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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. São duas guerras em curso em partes bem diferentes do mundo, uma na Ucrânia, outra na Faixa de Gaza. Hoje contamos com a ajuda do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, muito boa tarde. Donald Trump falou hoje sobre este possível cessar-fogo na Ucrânia e diz que há uma hipótese muito boa desta guerra finalmente terminar. São declarações do presidente dos Estados Unidos depois de falar com o seu enviado especial a Moscovo, Steve Witkoff. É sinal que esta reunião entre Steve Witkoff e Vladimir Putin em Moscovo correu bem, Bruno?

Eu acho que não temos informação suficiente, sobretudo sobre a natureza do cessar-fogo, ou seja, como eu já referi, parece-me que quer Putin, quer Zelensky, quer a Ucrânia, quer a Rússia, no fundo não têm interesse em publicamente chocar com o presidente americano. Enfim, Zelensky já viu o custo que isso pode ter. Putin vê em Donald Trump alguém que tem uma simpatia por ele que é inaudita na política americana em muitas décadas, que tem até uma certa simpatia por regimes mais autoritários, que está disposto a publicamente hostilizar aliados, portanto, há aqui muito potencial pra ele poder explorar. Agora a questão é que realmente não temos ainda nada que se aproxime sequer de um acordo de cessar-fogo com os aspetos concretos que são essenciais pra concretizar esse cessar-fogo. Questões como que garantias de segurança, quem é que vai fiscalizar o cessar-fogo, o que é que acontece se houver violações do cessar-fogo. Enfim, sabemos, por exemplo, Putin colocou questões como a Ucrânia deixar de receber ajuda militar. Isso do ponto de vista da Ucrânia, provavelmente será uma linha vermelha e levantará muitas dúvidas mesmo a muitos aliados europeus. Portanto, vamos ver. Eu diria que Donald Trump tem muito esta tendência, não é para declarar facilmente vitória, pode ser que seja apenas isso. Espero que não seja. No fundo, aqui Donald Trump está disposto a comprar qualquer acordo de cessar-fogo a qualquer preço, mesmo que seja com exigências russas, que realmente não fazem nenhum sentido em termos de uma paz mais durável ou de garantir minimamente a segurança da Ucrânia.

Nesse sentido, Bruno, ainda hoje os países do G7 vieram pedir à Rússia que aceite este cessar-fogo que já foi admitido pela Ucrânia e também se debateu a possibilidade de aplicar sanções ainda maiores, impor mais custos à Rússia, caso o cessar-fogo temporário não seja obtido. O que eu queria perguntar é se o caminho continua a ser por aqui, ameaçar a Rússia com mais sanções numa altura em que não é certo o resultado que as atuais sanções já tenham obtido?

Não me parece que realmente a questão da ameaça de sanções seja muito eficaz neste momento contra Putin. É verdade que sanções ou tarifas são coisas que Donald Trump mais facilmente aceita do que propriamente ajuda. Portanto, desse ponto de vista é algo que é mais vendável em relação à atual administração americana, mas realmente a Rússia já está muito sancionada e o dado novo aqui fundamental é a eleição do Donald Trump e a postura completamente diferente que ele tem em relação ao conflito. Isso transformou bastante a dinâmica geopolítica global, mas em particular também em relação a este conflito. Mesmo em relação ao G7 é assim, a pergunta que foi mais frequentemente feita ao representante americano foi se os Estados Unidos iam mesmo anexar o Canadá. A cimeira teve lugar no Canadá, no Quebec, exatamente, aliás, numa província francófona do Canadá. Donald Trump ao mesmo tempo declara pela primeira vez na história o inglês como língua obrigatória nos Estados Unidos e diz que quer transformar o Canadá num Estado americano, esquecendo-se que um dos Estados do Canadá, porque o Canadá também é uma federação, aliás, é um país maior que os Estados Unidos, portanto os Estados que no Canadá se chamam províncias, um dos mais importantes, o Quebec, é de língua francesa, e isso é um tema, aliás, recorrente na história canadiana. Mas em todo caso, tudo isto mostra como realmente mesmo o G7, que funcionou muito aqui como uma demonstração da coesão do Ocidente alargado, porque reúne não só as principais economias europeias e a União Europeia, mas também os Estados Unidos, o Canadá, o Japão, e com vários convidados em vários momentos, mas funcionou muito aqui como no fundo o núcleo duro de gestão da coordenação do esforço ocidental de apoio à Ucrânia e também da guerra econômica contra a Rússia, realmente neste momento já não funciona de forma credível com esse tipo de funções e esse é um problema fundamental quando se trata de criar incentivos para a Rússia aceitar, não estamos sequer a falar de um acordo de paz, mas mesmo de um cessar-fogo com o mínimo de boa fé e com o mínimo de condições pra funcionar bem e pra não colocar em questão também a própria viabilidade da imprensa ucraniana.

