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Este é o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares e connosco temos hoje o professor catedrático Luís Tomé. Boa tarde, obrigado por se juntar a nós mais uma vez. E se calhar hoje começávamos pela Ucrânia, até porque várias regiões do país foram atacadas esta madrugada com mísseis e drones, com um forte ataque ao setor energético do país. Luís Tomé, com o inverno a instalar-se estamos a ver Moscovo a usar a mesma estratégia de outros anos?

Boa tarde. Com certeza, isto faz parte da estratégia desde o início da invasão russa da Ucrânia e claramente agora intensifica-se para provocar o inverno mais rigoroso de sempre aos ucranianos, embora os russos justifiquem esta nova intensidade contra a rede de energia ucraniana como sendo resposta ou em retaliação ao lançamento pelos ucranianos dos atacantes americanos contra designadamente um aeródromo militar russo em território russo. Mas na verdade, é uma justificação que não é muito distinta de outras ocasiões, porque nós temos assistido a um esforço crescente da Rússia para destruir por completo a infraestrutura energética ucraniana, razão pela qual hoje mesmo a Comissão Europeia voltou a garantir o apoio ao setor energético da Ucrânia neste inverno. E outros países, por exemplo, a vizinha Moldova, aprovou um estado de emergência para antecipar o corte de gás russo, uma vez que chega à Moldova através da Ucrânia. Portanto, faz parte da estratégia russa para fazer capitular o ânimo dos cidadãos ucranianos por várias vias e não é estranho que assim seja. É claro que o presidente ucraniano pede a reação maciça da comunidade internacional a este ataque russo em maior escala, mas não é nada de estranho nem do que já se passou por estas semanas anteriores, nem nos anos anteriores durante esta guerra.

Nesse sentido do que dizia, o presidente ucraniano pediu essa reação forte, também um reforço de sanções contra a Rússia. A comunidade internacional está mais hesitante neste momento no apoio a Kiev?

Não diria que está mais hesitante. Eu acho que há uma expectativa generalizada sobre aquilo que pode ser a nova administração Trump e o que aquilo significa para o desenrolar ou o desfecho da guerra em curso na Ucrânia. Há bastante tempo que estão relativamente consolidadas as posições, isto é, quem apoia militarmente, financeiramente e até apoio humanitário à Ucrânia, quem sanciona a Rússia e os outros que são relativamente passivos e aqueles que continuam a fazer grandes negócios com a Rússia. Portanto, essas posições estão relativamente estabilizadas há bastante tempo. Agora nós percebemos que, em particular na Ucrânia, como é evidente, mas também nos países europeus, há uma expectativa crescente, porque se percebe que por várias declarações ou do próprio Donald Trump ou daqueles que lhe são próximos, a sua prioridade é chegar a um desfecho desta guerra e portanto, por algumas declarações, isso indicia que ele poderá estar disposto a sacrificar território ucraniano, poderá estar disposto a pressionar Kiev a aceitar condições que Kiev até agora não deu nenhum sinal de querer aceitar, precisamente para obter essa paz. Ainda agora quando Trump se pronuncia contra a utilização de mísseis de longo alcance americanos em território russo, quando nós sabemos que já no ano passado foi muito por Trump e pelos republicanos que suspenderam a ajuda militar americana durante quase seis meses e portanto pondo em causa a capacidade de defesa e a contraofensiva ucraniana, mais por aí do que propriamente alteração de posições, embora saibamos que, por exemplo, no caso da União Europeia, um país da União Europeia e da NATO, como Hungria, se continua a manifestar muito reticente, quer a novas sanções à Rússia, quer a outro tipo de apoio de maior envergadura ainda à Ucrânia.

De resto, o chefe do gabinete presidencial ucraniano disse hoje que o país não está preparado para negociar um cessar-fogo com a Rússia sem um forte apoio ocidental. Diz que hoje não, que hoje a Ucrânia não está forte o suficiente para negociar com a Rússia. Estamos ainda muito longe de podermos ter os dois países a tentar negociar uma solução para este conflito.

