Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Este é o Som do Gabinete de Guerra das manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões e esta manhã contamos com a análise do professor José Filipe Pinto, politólogo e especialista em movimentos extremistas. Bom dia, bem-vindo.

Muito bom dia, Maria João. Bom dia, senhores ouvintes.

A Rússia celebrou ontem o terceiro dia da vitória desde que começou a guerra na Ucrânia. Desde então que os russos têm traçado a conquista de vários territórios ucranianos para coincidirem com esta data. Mas José Filipe Pinto, Vladimir Putin não tem tido muito para apresentar ao país.

Sim, não tem muito para mostrar, mas temos de perceber que Zelensky e Putin estão, a meu ver, a viver momentos diferentes. E isso fica patente tanto no desfile como na tomada de posse do lado russo, mas também nas declarações de Zelensky e na necessidade de demitir algumas das suas lideranças. Eu entendo que o líder ucraniano, Zelensky, está a viver de esperanças, designadamente a adesão à União Europeia e à espera da chegada do armamento que já lhe foi prometido. Só que a realidade é muito dura. Ele teve de demitir o líder da Guarda Nacional. A força, como nós sabemos, pertenciam os dois ucranianos que aparentemente estavam envolvidos em mais um plano para o matar. E também teve de substituir o comandante das Forças Especiais.

Pela segunda vez em seis meses, não é, José Filipe Pinto?

Pela segunda vez. Esse é o problema, Maria João. E em tempo de guerra, há duas coisas que não se fazem: não se limpam as armas, nem se substituem lideranças. Esse é o reconhecimento de que a situação no terreno está mesmo muito difícil, tanto a nível bélico, a nível de armamentos, como da falta de efetivos. Repare, não é por acaso que a Ucrânia vai libertar os presos que queiram combater a Rússia. Onde é que nós já vimos isto?

Pois.

É uma revisitação da tática de Putin e de Prigozhin. Que, por sua vez, copiaram quem? Copiaram Stalin durante a Segunda Guerra Mundial. A história não se repete, mas revisita-se. Revisita-se constantemente. E entrando na questão de Putin. A meu ver, Putin vive no seu reino de fantasia e adapta o discurso de forma a que a propaganda crie, e a propaganda é muito forte na Rússia, uma realidade paralela. E essa realidade paralela está a fazer de Putin o herói nacional, o único capaz de sobreviver, de garantir a sobrevivência da Mãe Rússia. Contra a invasão de quem? De um Ocidente decadente. Esta é uma das falácias em que todo o discurso de Putin assenta. Por isso, quem é que apoia sempre Putin, a nível interno? É o líder da Igreja Ortodoxa, Cirilo. Por quê? Porque já lhe chama novo czar, já lhe chama imperador, já o trata como se ele fosse o pai da Rússia. E repare, ele é um líder que continua a tranquilizar o povo russo e a ameaçar com as armas nucleares. Mas atenção, por agora ele só fala das armas nucleares táticas, mas lembra que dispõe das estratégicas. E repare, neste Dia da Vitória, Maria João, o que é que ele voltou a falar? Voltou à falácia da operação militar especial. E há esquecimentos muito bem lembrados, porque não houve nenhuma palavra sobre o escândalo que está neste momento no Ministério da Defesa. E nós vimos o Shoigu, o ministro da Defesa, a fazer a sua homenagem às forças em parada. Esquecido que o seu protegido, o vice-ministro Ivanov, tinha acabado de ser detido, tal qual como dois empresários a ele ligados, por mais um escândalo que não é apenas a Ucrânia que tem problemas de escândalo nas suas Forças Armadas, na Rússia esses escândalos também são enormes.

No Médio Oriente, depois de mais uma ronda de negociações no Egito, a Hamas diz que a bola está agora do lado de Israel para um acordo de tréguas. O movimento islamita palestiniano diz que Israel rejeitou a proposta apresentada pelos países mediadores. Tel Aviv diz que o pedido de 12 semanas de cessar-fogo terá sido o obstáculo. E agora, José Filipe Pinto, o que é que se segue?

