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Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Nos próximos minutos vamos fazer um ponto de situação nos conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente. Hoje é a nossa convidada Mónica Dias, é especialista em Ciência Política e Relações Internacionais e também diretora de Estudos Políticos da Universidade Católica. Boa tarde, Mónica. Muito bem-vinda à Rádio Observador.

Boa tarde.

Boa tarde. O presidente dos Estados Unidos pediu formalmente ao presidente israelita Isaac Herzog que aplique um perdão total a Benjamin Netanyahu no contexto do caso de corrupção pelo qual o primeiro-ministro israelita está a ser julgado. Já houve algumas reações. Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional do Executivo Netanyahu, defendeu este mesmo pedido. Já o líder da oposição, Yair Lapid, diz que para ser dado um perdão é preciso primeiro a admissão de culpa, neste caso, por parte de Benjamin Netanyahu. Como é que ficamos com este pedido, Mónica Dias?

Eu acho que é um assunto muito interessante do ponto de vista político, especialmente daquilo que representa também para a própria democracia e a percepção de como entendemos hoje a democracia. E obviamente, esta não é uma questão nova, se pensarmos no presidente americano Donald Trump. Este pedido já foi feito por Donald Trump quando em outubro visitou Israel e falou no Knesset, fez precisamente este apelo aos membros do Knesset e ao presidente. E na verdade, Donald Trump também já disse algo muito semelhante em relação ao Brasil, onde também dizia que Bolsonaro teria um processo que mais se assemelhava a uma caça às bruxas e que não deveria ser perseguido pela justiça do Brasil. E aí até não formulou um pedido, mas formulou verdadeiras ameaças. E portanto, esta ideia de uma ingerência do presidente americano em processos jurídicos de outros países e que são assunto internos, deixa-nos de facto a refletir sobre aquilo que Trump pensa do mundo e pensa da sua zona de influência. E portanto, há aqui talvez quatro pontos que me parecem importantes destacar. Primeiro, há uma confusão total por parte de Trump e desta ideia aqui apresentada em relação à divisão de poderes. Há uma divisão de poderes nos regimes democráticos entre o Executivo, o Judicial e o Legislativo, obviamente, mas sobretudo, há um respeito total pela independência dos tribunais e um respeito perante os processos judiciais e portanto, esta ideia de uma não ingerência deveria ser respeitada, sobretudo por um presidente que não é do mesmo país. Isto é muito preocupante porque revela bem o que Donald Trump pensa dos processos jurídicos e representa um retrocesso quando um presidente tenta influenciar ou condicionar o Poder Judicial e os processos judiciais. Isto lembra-nos mais os regimes iliberais, porque há aqui uma tentativa de ferir um princípio, não é só democrático e de uma democracia liberal, mas é um princípio do liberalismo que nos guia efetivamente. E portanto, esta confusão parece-me perigosa. Não é apenas um pedido de perdão, mas há uma confusão em relação àquilo que é a própria justiça. Aliás, não me admira que Donald Trump não considere que receber prendas e conceder favores não sejam considerados crimes, porque são essas prendas que aparentemente ele também gosta de receber, até de governantes de outros Estados. Segundo ponto, que para mim está aqui em causa, é que Trump apoia os seus aliados quando lhe convém, quando acha que eles são não só aliados, mas sim alinhados com as suas próprias políticas, e aqui o seu apoio é incondicional, e aceita também crimes, neste caso, é um crime de corrupção. Obviamente que o argumento é que este processo não tem fundamento nenhum, que se trata de uma caça às bruxas por parte da esquerda à direita, e neste caso é uma corrupção, mas até poderia ser outro. E portanto, quando se trata de Netanyahu, que é considerado um alinhado e não só um aliado, então não há aqui legitimidade para este processo. Mas quando se trata de uma acusação a algum chefe de Estado que não é alinhado com Donald Trump, então nesse caso o crime seria horrendo e põe em causa toda a democracia e todo o regime, e também já assistimos a isso. Ou seja, temos aqui este ponto que é preocupante. O seguinte, que também me preocupa em relação ao estado da democracia, é precisamente esta fé de Donald Trump na ideia de homens providenciais, como ele próprio, que estão acima da lei e geralmente são aqueles que estão alinhados com Donald Trump e que, como ele próprio diz, lutaram afinal contra o Irão, como ele próprio, que lutou contra o Hamas, contra o terrorismo. O próprio Trump inclui-se aqui nesta luta e portanto, isto significa que, na verdade, aquilo que Netanyahu fez por Israel, a libertação também dos reféns e que são realmente estes sim argumentos fortes, mas na perspectiva de Trump, fazem com que se deva conceder um perdão. E é esse um ponto que eu também gostaria de referir. Netanyahu teria de, para haver um perdão, tem que haver obviamente uma admissão de culpa e portanto, o ponto dos advogados de Netanyahu nunca passou por aí, porque o argumento é sempre que esta é uma condenação e um caso de justiça político, e portanto não há um reconhecimento de qualquer culpa, portanto é aqui difícil entrar com uma ideia de perdão. Por fim, todo este assunto tem obviamente de ser visto No contexto das eleições que se vão realizar no próximo ano em Israel. Parece-me que a população israelita não iria aceitar este perdão de uma forma tão fácil. Todo o processo contra Netanyahu é muito complexo, são vários os casos de corrupção e parece-me que este perdão total seria muito complexo.

