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"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Em destaque, a situação no Médio Oriente. Bruno Cardoso Reis, um dos ministros israelitas responsabiliza o Qatar pelo ataque de 7 de outubro, que motivou toda esta guerra. Diz que o país é patrocinador do Hamas, algo que o Hamas já vai contrariar, mas esse ministro de Israel diz que uma coisa é certa: o Qatar não vai envolver-se de forma alguma no que acontecer em Gaza depois da guerra. Como é que interpretas esta declaração?
Acho que Israel devia estar preocupado com outras coisas mais importantes e com outros adversários mais perigosos. Sim, é verdade, é sabido que o Qatar terá entregue provavelmente US$ 2 bilhões na última década a Gaza, ao governo que está em Gaza, que na prática é o Hamas. Também é sabido que provavelmente uma parte importante desse dinheiro foi desviada de projetos de desenvolvimento para fazer aquilo que interessava ao Hamas, que era construir túneis desenvolver uma estrutura militar para atacar Israel. Também é sabido que esse financiamento foi permitido pelo Estado de Israel, tacitamente, informalmente, mas foi permitido. Netanyahu tinha esta ideia de que o Hamas era conveniente do ponto de vista de ajudar a minar a autoridade palestiniana, no fundo, dividir para reinar, e também estava convencido que isso era uma forma de comprar uma certa paz com Gaza, com o Hamas, ou seja, que haveria alguns ataques episódicos com foguetes, mas nada muito ameaçador para o Estado de Israel. No fundo, eu diria que isso provavelmente expressa, sobretudo, a frustração dos altos responsáveis israelitas pelo enorme erro estratégico de cálculo que cometeram. É uma forma também de tentar desviar um pouco as atenções das enormes responsabilidades que têm no ataque de 7 de outubro e também as grandes dificuldades que estão a ter em atingir os seus objetivos, nomeadamente militares, agora em Gaza. No fundo, esta ideia de eliminar rapidamente e em força o Hamas, que sempre pareceu um objetivo muito ambicioso e no limite, esta ideia de uma eliminação completa do problema, que parecia bastante irrealista. E ainda terminava dizendo um outro ponto, que é: isso não quer dizer que não haja aqui críticas a fazer ao Qatar no apoio a alguns destes movimentos. Neste momento, não é isso que interessa. O Qatar é indispensável para mediar as negociações para a libertação dos reféns e os países árabes moderados serão fundamentais para qualquer processo de reconstrução de Gaza, para qualquer esforço para criar uma governação mais eficaz e que afaste os palestinianos de uma agenda mais violenta de confronto com Israel. Portanto, não me parece que estas declarações sejam de todo úteis desse ponto de vista.
E era precisamente sobre o papel do Qatar que eu gostaria também de ouvir Vítor Gabriel Oliveira. Esta afirmação de Israel foi depois de o Qatar ter acusado Netanyahu de obstruir a mediação para libertar os reféns e de estar mais interessado, o primeiro-ministro israelita, na carreira política. Esta troca de acusações faz com que essa mediação feita pelo Qatar fique comprometida daqui pra frente?
Eu penso que não. Eu penso que pode beliscar, mas não fica comprometida. O Qatar é um país preponderante na mediação, até por essas relações, como dizia o Bruno, históricas de financiamentos admitidos informalmente e que Israel, em alguma parte, sabia. Mas a base da ciência política é sabermos que quando precisamos de pressionar alguém, é dividi-lo internamente. E sabendo o Qatar que Israel e Netanyahu estão divididos politicamente, ou seja, Netanyahu está bastante fragilizado politicamente, estas afirmações vêm no sentido de pressionar Netanyahu a ceder, de certa forma, na mesa das negociações. Estas afirmações são afirmações para que depois a diplomacia possa funcionar mais nesse sentido que o Qatar faz estas afirmações, é para uma pressão pública.
