Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Esta noite vamos analisar os principais focos de conflito com Bernardo Valente, professor de Relações Internacionais na Universidade de Lisboa. Bem-vindo. E começávamos pelo Irão. Os Estados Unidos atacaram hoje dois petroleiros no Golfo de Omã e o Irão admite também confrontos esporádicos com embarcações norte-americanas no Estreito de Ormuz. Isto acontece numa altura em que as negociações de paz continuam em cima da mesa. Pergunto-lhe se acha que estamos agora perante um impasse com os dois lados a preferirem a força militar ao lado mais diplomático.
Olá, boa noite mais uma vez. Parece-me que o que temos é um conflito que nenhum dos lados quer admitir que é um conflito, principalmente do lado de Donald Trump. Não convém admitir que é uma guerra, e o que temos neste momento é muito parecido com uma guerra. Por quê? Porque Donald Trump, se quiser estender esta intervenção especial por mais de 60 dias, terá que recorrer ao Congresso e pedir autorização do Congresso. Já se sabe que dentro dos Estados Unidos, este conflito, esta guerra, esta operação especial, é pouco popular e também no sistema internacional, mas principalmente dentro dos Estados Unidos e do próprio eleitorado, que sempre foi eleitorado MAGA, eleitorado republicano. Donald Trump não quer quebrar aquilo que é o cessar-fogo, portanto o que temos agora são ataques de ambos os lados, enquanto ironicamente continuamos a ter um cessar-fogo. Isto por um lado, como explicava, ajuda Donald Trump naquilo que é a causa interna dos checks and balances do sistema americano. Por outro lado, o Irão veio dizer que, e o representante da comissão para este conflito e para aquilo que é também a política externa iraniana dentro do Parlamento iraniano, veio dizer também que este processo de paz que está agora em discussão é não mais do que um wishful thinking, não mais do que uma lista de pedidos dos Estados Unidos ao Irão e que não dão nada em troca. O que temos aqui é precisamente isso, é um impasse que agora ganhou uma nova camada bélica ou beligerante, e esta camada bélica e beligerante vem reconfigurar um pouco do que é a arquitetura de segurança no Golfo e aquilo que é a arquitetura de segurança mesmo dos países que não são nem o Irão, nem os Estados Unidos, mas que se viram envolvidos também neste conflito através da retaliação, inicialmente do Irão, e através agora de alguma tensão diplomática que têm com os Estados Unidos, como é por exemplo o caso da Arábia Saudita. Este conflito e este impasse, por um lado, coloca frente a frente os Estados Unidos e o Irão, mas por outro lado, uma espécie de dano colateral acaba também por fragilizar a aliança dos Estados Unidos e Israel, e temos visto que Netanyahu e Donald Trump agora têm estado pouco concertados naquilo que é a sua retórica para fora, e para além disso, fragiliza também aquilo que era uma unidade dentro do Golfo, que nós às vezes até analistas considerávamos erroneamente como se fosse uma unidade coesa, uma espécie de união indivisível dos países do Golfo, que neste momento também começam a surgir tensões, por exemplo, entre os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, entre os Estados Unidos e estes dois países. E precisamente por quê? Porque o garrote do Estreito de Ormuz torna cada vez mais a situação desesperante, principalmente a situação econômica e a crise hídrica nos países do Golfo e no Irão, desesperante. Percebemos aqui que nenhum dos lados quer ceder, mas a verdade é que não são apenas estes dois lados que são realmente afetados por aquilo que é a geoeconomia deste conflito.
O Irão deu hoje conta de que continua a ponderar uma resposta à mais recente proposta de acordo de paz dos Estados Unidos. Também hoje o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, disse que esperava uma resposta ainda hoje. Que resposta é que antecipa que venha do lado iraniano?