Olhar também para o que se passa na Ucrânia. Mónica Dias, há um escândalo em destaque em praticamente todos os jornais ucranianos. Volodymyr Zelensky já pediu a demissão de dois ministros, o da Justiça e também o da Energia, depois de algumas suspeitas de corrupção. O presidente ucraniano fala numa questão de confiança nas instituições. Sabemos também que as autoridades ucranianas acusaram sete pessoas de estarem envolvidas num esquema de suborno de 100 milhões de dólares, que poderão ter beneficiado altos responsáveis do setor energético da Ucrânia. O que eu lhe queria perguntar é se isto pode ser prejudicial para a adesão da Ucrânia à União Europeia, aqui no que toca ao combate à corrupção no país.

Eu creio que, na minha perspectiva, faz exatamente o contrário, ou seja, este distanciamento imediato de Zelensky e também até da presidente. Que pediu, não foi Zelensky diretamente, mas sim a presidente pediu imediatamente estas demissões e uma demissão que, aliás, já aconteceu, mostra de certa forma que é verdade, na Ucrânia ainda há casos de corrupção. No entanto, este regime quer erradicar e reduzir, sobretudo, os casos de corrupção e age imediatamente quando há evidências neste sentido. Ou seja, aqui mais uma vez se mostra aos países da União Europeia: "Atenção, nós tratamos os problemas de corrupção com transparência, queremos resolver o que está mal, queremos, de uma forma transparente, resolver imediatamente a questão". Aqui a demissão é fundamentada, não havia aqui qualquer outra alternativa. E agora o processo judicial tem que, obviamente, acontecer e apurar toda a verdade. Parece-me que aqui também o papel dos jornalistas vai ser muito importante, mas também dos tribunais, que têm que conseguir apurar, ouvir as testemunhas, ir até aos últimos detalhes e tratar este assunto como qualquer outro assunto que seria tratado em qualquer outro país como caso de corrupção. Ou seja, esta corrida pra frente ou esta tentativa de imediatamente dizer: "Sim, senhora, existe corrupção e vamos então resolver nos sítios próprios, que é nos tribunais", parece-me que é aqui importante.

No terreno, Mónica, a situação continua muito difícil em Pokrovsk e também em Zaporizhzhia. Quem o disse foi Volodymyr Zelensky esta manhã, admitiu um cenário difícil e também um porta-voz do exército ucraniano já veio reconhecer que houve soldados que se tiveram de retirar de cinco locais em Zaporizhzhia. Qual é o futuro destas regiões que estão agora na linha da frente do conflito? É inevitável falarmos de uma conquista russa? E o que é que essa conquista eventual pode significar?

