Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Em destaque, a situação no Médio Oriente. Daniela Nunes, bem-vinda. Israel diz que atacou militantes do Hamas dentro dos túneis, em Gaza. O Hamas teve 30 anos pra construir essas infraestruturas. É de acreditar em batalhas eficazes e a bom ritmo no subsolo, tendo em conta a dificuldade óbvia deste terreno, ainda mais com túneis com 500 km de extensão?

Olá, Vanessa, boa tarde. Só pra contextualizar os ouvintes, eu começaria por dizer que esta noite que passou, de 30 para 31 de outubro, marcou mais um momento intenso de bombardeamentos israelitas na Faixa de Gaza, na sequência dos quais, obviamente, não terão escapado alguns civis, com algumas agências de notícias a avançar pelo menos a morte de uma família de 18 pessoas, mas também, e segundo avançam estas notícias, Israel terá conseguido abater cerca de 300 alvos, inclusivamente dentro destes túneis do Hamas. Portanto, esta é uma guerra que está a acontecer em cima e embaixo de terra, o que também só complica, porque os soldados não são doninhas e porque ainda estamos a falar de uma extensão muito grande, sensivelmente 500 km de túneis. E é claro que a estratégia israelita certamente inclui a intenção de destruir estes túneis do Hamas, que como sabemos, albergam não apenas os homens, mas muitos materiais de guerra e provavelmente até a maior parte destes materiais que estão na posse dos terroristas do Hamas. E aqui surge um dilema, que é: por um lado, é fundamental destruir estes que são os armazéns bélicos do Hamas e que são vulgarmente conhecidos como o metro de Gaza, mas por outro lado, não nos podemos esquecer também da questão dos reféns e um ataque mal calculado a esta rede de túneis vai comprometer, de certeza absoluta, a vida destes reféns israelitas que lá estão presos. Mas mesmo assim, eu acrescentaria só um detalhe, que é o seguinte: se Israel quiser fazer esta investida, e eventualmente depois de salvaguardadas as vidas destes reféns, não sabemos quando nem como é que será possível garantir essa salvaguarda, mas se Israel quiser, tem meios pra o fazer. E esses meios são um conjunto específico de armas de que as forças israelitas dispõem. Só para dar alguns exemplos e também deixar algumas curiosidades, as chamadas bombas-esponja, por exemplo, que são uma tipologia de bomba que solta uma esponja e que por sua vez endurece quando está em contacto com o ar. Dá-se uma reação química e, portanto, pode ser muito útil neste contexto concreto pra fechar passagens nos túneis, pra bloquear essas passagens com o que resulta da tal reação química. Depois também existem as chamadas bombas antibunker, que são bombas com grande poder de destruição ao nível da profundeza do subsolo e de que Israel também dispõe. Mas isto tudo conduz-nos depois sempre à mesma questão, que é a questão central, e que são os reféns, que são usados pelo Hamas como um escudo humano e como uma garantia de que Israel não vai avançar numa estratégia deste tipo, de destruição total deste metro de Gaza, enquanto desconfiar que existem cidadãos israelitas sequestrados debaixo de terra.

E entretanto, Daniela, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, afastou por completo o cessar-fogo. Tem sido vincada a diferença entre cessar-fogo e pausa humanitária. Nem isto pode acontecer, esta pausa humanitária, tendo em conta os relatos e as imagens terríveis que nos têm chegado da falta de bens essenciais. É sinal de que a pressão internacional não está a funcionar?

Eu diria que Netanyahu é uma figura muito particular. É um homem com uma mentalidade e com ideias, vamos dizer, pouco maleáveis. E de alguma maneira, eu até não sei até que ponto é que ele não será aqui uma figura que pode vir a complicar futuras conversações e negociações para a paz, porque tenho a sensação, como também demonstra a própria história, que Netanyahu não vai querer meios-termos, não vai aceitar soluções que possam agradar mais alguém do que o seu próprio país, e isso obviamente não pode ser. A paz não é um estado que se atinge à moda absolutista. Portanto, tem que ser um acordo político entre partes, que obviamente sirva a ambas essas partes e que possa também reunir condições e sustento para que a guerra não volte a deflagrar, nem num futuro próximo, nem num futuro longínquo. Ora, aquilo que me parece é que Netanyahu vai dificultar um bocadinho este caminho. Aliás, como já está a dificultar. Bateu o pé e disse, em primeiro lugar, que esta guerra ia ser longa e difícil e mais recentemente disse não, de forma muito clara, a um cessar-fogo. Disse que não haveria um abrandamento das hostilidades, aliás, pelo contrário, e muito menos o seu fim. De alguma maneira, percebe-se aqui qual é a intenção por detrás desta sua flexibilidade quase nula. É dizimar o inimigo terrorista, não é? E isso é perfeitamente natural e legítimo, até porque também não nos podemos aqui esquecer que esta resposta de Israel ao ataque de 7 de outubro é um exercício legítimo de defesa e um direito que assiste ao Estado israelita. O que está a chocar a comunidade internacional e até mesmo alguns líderes e instituições no mundo É a forma como Israel parece não estar a ter em conta o fator civil e humanitário, que é urgente salvaguardar e que faz parte das regras de se fazer uma guerra. E quando eu digo regras, estou obviamente a referir-me às regras e ao modo de vida ocidental em que também se insere este Estado, Israel. E não às regras do Hamas, que não vive nem trabalha de acordo com regra nenhuma, como sabemos. Aqui o fator pressão internacional, de facto, parece que não está a existir grande efeito. E isso depois também se transforma, como temos visto um pouco por todo o mundo, na adoção de uma narrativa e de um espírito popular, que é mais ou menos anti-Israel. E atenção, não é anti-israelita, este espírito é anti este governo israelita, liderado por Netanyahu, que às vezes parece que só vê para frente. E isso, sem dúvida, vai ter, e já está a ter, dentro e fora de Israel, consequências para este executivo de Netanyahu.

