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E neste gabinete de guerra olhamos para os desenvolvimentos neste conflito na Ucrânia. Contamos para isso com a ajuda do major general Arnaut Moreira. Junta-se neste gabinete de guerra a Judite França, ao Bruno Vieira Amaral e também à Vanessa Cruz.
O presidente ucraniano admite agora cedências territoriais para salvar vidas. Senhor General Arnaut Moreira, bem-vindo mais uma vez à Rádio Observador. Como interpreta esta entrevista de Volodymyr Zelenskyy à The Economist? E como é que estas palavras poderão ser recebidas por Vladimir Putin?
Ao fim de mais de um mês de conflito, é natural que, quer uma parte, quer a outra, tenham que cair um pouco na realidade, que é a de que há um certo impasse do ponto de vista militar. Naturalmente que as forças russas acusam também um certo desgaste. Os objetivos, sobretudo os que saíram da Bielorrússia e do nordeste da Rússia, não produziram os efeitos imediatos que se desejavam e entrámos numa fase de pequenos avanços e pequenos recuos, como se ambas as partes estivessem à espera de um pulso qualquer de reforço que permitisse um pouco desbloquear o resultado de natureza militar. E, portanto, até agora nós temos assistido um pouco ao insucesso das negociações, das conversações, também porque não havendo ainda uma linha muito clara sobre possíveis sucessos de natureza militar imediata, ambas as partes achavam que chegar a um compromisso de natureza política, sem haver uma base de natureza militar que fosse sustentável e que trouxesse para um dos lados algum tipo de vantagem, isso contribuiu para que as negociações se arrastassem. Neste momento há dois fatores que me parecem importantes. Por um lado, um que não joga muito a favor de Zelenskyy, é que o prolongamento da guerra e o conjunto de imagens de grande tragédia a que temos vindo a assistir, começaram, de alguma maneira também, a anestesiar a opinião pública ocidental. Isto é, a não ser que num dia haja 30 bombardeamentos e no dia seguinte haja 300, a opinião pública começa a distanciar-se. Começam a aparecer outras notícias de interesse sobre outros assuntos que preocupam igualmente as pessoas. E para Zelenskyy era importante que o Ocidente se mantivesse focado na guerra da Ucrânia. À medida que esse desinteresse da opinião pública vai acontecendo, isto faz-nos regressar e obrigar também a procurar encontrar soluções alternativas. Por outro lado, as forças russas, com exceção do sul, têm tido grande dificuldade, quer sobre Kiev, quer sobre a fronteira leste da Ucrânia, o que significa que também andam à procura de reforços que lhes permitam resolver do ponto de vista militar a situação. Simplesmente, isso tem implicações de natureza política no interior da Rússia, portanto, está difícil.
Senhor General, deixe-me só interrompê-lo para lhe perguntar exatamente isso. Essa questão do sul versus o norte. Está mais fácil o sul do que o norte. Zelenskyy chegou a avançar esta ideia de que Putin quereria fazer da Ucrânia aquilo que hoje em dia temos na Coreia do Norte, que é uma Coreia do Norte e uma Coreia do Sul e, no fundo, dividir o território.
Quando se vê a extensão do território conquistado a sul, isto lembra um pouco a noção de que, eventualmente, ocupando esse território, a Rússia estaria preparada também para a implementação de repúblicas separatistas nessa zona. Qual era a vantagem para a Rússia se conseguisse ali criar um território, quando eu estou a falar de um território ali, entre a Crimeia e a Zaporíjia, que servisse de tampão entre a Ucrânia que restasse e a Crimeia, portanto, afastando aquilo que a Rússia considera que é o seu território da Crimeia, para não ter fronteiras diretas com a tal Ucrânia restante. Aliás, houve notícias que depois, entretanto, desapareceram, de algum desagrado por parte das chefias russas, de não ter sido proclamada em Kherson uma república independentista, o que corresponderia à tal ideia deste grande território que já foi conquistado a sul e que serviria de tampão entre a Crimeia e aquilo que restasse da Ucrânia. No entanto, a Rússia continua a reivindicar um conjunto de territórios que é largamente superior àquilo que são as suas conquistas militares efetivas no terreno. E, portanto, a Ucrânia está muito reticente em, através de um acordo, conseguir permitir que os russos tenham acesso a uma fatia larga de território onde, por um lado, a luta das populações mostra que não existe simpatia para com os russos e, por outro lado, que é muito maior do que aquilo que as repúblicas separatistas hoje em dia englobam.