Sim, a situação no terreno é muito difícil nesta linha da frente, há várias. Pokrovsk é uma vila, não é propriamente uma cidade. São 60 mil habitantes, é uma cidade mais pequena, onde praticamente todos os civis já deixaram a cidade. Uma cidade que está em escombros. Não resta muito desta vila, que é relativamente pequena em comparação com outras cidades ou até capitais de províncias. No entanto, Pokrovsk era uma vila de ligação e que estabelecia uma entrada importante para o Donbass. Tem um valor simbólico e é um local importante e estratégico por essa razão. Mas, ainda assim, como eu já disse, é uma vila pequena e o que nos deve fazer pensar é que há efetivamente uma superioridade russa em número de soldados, em armamento, em capacidade militar, mas apesar desta grandiosidade russa, a Rússia não conseguiu, ao longo de quase quatro anos, conquistar mais terreno. As linhas de frente estão praticamente congeladas há muitos meses ou até há anos, com ganhos relativamente pequenos por parte da Rússia, mas que tiveram sacrifícios enormes em números de soldados que foram mortos nestas conquistas de colinas, terrenos escassos e vilas. Portanto, a Rússia não está a conseguir avançar rapidamente nem facilmente no terreno. Agora, obviamente, parece-me que Pokrovsk vai ser uma cidade que se deve render, provavelmente nos próximos dias. A Ucrânia está a tentar aguentar esta cidade o maior tempo possível. E, por parte da Rússia, a Rússia está a fazer tudo, e com enormes sacrifícios humanos também, de conseguir tomar esta cidade para ter mais Margem, por um lado, em possíveis futuras negociações, mas também para quebrar esta grande determinação e moral dos ucranianos, a quem devemos todos os dias prestar homenagem, não devemos esquecer isso. E é também por essa razão que a Rússia não avança tanto no terreno, mas faz, em contrapartida, uma guerra com drones sobre cidades e até a própria Kiev. Mas sobre cidades da Ucrânia, através de destruição de zonas residenciais, de casas, de escolas, de infraestruturas energéticas, que vão ser vitais agora no inverno. Portanto, estes ataques, que aumentaram no último mês, são precisamente para quebrar esta moral em época de inverno, em que as infraestruturas energéticas são particularmente importantes. E pretendem também, a meu entender, numa possibilidade de negociações, que para mim ainda não é muito evidente, reforçar o lado russo, no sentido de mostrar: "A Ucrânia não vai conseguir ganhar esta guerra, por isso mais vale aceitar uma capitulação". Só que parece que estas negociações neste momento não fazem muito sentido e ouvimos, mais uma vez, as palavras do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que através de um porta-voz, mais uma vez anuncia possíveis negociações. A Rússia não alterou a sua posição, mas a Ucrânia também não alterou a sua posição, e por isso parece-me que umas novas negociações não vão ser possíveis, porque neste momento a Rússia exige uma capitulação incondicional, pretende que todas as suas reclamações sejam cumpridas e a Ucrânia, obviamente, não aceita essas exigências da Rússia, e que correspondem efetivamente a uma capitulação. Eu creio que, portanto, tudo o que os porta-vozes russos dizem não tem credibilidade e são apenas um lado da história.

Mesmo para fixar a mão.

Uma nota final também muito importante dizer é que, de facto, todos os tratados de paz demoram muito tempo. E uma negociação entre a Rússia e a Ucrânia para uma paz neste território, nesta região, iria exigir muitos meses. Não esquecer que esta ideia de Trump, do cessar-fogo, me parece muito, desculpe a expressão, mas aquela ideia que nós temos, faça um negócio num minuto. E, portanto, o cessar-fogo não se faz num minuto, nem por palavras, nem por assinarem tratados de cessar-fogo. A paz exige muito mais tempo e os tratados de paz geralmente demoram muitos meses ou anos a serem feitos. E portanto, o objetivo da Rússia aqui é muito claro, é conseguir mais margem para fazer valer perante os olhos até de Trump, da sua superioridade, mas parece-me que não está na agenda qualquer encontro entre Zelensky e Putin, e têm que estar estes dois protagonistas, obviamente, num possível processo de negociações. Por isso não parece que haja aqui condições para avançar.

Não é o cenário mais provável. Mónica Dias, muito obrigado. Especialista em Ciência Política e Relações Internacionais, foi a convidada do Gabinete de Guerra de hoje.

Muito obrigada e boa tarde.