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"Gabinete de Guerra" na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos de conflito. Hoje com Orlando Salmoão, especialista em Relações Internacionais. Boa noite, obrigada por ter aceitado o nosso convite. Começamos pelo Médio Oriente. Depois de algumas notícias contraditórias sobre o encontro entre as delegações norte-americana e iraniana no Qatar, sabemos agora que ambos os lados vão de facto reunir, embora separadamente em Doha, mas com o primeiro-ministro do Qatar. O Irão também já veio dizer que não planeia reunir com os Estados Unidos em nenhum momento nos próximos dias. Pergunto-lhe por que esta, pelo menos, aparente fuga do Irão a um encontro com os Estados Unidos. As delegações de ambas as partes não deviam, de facto, reunir durante estes 60 dias de memorando de entendimento?
Muito boa noite, obrigado pelo convite. De facto, parece que estamos aqui numa situação que é dar um passo atrás, porque já se tinha chegado há 15 dias ao memorando de entendimento e que seria o ponto de partida, pelo menos, para uma conversação que poderia ser mais direta do que esta. E por isso é que estando em Doha, até se pensou primeiro, conjecturou-se que haveria algum tipo de encontro e mobilizou-se o Jared Kushner e o Witkoff, que são as pessoas escolhidas pelo presidente para este tipo de iniciativas. Mas desta feita, aquilo que notámos foi que Trump anuncia e projecta um anúncio que é muito maior do que a realidade, é de seguida desautorizado e pelos vistos não era bem um encontro. Mais uma vez aqui a verdade está algures pelo meio, porque através do primeiro-ministro do Qatar poderá mesmo haver um encontro indireto, porque as partes não vão falar uma com a outra, mas sim através do primeiro-ministro do Qatar. É um processo que a mim me parece, e respondendo à sua pergunta, que estamos num arrastar e baralhar e o Irão consegue com este arrastar que não se perceba assim tão bem aquilo que efetivamente querem. Como tem sido dito, o Irão apreende os espaços deixados em branco, as zonas cinzentas do memorando com uma leitura a seu favor. Sabíamos que isso podia ser uma possibilidade, ou seja, eles leem os vários pontos da melhor maneira possível para as suas exigências. Infelizmente, dos 60 dias nos quais se esperava uma melhor conversação, já se gastaram 15 e agora a sensação que dá é que mais uma vez temos estes países do Golfo a serem colocados numa posição em que têm que se virar para o lado dos Estados Unidos. Lembramos esta viagem do Marco Rubio pelo Bahrain a tentar confortar estes estados do Golfo, reiterando o compromisso dos Estados Unidos para com a sua segurança. Tem esta ação de os trazer para a sua esfera, assim como trazer para a sua esfera também o Omã, que está a ser um Estado importantíssimo, porque se nota que o Irão vai se agarrar a esta estratégia de tentar disputar a atenção do Omã para nos baralhar em relação àquilo que são águas internacionais e que deviam ser as águas de passagem pelo Estreito de Ormuz, mas que assim o Irão ao comprometer o Omã com a possibilidade de interperem, pelo menos tentativamente, um conjunto ou de taxas, ou de portagens, ou de um conjunto de qualquer tipo de pagamento que seja exigível a quem passa, podem estar a tentar subduzir o Estado do Omã para que o ônus da responsabilidade deste corte para com o comércio livre não fique apenas com o Irão e fique assim partilhado. Mas aos Estados Unidos também cabe tentar reforçar na sua estratégia o compromisso para com Omã para o trazer também para a sua esfera de influência, que aqui está a ser disputada. Temos dois Estados neste momento, cada um a fazer o seu papel, a tentar que a versão faça sentido, pelo menos para a sua audiência interna, e o mundo é que vê pouca esperança em que se consiga avistar um entendimento que incite mais à estabilidade e até quem sabe, à paz.
A propósito do que estava também a dizer, Omã entregou hoje, com o apoio do Irão, uma proposta formal aos Estados Unidos para impor taxas no Estreito de Ormuz. De acordo com a imprensa internacional, seriam taxas voluntárias, portanto, não obrigatórias. Pergunto-lhe, estamos aqui perante uma proposta algo menos restrita, por assim dizer, em relação àquilo que o Irão tem pedido, uma vez que tem insistido que quer impor portagens mesmo a todos os navios que transitem pelo Estreito de Ormuz. Vemos aqui uma proposta, se calhar, um bocadinho mais do agrado dos Estados Unidos?