E agora eu penso que Joe Biden, Maria João, está a viver o seu momento Ronald Reagan. Em 1982, Reagan teve de mandar o presidente egípcio Begin parar o bombardeamento a Beirute, aquilo que o próprio Ronald Reagan designou como holocausto. Na conjuntura atual, eu penso que Joe Biden teve de ameaçar Netanyahu, primeiro exigindo conhecer os pormenores para a proteção dos civis, que Netanyahu quer deslocar de Rafah. Depois, perante a consciência de que não é a compra de tendas que vai resolver o problema humanitário, viu-se na necessidade de falar alto. Mas eu penso que convém separarmos as palavras e o efeito prático dessas mesmas palavras. A meu ver, os Estados Unidos não vão deixar de ser os principais aliados de Israel, mesmo que Netanyahu insista no ataque a Rafah. E eu entendo que Netanyahu vai insistir no ataque a Rafah e vai para esse cenário. É por isso que ele afirma, o presidente norte-americano, que não vai enviar armas para a ofensiva.

Mas Netanyahu diz que Biden cometeu um erro ao dizer isso.

Exatamente. Por quê? Porque Netanyahu, havendo vários cenários possíveis, para ele o plano é muito simples: só parará quando conseguir eliminar o Hamas. E para eliminar o Hamas, precisa de atacar, fazer uma operação gigantesca em Rafah. É duvidoso que ele consiga atingir os seus intentos, mas quase garantidamente que vai continuar a defender essa ideia e que a vai pôr em prática. E nós não podemos esquecer que, por outro lado, Biden está muito pressionado, não apenas por seu adversário eleitoral, tanto, mas também pela ala mais à esquerda do seu partido. E é por isso que eu, a meu ver, designo a atuação de Joe Biden como um tacitismo dual, que é dizer uma coisa, mas no fundo não fazer com que aquilo que diz corresponda à realidade. E Netanyahu sabe isso E também sabe, ele não desconhece, precisa de continuar a guerra pra se manter no poder. Por isso ele não aceitou o acordo, apesar de Blinken, que já foi sete vezes a Israel, considerou que os termos até eram aceitáveis. E não podemos esquecer que do outro lado está o Hamas, que não é um grupo pacifista como está a passar a imagem no Ocidente. Não é um grupo desprotegido, é um grupo político, mas com um braço terrorista que nos faz lembrar os nossos vizinhos da ETA e o Herri Batasuna. E há ainda um dado que, a meu ver, tem de ser chamado à colação. No terrorismo de motivação religiosa islâmica, o martírio não é visto nunca como lamentável ou algo a evitar. Nós aqui no Ocidente fugimos do sofrimento e da dor. Mas não, o martírio nesta tradição é visto como glória ou honra. E por isso o Hamas, a meu ver, está tal qual como Netanyahu. O seu braço político pode dizer que aceita um acordo, seu braço armado não aceita o acordo. E não aceita por quê? Porque o Hamas está preparado para levar ao martírio tanto a sua ala militar, mas também evidentemente os civis e, logicamente, os reféns.

E já que fala em civis, a ONU diz que nos últimos três dias ninguém entrou na Faixa de Gaza. O secretário-geral adjunto para os assuntos humanitários diz que não há combustível, não há caminhões, não há geradores, não há água, não há eletricidade e nenhum movimento de pessoas ou bens. Entretanto, o Hamas veio pedir que se pare com as entregas humanitárias aéreas depois da morte de mais duas pessoas. Perante tudo isto, como é que se pode fazer chegar ajuda aos civis?

Dificilmente poderemos fazer chegar essa ajuda e é importante que percebamos que verdadeiramente nem o Hamas está interessado que essa ajuda chegue. Precisamente por quê? Porque é aquilo que lhe permite aumentar a capacidade. Ninguém fica insensível perante crianças a morrerem à fome. Ninguém fica insensível perante mães a chorarem sobre os cadáveres dos filhos. Ninguém fica insensível a tanto sofrimento que grassa no Médio Oriente. O problema que está é que o Hamas não é parte para a solução para resolver esta situação. É parte do conflito e, mais do que isso, é parte do interesse. Dito de uma forma mais dura, o Hamas está a aproveitar-se daquele sofrimento para vender a sua mensagem terrorista e não está minimamente interessado nos reféns. Ver nos terroristas os libertadores de um povo oprimido é perfeitamente redutor. O Hamas, no seu braço militar, é uma coisa terrorista e esta organização terrorista não olha a meios para atingir os seus fins.

José Filipe Pinto, já sabe que gostamos sempre de o ter conosco. Muito obrigada por mais um Gabinete de Guerra.

O prazer é sempre meu.

Bom fim de semana.

Bom dia para si. Obrigado.