Temos agora a possibilidade de ter uma resposta em breve, e aqui há que destacar primeiro aquele que tem sido o papel inicialmente do Paquistão e depois da China no processo de mediação deste conflito ou deste cessar-fogo, que agora se pode tornar um processo de paz mais duradouro. E é importante salientar o papel do Paquistão e da China, porque têm feito este trabalho de dissuasão, este trabalho de pacificação e moderação no espaço do Médio Oriente, um espaço que é especialmente conturbado por todos aqueles fatores que enumerava anteriormente e que o têm feito praticamente desde a altura da Guerra Fria. Se a certo ponto na Guerra Fria há uma aproximação da China e dos Estados Unidos, também é precisamente devido à própria moderação do Paquistão. Esta moderação e esta ideia de termos aqui duas potências regionais, uma que podemos argumentar que é já uma potência global, mas de termos duas potências regionais a trabalharem na pacificação das relações como se fossem potências responsáveis perante alguma irresponsabilidade dos Estados Unidos nesta intervenção, não deixa de ser de salientar e muito meritório para aquilo que são os esforços diplomáticos da região. Quanto à possível resposta do Irão, parece-me que há aqui um problema crasso e que vai impedir este processo de paz, pelo menos tal e qual como a proposta foi apresentada e daquilo que temos conhecimento da proposta, que é a entrega do urânio enriquecido aos Estados Unidos. Os Estados Unidos pedem parte daquele urânio enriquecido, que levou, na verdade, a este conflito, que tem sido desenvolvido nas infraestruturas nucleares do Irão e através também dos processos de centrifugação que já conhecemos desde o cessar do JCPOA, acordo assinado na altura do Obama e que Trump decidiu sair unilateralmente e que fez com que todas essas infraestruturas, incluindo as infraestruturas de centrifugação, tivessem desde 2019 um crescimento abrupto, não só na sua produção, mas também no número dessas infraestruturas. Todo este esforço, e estamos a falar de retirar ao Estado Social, estamos a falar de retirar à economia do país e à administração do país para capitalizar essas infraestruturas nucleares. Todo este esforço que foi feitoEu tenho muita dificuldade em ver o Irão libertar este urânio enriquecido facilmente num acordo de paz. Até porque se antes tínhamos, e de alguma forma continuamos a ter, muitos grupos sociais e grupos sociais muito divididos dentro do Irão, a verdade é que existe uma unidade quanto àquela que é a doutrina anti-imperialista iraniana, que vem inicialmente das guerras contra o Império Otomano, depois contra os russos, que aliás roubaram um pouco de território no norte do Irão na altura e que hoje em dia corresponde ao atual Turcomenistão, e depois ao Império Britânico e norte-americano, se quisermos chamar assim, depois da deposição do Mossadegh. E esta doutrina anti-imperialista é, na verdade, o único traço de identidade persa, de identidade iraniana, que neste momento resiste. E, portanto, mesmo aquelas divisões internas que tínhamos, e que levaram aos insurretos a saírem à rua no início deste ano, e que Donald Trump veio dizer várias vezes que apoiava essa transição de regime que as pessoas que se manifestavam na rua também procuravam. Essas manifestações acabaram também pela repressão do regime e por uma sensação de medo generalizado, mas existe aqui uma sensação que se sobrepõe a essa, que é uma sensação de nós persas contra os outros, contra as potências imperiais e contra aquilo que é uma intervenção externa. E, portanto, é importante salientar e ressalvar esta ideia de que, se calhar, o Irão, neste momento, quanto àquela que é a sua política externa e quanto àquela que é alguma hostilidade perante esta intervenção norte-americana, está agora mais unido, até pela repressão do regime, como falávamos. Portanto, mesmo as vozes dissidentes não têm, neste momento, as condições para se expressar dentro do regime iraniano. E, portanto, o Irão, neste momento, está unido também perante este anti-imperialismo e isto dificulta a possibilidade de termos agora um acordo de paz, e um acordo de paz que reduza, que mitigue aquilo que é não só a capacidade nuclear iraniana, mas também uma capacidade que está eminentemente ligada à capacidade nuclear, que é a dissuasão e defesa, porque mesmo que os Estados Unidos saiam amanhã, há uma estrutura naquela zona, há uma nova instabilidade do sistema internacional que se reflete também naquela zona e principalmente naquela zona, que vai levar a que Israel não saia do sul do Líbano, e portanto, temos aqui mais um conflito com os proxies do Irão, e que, para além disso, tenhamos a tal tensão entre Arábia Saudita e Irão, Emirados Árabes Unidos e Irão, portanto, todas aquelas monarquias do Golfo ou Estados do Golfo que foram atacados também pelo Irão, e que agora existe uma falta de confiança de ambos os lados. O Irão não confia num possível processo de paz e na palavra dos Estados Unidos, nunca o fez em relação a Israel, e agora há um novo foco de instabilidade ou um novo foco de desconfiança, que é precisamente também entre o Irão e estas monarquias do Golfo que falava, que curiosamente até estavam mais próximas desde 2023, quando a própria China, como estava a explicar, fez a ponte entre Teerão e Riade e aproximou a Arábia Saudita do Irão do ponto de vista diplomático.
