Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Estamos no programa em que analisamos os conflitos na Ucrânia, no Médio Oriente, em diferentes partes do globo. Hoje vou falar com Bernardo Valente, é professor de Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Bernardo Valente, bem-vindo à Rádio Observador. Vamos começar por falar de uma notícia que marca esta tarde. António José Seguro convocou o Conselho Superior de Defesa Nacional, o Presidente da República convocou esta reunião para o Palácio de Belém para o dia 31 de março às 16h. Qual é a importância desta reunião? Para que serve também um encontro destes do Conselho Superior de Defesa Nacional?

Olá, boa noite e obrigado pelo convite. Esta convocatória não é mais do que colocar algum realismo dentro daquilo que foi também a campanha presidencial e a luta pelas presidenciais. Falou-se pouquíssimo durante a campanha, durante todo o processo, durante todo o sufrágio, da matéria de segurança. E se tínhamos a existência da União Europeia e a ameaça a Portugal latente também através daquilo que é o conflito da Rússia e da Ucrânia, agora temos uma nova frente de conflito no Médio Oriente, para além da frente de conflito que foi aberta e que não está fechada, porque voltará a sangrar na Venezuela e que conta também com uma grande diáspora portuguesa. Portanto, estamos aqui a falar de três tabuleiros, três tabuleiros esses que, principalmente o do Irão, têm uma implicação direta da Base das Lajes, e o que o presidente agora está a fazer é trazer um novo fôlego às discussões da segurança. Nós temos variadíssimos institutos e think tanks que se ocupam exatamente desta questão da defesa, que se ocupam exatamente em pensar de forma geoestratégica como é que Portugal pode ter uma maior dimensão no setor da defesa no âmbito da União Europeia, no âmbito da NATO. E portanto, o que António José Seguro nos está a dizer aqui é que a defesa é também uma prioridade, porque mesmo que o conflito esteja longe, há implicações indiretas desse conflito para Portugal, seja no peso na carteira de todos os portugueses, agora mais palpável devido à questão dos combustíveis, mas também porque a Base das Lajes será um problema a longo prazo se Donald Trump continuar com esta sua política externa e com esta forma diplomática de "gunboat", em que explode primeiro, dispara primeiro e só depois é que vai para a mesa das negociações. E percebendo-se esta realidade, esta instabilidade do sistema internacional e até talvez um sistema internacional que está em mudança com os Estados Unidos a procurarem não caírem naquilo que são as potências como a Rússia, que caíram de potências globais para potências regionais. Donald Trump quer continuar a sentar-se na mesa dos adultos e quer lá sentar-se sozinho, portanto, como grande potência hegemônica. Então para evitar o declínio hegemônico dos Estados Unidos, Donald Trump tem procurado estas intervenções em diferentes geografias e essas diferentes geografias têm um ponto estratégico em comum. Têm vários, mas um ponto estratégico em comum que interessa a Portugal, como dizia, é a Base das Lajes. Portanto, é importante também, através desta convocatória, deste conselho, que se possa perceber qual é o papel da Base das Lajes, qual é o papel de Portugal no âmbito de uma segurança coordenada, de uma estratégia de defesa coordenada da União Europeia e qual é o papel de Portugal e da utilização da Base das Lajes no âmbito da NATO, que recordo, é uma aliança defensiva de segurança e não ofensiva.

Vamos precisamente para esse aspecto, porque Donald Trump hoje voltou a falar sobre a NATO. Diz que sem os Estados Unidos da América, a NATO é um tigre de papel. Diz Donald Trump numa publicação na rede social Truth Social que os países da Aliança Atlântica nunca desejaram juntar-se à luta para travar um Irão com armas nucleares e que agora que esta guerra foi ganha militarmente, com muito pouco risco para esses países, queixam-se dos elevados preços do petróleo que são obrigados a pagar, mas recusam-se a ajudar a abrir o Estreito de Ormuz. Donald Trump depois continua, mas a ideia está aqui, é mais uma crítica à NATO. Faz sentido esta declaração de Donald Trump? Por vezes parece também um esforço inglório procurar sentido em algumas destas declarações.

