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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Vamos esta noite analisar os principais focos de conflito com o Bernardo Valente, mais uma vez, especialista em relações internacionais. Olá, boa noite, Bernardo.

Olá, boa noite.

Bem-vindo novamente à Rádio Observador. António Costa diz que a Europa tem de ter nervos de aço para lidar com os Estados Unidos. Diz também que as relações internacionais estão numa desordem crescente e já tinha dito ainda na semana passada, no Chipre, que os Estados Unidos já não são um aliado fiável. De acordo com a sua experiência, Bernardo, quando o líder do Conselho Europeu é tão claro e tão direto a criticar, neste caso, os Estados Unidos, o que se pode retirar daqui? Que a Europa tem de se emancipar, que análise é que faz deste posicionamento tão claro de António Costa?

Sim. Boa noite mais uma vez. Parece-me que há aqui algo claro, que é a desordem internacional vai grassando naquele que é o sistema internacional, naquela que é a nova ordem que se está a formar, portanto, o momento de transição. Mas há uma coisa positiva no meio disto tudo, é que temos muito mais transparência de quase todos os líderes políticos. Aquilo que era discutido muitas vezes dentro de portas, está agora a ser discutido em comunicados para a imprensa e fora de portas. E esta declaração de António Costa é também um sintoma disso. Ora vejamos, os Estados Unidos e principalmente esta administração Trump, tem vindo a ameaçar, desde o seu primeiro mandato, aquilo que é a ordem liberal, uma ordem liberal construída principalmente para os europeus através da NATO e da ONU. No caso da NATO, há uma crítica legítima que se pode fazer, de facto, às nações europeias, que é viveram durante muito tempo sob este guarda-chuva de proteção, este guarda-chuva securitário norte-americano. Sim, é verdade, desde o final da Segunda Guerra que beneficiaram imenso dessa proteção norte-americana e que talvez não tenham contribuído tanto do ponto de vista orçamental como deveriam até aqui. O problema é que as relações internacionais, a diplomacia, constrói-se a partir de uma base de confiança e até se podia levar os Estados europeus a contribuírem mais, de facto, como Donald Trump tem tentado e como já vimos várias reuniões em que se propõe a passar quase para os 5% do orçamento de cada um dos Estados-membros que pertence à NATO.

O que nem os Estados Unidos investem na NATO.

O problema é que os Estados Unidos também estão a desinvestir em simultâneo, ou melhor, os Estados Unidos estão a reconfigurar aquilo que é a natureza da NATO. Os Estados Unidos o que estão a fazer agora é tornar a NATO uma plataforma económica ou comercial. Portanto, quando isto acontece, torna-se muito difícil vir pedir aos aliados europeus que sejam eles a contribuir quando se percebe que os Estados Unidos se vão também distanciando. E esta ideia de NATO, e uma NATO que era uma aliança defensiva de segurança, também está a desaparecer aos poucos, precisamente devido a esta fragmentação entre os dois eixos, dos dois lados do Atlântico. E portanto, tudo isto, e incluindo também aqui a questão da ONU e de Donald Trump já ter explicado várias vezes que este órgão está obsoleto e de facto começamos a perceber que perante os conflitos que vão grassando pelo mundo fora, a ONU não tem sido capaz de dar resposta e nem sequer tem sido capaz do ponto de vista retórico, de vir defender aquilo que seriam os processos de paz, os processos de cessar-fogo nas diferentes geografias. Tudo isto leva a que a Europa, como disse António Costa, tenha agora que ter nervos de aço, ou seja, que a Europa tenha de se reconfigurar também naquilo que é a sua autonomia estratégica e isto começa do ponto de vista militar, mas depois terá outras complexidades que em última instância, creio eu, levarão os europeus a discutir se queremos um sistema federalista, se queremos um sistema proto-federalista, em que apenas certos setores, como por exemplo, o fiscal, estão federados, ou se queremos desmantelar esta união e criar uma união ou diferentes uniões a diferentes velocidades. Esse é o grande desafio da Europa perante uns Estados Unidos, que já não são confiáveis. Claro que depois a história pode mudar com a saída de Donald Trump, mas neste momento é este o cenário que temos para a Europa.

