitas coisas, mas relativamente ao apoio a Israel, não é de maneira nenhuma errática e portanto continua a apoiar Israel em qualquer circunstância, associando esta questão de Gaza inclusivamente à questão que está a ser negociada, que tem a ver com o Irão nuclear.
Major-General, falar aqui também sobre a questão da entrada de ajuda humanitária em Gaza, porque o ministro da Segurança Nacional israelita diz que Israel vai fazer de tudo para impedir a entrada de ajuda humanitária em Gaza. Já vimos isto acontecer em vários períodos. Este intensificar deste bloqueio à ajuda humanitária, negociar nestas condições, mesmo para o Hamas, mesmo para a autoridade palestiniana, é algo complicado de gerir, principalmente perante a situação nesta região.
Sim, a ONU já alertou que equivale a um crime de guerra. Este posicionamento equivale a um crime de guerra. Ele respondeu logo a seguir, quem respondeu agora foi o ministro da Defesa há pouco, a dizer que a ajuda, o discurso foi ligeiramente diferente há pouco, que a ajuda só entrará em Gaza quando for criado um mecanismo civil que contorne o Hamas, ou seja, que contorne a capacidade do Hamas de se alimentar primeiro e depois dar o resto ao seu povo e de fazer o que bem entende, as pressões que bem entende sobre o seu povo. É evidente que há sempre razão, o problema é não sermos razoáveis e aqui a razoabilidade não se aplica nem a um lado, nem a outro. Terá que se arranjar uma solução. Este mecanismo é um mecanismo que acho que deve ser explorado, já que foi dito pelo ministro da Defesa. Eu acho que deve ser explorado. É claro que as Nações Unidas sentiram logo o toque e disseram que eram capazes de o fazer para contornar o Hamas, mas como sabemos, as relações de Israel, de Netanyahu e do seu governo com a ONU não são as melhores e, portanto, é bom que entre aqui outro ator que não os Estados Unidos neste processo. Outro ator que tenha influência na região e que não apoie tanto uma parte como outra, no sentido de poder pelo menos salvar a população. A China aqui podia entrar, a China já teve um papel muito importante na ligação entre a Arábia Saudita e o Irão, algo que era considerado perfeitamente impossível. A China também já conseguiu reunir todas as oposições e Israel, todos os partidos, movimentos, no sentido de depois da paz haver uma coligação de vontades, já agora associamos também à questão da Ucrânia. E portanto aqui nesta fase era bom que entrasse um ator como a China, no sentido de proteger sobretudo a população, já que o direito internacional e as Nações Unidas neste momento com a administração Trump estão muito fragilizadas, não é só com Israel.
Major-General João Vieira Borges, muito obrigado por ter estado conosco aqui na Rádio Observador em mais uma edição do Gabinete de Guerra. Estamos de regresso amanhã.