É isso mesmo, é um esforço inglório, até porque as declarações são só por si contraditórias. Por um lado, diz que não necessita dos aliados da NATO, que são um tigre de papel. Por outro lado, pede há uma semana que os aliados da NATO estendam então esta aliança defensiva para o Médio Oriente. A verdade é que a Europa tem na costa do Iémen, a União Europeia tem na costa do Iémen, operações militares de segurança já no âmbito daquilo que foi a disrupção causada na costa do Iémen pelas forças dos Houthis ao longo dos últimos quatro, cinco anos. E portanto, a partir do momento que se começaram a atacar navios europeus, a União Europeia decidiu deslocar para lá uma força militar contínua de segurança. Portanto, existe a possibilidade, e foi isso que foi discutido na última conferência em Bruxelas, existe a possibilidade de essa força, ou existiria essa possibilidade, dessa força se deslocar também para o Estreito de Ormuz, que é relativamente próximo e que tem ligação direta. Mas Donald Trump esquece-se aqui que mesmo que os europeus precisem, do ponto de vista da autonomia estratégica e da autonomia militar, que ainda precisam dos Estados Unidos, a verdade é que não existe uma Europa a uma voz. E a reunião da NATO de há cerca de dois, três meses deixou isso bem patente quando Pedro Sanchez explicou que não estava disposto a contribuir mais para a NATO. Ou seja, mesmo o papel das potências europeias, e aqui falamos de médias potências, e as médias potências são cada vez mais importantes no sistema internacional num momento de fragmentação completa, e por isso é que aquele discurso do líder canadiano na altura teve grande impacto, aquele discurso contra Donald Trump. Por quê? Porque a NATO e estas médias potências da NATO recusam-se agora a alinhar com aquilo que são as intervenções expansionistas, extrativistas de Donald Trump, que muitas vezes vão mesmo contra aquilo que é a sua doutrina, que muitas vezes disse que ia se cingir à doutrina Monroe, ou à doutrina Don Row, ia se cingir ao controle do hemisfério ocidental Portanto, temos duas perspectivas dentro da NATO e é isso que faz com que Donald Trump lhes chame o tigre de papel, porque por um lado temos esta perspectiva mais crispada, que é a perspectiva de Pedro Sánchez e muitas vezes de Macron, que se opõe claramente, tal e qual como se opôs à tomada da Gronelândia, enviando logo militares para a Gronelândia, que se opõem claramente a este expansionismo norte-americano e este crescimento da esfera de influência norte-americana. E temos, por outro lado, um lado mais, diria eu, conservador ou pelo menos que tenta mitigar aquilo que é a animosidade entre os líderes mais radicais europeus e Donald Trump, que é o lado de Merz, que é o lado também de Mark Rutte, que a certo ponto até foi demasiado subserviente na forma como se dirigiu a Donald Trump. E portanto, estes dois blocos dentro da NATO contribuem também para que neste momento haja uma fragmentação dentro da aliança que Donald Trump não compreende, que como eu dizia no início, é uma aliança defensiva. Quando falamos de uma aliança defensiva e uma aliança defensiva que depende muito da Turquia, e este ponto da Turquia é extremamente importante porque falamos muitas vezes desta cisão entre a Europa e Estados Unidos e não falamos da geografia e da geopolítica necessária para os aliados da NATO da Turquia, porque a Turquia nunca foi muito apologista de ter um Israel forte também por razões religiosas e porque está também muito próxima do ponto de vista geográfico. No entanto, o Irão ameaçou a Turquia logo nos primeiros dias desta intervenção. Portanto, a Turquia, como membro da NATO, está também aqui numa posição dual, em que por um lado não tem grande amizade àquilo que é a causa israelita e nunca teve historicamente, e por outro lado, tem agora uma ameaça iraniana que pretende assumir como os líderes do eixo do Médio Oriente, no âmbito daquele eixo da resistência, que tem também a China e a Rússia. Portanto, temos aqui três atores, que a Turquia fala-se menos, mas a União Europeia e os Estados Unidos, que têm interesses muito divergentes. E se é verdade, como eu dizia, que a União Europeia depende muito dos Estados Unidos, os Estados Unidos também sozinhos não conseguirão levar este conflito até à última instância, até porque Donald Trump começa a perder popularidade dentro do próprio movimento MAGA e dentro do eleitorado norte-americano.