Eu honestamente creio que sim, porque não vejo como é que pode o governo ucraniano, a presidência ucraniana, os militares ucranianos conceder depois de tanto tempo, tanto sangue, tanta destruição, conceder que agora se estariam dispostos a uma negociação cedendo território. Porque a pergunta que imediatamente os ucranianos fariam é: por que é que então isso não foi feito desde o início? Mas é evidente que há dinâmicas que os responsáveis ucranianos também não controlam. E se houver claramente uma linha com a nova administração Trump que impeça os Estados Unidos de manterem o apoio que têm dado até este momento à Ucrânia, é evidente que privados desse auxílio fundamental, sabendo-se que não é possível aquela outra tese, a europeização do apoio militar à Ucrânia, aquilo a que porventura nós teríamos ou iremos assistir Não só muito maiores dificuldades para os ucranianos se defenderem, mas, porventura, uma mudança na estratégia ucraniana, mais para técnicas de guerrilha, de insurgência, do que propriamente uma tentativa de guerra simétrica com o objetivo de libertar os seus territórios. Portanto, seria uma guerra de tentar desgastar as forças ocupantes russas, como aliás nós temos exemplos na história. É preciso recordar que os soviéticos estiveram quase 10 anos no Afeganistão, os Estados Unidos estiveram, e a NATO 20 anos. Portanto, às vezes estas outras estratégias mais subversivas de desgaste de guerrilha são eficazes. Mas nesta altura, pelos dados que conhecemos, não vejo como possível que os ucranianos aceitem sentar-se à mesa das negociações neste momento e nestas condições em que se avizinham. E na verdade, os russos também, pelos vistos, ainda esperam estar em melhores condições militares no campo de batalha, para depois partirem para negociações numa posição ainda mais vantajosa. Portanto, nesta fase não parece perto que haja margem verdadeira para negociar a paz, muito menos de boa fé.

Luís Tomé, vamos agora olhar também para a situação no Médio Oriente. O secretário-geral da ONU veio lamentar o que classificou como extensas violações da soberania e da integridade territorial da Síria por parte de Israel. Hoje mesmo Netanyahu visitou uma das colinas dos montes Golã, acompanhado pelo ministro da Defesa israelita. Que sinal dá Israel com estas movimentações, tendo em conta também a incerteza que se vive depois da queda do regime de Assad na Síria?

Eu devo dizer que acho sempre estranho quando alguém com responsabilidades, neste caso o secretário-geral das Nações Unidas, mas nós temos visto muitos dirigentes de países pelo mundo fora, um pouco na mesma linha, a manifestarem-se contra a ingerência na soberania da Síria, citando apenas um dos países. Ora, é verdade que Israel está a fazer uma incursão ilegal, ilegítima, e está a violar a soberania da Síria, o que não é novo, porque há muito tempo que ocupa território sírio, designadamente nos montes Golã, agora com a justificação acrescida, aliás, e com a compreensão reafirmada dos Estados Unidos, que por razões de segurança dada a situação relativamente caótica e de incerteza na Síria, eles vão para lá daquilo que era o território que até agora ocupavam na Síria. Mas a verdade é que não é só Israel. A Rússia ainda tem as duas bases na Síria. Os Estados Unidos têm não apenas uma base próxima da fronteira com a Jordânia, como têm pelo menos 900 militares das Forças Especiais também a combater ao lado dos curdos. Nós temos visto presença turca e inclusivamente a Turquia a bombardear posições do que eles chamam rebeldes terroristas curdos. Sabemos que só muito recentemente, se é que já retiraram totalmente iranianos e o Hezbollah libanês. Portanto, a ingerência, a presença externa em território sírio não é de um único país. Agora, a minha preocupação principal é que, por um lado, isto seja um momento de pausa, de grande expectativa e otimismo, em que a maioria dos cidadãos sírios veem como positiva a queda da ditadura. Há uma relativa paz, mas muito ténue, o sonho do fim da guerra civil, mas nós já estamos a assistir a alguns confrontos entre os vários chamados grupos rebeldes, que agora estão sem o inimigo comum. Nós estamos a ver crescer, e eu creio que no futuro será um dos grandes problemas, a Síria de novo a tornar-se o palco principal ou um dos principais entre as grandes fações jihadistas, a Al-Qaeda e as suas filiais, e o Estado Islâmico. Inclusivamente, é evidente que há muitos combatentes deste grupo HTS que mantêm ligações, desde logo à Al-Qaeda, a sua antiga marca mãe, mas alguns também ao Estado Islâmico. E depois podemos inclusivamente ter uma outra situação muito grave, que é de uma espécie de guerra por procuração entre os grupos apoiados pela Turquia e porventura aqueles que são mais apoiados por Israel e/ou pelos Estados Unidos. Já para não falar que a Rússia e o Irão não vão desistir de ter um papel nos destinos. Vamos ver se o encontro que vai haver este fim de semana entre um grupo de países árabes, Estados Unidos, Turquia, União Europeia e as próprias Nações Unidas na Jordânia e até porventura logo o encontro virtual de líderes do G7 trazem alguma novidade interessante e positiva, mas nós temos que seguir a situação com muita cautela e sem presumir que há apenas um Estado externo que está a intrometer-se na soberania síria.

