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Começa agora mais um Gabinete Guerra das manhãs 360. Hoje a análise é do historiador Bruno Cardoso Reis. Olá, Bruno, bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia, obrigado.
Começamos pela Venezuela. Trump diz que as incursões terrestres começam muito em breve e que Nicolás Maduro pode exilar-se na Turquia se for deposto, diz que é o lugar perfeito pra ele. Bruno, como é que olhas para tudo isto e o que devemos esperar nos próximos dias?
De facto, já esperávamos que houvesse aqui uma escalada. Já tínhamos referido que aquela enorme concentração de meios não fazia sentido para o tipo de operações que os Estados Unidos estavam a levar a cabo. Não fazia sentido ter o navio de guerra mais poderoso do mundo, este porta-aviões, o USS Gerald Ford, com setenta e cinco aviões, que na verdade ele próprio tem uma força-tarefa, portanto, tem uma espécie de pequena marinha à sua volta, que é basicamente o tamanho da Marinha Portuguesa, só para andar realmente a destruir lanchas, pequenas lanchas dedicadas ao tráfico de drogas. Parece-me que inicialmente a tentativa ou a esperança de Donald Trump foi que, no fundo, simplesmente essa exibição de poder militar pudesse assustar o regime, assustar o presidente Maduro e levá-lo a voluntariamente aceitar sair. Isso claramente não resultou e portanto, havia aqui um momento de decisão. Isto são também recursos muito caros, custam milhões de dólares todos os dias manter activo nesta zona e portanto, Trump tinha de tomar aqui uma decisão. Agora vamos ver exatamente o que isto significa. Também como temos falado à partida, as informações que temos não apontam para um tipo de força, nem para um número de efetivos, tropas, que levasse a pensar-se numa invasão em grande escala da Venezuela. O que parece mais provável será algo do tipo do Irão, ou seja, ataques aéreos contra bases militares, contra elementos ligados ao regime, e eventualmente algum tipo de ação também em terra, com forças especiais, com os Marines, etc. Mas à partida, mais localizado. Mas eu diria que o mais provável parece ser, pelo menos para começar, esta questão de ataques aéreos, até porque Donald Trump foi eleito com a promessa de que não se ia envolver em mais conflitos armados. E ele parece interpretar isso no sentido de, pelo menos, não haver um envolvimento significativo de tropas americanas no terreno, que é o tipo de situação que vimos no Afeganistão ou no Iraque e pode causar muitas baixas e tornar-se também muito impopular nos próprios Estados Unidos.
Sobre a guerra na Ucrânia, o chefe de gabinete de Zelensky garante que não vai haver cedência de territórios a Putin. Garantiu que enquanto Zelensky for presidente, não vai abdicar de terras ucranianas, até porque diz que a Constituição do país o impede. Bruno, isso quer dizer que as tentativas de Trump num plano de paz estão condenadas ao fracasso, porque Putin nunca irá aceitar ficar de mãos a abanar? Tudo muito complexo, não é?
Significa que pelo menos o que parece estar em cima da mesa, realmente, mais uma vez, é incompatível. De um lado, temos a Rússia a exigir, como condição mínima, que é extraordinária, diga-se, mesmo em termos do histórico. Quando agora ouvimos dizer: "Bem, há que aceitar a realidade, a Ucrânia é mais fraca, está com dificuldades no terreno". Bem, desde logo é mais fraca e está com dificuldades no terreno porque os Estados Unidos deixaram de apoiar da mesma maneira que apoiavam antes. E mesmo com os europeus a pressionarem e a pagar para manter algum apoio, por exemplo, pelo menos ao nível das munições para os ucranianos continuarem a usar o equipamento que já tinha sido fornecido, realmente isso é uma limitação grande. Mas realmente o que é um pouco sem precedentes é esta ideia. Temos de reconhecer os factos no terreno, mas os factos no terreno não são: vamos parar o conflito na linha de contacto, na linha da frente, na zona onde as tropas estão a combater agora, vamos parar os combates e ficam por aí. Por exemplo, o que se fez na Coreia em 1953, mas a ideia de que a Ucrânia terá de ceder a uma invasão ilegal e como tal reconhecida pelo Tribunal da Haia, por uma larga maioria da Assembleia Geral das Nações Unidas, vai ter de entregar o seu próprio território, que a Rússia ainda não conseguiu ocupar. Mas em todo o caso, parece ser essa a condição da Rússia para realmente poder aceitar um cessar-fogo. E a Ucrânia diz que não aceita isso. E aí também há que ter em conta que o presidente Zelensky, ao contrário do presidente Putin, é presidente de uma democracia, embora uma democracia com problemas e com corrupção e tudo isso. Aliás, a corrupção é um problema bastante generalizado em todo o mundo, mas nuns sítios mais importante do que outros. Mas em todo caso, ele foi realmente eleito como o seu antecessor e portanto tem que ter o apoio popular e a Constituição obrigaria, em todo caso, a um referendo para algum tipo de alteração deste tipo. Portanto, não é de espantar que Zelensky recuse isso, mas isso realmente torna mais difícil, claramente, chegar a um acordo.
Entretanto, o secretário-geral da NATO defendeu que a Rússia não tem qualquer palavra a dizer sobre a Ucrânia e a entrada de Kiev na Aliança Atlântica. Mark Rutte lembra que a adesão à NATO tem de ser uma decisão unânime, mas Bruno, há de facto países que não concordam com a integração, países como os Estados Unidos.
Sim, mas isso é que torna também extraordinárias estas exigências russas. A Rússia está a exigir à Aliança Atlântica que introduza uma alteração no seu tratado fundador, porque é aí que se estabelecem as condições de entrada, para acomodar um diktat, uma imposição russa. Isso seria desde logo uma humilhação, uma demonstração de poder russo em relação àquilo que é suposto ser a aliança militar mais poderosa do mundo e também uma demonstração de impotência ou desinteresse dos próprios Estados Unidos. Mas realmente, como diz Mark Rutte, isso além de tudo não é necessário. Claramente, o que a Rússia quer aqui fazer é realmente uma demonstração de poder, uma tentativa de humilhar a Aliança Atlântica, porque de facto essa adesão não é possível. Aliás, não foi possível até agora precisamente por essa razão, porque nunca houve unanimidade no seio da NATO para a Ucrânia poder aderir. Isso sempre foi uma alegação sem sentido ou uma suposta ameaça sem sentido da parte da Rússia.
Sobre o Médio Oriente, Bruno, o Hamas e vários países mediadores, incluindo Egito, Turquia, Qatar e até os Estados Unidos estão em negociações para permitir que os combatentes do grupo do Hamas saiam dos túneis com segurança. Isto em zonas controladas pelas IDF, mas terá sempre de ser uma saída devidamente monitorizada.
Israel para aceitar isso teria que ter garantias de que esses combatentes não voltariam a combater. A tal famosa questão do desarmamento. Mas o problema é que o Hamas tem continuado a recusar também essa condição do plano de paz, que agora aliás foi legitimado e formalizado pelo próprio Conselho de Segurança, portanto passou a ter autoridade de lei internacional. Mas sabemos que a lei internacional vale o que vale, ou seja, basicamente depende da vontade das partes a respeitarem ou de algum Estado ou conjunto de Estados impor isso. Essa realmente é uma questão crucial e é mais um teste, mais uma dificuldade das muitas que fomos avançando em relação à implementação efetiva dos diferentes pontos deste plano de paz.
Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pela tua análise. Bom fim de semana.
Obrigado, bom dia.
Obrigada, Bruno. Bom dia.