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Está no ar mais um Gabinete de Guerra na Rádio Observador com novas afirmações de Vladimir Putin sobre o fim da guerra, além de um movimento para referendos em várias cidades ucranianas. Dois dos temas que vamos analisar com o historiador Bruno Cardoso Reis, membro também do programa Café Europa aqui da Rádio Observador. Fazem parte também deste gabinete de guerra a Judite França, o Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz.

Temos administrações locais pró-russas de Luhansk e Donetsk, também de Zaporizhzhia e Kherson, a dizerem que vão avançar com esses referendos já nos próximos dias à integração destas cidades na Rússia. E sabemos agora, Bruno Cardoso Reis, neste contexto que estou aqui a referir, que Vladimir Putin se prepara para fazer uma declaração pública, deve ser ao final da tarde. Pode vir, por exemplo, a decretar lei marcial. Boa tarde.

Olá, boa tarde. Eu acho que ele claramente tem que tentar recuperar a iniciativa. Em termos militares, um dos dados muito importantes destes últimos dias, desta última semana, tem sido a confirmação de que a Ucrânia está claramente com a iniciativa em termos militares. Portanto, ele pode tentar recuperar em termos mais de política interna, mais em termos diplomáticos, porque em termos militares, de facto, a tarefa parece bastante complicada, nomeadamente pela questão da falta de reservas e a dificuldade de mobilização. No fundo, temos este dado dos referendos. Uma das questões que estava a ser discutida ontem e hoje de manhã era a questão de por que se falava de referendos em Luhansk e em Donetsk, mas não nestas outras regiões, nomeadamente Kherson, que a Rússia também ocupa. Aparentemente, esse pormenor foi resolvido. Eu vejo isso, sobretudo, como um sinal de apoio aos ucranianos, a estes líderes separatistas que alinharam com a Rússia e que se veem sujeitos a uma grande ameaça realmente por estes sucessos militares ucranianos e, portanto, no fundo, uma tentativa de moralizar esta parte claramente minoritária da população ucraniana que apesar de tudo alinhou com a Rússia, portanto dar-lhe aqui um sinal de compromisso adicional com a Rússia. Em relação a outros desenvolvimentos, por exemplo, essa questão do que Putin dirá neste discurso além disso, que aparentemente está a ser anunciado como quase certo. Realmente é uma incógnita. Há muito tempo que se fala desta questão da mobilização, inclusive nos meios nacionalistas russos que apoiam a invasão, há muito que é criticado o facto de isto ser feito sem se recorrer a uma mobilização geral. Agora, aí o problema é que politicamente isso é arriscado, porque significava à partida e em princípio, sobretudo se for mobilização geral e não mobilização parcial, significaria que a juventude de São Petersburgo, de Moscovo, já muito à ela crítica do regime, os filhos da elite, no fundo, também poderiam ter de ir combater e morrer para a Ucrânia. Isso é arriscado do ponto de vista dos equilíbrios do regime de Putin. Por outro lado, realmente parece claro que as outras medidas, por exemplo, o recrutamento com base em incentivos monetários, o recurso a mercenários que inclusive vão recrutar nas cadeias, etc, têm grandes limitações. Aliás, uma coisa que também sabemos que está em cima da mesa e que até também suscita esta especulação sobre se será declarada a mobilização ou não, é que há uma lei a ser discutida no Parlamento, na Duma, que se pensa que poderá ser aprovada amanhã, precisamente a punir a deserção e a recusa de combater. Isso é uma confissão de que, de facto, isso tem estado a acontecer, ou seja, temos estado a assistir quer à deserção, quer a unidades inteiras russas entrar em colapso. É muito isso que explica também o avanço muito rápido da Ucrânia nesta zona de Kharkiv.

Bruno, o presidente turco, Recep Erdoğan, diz que Putin parece estar disposto a acabar com a guerra na Ucrânia o mais rápido possível e que lhe deu mostras disso mesmo. Erdoğan está confiante num passo significativo em breve. Na tua opinião, que passo poderá ser este?

