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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, é por aqui que olhamos para os principais conflitos pelo mundo. Hoje junta-se a nós o historiador Bruno Cardoso Reis para nos ajudar a analisar estes conflitos pelo globo. Bruno Cardoso Reis, bem-vindo mais uma vez ao Gabinete de Guerra.
Obrigado.
Vamos começar com a guerra na Ucrânia e obviamente estão se a ultimar os preparativos para o Dia da Vitória na Rússia, um dia sempre marcante para o país, acontece amanhã. Bruno Cardoso Reis, vamos olhar para os convidados e para a representação diplomática. Pergunto quem é que vai estar presente, quem é que não vai, quem é que já sabemos que não irá e também quem é que já chegou a Moscovo.
Eu diria que provavelmente Putin está zangado com o Papa Francisco, porque lhe estragou um pouco a festa, esta questão de haver o conclave ao mesmo tempo desvia uma certa atenção deste grande evento, mas realmente a questão do desfile do Dia da Vitória transformou-se num elemento legitimador central desta nova Rússia de Putin, que aposta sempre muito no nacionalismo e numa versão também muitas vezes bastante distorcida da história. Por exemplo, não se ouve falar na Rússia do facto da guerra ter começado com uma aliança entre os nazis e a União Soviética. E portanto a União Soviética só entrou na guerra depois de ter sido forçada a isso pela invasão nazi no verão de 1941. E também é obviamente uma grande ocasião diplomática no passado, em alturas anteriores e até como parte deste esforço do Ocidente para procurar acomodar a Rússia, encontrar compromissos com a Rússia em várias destas ocasiões, os principais líderes ocidentais estiveram também presentes, mas isso realmente já não acontece em relação aos principais países ocidentais, pelo menos desde 2014. Portanto, eu diria, não há líderes europeus, não há Donald Trump. Chegou-se a especular que isso poderia acontecer, mas não há Donald Trump. Os únicos líderes europeus que estão presentes são o presidente sérvio, o Aleksandar Vučić, que é alguém que é conhecido por ter alguma admiração por Putin, apesar de ao mesmo tempo procurar aderir à União Europeia, que são coisas que eu diria que são incompatíveis ou que deveriam ser incompatíveis. Em todo o caso, temos de facto também um representante do interior da União Europeia, aquele primeiro-ministro populista de esquerda pró-Putin, o senhor Fico, Robert Fico da Eslováquia. Entre os líderes mundiais, as figuras relevantes são basicamente o presidente da China, Xi Jinping, e o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, que mais uma vez gosta muito de falar de multilateralismo, mas aparentemente ignora o fato de que a base do multilateralismo é a lei internacional, a Carta das Nações Unidas, que o princípio mais importante dessa carta é a ideia do fim das guerras de agressão e, portanto, se dar aqui palco e algum apoio simbólico à figura que lançou o principal desafio ao multilateralismo, à ordem multilateral, à ordem legal internacional desde a Segunda Guerra Mundial, com esta invasão da Ucrânia.
E Bruno, avançamos para J. D. Vance, ainda relacionado com a guerra na Ucrânia. Faz aqui um ponto de situação sobre as negociações com a Rússia que decorreram de dia de ontem. Houve uma conversa de J. D. Vance com Moscovo. Diz que Moscovo continua a pedir demais. Na verdade, a citação é "continua a pedir demasiado". Bruno, o que é que será este demais para os Estados Unidos da América nestas negociações?
