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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia.
Daniela Nunes, o presidente russo Vladimir Putin diz que as forças russas alcançaram um ponto de viragem na guerra com a conquista de Avdiivka, Moscovo ganha mais força nesta fase do conflito.
Viva Luís, boa tarde. Eu acho que numa guerra, conquistar território é mais ou menos como marcar gols num jogo de futebol. Portanto, quanto mais, melhor. Mas não sei se Moscovo fica particularmente mais forte, porque também está cada vez mais isolado. E devo acrescentar também que esta vitória, ainda que sem dúvida simbólica para os russos, nesta cidade, resulta também uma coisa que nos distingue dos russos e que eu acho que é importante sublinhar. É que o presidente Zelensky ordenou a retirada dos soldados ucranianos de Avdiivka, justamente para evitar uma tragédia humana, e nós não podemos ignorar isso. Não podemos observá-la e analisá-la apenas como uma retirada ucraniana e uma vitória russa. É preciso compreender o que é que está por detrás de uma e de outra coisa. Depois, também diria que este avanço russo, apesar de efetivo, até porque a partir daqui o mais provável é que o Kremlin tente não só ocupar toda a região do Donbass, portanto é mais uma conquista nesta região, que em parte já estava conquistada ou tomada. A partir daqui, eventualmente vão começar a investir num avanço para norte e em direção a Kharkiv. É o mais expectável, não sendo eu uma estrategista nem especialista em questões militares. Diria também que este avanço pode ter algumas repercussões positivas em contexto europeu e ocidental, na medida em que nos recorda de uma coisa que é muito importante, que é a necessidade de continuar a apoiar os ucranianos e designadamente a necessidade de continuar a apoiá-los logisticamente, militarmente e materialmente também.
E de resto, Daniela Nunes, a União Europeia aprovou hoje mais um pacote de sanções, já o 13º contra a Rússia. O novo pacote não contempla medidas adicionais, mas alarga as atuais punições a cerca de 200 novos indivíduos e entidades. Também no âmbito daquilo que dizia da questão da necessidade de apoiar a Ucrânia nesta face de sancionar a Rússia, estas sanções ainda têm alguma eficácia no conflito?
Eu acho que sim. As sanções são sempre importantes porque também são uma fonte de esvaziamento da Rússia. E este novo pacote em particular é um dos mais significativos e abrangentes desde o início da guerra e portanto também revela uma certa tomada de posição, que é muito firme, por parte da Europa e por parte da União Europeia, muito especificamente. Como dizia a senhora von der Leyen, as sanções são uma forma não bélica de degradar a máquina de guerra russa. E este pacote, como dizia o Luís, abrange duas novas centenas de empresas e indivíduos e visa particularmente atingir os setores militares e de defesa. Nesse sentido, é uma forma efetiva de esvaziar a máquina de guerra russa e obviamente de comprometer o mais possível o acesso da Rússia a novos meios e a novas tecnologias, designadamente novos drones. Depois também sublinharia aqui o que me parece ser uma coisa importante, que é o aval da Hungria, de Viktor Orbán, que como sabemos, tende a opor-se ao apoio europeu à Ucrânia. Houve alguns desentendimentos até que finalmente se chegasse à aprovação húngara, mas o que importa é que ela aconteceu. Agora, Luís, se me perguntar assim: as sanções têm o mesmo impacto que o apoio, o tal apoio que eu dizia militar, material, logístico, portanto, apoio efetivo da Europa à Ucrânia? Não, eu acho que não. Mas elas também são importantes, evidentemente, e se pudermos apoiar de forma híbrida a Ucrânia, através das sanções e do apoio efetivo, militar e material, tanto melhor.
Daniela, hoje ficamos também a conhecer uma sondagem que mostra que apenas 10% dos cidadãos europeus acreditam que Kiev vai vencer a guerra. Uma sondagem que abrangeu também Portugal. Defendem também cada vez mais um acordo de paz, praticamente dois anos depois do início da guerra. Corremos o risco dos cidadãos europeus deixarem de apoiar a Ucrânia.
Corremos. Corremos e eu não tenho particular alegria em dizê-lo, mas as coisas são como são e uma leitura racional da realidade diz-nos que de facto as pessoas já estão mais desligadas.
Estão cansadas também, não é?
Estão cansadas, sim. E há obviamente uma fadiga associada à causa ucraniana. Não é que as pessoas não entendam o que é que está em causa, porque percebem que esta luta se faz contra o imperialismo e o revisionismo de uma potência perigosa que é a Rússia. E gostava também aqui de sublinhar, eu sei que este estudo é um estudo relativamente aos europeus, mas a realidade é que isto não se cinge ao universo europeu. O caso dos Estados Unidos é particularmente preocupante porque, como sabemos, e temos vindo a comentar e a analisar isso mesmo aqui também no Gabinete de Guerra, a ajuda e o apoio norte-americano neste momento estão a atravessar uma fase de maior desligamento e de maior ceticismo e um bocadinho por todo o Ocidente, este afastamento das pessoas é perigoso, a meu ver. E a meu ver também revela aqui uma coisa, que é o pouco conhecimento histórico das pessoas E o pouco conhecimento sobre como certas e determinadas circunstâncias, no presente, claro, podem conduzir à repetição de fases e de momentos históricos que foram trágicos. E neste caso específico da Rússia, é preciso conhecer a história do modelo russo, e não é desde 1999 ou 2000, quando Putin chegou ao poder. É desde o tempo dos czares, para as pessoas perceberem como são profundas as raízes deste projeto, que agora é conduzido por Putin, certo, mas que já foi conduzido por outros, noutros séculos, noutros momentos da história em que nenhum de nós que comenta esta guerra era nascido, nem sequer pensado. E este modelo, este projeto vai certamente continuar a ser conduzido um dia quando Putin já não estiver cá. E eu trago sempre um exemplo que me parece muito significativo, um exemplo histórico, obviamente, para as pessoas perceberem o impacto de um país enorme como a Rússia ser conduzido por um líder revisionista ou com pretensões revisionistas. Os três países bálticos, Estónia, Letónia e Lituânia, são países vizinhos da Rússia e temem particularmente os apetites territoriais de Putin. Mas para nós, comentadores e não só comentadores, são países normais, independentes, que não têm nada a ver com a Rússia desde pelo menos 1991. Mas estes países, é preciso recordar, e eu estou só a dar um exemplo, viveram durante o século XX largas décadas sob o jugo da União Soviética, porque um líder soviético naquela altura, ainda que em conjunto com outro líder, que era o Nazi, decidiu querer anexar aqueles territórios. E eu aqui estou obviamente a referir-me aos termos do Pacto Ribbentrop-Molotov, de 1939. E portanto, de um dia para o outro, porque alguém, porque um líder com apetites territoriais decidiu que aqueles três países passariam a estar sob a alçada de Moscovo e do poder comunista soviético. Portanto, isto é para dizer o quê? Geralmente as pessoas desligam-se destas temáticas porque não conhecem os perigos associados a elas, não percebem que isto lhes pode bater à porta e não se lembram, porque como eu estava a dizer, não eram nascidas nem pensadas, das consequências das pretensões de líderes como Putin. Isso obviamente é muito mau e por isso é que não podemos deixar de fazer estes alertas e não podemos deixar de trazer estas temáticas a programas como este, justamente para recordar às pessoas que a história efetivamente pode repetir-se, noutros contornos, mas pode repetir-se.
O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30, tem nova edição depois da síntese das 16h30 e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.