Vamos falar também da guerra na Ucrânia, porque Donald Trump anunciou há pouco um cessar-fogo de três dias entre a Rússia e a Ucrânia, que começa amanhã e de acordo com o presidente dos Estados Unidos, tanto o Vladimir Putin como o Vladimir Zelensky concordaram com esta trégua. Pergunto-lhe se acha que vai ser de facto cumprida durante os três dias, sendo que hoje também tinha já começado uma trégua de dois dias imposta pela Rússia para comemorar o Dia da Vitória, mas havia já denúncias dos dois lados de violações de cessar-fogo.
Sim, este conflito vai com cerca de quatro anos, um pouco mais, e não me recordo de um cessar-fogo que tenha sido duradouro e não me recordo sequer de um cessar-fogo que não tenha culminado logo a seguir em ataques de ambos os lados. E quando falamos de um cessar-fogo, e claro que um cessar-fogo é sempre de elogiar e esperemos, todos nós, para o bem da Europa, para o bem da Ucrânia, mesmo para o bem da Rússia e dos russos e da economia russa, esperemos que seja duradouro ou que pelo menos durante estes três dias consigam ter algum descanso. Mas a verdade é que numa guerra híbrida como esta a que estamos a assistir ao longo destes últimos quatro anos entre a Ucrânia e a Rússia, existem aqui fatores que tornam sempre este cessar-fogo uma espécie de fé diversa, que tornam sempre este cessar-fogo uma espécie de jogo de sombras. Por quê? Porque o intelligence continua a funcionar, porque a guerra híbrida, ou seja, os ataques assimétricos, cibersegurança, por exemplo, continuam a funcionar, não só contra a Ucrânia, mas contra todos os países do Bloco Leste. E portanto, podemos ter não forças beligerantes no terreno, no sentido de termos, por exemplo, ataques de drones, e isso já seria um grande incremento no sentido da paz, em relação àquilo que temos tido nos últimos meses. Ainda por cima que neste momento, por estarmos mais focados noutras geografias, acabamos também por desviar a atenção daquilo que é a questão ucraniana e russa e que continua na ordem do dia e continua a ser uma ameaça existencial às fronteiras europeias, repito, e a própria questão do Donbass continua a ser fundamental para aquilo que será uma possível recuperação económica, tanto da Ucrânia como da Rússia no futuro. Mas como dizia, esta questão da guerra híbrida e a possibilidade de termos ataques continuados de cibersegurança, os ransomwares, portanto, os chamados vírus que penetram na esfera pública ucraniana, e sabemos que há vários casos de espionagem dentro dos países do Bloco Leste, não apenas na Ucrânia. Isto faz antever que, mesmo que tenhamos agora uma paz, que é sim, de reforçar que muito importante, mesmo que sejam só estes três dias, e também são três dias importantes do ponto de vista simbólico para aquilo que é o passado histórico da região, no entanto, não significa nada naquilo que é o conflito a longo prazo. Portanto, é um conflito que já percebemos que está para durar e é um conflito que está para durar e que deixa a Ucrânia especialmente vulnerável, Ucrânia que tem feito um esforço fantástico de advento tecnológico, mas que deixa a Ucrânia especialmente vulnerável, porque neste momento a NATO discute o Irão, a NATO discute o Médio Oriente e já se percebeu que o próprio Zelensky vem de vez em quando clamar algum tipo de atenção mediática para o conflito ucraniano, porque os ucranianos, como disse, estão a defender aquilo que também são as fronteiras europeias, com o risco de a Ucrânia ceder e depois se poder replicar de alguma forma noutros países do Bloco Leste e nalgumas antigas repúblicas soviéticas que quisermos.
Vamos então aguardar pelos próximos dias para ver qual o desfecho. Muito obrigada, Bernardo Valente, professor de Relações Internacionais na Universidade de Lisboa. Chegamos ao fim então de mais uma edição do Gabinete de Guerra.