Isto foi um evento organizado aqui na capital americana pela Conferência de Segurança de Munique, que agora começou a expandir-se e portanto tem uns eventos ao longo do ano e não apenas a conferência em si, que geralmente é em fevereiro e como o nome indica, em Munique. Mas J. D. Vance fez um discurso muito controverso há uns meses atrás em Munique, que basicamente ignorou completamente as questões de segurança, que são o tema da conferência, e resolveu fazer um sermão, dar uma lição de bom comportamento democrático aos líderes europeus. Isto enquanto esse discurso constituía uma interferência na campanha eleitoral em curso na Alemanha e basicamente uma declaração de apoio à AFD. Aparentemente, o resultado não foi espetacular. A AFD subiu um pouco as votações, mas isso já estava previsto, mas não ultrapassou as 20% e obviamente continua isolada politicamente e não entrou para o governo alemão. Ainda há poucos dias, talvez em antecipação disso, o novo chanceler alemão Merz, uma das primeiras coisas que disse como chanceler foi: "Eu espero que os Estados Unidos deixem de interferir sistematicamente na política interna alemã, tal como eu não interfiro na política interna norte-americana". E portanto, J. D. Vance parece ter utilizado isto, até brincou com a questão, disse: "Eu não sabia se ia voltar a ser convidado". Realmente acho que era uma questão pertinente, mas provavelmente os organizadores tiveram uma garantia que desta vez ele ia falar de segurança e portanto realmente ele falou de segurança, falou da questão da Rússia, que é a grande ameaça à segurança europeia, e lá reconheceu que era preciso alguma colaboração entre a Europa e os Estados Unidos, portanto que os Estados Unidos precisam de aliados e que realmente, como dizes De que a Rússia está a fazer exigências excessivas. Eu diria que o grande problema é que está a fazer exigências excessivas, mas não surpreendentes. Deu a entender que era um grande feito agora saber-se o que a Rússia queria. Sempre foi bastante claro o que a Rússia queria. Queria basicamente controlar toda a Ucrânia, diretamente ou indiretamente, queria acabar com o apoio ocidental à Ucrânia, queria desfazer, no fundo, a unidade entre os Estados Unidos e a Europa. O grande problema é que, aparentemente, Donald Trump e sua administração estão dispostos a fazer uma série de concessões unilaterais à Rússia sem exigir nada em troca e, portanto, a Rússia não tem nenhum incentivo pra fazer outra coisa que não continuar a fazer exigências excessivas. Portanto, desse ponto de vista, não creio que a conversa tenha adiantado muito, mas pelo menos já foi um progresso ter-se conseguido que o J.D. Vance falasse numa conferência de segurança sobre segurança e tivesse reconhecido que há alguns problemas do lado da Rússia também, não apenas do lado da Europa.
Bruno, vamos avançar pra outro conflito que está a marcar a atualidade. Falamos aqui do conflito, da tensão entre a Índia e o Paquistão. Não sei se podemos já chamar um conflito entre os dois países, mas esta tensão entre Índia e Paquistão, a Índia diz que já morreram 13 civis em Caxemira por causa de ataques paquistaneses. Pergunto primeiro se podemos já chamar aqui um conflito entre duas entidades e também se o mundo está a dar suficientemente atenção àquilo que está a acontecer.
O problema é que a atenção do mundo está muito dividida. Multiplicam-se as crises, os problemas, sejam comerciais, sejam guerras comerciais, sejam guerras a sério. E, portanto, eu diria que também há muito esta tendência, sobretudo no Ocidente, para quando não há um envolvimento mais direto do Ocidente, haver menos atenção a esses conflitos. Quando não se pode culpar o Ocidente pelo conflito, perde logo alguma atenção, não há tanta mobilização dos ativistas habituais. Desse ponto de vista, diria que devíamos estar a prestar mais atenção. Fomos, aliás, falando nisso, por exemplo, aqui no "Cinco Continentes", de que era um conflito que era preciso prestar atenção e havia sinais sérios de que haveria aqui uma escalada significativa. Infelizmente, isso parece estar a acontecer. Apesar de tudo, eu diria, há fortes incentivos dos dois lados para que não seja uma escalada descontrolada, desde logo, porque são duas potências nucleares, quer a Índia, quer o Paquistão, têm praticamente o mesmo número de ogivas nucleares, à volta de 190. Agora, isso não significa, e o passado demonstra isso, que não possa haver uma escalada, inclusive pra uma guerra limitada, esperemos, mas a última vez que isso aconteceu foi em 1999, e nessa altura os dois países já tinham armas nucleares, o chamado Incidente Kargil, ou sobretudo não possam continuar esse tipo de ataques aéreos com drones, com aviões tripulados, que é a fase em que parecemos estar atualmente. E há sempre o risco de que algum ataque menos bem calculado ou algum imprevisto possa realmente acabar por levar a uma escalada, até porque dos dois lados temos governos muito nacionalistas, muito populistas e portanto têm pouca margem de manobra pra chegar a compromissos, porque no fundo têm sempre uma retórica também muito agressiva e isso cria uma expectativa na opinião pública também de que serão depois agressivos e decisivos na sua ação, na sua resposta a eventuais ameaças, ataques do outro lado.
Claro. Vamos ver o que é que darão estas tensões entre a Índia e Paquistão. Bruno Cardoso Reis, muito obrigado por ter se juntado a nós neste "Gabinete de Guerra". Regressamos numa próxima oportunidade pra analisar os principais conflitos que marcam o país e o mundo. Obrigado.
Boa tarde. Obrigado.