Amanhã é conhecida a decisão do Tribunal Internacional de Justiça, mas antes Netanyahu vai reunir-se com juristas e outros funcionários israelitas para se preparar. Bruno Cardoso Reis, o que é que se pode esperar desta decisão do Tribunal Internacional de Justiça? É um pouco um exercício de adivinhação. Eu diria que também vendo a maior parte dos especialistas, não parece crível que o tribunal tome uma decisão definitiva. Isso acho que podemos afastar como impossível, ou seja, seria sempre um processo que demoraria muito tempo, porque inclusive seria preciso provar a intenção genocida do Estado de Israel. E Israel pode alegar e alegou coisas que realmente vão contra essas práticas. Eu não conheço nenhum caso de um ato de genocídio em que os genocidas, os autores do genocídio, avisem, lancem avisos sobre a população civil para se afastar daquelas zonas ou que permitam a entrada de ajuda humanitária nessas zonas. Aquilo que provavelmente vai acontecer será uma espécie de decisão preliminar, uma espécie de providência cautelar, no sentido de dizer: enquanto estamos a analisar, e partindo do princípio de que também não haverá um afastamento liminar da questão, enquanto estamos a analisar, Israel também em parte vai pagar o preço de ter ministros, ter responsáveis que fazem declarações do gênero "o que é preciso é mais bombardeados em Gaza, o que é preciso é forçar parte da população de Gaza a abandonar o território, ou mesmo toda ela". Tivemos deputados e alguns ministros, não o primeiro-ministro, não todos os ministros, não foi uma decisão do governo, mas a fazer esse género de declarações. Depois Netanyahu tem de vir dizer: "Não, isso não é verdade, não temos essa política". Israel aí tem esse problema. Tem figuras muito radicais com funções de responsabilidade e é bem possível que o tribunal continue a analisar a questão e eventualmente que avance com estas tais medidas cautelares, por exemplo, dizer coisas como não basta avisar a população para se afastar de determinadas zonas, isso não permite uma espécie de zona de tiro livre, mesmo nessas zonas tem de se continuar a procurar evitar mortes civis Tem de se criar condições de segurança nas zonas por onde a população civil se desloca, tem de se garantir um acesso à ajuda humanitária em quantidade suficiente para garantir que essa população tenha condições mínimas de vida. Provavelmente é esse tipo de medidas cautelares que estaremos a falar. Em função disso, também iremos ver a reação das partes. É muito importante sempre sublinhar isso. A partir desta decisão não há um tribunal de recurso, portanto é definitiva em relação às tais medidas cautelares possíveis, prováveis ou eventuais. Em todos os casos, é sempre necessário que um Estado aceite cumprir essas decisões, implementar essas decisões. Apesar de tudo, no caso de Israel, Israel aceitou participar no processo e apresentou argumentos e provas na sua defesa. Por exemplo, no caso da Rússia, nem sequer apresentaram provas e o argumento russo foi dizer que o tribunal não tinha nada que se meter no assunto. As decisões cautelares que foram tomadas nessa altura pelo tribunal, no sentido de dizer que a Rússia deve parar imediatamente as suas ações militares e retirar, não há nenhuma prova sólida, não conseguiu apresentar nenhuma prova sólida do tal genocídio no Donbass, que seria a justificação para esta ação. E obviamente sabemos que a Rússia não respeitou essa decisão, portanto isso também poderá acontecer neste caso.
O presidente do Irão apela ao isolamento político e económico de Israel. Vítor Gabriel Oliveira, isto seria impensável até pelo principal aliado de Israel, os Estados Unidos, ou haverá países dispostos a responder positivamente ao apelo do Irão?
Os países que estarão dispostos a responder positivamente ao apelo do Irão serão sempre os que estarão no bloco não ocidental. Os Estados Unidos, como eu já disse algumas vezes, têm dois porta-aviões naquela zona do Mediterrâneo, também na zona do Mar Vermelho, com uma força aliada do Reino Unido, os Navy Seals e Royal Marines mantêm a segurança naquela zona. Mas os Estados Unidos viraram a sua atenção para a guerra no Médio Oriente, porque também é mais difícil para os Estados Unidos conseguirem controlar a guerra no Médio Oriente. Ao contrário da Ucrânia, onde a falta de financiamento leva a que os Estados Unidos controlem quase ao milímetro as armas que entram, a ajuda militar que entra, e conseguem controlar quase a dinâmica de guerra nesta zona do Mediterrâneo e, nomeadamente, na guerra do Médio Oriente, em Israel, não o conseguem fazer da mesma forma porque Israel está muito mais organizado, é autónomo em grande parte da sua força militar e os Estados Unidos fazem uma pressão diplomática e de ajuda diplomática, mas não conseguem condicionar Israel. Isso tem-se visto até pela quantidade de visitas que Antony Blinken tem feito àquela zona e aos países à volta. Portanto, eu penso que não. Eu penso que os Estados Unidos irão continuar a pressão até novembro, até à altura das eleições, e depois provavelmente até um mês, dois meses antes da campanha dos Estados Unidos entrar na última reta final, mas estará congelado e entramos agora no dia número 100 da guerra, que se pensava que duraria pouco tempo. Netanyahu fez declarações em que iria ser tudo muito rápido, mas isso não se está a verificar. E penso que o Irão fez estas declarações também, como há pouco disse, para pressionar Netanyahu mais uma vez e em consonância também e em concertação com o Qatar. Netanyahu também já disse que estava disposto a negociar um cessar-fogo durante dois meses. E que para isso teriam que libertar todos os reféns. Estas declarações vêm no sentido de pressionar Netanyahu a realmente ceder.
A Guerra na Terra Santa é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã e tem nova edição depois da síntese das 16h30 da tarde. Está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.