Esperemos que não seja do agrado dos Estados Unidos, porque ainda assim seria uma grande infração à ideia de globalização e de comércio livre. Aquilo que se deve lutar é para que as águas em todos estes pontos de estrangulamento, de passagem e marítimos sejam definitivamente libertas de qualquer tipo de emolumento para que se possa navegar à vontade, baixar os custos e aumentar a acessibilidade de todos os bens e serviços a nível mundial. Agora, é que o mundo ainda tem situações de pobreza, de grande carência. Estarmos a limitar ainda mais o acesso ao comércio é estarmos A fazer com que todo o produto mundial diminua, o que diminui as possibilidades de todos os países melhorarem as condições de vida de todas as suas populações. E por isso os Estados Unidos não devem entrar neste tipo de situação. Como disse, e bem, o Irão está a tentar criar uma situação que seja mais aceitável, em vez de ficar com o ônus de ser o único a bloquear, se for com Omã e dando a mão a Omã, pode ser que seja mais aceitável e também criando um conjunto de artifícios para que não sejam todos, para que seja partilhado, também como uma forma de criar um conjunto de infraestruturas, algumas das quais podiam ser relevantes se o Irão dissesse que teria uma proposta de construção de, por exemplo, qualquer tipo de apoio à navegação que a facilitasse, que a tornasse mais segura, algum tipo de apoio efetivo de logística de alguma situação ou de doença ou de acidente que pudesse ser colmatada através de um conjunto ou mecanismos, por exemplo, de ajuda médica no estreito. Esse tipo de serviços que ajudem a navegação até podem ser pagos e ressarcidos através de um pagamento dos navios que passem, até porque também poderiam beneficiar por esse conjunto de instalações ou infraestruturas que facilitem a navegação. Ora, pelo contrário, o Irão aquilo que fez foi colocar minas, ou seja, tentou dar a entender que era mais arriscado passar e isso aumenta os custos, nomeadamente com os seguros, e se as minas forem mesmo verdadeiras e estiverem instaladas, até pode provocar dano e lesões às pessoas, às tripulações e aos navios. Portanto, o Irão até se nota que agora está a ter esta atitude até de rejeitar que haja um processo de desminagem. Mais uma vez poderia envolver Omã e creio que a França, o que demonstra a maneira como está a negociar é sempre através da ideia de infligir dano sobre os outros e através da ameaça. Não é através da facilitação, essa sim, poderia dar origem a um serviço pago. Mas enfim, por isso mesmo espero que os Estados Unidos, apesar de estarem numa fase muito estranha da sua existência, apesar de estarem a celebrar os 250 anos e agora estarem muito ocupados neste dia e no dia de ontem com questões de cidadania e da nacionalidade que estão a envolver o Congresso e os tribunais e que estão provavelmente a capturar a atenção do presidente dos Estados Unidos, esperemos que, ainda assim, esta delegação dos Estados Unidos não perca de vista que a liberdade de circulação foi um grande ganho para a humanidade, que não deve ser perdido pelo Irão e que o Irão não está, de facto, a negociar nesta boa-fé, porque senão estaria mais disponível para que houvesse a remoção das minas e para facilitar o trânsito no Estreito de Ormuz, tal como estava planeado e previsto no memorando de entendimento que assinaram.
Entretanto, o Irão continua também a negar o acesso dos inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica às instalações nucleares atingidas. Por que esta recusa?
Pois, aqui é que está. Isso faz-nos lembrar a situação do JCPOA, do acordo anterior com o Obama. Não é por acaso que foi tão longo e demorou tantos anos a ser negociado. E que, de facto, sempre foi pedido que tivessem, eu creio que o número é em torno de 130 inspetores, que deveriam estar à sua vontade, totalmente livre de impedimentos para que pudessem fazer as vistorias e escrutinar todas as atividades e os programas nucleares do Irão. O Irão não abdica ter um programa nuclear civil, mas nós sabemos que depois o caminho até ao nuclear de uso militar pode não ser um caminho muito longo, a partir do momento que haja um conjunto de infraestruturas que sirvam ao enriquecimento do urânio, às centrifugadoras, e depois dessas centrifugadoras com melhor qualidade, sabemos até que é cada vez mais fácil, a partir de determinados pontos do enriquecimento, chegar e alcançar a arma nuclear que inviabilizaria até futuros ataques e perpetuaria este tipo de regime no Irão. Ora, por isso é que, de facto, o Irão não vai querer voltar uma situação ao estilo desse acordo com o Obama, que já foi muito difícil retirar e nós sabemos que foi à custa da administração Obama na altura e John Kerry, que ajudou a negociar, era o secretário de Estado, todo este acordo, sabemos que não ficou escrito que não haveria a