Em pleno conflito do Irão e com a capacidade de exportação do Golfo Pérsico altamente condicionada, os Emirados Árabes Unidos anunciaram a saída da Organização dos Países Exportadores de Petróleo ao fim de 59 anos de pertença. Bernardo, o que é que pode significar esta saída do terceiro maior produtor de petróleo do cartel?

Este caso é particularmente curioso, Diana. Por quê? Para que funciona a OPEP e como é que funciona um cartel? Um cartel funciona basicamente para fazer subir os preços através de quotas de produção, portanto, limitar a produção através de quotas dos seus membros, para assim limitar também a exportação e fazer aumentar ligeiramente o preço. É uma espécie de oligopólio, portanto, um monopólio concertado da OPEP. Sempre foi bastante unido, diria eu, bastante coeso. Nos últimos anos, têm surgido algumas vozes dissonantes dentro da OPEP, devido à grande fatia da Arábia Saudita na produção do petróleo da OPEP. E portanto, os Emirados Árabes Unidos já há algum tempo que vinham mostrando o descontentamento do ponto de vista interno, claro, da política interna, sobre esta participação na OPEP, porque têm investimento cada vez maior interno, que lhes permitirá produzir mais e, portanto, produzindo mais, exportar mais também. Não conseguiriam fazer se estivessem dentro da OPEP. E até aqui, tudo bem, há um interesse económico dos Emirados Árabes Unidos e por isso é que se tentam desligar daquilo que é a OPEP, que controlava o processo produtivo ou a quantidadeDe produção dos Emirados Árabes Unidos. No entanto, é estranho o timing, porque amanhã temos uma reunião da OPEP em Viena e tendo em conta que a saída dos Emirados Árabes Unidos só entra em vigor dia 1 de maio, vamos ter um representante dos Emirados Árabes Unidos que não vai a Viena fazer absolutamente nada, quando poderia usar essa reunião precisamente para usar a sua alavancagem diplomática neste momento de saída para conseguir algumas concessões da OPEP. E depois, tem aqui outro aspecto que pode ser positivo para todos nós, que é se os Emirados Árabes Unidos agora saem da OPEP, se começam a produzir mais, essa produção não tem por onde escoar porque o Estreito de Ormuz está bloqueado. Portanto, há a possibilidade de existirem aqui negociações que nós ainda não sabemos, que nós não conhecemos, negociações para abrir o Estreito de Ormuz, que é o que vai habilitar os Emirados Árabes Unidos a poderem então agora exportar mais. Isto traz duas circunstâncias particularmente curiosas e com isto termino esta resposta. A primeira é que os Emirados Árabes Unidos terão a possibilidade, assim, de começar a produzir mais. Essa maior produção, devemos ter atenção, que não vai mudar drasticamente, nem vai descer drasticamente aquele que é o preço do combustível, por exemplo, na Europa, porque o Estreito de Ormuz, primeiro, continua bloqueado até vermos e a quantidade de produção não será suficiente para fazer baixar o preço do petróleo. Por outro lado, pode levar a uma fragmentação dentro da OPEP, e este também é um dos casos curiosos, pode começar a levar a uma fragmentação dentro da OPEP, caso os Emirados Árabes Unidos sejam bem-sucedidos, que de alguma forma quebrará aquela união de meio século entre as monarquias do Golfo do ponto de vista económico e energético.

Bernardo, Carlos III está nos Estados Unidos, chegou ontem a ser recebido por Donald Trump. Já teve direito a chá, a uma festa privada, hoje há outro jantar, um jantar de Estado. É uma visita inoportuna numa altura em que Trump diz que o Reino Unido é um mau aliado ou Carlos III foi, como se costuma dizer, engolir um sapo para restabelecer as relações entre os dois países?

Acho que é essa segunda opção, ou seja, Carlos III tem que engolir aqui um sapo, que há uma preocupação britânica, e acho que isso também ficou evidente muitas vezes na posição de Keir Starmer em relação a Trump, que é perderem o estatuto de principal aliado no sistema internacional dos Estados Unidos. E é um estatuto que vem desde o fenómeno da colonização americana e que é isso, aliás, que estão a celebrar nesta visita. E essa aliança foi mitigada ou foi fragilizada agora por entrada de um novo player, que é Israel. Foi o próprio embaixador britânico nos Estados Unidos que numa sessão informal com alguns alunos veio dizer que se existia uma relação especial dos Estados Unidos com algum aliado, hoje em dia esse aliado era Israel. Portanto, uma crítica que deveria ter ficado também dentro de portas naquela sessão e saiu a público.