E o povo israelita, Daniela Nunes, pode virar-se contra esta invasão terrestre a Gaza sem haver a libertação de reféns? Nós hoje tivemos uma atualização no número, 240, de acordo com Israel, que ainda estão nas mãos do Hamas. O primeiro-ministro israelita está aqui com as prioridades trocadas e corre-se risco de o povo também se revoltar.

Pois, eu acho que sim, e a meu ver, isto resulta sobretudo de uma certa irredutibilidade crônica deste executivo liderado por Netanyahu. Quer dizer, em todas as guerras, ou pelo menos em muitas guerras, houve dinâmicas semelhantes a esta da troca por troca. Isto é mais ou menos comum e não é um exercício chocante no contexto de uma guerra. Para Netanyahu, claro, trata-se de uma ação de propaganda psicológica, o vídeo que foi divulgado com as três reféns israelitas supostamente sequestradas nos túneis do Hamas, e Netanyahu veio dizer que a divulgação deste vídeo se tratava de uma propaganda psicológica cruel. E percebe-se por quê. Porque o vídeo mostra três mulheres reféns do Hamas a pedir diretamente a Netanyahu que ceda ao pedido dos terroristas da troca por troca, portanto, trocar reféns israelitas por presos palestinianos em território israelita. Não são os terroristas a pedir, nem a sugerir nada. São três mulheres, três cidadãs israelitas que há quatro semanas estavam a viver a vida delas normalmente e que agora estão presas por um grupo terrorista que atacou Israel no dia 7 de outubro. É óbvio que isto tem um impacto diferente, não só para Netanyahu, mas sobretudo para ele, e que de alguma maneira, o faz sentir o peso da responsabilidade ao ouvir aquelas pessoas a apelar diretamente à sua flexibilidade pelas suas próprias vidas e pelas vidas dos israelitas que estão na mesma situação que elas. Entretanto, sabemos também que Netanyahu deixou uma mensagem em resposta a este vídeo de divulgação, também ele dirigindo-se às três mulheres que falavam no vídeo e a dizer que Israel está a fazer tudo para trazê-las de volta para casa, assim como aos outros reféns. Mas quer dizer, palavras leva as o vento. E aquilo que as pessoas israelitas e no mundo inteiro querem, a meu ver, é que este executivo israelita revele também aqui alguma preocupação com o fator humanitário. E já que não tem revelado tanta essa atenção sobre o território da Faixa de Gaza e sobre, muito especificamente, o povo palestiniano, ao menos que agora nesta situação que envolve reféns israelitas, possa flexibilizar um pouco ideias que são e que têm sido muito estancas e muito duras sobre um não abrandamento das hostilidades face aos terroristas do Hamas.

Gostava ainda de ouvir Daniela Nunes aqui rapidamente sobre a reunião de emergência das Nações Unidas, que para já voltou a não reunir consenso em torno da resolução sobre Gaza. Aquilo que é apenas reiterado é que a lei humanitária internacional deve ser respeitada, sendo que esta reunião, este encontro vai continuar hoje ao final do dia. As divisões podem ser ultrapassadas? Quem é que capitaliza mais estes sentimentos de divisão? É mesmo Israel?

Infelizmente, eu acredito que estas discórdias e que a dificuldade de alcançar o consenso se vão prolongar. Este conflito promove, como sempre promoveu, uma polarização muito forte entre aqueles que simpatizam mais com a causa israelita e aqueles que, pelo contrário, defendem os palestinianos. E o contexto das Nações Unidas torna isto muitíssimo claro, porque envolve quase a totalidade dos países à face do planisfério e dificulta, por essa razão, o consenso e a homogeneidade das opiniões acerca do melhor caminho e das melhores metodologias a adotar no âmbito desta guerra e especificamente no âmbito da sua tentativa de resolução. E para percebermos como é difícil chegar a uma fórmula ou pelo menos chegar o mais próximo possível de uma fórmula para o consenso, basta pensarmos no Conselho Europeu da semana passada, que é um contexto com uma dimensão francamente inferior e que, como vimos, também não facilitou a tomada de decisões acerca, sobretudo, das questões humanitárias e até por uma questão de terminologia, houve discórdia. Portanto, não há dúvida que é muito difícil ultrapassar estas divisões e eu não estou muito otimista sobre a retomada das conversações da reunião de hoje às 19h de Lisboa, porque me parece que há aqui dois blocos muito bem formados, muito sólidos no que diz respeito às suas posições e com pouca vontade de ceder perante convicções que nem sequer são convicções de agora. São, na realidade, ideias e pensamentos muito antigos, tão antigos, aliás, quanto o próprio conflito israelo-palestiniano. São ideias com raízes também elas muito antigas e que, portanto, de certeza absoluta não se vão moldar de um dia para o outro.

A Guerra na Terra Santa é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã e tem nova edição depois da síntese das 16h30. Está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.