possibilidade de continuar a alimentar os seus proxies, que não foram abarcados neste acordo. Sabemos que ficariam certas instalações em utilização, mas outras como a Safar, por exemplo, teria que ser desligada, que havia umas questões mais técnicas com vista também à não utilização de plutônio. Há um conjunto de cedências que pode-se, através da possibilidade que poderiam vir a dar a um Irão que invertesse a sua estratégia e que quisesse alcançar esse tipo de arma nuclear e de continuar a destabilizar o Médio Oriente, até podemos imaginar que o contrato não era suficientemente bom e que portanto Trump até poderia renegociá-lo. Mas por vezes renegociar com base naquilo que temos pode ser uma melhor maneira, porque ao sair unilateralmente, claro que o Irão deveria ter continuado, mas não continuou. E ao sair do acordo, foi uma via mais aberta para não permitir tantas inspeções, que aliás as inspeções decorreram supostamente de acordo com aquilo que estava previsto e até foi Claramente dito que estavam a ser cumpridos os requisitos de contrato, mas ao mesmo tempo, quando se iniciou, agora já com esta administração norte-americana, a renegociação, houve muitas dúvidas colocadas acerca da dimensão escondida ou secreta que este plano pode ter, porque não sabemos até que ponto em que certas instalações podem ser subterrâneas e podiam não estar a ser vistoriadas. Essa é uma parte que não sabemos, porque infelizmente, a natureza deste regime é de jogar muito com esta dimensão oculta ou secreta e por isso mesmo podem não estar dispostos a ter os inspetores tão à vontade e até isso negoceiam. Se tivessem totalmente boa fé, permitiriam que o número até aumentasse. O JCPOA, creio que falava nos 130, poderiam ser mais, e poderiam estar mais à vontade para com isso, se não tivessem uma intenção de alcançar, de facto, um programa nuclear para fins militares. É por aí está. É por aí está, se calhar, que a atitude não é a mais proativa e faz com que devemos ter sempre todas as dúvidas perante um regime que não só maltrata e destrata a sua população, principalmente aqueles que protestam contra o regime, mas que depois não permite uma total transparência na sua percussão deste objetivo, que é muito possível que seja um objetivo real e que esteja na mente da liderança iraniana e da Guarda Revolucionária.
Vamos ainda olhar rapidamente para a guerra na Ucrânia. O líder do maior banco russo veio hoje defender publicamente o fim mais rapidamente possível da guerra na Ucrânia. Já ontem Vladimir Putin admitiu escassez de combustível na Rússia. Isto numa altura em que a Ucrânia tem vindo a atacar cada vez mais pontos vitais do Kremlin. Pergunto-lhe se estamos a assistir finalmente a uma mudança de paradigma neste conflito, já depois de mais de quatro anos, ou se no terreno estas diferenças não são assim tão visíveis.
De facto, há um tom que parece um pouco mais hesitante, justificativo. Putin está a tentar justificar ao longo da entrevista e parece que utiliza palavras mais verdadeiras, porque chega a dizer que a Ucrânia tem mesmo que pagar, nomeadamente pela sua incursão a Kursk e, portanto, perder território para construirmos uma zona tampão. A seguir, nomeia as cidades que servem de fortificação defensiva, que nós temos ouvido falar tantas vezes, Sloviansk, Kramatorsk e Donetsk, que no fundo simbolizam esta possibilidade que a Ucrânia tem de manter uma base de resistência que faz com que na linha da frente seja muito difícil que haja ganhos. Por isso mesmo, a guerra se desenvolveu através do longo alcance e mais uma vez temos um Putin a admitir que esses ataques ocorrem. São inegáveis, porque neste momento a população está a sentir os efeitos da guerra. Ele admite, ainda que tangencialmente, essa situação que pode ser um grande impedimento de logística, nomeadamente que não há grande facilidade na obtenção de combustíveis em algumas zonas e a possibilidade da Crimeia estar mesmo na situação de isolamento. Como dizia o ministro da Defesa da Ucrânia, havemos de conseguir tornar a Crimeia uma espécie de ilha. Portanto, a Crimeia é uma península, quanto mais cercada estiver, ou seja, se a Ucrânia conseguir destruir as estradas e as pontes que a alimentam, existe a possibilidade de as rotas alternativas por Kherson e por Zaporizhzhia sejam mais difíceis e mais onerosas para a Rússia e portanto, faz com que a Ucrânia seja um agente que consegue ter pouco mais de força e reequilibrar alguma força no terreno. Putin mais uma vez também vem admitir isso mesmo, que estes ataques de longo alcance servem, no fundo, para forçar a Rússia à negociação e para que a Ucrânia tenha uma negociação em termos mais favoráveis. Só esta admissão já é, de facto, um grande passo. Ao mesmo tempo, ele dá a entender que a Ucrânia sugere que haja uma suspensão destes ataques de longo