Isso foi uma gravação que foi depois divulgada publicamente. Foi uma gravação que aconteceu.

Precisamente. E claro que não estava à espera que fosse divulgada e, portanto, Carlos III agora também tem que ir amenizar um bocadinho os ânimos e de certeza que irão discutir essa questão. Porque de facto, neste momento percebemos que devido à tensão no Médio Oriente, devido à questão em Gaza, devido à questão do Líbano e do Irão, neste momento Israel é de facto, e aqui quando dizemos de facto é na realidade do terreno, o maior aliado de Donald Trump ou o maior aliado dos Estados Unidos e o Estado ou a nação que tem a relação mais próxima com a administração norte-americana. Por outro lado, há aqui outro elemento que será interessante percebermos que tipo de discussão é que Carlos III e Donald Trump vão ter, que são os ficheiros Epstein, porque claro que agora entraram novas coisas na agenda internacional e discutimos pouco os ficheiros Epstein, mas a verdade é que o próprio irmão do Carlos III estava envolvido ou tem o seu nome nos ficheiros Epstein, portanto alegadamente tem casos a pairar ainda sobre si, e o Congresso pediu que Donald Trump abordasse esta questão com o próprio rei Carlos, e portanto será curioso ver como é que o rei conseguirá gerir esta tensão inerente nas relações família real, caso Epstein, e depois do ponto de vista mais estrutural, mais macro, entre Grã-Bretanha e Estados Unidos.

O Irão tem avançado com propostas de abertura do Estreito de Ormuz sob condição dos Estados Unidos terminarem com o bloqueio naval. Bernardo, Trump fica assim sem argumentos ou podemos estar perante uma luz ao fundo do túnel nestas negociações?

Pois, perante aquilo que estávamos a falar da OPEP, acho que podemos ter aqui uma luz ao fundo do túnel. No entanto, Trump, o que tem tentado fazer ao longo dos seus milhares de tweets das últimas semanas, é tentar mostrar à sua população e ao seu eleitorado que o conflito está ganho, que o Irão vai colapsar, que o Irão pede encarecidamente aos Estados Unidos que se retirem do território ou que retirem pelo menos a sua frota. Mas há aqui algo que deve ser dito e salientado, que é Donald Trump. O que tem feito, na verdade, e o que pode realmente conduzir a uma vitória moral de Donald Trump, é que Donald Trump, na verdade, tem tentado simplesmente mudar os objetivos, reconfigurar os objetivos ao longo do tempo, para poder no final clamar vitória. Os objetivos iniciais, nenhum deles está alcançado, portanto, a mudança de regime não se deu. Para além disso, a obliteração do programa nuclear não se deu. E agora Donald Trump vai clamar vitóriaSe abrir o estreito de Ormuz ou se reabrir o estreito de Ormuz. Pois bem, isto não é uma vitória, até porque o estreito de Ormuz não estava fechado antes da intervenção. Portanto, Donald Trump quer uma saída, quer dar um salto em frente nesta saída, até para se proteger do ponto de vista eleitoral para as intercalares que aí vêm. E o Irão continua a ter a carta do estreito de Ormuz. Claro que está numa crise hídrica, tal como estava antes da intervenção, está numa crise económica, tal como estava antes da intervenção, mas a sua verdadeira carta ou o seu verdadeiro objectivo neste conflito, o objectivo iraniano, é principalmente não ter as suas estruturas nucleares totalmente obliteradas e ter a possibilidade de desenvolver algum tipo de armamento nuclear a curto prazo, assim que esta intervenção norte-americana e israelita saia de cena, saia do terreno. E essa opção, essa possibilidade de termos agora um acordo em que realmente o estreito de Ormuz volta a funcionar normalmente, mas os Estados Unidos terão que ceder, terão que ser pacientes, diria eu, relativamente flexíveis, relativamente ao programa nuclear iraniano. O que vamos assistir é que Donald Trump vai assinar um acordo tal e qual como aquele acordo que Obama assinou do JCPOA e que foi o próprio Trump que terminou porque dizia que o Irão não estava de boa fé nessas negociações. É um acordo que no fundo vai dizer ao Irão para mitigar ou vai dizer ao Irão para reduzir o seu armamento e a sua produção de enriquecimento de urânio ou de urânio enriquecido, mas na prática, sabemos que perante a falta de transparência e a opacidade do regime iraniano e a necessidade de equilibrar os poderes entre Irão e Israel, também no nível nuclear, farão com que o Irão, mais tarde ou mais cedo, comece a desenvolver novamente esforços infraestruturais e produtivos para armamento nuclear. E isso vai obrigar a uma nova intervenção mais tarde ou mais cedo, porque este sistema internacional, voltando à primeira pergunta de todas, este sistema internacional também está em desordem. Por quê? Está em desordem porque antes usávamos o armamento nuclear como fator dissuasor e neste momento usamos o armamento nuclear como fator de intervenção ou como justificação para as intervenções.

