Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Começa agora o Gabinete de Guerra, esta manhã com a análise do Coronel José do Carmo. Bom dia, bem-vindo. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Bom dia e obrigado eu.
Obrigada. Começamos pelo Médio Oriente. Netanyahu ordenou a ocupação militar de toda a Faixa de Gaza depois do Hamas ter recusado depor armas. Tel Aviv garante que se não agir agora, os reféns vão morrer de fome. Coronel, é possível conquistar e manter o controle de todo o território de Gaza, dadas as condições atuais e o histórico de resistência do Hamas?
É possível em termos puramente cinéticos. O problema é que Israel atua num ambiente que é muito condicionado pelas leis internacionais, pela pressão internacional. Ou seja, as estratégias que Israel usou até agora falharam todas. Falharam porque tinham como pressuposto a ideia de que o Hamas, em algum ponto, iria desistir, render-se e aceitar que não tem condições de vencer. Mas o Hamas, obviamente, quando lançou esta operação, sabia que não podia vencer militarmente e, portanto, a sua estratégia é justamente da guerra cognitiva, ou seja, é na noção de que a pressão internacional e as leis internacionais, tal como estão desenhadas, acabam por pressionar Israel, acabam por levar outros países a pressionar Israel, e acabam por tornar muito difícil. É um país democrático persistir em campanhas que muitas vezes estão nos limites das leis, no fundo, o deslocamento de populações. Portanto, neste momento, Israel está num dilema. A única alternativa para que o governo não perca a face é justamente fazer isto. É justamente lançar uma ofensiva na qual os reféns obviamente irão morrer.
Pois, era isso que eu ia perguntar, se não colocava em risco ainda maior a vida dos próprios reféns.
Isto muitas vezes é como uma situação de reféns num banco. Há um momento em que a polícia tem que decidir se corre o risco. Quando os raptores começam a matar pessoas, há ali um momento em que tem que decidir se é altura de arriscar tudo ou deixá-los morrer um a um. E neste momento, esse dilema está colocado. Israel sabe que eles vão ir morrer um a um, vão ir morrer aos bocadinhos. Por outro lado, esta situação não se pode manter muito tempo, eles estarem ali presos anos. Isso não se pode manter muito tempo. Vai vir o momento em que tem de haver uma decisão: ou de rendição, ou seja, ou Israel desiste e aceita um acordo. É o que propõe o grupo de generais, embora seja uma estratégia que sempre traz outras contradições a explorar, e é interessante, mas o governo perde a cara. O governo, de qualquer maneira, perde a cara se voltar atrás. Se não conseguir os seus objectivos em Gaza, perde a cara. E aqui já é uma questão de egos também.
Diga, Coronel.
Não, continue, eu ia fazer uma pergunta interessante.
Ia perguntar porque a situação dos reféns vai ser hoje discutida numa reunião do Conselho de Segurança da ONU, solicitada por Israel. E pergunto, Coronel José do Carmo, considerando as imagens divulgadas este fim de semana, acredita que estas podem exercer pressão internacional suficiente para mudar não só a postura de Israel, mas também do Hamas em relação a uma trégua?
Não, a postura do Hamas não vai mudar. O Hamas está a usar essas imagens, que são reais, os reféns são imagens reais, e está a usar as outras imagens que são fabricadas, editadas, etc, justamente nessa guerra, nessa pressão. O Hamas quer que Israel pare, quer que Israel deixe o Hamas naquela situação e quer ficar com alguns reféns também, porque é a garantia de que fica mais ou menos imune a futuras-
É a única moeda que tem, não é?
Não é só a única. Essa é a única, mas também a pressão internacional. A pressão excessiva, a meu entender, que se exerce sobre Israel, perante uma campanha que é obviamente propaganda, marca completamente a capacidade de Israel atuar no terreno. Inclusive, veja uma coisa que é uma estratégia usada até pelos ingleses na Segunda Guerra Mundial, que é evacuar populações para os campos, para outros sítios, para sítios protegidos, digamos assim, é considerá-la como se fosse uma limpeza étnica. Aquilo que nós fizemos em Angola e Moçambique, criar aldeamentos para separar a população dos grupos armados, que é uma coisa perfeitamente normal e não comete nenhum crime de guerra, mas é considerada aqui como se fosse uma limpeza étnica, como se fosse um extermício. Esta pressão é insustentável para Israel, porque é um país democrático, não consegue sobreviver num ambiente internacional completamente isolado. Esse é o problema.