E hoje, Bruno, há uma notícia no Washington Post aqui ainda a propósito deste cessar-fogo temporário que os serviços de informação dos Estados Unidos acreditam que Vladimir Putin usaria o cessar-fogo temporário para se rearmar, lançar até novas provocações para com a Ucrânia. O que eu pergunto é se há razões efetivas para duvidar de uma possível boa vontade de Vladimir Putin nestas negociações

Há razões para duvidar disso. Há várias que me ocorrem, mas talvez as mais importantes sejam, por um lado, a experiência histórica, nomeadamente e em particular em relação à Ucrânia, os chamados Acordos de Minsk, mas mesmo em relação a outros casos, por exemplo, na Síria, de facto a Rússia não tem nenhum problema em violar de forma flagrante e documentada aquilo que foi acordado. Portanto, realmente, em muitos acordos com a Ucrânia, de facto, a Rússia não mostrou sua boa fé. Temos declarações formais da Rússia, a começar pelo Memorando de Budapeste, de 1994, em que a Ucrânia cede o seu arsenal nuclear à Rússia a garantir a independência e a integridade territorial da Ucrânia, e que obviamente não foram respeitadas. Putin tem múltiplas declarações a dizer que não é uma ameaça pra Ucrânia. Mesmo no início desta invasão, em fevereiro de 2022, disse que não queria anexar território ucraniano. Sabemos o que é que aconteceu a seguir. Portanto, tudo isso, de facto, levanta todo o tipo de dúvidas legítimas e tudo isto reside na causa fundamental do conflito, a que ironicamente Putin aludeu, que é: Putin não aceita uma Ucrânia independente, vê uma Ucrânia livre, próspera e próxima dos países europeus da União Europeia, da NATO, uma ameaça, não no sentido que a Ucrânia vá invadir a Rússia, porque isso nunca aconteceu, mas no sentido que uma Ucrânia bem-sucedida, livre, próspera, seria um desafio permanente ao regime russo, quer no sentido de que a Rússia quer no fundo estar rodeada de satélites, quer recuperar, de facto, o controle do antigo Império Russo, do antigo Império Soviético, não quer países verdadeiramente independentes na sua vizinhança, mas além disso, até o próprio regime russo, porque é verdade que a Ucrânia historicamente, culturalmente, linguisticamente, é muito próxima da Rússia, e portanto, se aí era possível haver uma democracia bem-sucedida, próspera e rica, certamente muitos russos iriam perguntar por que não era possível a mesma coisa na própria Rússia.

Paulo Rangel está hoje em Kiev. Bruno, o ministro português dos Negócios Estrangeiros, acredita que Portugal tem aqui um papel a desempenhar nas negociações de cessar-fogo na Ucrânia. Diz Paulo Rangel, esta tarde, que Portugal pode usar o seu soft power pra ajudar a acabar com a guerra na Ucrânia. Não só Portugal, mas também toda a União Europeia, todos os países da União Europeia têm sido cada vez mais afastados deste tipo de negociações. Que papel é que podem ainda ter?

Realmente é um dos paradoxos também de todo este processo e da nova administração americana. Eu fui sublinhando ao longo destes muitos meses em que fomos comentando também a política americana, que Donald Trump era alguém que independentemente se gostar mais ou menos das políticas dele, das declarações dele, se gostar mais ou menos do wokeismo ou de outras políticas da esquerda americana, a verdade é que era um presidente com um nível de hostilidade em relação à Europa e aos aliados tradicionais que não se vê na política americana há muitas e muitas décadas e, portanto, objetivamente do ponto de vista dos interesses dos europeus, era um mau candidato e seria um mau presidente. Já tinha dado mostras de alguma dessa hostilidade no seu primeiro mandato, mas agora teria condições pra ser ainda muito mais hostil, porque está rodeado de lealistas que estão completamente alinhados com as suas ideias de nacionalismo protecionista, etc. E, portanto, tudo isso infelizmente concretizou-se e de facto é um paradoxo termos um conflito na Europa em que até em coordenação próxima com os Estados Unidos, como tem acontecido durante muitas décadas, os aliados europeus tiveram, ao contrário do que diz sistematicamente e falsamente Donald Trump, um papel crucial na ajuda à Ucrânia. Apoiaram mais, porque o apoio não é apenas militar do que os Estados Unidos, mas mesmo em termos militares deram apoio próximo dos Estados Unidos e são realmente completamente marginalizados pelos Estados Unidos neste processo negocial até o momento. Portanto, é importante que realmente todos os países europeus, de forma coordenada, vão recordando que realmente têm aqui um papel a desempenhar e que podem, mas não devem ser ignorados. Como eu tenho sublinhado, é possível que certamente seja a própria Rússia a mostrar algum interesse em envolver os países europeus, nomeadamente porque do ponto de vista económico, a Europa era o grande mercado da Rússia e a perda do mercado europeu como resultado desta guerra é um dos grandes custos pra economia russa, que está realmente em grandes dificuldades.