Bernardo, vou fazer-lhe uma última pergunta e agora peço que seja mesmo muito sucinto na resposta. Vamos falar da Faixa de Gaza, que é um tema que tem estado algo afastado aqui das nossas conversas. Há novos ataques israelitas que atingiram crianças no enclave e os Médicos Sem Fronteiras dizem hoje, ou reiteram hoje, que a água não chega à população. O que é que acontece? Há muita gente que está a ficar muito doente, não há condições básicas de higiene, não há água. O que é que é preciso fazer para que Israel, de alguma maneira, pare também de utilizar estes instrumentos como pressão ao Hamas e o que o Ocidente pode fazer além de condenar, que é o que tem feito ultimamente?

Não há uma resposta curta, na verdade, para isso, e tentarei ser o mais breve possível, mas há um passado histórico e um contexto de todas aquelas personalidades que giram à volta de Netanyahu e do próprio Netanyahu, da administração israelita, que não farão Israel recuar nem a sul do rio Litani no Líbano, nem em Gaza, nem na Cisjordânia e talvez nem no Irão. E, portanto, o facto deste regime musculado assinar de forma consecutiva cessar-fogo, cessar-fogo esses que também são de forma consecutiva quebrados, e claro que não está aqui em questão o facto do Hezbollah, o facto do Hamas em Gaza terem milícias terroristas, terem forças terroristas, claro que o são. No entanto, não existe neste momento a base de confiança para se estabelecer um cessar-fogo. Não existe daquele que é o poder unipolar ainda, e que deveria ser também um poder normativo, que são os Estados Unidos. Existe alguma complacência, até diria, com a postura de Israel e com os atos hediondos em Gaza. E no momento em que vemos que as pragas subsistem nos centros de ajuda humanitária em Gaza, estamos a falar de cerca de 80% dos centros de ajuda humanitária com pragas de roedores ou então outro tipo de doença, como sarna, por exemplo. Isto vai-se propagando e nós agora falamos menos disto, obviamente, porque outras geografias também merecem a nossa atenção, mas a verdade é que o governo israelita e as IDF continuam a perpetuar este modelo de ocupação efetiva, no fundo, e ocupação efetiva a todo o custo. E o que percebemos aqui, tal e qual como dizia no início, é que existe um falhanço das organizações internacionais, porque nós não temos capacidade, e quando digo nós, o Ocidente, não temos capacidade de fazer nada, nem sequer de impor um cessar-fogo. Não falamos de um processo de paz, falamos de um cessar-fogo. Isso não o conseguimos fazer. Neste momento, é o sintoma perfeito daquilo que é o falhanço das organizações internacionais, e organizações internacionais essas que terão que ser reconstruídas de alguma forma, e que o problema de Israel no Médio Oriente e que o problema das milícias armadas em Gaza, no Líbano, no Iémen, terão que também ser abordados. E este é um problema crónico do nosso sistema internacional, que nunca foi resolvido e que não parece que tenhamos os mecanismos para resolver.

Bernardo Valente, muito obrigada por ter estado esta noite no Gabinete de Guerra. Até à próxima.

Obrigado. Boa noite, Ana.

O Gabinete de Guerra fica por aqui e está de regresso amanhã de manhã.