Mudamos de guerra. O Kremlin admitiu pela primeira vez em meses a possibilidade de existir uma reunião entre Putin e Zelensky. Coronel, Peskov fala num ponto de viragem no conflito, uma vez que o presidente russo rejeitava até agora um encontro direto com o homólogo ucraniano. Acredita que seja mesmo isso ou mais uma estratégia para acalmar Donald Trump?
É evidente que é uma estratégia. Putin ainda não decidiu claramente, não desistiu dos seus objetivos. Embora, claro, muitas vezes aquilo que se diz para o público possa não ser aquilo que de fato se passa nos gabinetes. Evidentemente, Putin não vai dizer que desistiu dos seus objetivos. Mesmo que tenha desistido deles, não quer dizer que desistiu, pelo menos para a sua clientela, para o seu povo. Agora, eu pessoalmente não acredito que Putin tenha mudado nada. A ideia, como se diz em linguagem popular, é encanar a perna arreada, ou seja, é ir andando, é não afrontar demasiado o Trump de forma direta, digamos assim, embora indiretamente tenha os seus porta-vozes, como o Medvedev, que faz aquelas declarações perfeitamente delirantes. Mas isto faz parte da estratégia.
Claro.
Agora, é evidente que Putin, a Rússia, não vai mudar nenhuma estratégia, tirando esta diplomática do jogo, em que eles são mestres, reconheça-se, não vai mudar enquanto pensar que pode ganhar a guerra. A única coisa que vai fazer a Rússia parar ou aceitar parar a sua operação, que é uma operação de longo prazo, não é só a Ucrânia, é uma operação que já vem detrás e tem outros objetivos, só irá parar quando for parada. Não irá parar enquanto não for parada. As sanções ajudam, as ameaças ajudam, mas, no limite, é no terreno que a Rússia terá que ser parada. E eu penso Depois pelos ucranianos, porque não se vai haver mais ninguém que os pare. Se o Ocidente conseguir, em vez de falar tanto, de facto fornecer à Ucrânia armas e autorização para as usar, com capacidade de terem um impacto sério nas táticas e estratégias russas, sim, aí a Rússia irá pensar, porque neste momento está a avançar uns quilómetros por mês, mas se começar a parar e a recuar, as coisas vão colocar-se no momento. Isso só se consegue parando no campo de batalha. De outra maneira não será possível.
Entretanto, a NATO vai instalar o novo quartel-general na Estónia, numa resposta ao aumento da tensão com a Rússia. Coronel José do Carmo, isto é um sinal que a NATO acordou?
Sim, é a típica estratégia de dissuasão. Todos sabem que a Rússia, se sair mais ou menos vitoriosa desta operação na Ucrânia, irá fazer o mesmo nos Estados Bálticos. Na verdade, neste momento, com o potencial que a Rússia tem na Ucrânia, se conseguir parar e sair vitoriosa, pelo menos com esta noção de que não perdeu. Essa força está mobilizada e um exército de um milhão de homens varre aquilo em poucas horas. Não há grandes hipóteses de resistir, nem que seja só pela massa humana. Sim, isto são estratégias de dissuasão. No fundo, é sinalizar à Rússia de que estamos atentos.
Isto não devia ter sido feito no início? Não é tarde demais?
O problema das guerras é como as lutas na rua. Um acusa, o outro acusa, um bate com o dedo, o outro bate com o dedo e se calhar teria sido melhor logo no princípio dar, desculpe esta linguagem, dar um golpe para acabar com a brincadeirinha. Mas é isto, as coisas esticulam-se, a escalada vai crescendo e vai chegar o momento em que chegamos a visto facto e aí com prejuízos graves para ambos.
Coronel José do Carmo, muito obrigada pela sua análise. Boa semana.
Obrigado.
Muito obrigada, um bom dia para si. Muito obrigada.
Bom dia para si também. Obrigado.