Senhor General, ouvimos nos últimos dias também os militares russos dizerem que muito provavelmente se iriam concentrar na região do Donbass, mas os últimos relatos que nos chegam dão ideia de um reforço dos ataques noutros pontos. O que estamos aqui a assistir da parte da Rússia? É um bluff? Era para desviar as atenções, julgar que agora os objetivos seriam mais modestos e atacar em força noutros locais que os ucranianos já poderiam pensar que estariam fora dos objetivos da Rússia?
A estimativa que eu faço é que a Rússia continua com capacidade para, no leste, poder obter ainda um conjunto de vitórias de natureza militar. Portanto, no leste da Ucrânia, através do cerco e do bombardeamento sobre um conjunto de cidades que se encontram numa situação muito trágica. Quanto à existência de forças suficientes para ocupar aquilo que resta do território da Ucrânia, parece-me exceder largamente aquilo que é a capacidade de mobilização imediata do exército russo. No entanto, a Rússia sabe que as forças ucranianas estão a ser reabastecidas a partir do Ocidente e, portanto, todas aquelas cidades e aqueles depósitos que estão no oeste da Ucrânia continuarão a ser alvo de um conjunto de bombardeamentos, não através de forças militares terrestres, porque elas não se encontram lá, mas através dos mísseis de cruzeiro, dos mísseis táticos balísticos, etc. E, portanto, eu julgo que essas ações no oeste estarão mais ligadas com bater objetivos de natureza administrativa ou logística, que vão suportando a capacidade de combate das forças ucranianas. Mais do que preparar uma ofensiva terrestre, porque nesse momento não se vê um conjunto de forças suficientemente disponível para empreender uma campanha terrestre, a oeste do rio Dnepr.
Senhora Major-General, e olhando aqui precisamente para o impasse nas negociações que referiu, as declarações de Joe Biden neste último fim de semana podem criar aqui um novo obstáculo às negociações. O Kremlin, pelo menos, veio classificá-las como alarmantes e recordo aqui, o presidente norte-americano chamou carniceiro a Vladimir Putin.
Joe Biden diz muitas vezes aquilo que eu considero que são os seus sentimentos de natureza pessoal, que extravasam aquilo que deve ser a retórica do presidente dos Estados Unidos. E, portanto, ele às vezes deixa que os seus sentimentos de natureza pessoal assumam um relevo que deveriam estar contidos dentro daquilo que era a postura do chefe de Estado, um presidente da República dos Estados Unidos. Naturalmente que Biden, como todos nós que defendemos os valores ocidentais, nos preocupamos com a tragédia que está a ocorrer e com os meios que têm sido utilizados pelos russos para conduzir este combate. Mas isso não nos deve impedir de sermos suficientemente racionais para verificar que temos que encontrar uma saída. Quer dizer, é preciso encontrar uma saída para isto, uma saída que respeite, por um lado, aquilo que são os grandes objetivos da Ucrânia, uma saída que permita também ao Kremlin sair desta aventura. Não sei o que é mais perigoso, se é uma derrota militar russa na Ucrânia, se é uma Rússia que saia sem derrota militar, mas com uma humilhação. Eu julgo que também do ponto de vista ocidental, não sabemos qual é a parte mais perigosa. A Casa Branca já veio colocar as declarações num contexto mais diplomático e portanto, eu julgo que esse problema está ultrapassado.
Mas este tipo de declarações acabam por não ajudar aqui numa altura em que as negociações estão no impasse. Agradeço-lhe, Major-General Arnaud Moreira, por ter feito parte mais uma vez de um gabinete de guerra da Rádio Observador. Obrigada.
Muito obrigado, boa tarde.