Há pouco falava, Luís Tomé, da questão das bases militares russas. A Rússia deverá conseguir manter o controle dessas bases depois de um diálogo com a nova liderança da Síria. Poderemos estar aqui perante uma aproximação de Moscovo ao novo regime sírio?

A Rússia, mas na verdade as grandes potências e as médias potências fazem frequentemente jogadas estranhas que não antecipávamos. Por exemplo, por paralelismo com o Afeganistão, nós tivemos durante muito tempo a Rússia como a principal potência externa que se opunha aos Talibã, apoiando a tal Aliança do Norte, e agora quando vimos os Talibã regressar ao poder com a saída da NATO e dos Estados Unidos em 2021, vimos Moscovo a estabelecer laços com os Talibã. Ora, o que é o interesse prioritário da Rússia neste momento é preservar a sua base naval de Tartus e a sua base aérea perto de Latáquia Portanto, em nome desse interesse agora prioritário, e embora al-Assad esteja na Rússia, é muito provável que a Rússia procure negociar a manutenção dessa sua presença, e isso significa que os rebeldes, pelo menos aqueles com quem a Rússia conversa, a começar pelo HTS, não atacam as bases russas. Eu creio que sim, a Rússia está a tentar fazê-lo, vai tentar fazê-lo, inclusivamente por via da Turquia. Agora, não há um único ator, não há um interlocutor único na Síria e como é evidente, eu creio que dentro de pouco tempo vamos começar a assistir a uma outra fase dentro da Síria, menos de festividades pela queda da ditadura, mas mais no sentido da vingança, quer da vingança contra o ditador e o regime que caiu, e nesse sentido contra a Rússia, contra o Irã e contra a Hezbollah, que eram os grandes apoios, e a Rússia pode pagar essa fatura e ficar limitada nestes seus objetivos prioritários, e depois também entre os diversos grupos, porque a situação neste momento na Síria é que não há um interlocutor único, seja do ponto de vista interno, seja do ponto de vista externo. E como nós sabemos que as agendas são contrárias, quer entre os atores principais sírios, quer entre os atores externos que os apoiam e que estão a interferir, é muito difícil projetar um futuro completamente definido, por mais otimistas que queiramos ser. E os próprios atores externos proeminentes, incluindo o caso da Rússia que estávamos a referir, têm sempre dificuldade em pôr as fichas todas na negociação ou as expectativas no interlocutor, porque rapidamente pode ocorrer de ser um outro grupo a ganhar proeminência numa determinada região e, portanto, veremos. Mas eu creio que a Rússia, com este interesse principal, vai bater-se por garantir a perpetuação das suas bases marítima e naval na Síria.

Luís Tomé, muito obrigado pela sua análise em mais um "Gabinete de Guerra". Estamos de regresso na próxima semana. Bom fim de semana.