alcance. Isto é mais uma vez um golpe muito ao estilo de Putin, que consegue usar as palavras de uma maneira muito propositiva, sugestiva, em que se calhar ele gostava que fosse mesmo assim, ou que a Ucrânia fizesse este tipo de sugestões, mas pode estar a ser ele a dar essa sugestão para que as pessoas quando veem estes ataques pensarem que a Ucrânia não os queria estar a fazer. Portanto, aqui uma jogada um pouco política. Às vezes não há nada como atacarmos, até em termos de retórica, o inimigo adversário num ponto em que sabemos que nós não temos razão para parecer que temos razão. Às vezes isto é um bocadinho o melhor defesa pode ser mesmo o ataque e assim até parece que dá a entender que é ele, Putin, que pode decidir ou não limitar esses ataques. E ele também diz que há propostas para restringir as hostilidades mesmo em Kherson, Zaporizhzhia, Donetsk e Lugansk, ou seja, nas zonas onde a linha da frente ainda está, portanto, na zona de contacto que ele vai descrevendo com muito pormenor. Mas sim, o tom é mais, e repare-se que este tipo de entrevistas são muito planeadas ao pormenor. Ele não faz entrevistas com perguntas espontâneas de entrevistadores que sirvam cadeias de mídia, comunicação social internacional que não sejam controladas e, portanto, vê-se que há aqui esta tentativa. Note-se que não é só ele. Temos as questões do Banco da Rússia e algumas vozes que podem estar a deixar entrever que, de facto, a situação econômica pode já estar a começar a ser sentida pelas pessoas. A imprensa internacional fala numa dificuldade imensa de mobilização E de novos contratos que estão a diminuir perante os números de 2025. Portanto, há menos recrutas a entrar do que em 2025, comparando mês a mês, pelo menos da informação que se tem, o que pode ser verdade. Sabemos que muitas vezes a Rússia tentou aumentar até o prêmio pago aos recrutas, às novas tropas, precisamente para colmatar a dificuldade que tem em recrutamento. E mais uma vez, Putin dá a entender que é a Ucrânia que está com problemas de recrutamento, o que também deve ser verdade. Mas sim, é um tom a mudar. Note-se, por exemplo, e eu acho que este ponto é muito importante, Anchorage. Porque Putin dá a entender, e quase que usa palavras ao estilo "não houve acordo". Ora, que não houve acordo é aquilo que a Europa e, no fundo, a Ucrânia está a tentar dizer há muito tempo. Pode não ter havido um acordo, se calhar os Estados Unidos da América não foram assim tão claros em relação a esta entrega da Ucrânia àquilo que seriam os termos e condições da Rússia. Agora, há um espírito de Anchorage. Não houve um acordo formal, mas às vezes a letra não deve ser seguida apenas naquilo que foi estatuído no papel, mas há um espírito. E se calhar, nesse espírito, esperava-se que a Ucrânia cedesse muito mais por via de uns Estados Unidos que deixassem de a apoiar. Ora, também estamos aqui ainda a tentar perceber se houve ou não houve, que tipo de acordo, já que não foi formal, que ideia Donald Trump deixou sair sobre o Alasca, que faz com que Lavrov ou Putin falem neste espírito de Anchorage sempre que querem dar a entender que os Estados Unidos devem reequilibrar a sua posição. Mas para a Ucrânia também não é mau sinal que neste momento o presidente dos Estados Unidos pareça estar, no fundo, mais a mediar verdadeiramente e que não esteja tão inclinado a forçar a Ucrânia a aceitar os termos da Rússia sem mais, até porque, se calhar, e aqui há um certo trabalho da União Europeia.
Estamos mesmo até terminar.
Mesmo para terminar, e de próprios ucranianos, a dar a entender que se calhar, por muito que as previsões, principalmente no início da guerra, mas ao longo de 2025, dessem a entender que a Ucrânia teria muita dificuldade a resistir e progressivamente a Rússia ganharia em toda a linha, a verdade é que continuamos a estar numa situação de um certo equilíbrio na linha da frente e agora com uma presença da guerra na vida efetiva dos russos, que pode estar a deixar Putin aqui numa situação mais precária. Também é interessante ver, só mesmo para terminar num segundo, a maneira como o partido de Putin, portanto a Rússia Unida, muitas vezes conhecidos como os ursos, está agora a tentar juntar a presença e figura de Putin a si, e não estão a investir na possibilidade. A Rússia Unida sempre deu a entender que Putin estava acima do partido e que era uma espécie de pessoa independente, mas neste momento os cartazes já aparecem com Putin a tentar proteger o partido. Podem estar mesmo preocupados com as eleições de setembro para a Duma e Putin está a agarrar-se às plataformas políticas que ainda lhe restam, o que é sinal de alguma tensão interna.
Muito obrigada pela sua análise, Orlando Sá Mendes, especialista em Relações Internacionais. Obrigada por ter aceitado o convite. O Gabinete de Guerra regressa amanhã.