Não olhas por isso com otimismo pra Cimeira Europeia que vai acontecer na próxima semana. Ainda hoje António Costa, presidente do Conselho Europeu, falou sobre ela, diz que será uma cimeira essencial pra decidir os passos a seguir para a defesa da União Europeia, como um novo orçamento comunitário para a defesa a longo prazo. Achas que a resposta não passa por aqui?

Bem, já agora e voltando atrás, acho que é importante que o ministro português, Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, tenha ido à Ucrânia, mesmo no meio de uma crise política em Portugal. Acho que é importante que realmente Portugal não deixe ter alguma atuação na dimensão externa por causa dos problemas internos e realmente estas são questões muito importantes para o futuro da Europa, pra o futuro da segurança global, pra o futuro de países pequenos e médios como Portugal, que são a maior parte dos países no mundo, que realmente, por exemplo, não têm nenhum interesse em que haja aqui uma espécie de normalização das guerras de conquista, de que no fundo as potências mais fortes podem fazer o que entenderem na política internacional. É fundamental que a União Europeia realmente coordene os seus esforços e, portanto, é isso que se está a fazer. Do meu ponto de vista, faltam aqui aspetos ainda fundamentais, nomeadamente um compromisso claro com emitir algum tipo de dívida comum para um investimento forte em defesa. Historicamente, foi sempre assim que se conseguiu fazer esse reforço De investimento em defesa, mesmo num contexto de guerra, sem que isso criasse problemas muito significativos em termos da economia, em termos até sociais e políticos. Muitas vezes é a capacidade maior ao nível do financiamento, financiamento a custo baixo, emissão de dívida pública credível, com bom crédito, que faz a diferença em conflitos armados no passado. E portanto, acho que esse aspecto ainda não está esclarecido. Muito deste dinheiro também parece ser uma espécie de reciclagem de outros fundos e compromissos também vagos que virá algum dinheiro do setor privado. Em todo o caso, parece-me que são passos no sentido certo. Ainda faltará avançar também depois concretamente quais são as prioridades nesse investimento. Isso não é irrelevante, que não se invista apenas em armamento antiquado ou do antigamente, mas se invista muito nestas inovações tecnológicas que estão a ter aqui um grande impacto e que a Ucrânia tem explorado, por exemplo, todo o tipo de drones, etc. Mas parece-me que em todo o caso, se está a avançar no sentido certo e realmente a grande diferença, para terminar, o que terá de fazer aqui a diferença será realmente a capacidade de coordenar este esforço de investimento em defesa, porque a Europa já investe muito em defesa, investe mais do que a Rússia, investe a um nível próximo, talvez até superior ao da China, só é claramente ultrapassada pelos Estados Unidos, a Europa, como todo o resto do mundo, porque os Estados Unidos gastam muito mais do que o resto do mundo e isso é deliberado, faz parte, no fundo, do objetivo estratégico de continuarem a ser a grande potência militar a nível global.

Bruno, antes de deixar ir uma pergunta sobre o Médio Oriente. O Hamas veio hoje mais uma vez dizer que tem uma prontidão total para voltar a negociar a segunda fase do cessar-fogo com Israel. O que eu pergunto é: vemos estas declarações do Hamas, muitas a dizer que o grupo está pronto para negociar, mas vemos há já largas semanas de que não há novidades para esta segunda fase do cessar-fogo. É um cessar-fogo que vai ficar por aqui?

Bem, eu acho que tudo isto é revelador da grande fragilidade do Hamas e de como realmente, pelo menos do ponto de vista militar, mas também diplomático, com a questão da eleição de Donald Trump, mas depois também com a derrota do Hezbollah, a eliminação da sua liderança. De facto, Israel está aqui numa posição de uma certa força, ou seja, basicamente este cessar-fogo não deveria continuar e o Hamas já deveria ter posto em causa a sua continuação, porque realmente não se avança para as fases seguintes, que são aquelas onde Israel à partida teria discutir também uma dimensão mais política e fazer mais cedências aos palestinianos. Mas a verdade é que realmente, aparentemente, o Hamas não sente condições para pôr isso em questão e portanto, o que faz é fazer esta pressão pública para que se avance para essas novas fases. Do ponto de vista militar, está realmente muito fragilizado e também certamente sente aqui uma enorme pressão da parte da população palestiniana de Gaza, que foi apanhada durante muitos meses, durante mais de um ano, aqui num fogo cruzado constante, viu a sua vida ser completamente arrasada e portanto certamente vê com grande alívio esta possibilidade de alguma paz, de alguma trégua, de alguma possibilidade de procurar recuperar minimamente uma vida normal, pelo menos no sentido de não haver constantemente ataques, troca de tiros, bombardeamentos, etc.

Bruno Cardoso Reis, na última edição desta semana do Gabinete de Guerra. Bruno, bom fim de semana. Um abraço.

Obrigado.

O Gabinete de Guerra, Nelson volta já para a semana.