E hoje há aqui uma notícia que de facto pode ajudar os Estados Unidos da América também nos objetivos que têm no Médio Oriente, porque o Reino Unido muda basicamente de posição. Primeiro insistiu repetidamente que as bases militares do Reino Unido só podiam ser utilizadas pelos Estados Unidos da América com propósitos defensivos, mas hoje o governo britânico anunciou mudanças nestas limitações. Os ministros britânicos chegaram hoje a acordo para que os Estados Unidos da América possam ter permissão para utilizar as bases britânicas para lançar ataques ofensivos, mas com uma limitação: os ataques devem visar apenas infraestruturas iranianas que estejam a ser utilizadas por Teerão para bloquear o Estreito de Ormuz. Em comunicado citado pela BBC, Downing Street argumenta que os princípios por trás da abordagem do Reino Unido ao conflito permanecem os mesmos. Podem permanecer os mesmos, mas isto é uma mudança de posição.

É. E há aqui talvez duas dimensões. Uma dimensão que justifica esta abordagem de Keir Starmer e a necessidade que tem do Estreito de Ormuz ser desbloqueado o mais depressa possível, principalmente porque há uma dependência energética da União Europeia e do próprio Reino Unido e algumas das monarquias do Golfo. E quando falamos de dependência energética, também há outros produtos essenciais, como os fertilizantes, que passam grande parte deles pelo Estreito de Ormuz e que podem levar a uma crise alimentar noutras geografias. E portanto, há esta necessidade premente de Keir Starmer de abrir o Estreito de Ormuz o mais depressa possível e daí se justificar esta estratégia. Por outro lado, esta estratégia também tem consequências e terá consequências, porque a partir de agora, o Keir Starmer e toda a administração britânica têm que ter a noção que do ponto de vista da narrativa e da legitimidade iraniana para atacar alvos britânicos e bases britânicas, essa narrativa vai crescer e há a possibilidade de termos aqui então ações beligerantes contra essas mesmas bases. Portanto, é um conflito que, e não quero ser pessimista, não é um conflito ainda global, mas é um conflito que caminha para essa globalização e os líderes europeus estão nesta posição. E por isso é que António José Seguro também, voltando à primeira pergunta, convoca o Conselho de Segurança precisamente para discutir a possibilidade da utilização destas bases. E quando falamos da utilização destas bases, falamos sim de forma ofensiva para intervenções diretas no Médio Oriente e nas infraestruturas, porque há uma necessidade de salvaguardar aquilo que são os interesses económicos e energéticos europeus, interesses esses que estarão bastante melindrados a partir do momento que o Estreito de Ormuz continuar bloqueado por mais duas semanas, um mês, dois meses. E portanto, Keir Starmer tomou uma decisão mais próxima de Mark Rutte, uma posição mais próxima também de Merz, a certo ponto, que é abrir estas bases para a possibilidade de os americanos as utilizarem e que são também muito necessárias do ponto de vista estratégico e logístico, tal e qual como é a base das Lajes. No entanto, sabemos que por isto ter acontecido, incorremos aqui no risco de começarmos a ver mais ataques a estas infraestruturas britânicas por parte do Irão.