Eu não tenho dúvidas, e parece-me claro que será uma prioridade da Rússia neste momento tentar o mais possível falar de paz, falar de negociações de paz, ou seja, tentar travar o avanço militar ucraniano por todos os meios, inclusive através do acenar da paz e da questão das negociações, ou seja, tentar congelar a situação no terreno. Mas isso é uma mudança grande em relação ao que ouvíamos aqui há umas semanas atrás, em que falavam que a grande condição para a paz era a rendição incondicional da Ucrânia, portanto, mais uma vez, é uma certa confissão de fraqueza. Parece ser o caso realmente que a Rússia tem receio de que a Ucrânia possa recuperar mais território nos próximos dias, nas próximas semanas. Não sabemos se é exatamente assim. O conflito tem sempre elementos imprevisíveis. Por exemplo, no sul, as posições russas são claramente mais fortificadas, mas estão a ser também desgastadas, atacadas há muito tempo. Portanto, eu acho que isso é sobretudo um sinal de que o Kremlin está muito preocupado com as perdas que possa ter e pode tentar aqui, através das negociações, através destes apelos à paz, travar esses avanços. Em termos de condições para uma negociação mais séria, não me parece que elas existam, porque ao mesmo tempo temos estes anúncios de referendos nestas zonas separatistas, ou seja, a grande condição que a Ucrânia coloca para haver negociações e aquilo que me pareceria uma exigência mínima para haver aqui alguma possibilidade de um acordo seria, no fundo, a Rússia reconhecer a derrota ou reconhecer que, em termos militares, está numa situação frágil e, portanto, aceitar uma retirada destes territórios que ocupou desde fevereiro E a Ucrânia, obviamente, apesar de tudo, provavelmente preferirá isso do que ter de os ocupar, fazer o esforço de os ocupar militarmente. Mas de facto não há nenhum sinal de que a Rússia venha a fazer isso e à medida que se avance com estes referendos, ainda menos espaço, ainda menos margem de manobra haverá para a Ucrânia poder fazer esse tipo de negociação, porque se no fundo passa a dizer que aquilo é território russo, de facto não haverá condições para depois ceder isso à Ucrânia.

Bruno, arrancou hoje a Assembleia Geral da ONU com António Guterres, secretário-geral, a alertar para a crise dos cereais e a dizer que é a diplomacia que tem agido e que tem permitido aos navios atravessar o Mar Negro e que há aqui um papel da diplomacia e da diplomacia multilateral, como diz Guterres, muito relevante. E depois também alertou para a subida dos preços do gás no inverno, que enfim, já é um pouco mais lá para ali. O que é que achaste deste discurso?

Eu acho que é de facto um discurso muito revelador de um mundo em crise, de um sistema internacional profundamente paralisado e com enormes dificuldades em reagir a múltiplas crises. Porque a par das crises estruturais que Guterres não quer esquecer, por exemplo, a questão das mudanças climáticas, temos este dado que é de facto uma invasão, uma guerra, uma grande potência, um dos cinco membros permanentes a desafiar abertamente a lei internacional, com todas as implicações que isso tem em termos de aumentar a incerteza, aumentar as dificuldades económicas, ter esse efeito de dificuldade de acesso a alimentos, à energia, que são a base da economia mundial e que em países especialmente pobres se torna ainda mais dramático. Eu acho que é de facto um discurso, eu não vou dizer que seja pessimista, eu acho que ele é realista.

Desculpa, Bruno, é um discurso agregador também para a Rússia. Esta questão da diplomacia multilateral, no fundo, está a dizer que a Ucrânia e a Rússia, com o apoio da Turquia e obviamente com a diplomacia da própria ONU, é que permitiram que houvesse este, como diz, milagre, aquilo que se passou no mar.

Sim, eu penso que Guterres, partindo de uma base muito realista e por isso tem de ser de facto uma imagem muito negativa daquilo que está a acontecer, ao mesmo tempo faz aqui um discurso em defesa da utilidade das Nações Unidas. Houve inclusive altos responsáveis das Nações Unidas naquela famosa carta que faziam muitas críticas a Guterres e que diziam que as Nações Unidas estavam em risco. Aquilo que Guterres vem dizer é, mesmo quando há problemas, mesmo quando os Estados membros importantes não se entendem e há paralisia em certos sectores do sistema das Nações Unidas, por exemplo, no Conselho de Segurança, há muitas outras áreas em que as Nações Unidas continuam a ter um papel indispensável. As agências técnicas, as agências humanitárias e inclusive esta função de diplomacia, de manter o diálogo, nem que seja, para já não para parar este conflito, mas nem que seja para resolver alguns dos aspetos negativos que o conflito criou. Pode parecer pouco, mas ele vem dizer que isso é muito importante, isso é positivo e aí a ONU continua a ter um papel indispensável e eu acho que ele tem toda a razão e tem feito muito bem esse papel sem disfarçar a realidade e sem também entrar em processos de negociação forçados que as partes não querem, para as quais não há base. Sabemos que ele tem continuado a manter um diálogo discreto com as partes para ir avaliando quando é que será possível avançar mais nesse campo, mas ao mesmo tempo avançou com a ajuda, por exemplo, à evocação de civis em Mariupol, avançou com a questão da segurança nuclear nas últimas semanas, avançou com esse acordo em relação aos cereais. Portanto, são paliativos, mas não são irrelevantes e mostram que realmente as Nações Unidas continuam a ser útil e continua a haver um papel para a diplomacia, inclusive a diplomacia multilateral, mesmo num mundo onde a sua tarefa é muito mais difícil.

E a guerra na Ucrânia continua a ser também debatida nesta Assembleia Geral das Nações Unidas, que começou precisamente hoje. E já ouvimos de lá, de resto, António Costa dizer que o papel do ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov, é importante aqui no que toca ao diálogo. E, por outro lado, Jair Bolsonaro, presidente brasileiro, contra sanções a Moscovo. Teremos certamente também matéria para mais um Gabinete de Guerra amanhã, Bruno. Até lá.

Obrigado.