Claro. Vamos ver o que acontece também ao longo dos próximos dias. Para fechar, há aqui um tema que também marca esta tarde, algo que terá sido uma proposta da Rússia. A Rússia terá oferecido aos Estados Unidos a possibilidade de deixar de transmitir informações militares ao Irão, mas em troca Os Estados Unidos da América tinham de fazer o mesmo com a Ucrânia. Isto começou a noticiar-se ao longo desta tarde e a proposta terá sido feita por Kirill Dmitriev. Acontece que o Kremlin, entretanto, já veio negar, já veio dizer que não fez esta proposta. Entramos aqui num disse que não disse, isto foi tudo avançado inicialmente pelo jornal Politico, mas não seria estranho vermos uma proposta destas vinda da Rússia face a outras propostas que já vimos no passado.

Não seria estranho. Normalmente, o jornal Politico é muito concreto e coerente nas notícias que dá. E podemos ter, de facto, aqui uma estratégia por parte do Kremlin que por vir a público, saiu gorada. Ou seja, seria uma estratégia nas sombras, mas agora que saiu a público, o Kremlin não quis ser interpretado como estar a negociar diretamente com os Estados Unidos, porque quer se queira, quer não, ainda são um dos seus grandes inimigos históricos, pelo menos da história recente, e portanto ter saído gorado por isso. Mas é interessante percebermos aqui a importância crescente dos serviços de inteligência, primeiro dos Estados Unidos na intervenção cirúrgica que têm no Irão, depois na contrarreação do Irão, em que são estes sistemas de informação alimentados pela inteligência russa naquilo que é o eixo da resistência, que contam com o apoio russo, mas também com o apoio chinês. E já se falava na altura da Guerra da Ucrânia e da Rússia, quando a Guerra da Ucrânia e da Rússia era discutida todos os dias, falava-se muito do armamento também estar a ser cedido tanto pelo Irão como pela China, principalmente a nível dos microchips que serviam para alimentar os drones. E depois temos aqui este aspeto que é um spillover, que é um transbordo do conflito do Irão também para a questão da Ucrânia. Portanto, vemos que estamos a jogar aqui em dois tabuleiros que aparentemente não estavam ligados, mas há aqui uma ligação clara, principalmente devido ao papel russo. E a Rússia é, diria eu, a que obtém a maior vantagem deste conflito e da perpetuação deste conflito entre Irão e Estados Unidos, não só porque se levantou as sanções à Rússia, mas também porque é uma forma de a Rússia respirar um pouco daquela pressão diplomática que tinha tido nos últimos tempos na questão ucraniana. E não se esqueçam que estamos a falar de um processo de paz que ainda deveria estar a decorrer e os pontos para a paz na Ucrânia ainda deviam estar a ser discutidos.

Sim, essa questão está em standby, sendo que amanhã Zelensky, ao que tudo indica, estará em Washington para tentar voltar a colocar esse tema na agenda e tentar que se iniciem novamente as negociações para um cessar-fogo.

Zelensky tem procurado um bocadinho esta ideia de "por favor, não se esqueçam de mim".

Exato.

É infeliz, mas é verdade. É o que Zelensky tem procurado, porque sabe também que com este conflito no Médio Oriente e uma vez que temos a Rússia por trás do Irão e temos os Estados Unidos com um interesse claro no Irão e em destruir o regime iraniano, sabemos que nasce aqui também um novo canal diplomático, uma nova porta de comunicação entre Rússia e Estados Unidos. E uma cedência da Rússia no Irão pode representar uma cedência norte-americana na Ucrânia. E isto, em última instância, como dizia, a continuação do conflito, exatamente por estas razões que estava a mencionar, a continuação do conflito no Irão beneficia, não só do ponto de vista económico, mas também do ponto de vista diplomático e bélico, a própria Rússia.

Muito obrigado por esta análise. Bernardo Valente é professor de Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. O Gabinete de Guerra está de regresso durante o fim de semana para analisar os conflitos em curso.

Obrigado, boa noite.