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Portugal é o país europeu com a maior incidência de doença renal crônica. São cerca de 20 mil os doentes no estágio mais avançado da doença e destes, quase 13 mil fazem hemodiálise. Importa, por isso, debater a sustentabilidade do modelo atual da prestação destes cuidados de saúde. O ponto de partida para este podcast é o estudo sobre os modelos de financiamento em hemodiálise, elaborado pela Nova IMS e com o apoio da CSL Vifor. Hoje falamos com José Miguel Correia, ele é presidente da direção da APIR, a Associação Portuguesa de Insuficientes Renais. José Miguel Correia, antes de mais, obrigado pela disponibilidade para estar aqui conosco. Só uma parte mais interessada, obviamente. A hemodiálise existe para prestar cuidados de saúde aos doentes e o que eu lhe perguntava é, de facto, que avaliação é que faz da prestação destes serviços de hemodiálise no país?

Antes de tudo, muito bom dia, muito obrigado pelo convite.

É um gosto.

É sempre um prazer enorme a associação ser convidada para estes debates, estas conversas. Nós avaliamos o tratamento de hemodiálise em Portugal em concreto, bastante bom, ou seja, é um tratamento, podemos dizer, quase de excelência. A excelência nunca é alcançada, mas temos um enorme grande de centros de hemodiálise espalhados pelo país, de bastante proximidade com os doentes. Cada vez há mais proximidade para evitar grandes deslocações, que antigamente era um grande problema também.

A questão do transporte.

Efetivamente, a questão do transporte também debilita muito e tem interação no próprio tratamento.

Já estamos a falar de uma rede de centros privados que o Estado subcontrata e que paga um montante fixo por cada doente, o tratamento de cada doente.

Sim, efetivamente. Mais de 90% dos centros de hemodiálise em Portugal são privados. Existem depois alguns a nível público, mas pagam um valor por tratamento à semana. Que é um preço que chama-se o preço compreensivo.

Compreensivo, porque envolve tudo aquilo que é necessário para o tratamento.

Efetivamente, medicação, tratamento, exames complementares. Não todos, nem toda a medicação, porque a medicação vai sendo alterada ao longo dos anos, vai havendo investigação, vai havendo saída de novos fármacos. Por isso, há alguns que ficam na linha de espera para poder entrar.

Porque não cabem ali.

Efetivamente.

Se dependesse dos utentes, no caso da associação, o que é que mudaria? O que é que falta fazer?

O que é que falta fazer? Ao longo dos anos, olhou-se muito para a doença, ou seja, tratar o doente, só tratar, mas no modo geral. No caso do doente hemodializado, pode haver um tratamento mais personalizado. O que eu quero dizer com isto, não é que ele não seja, cada doente é um doente, o tratamento é personalizado, mas se calhar haveria doentes que teriam que fazer um tratamento com mais horas ou outros fazer menos dias. Porque o preço standardizado é a sessão toda completa durante uma semana, segundo tenho informação.

Acha que esse formato do tal preço compreensivo, que é igual pra todos, é que leva, no fundo, a prestação desse serviço a ser igual pra todos, de alguma maneira?

Sim, é de forma igual e equitativa. O tratamento de hemodiálise é transversal a nível nacional.

É aplicável independentemente do estado do doente, se está mais avançado, menos avançado.

Sim. Por quê? Porque, como foi já referido, um doente novo que entra em tratamento, seguramente não tem as mesmas necessidades de medicação, de tratamento em si. Isto, depois, os médicos têm que avaliar melhor, que uma pessoa que já leva mais anos em tratamento. Ou seja, o cuidado, porque há um desgaste do próprio doente no tratamento. É um desgaste bastante acentuado, calcificação de artérias, veias. Há uma panóplia de situações que vão surgindo ao longo dos anos do tratamento.

E que requerem, certamente, uma adaptação também do tratamento, outra tipo de abordagem.

Efetivamente.

Claro. Como sabe, discute-se a sustentabilidade financeira deste modelo, o tal modelo atual do preço compreensivo, é muito discutida, porque basicamente o Estado tem reduzido ao longo dos últimos anos ou o pagamento ou o efeito da inflação também acaba por devorar este pagamento. Este estudo da Nova IMS vem sugerir algumas mudanças. De alguma forma, receiam que a qualidade dos cuidados possa estar em causa se nada for alterado?

Efetivamente, havendo cortes. Uma vez disseram que havendo dinheiro na saúde, quem perde é o doente. Isto foi me dito até, curiosamente, por um médico. Mas realmente é uma grande preocupação. Nós temos, como eu já referi, um tratamento de excelente qualidade e que se houver cortes, as empresas, como empresas propriamente ditas, isto é transversal a qualquer empresa, quer manter a sua margem, quer manter a sua atividade de negócio. Nós estamos bastante preocupados que haja alguma redução na qualidade do tratamento. Há uma situação que Que não entra no preço compreensivo que é oferecido, se podemos designar assim, pelas empresas que prestam serviço na hemodiálise, que nós designamos por lanche, a parte nutricional.

E quanto tempo é que dura, em média, um tratamento?

Um tratamento dura entre quatro a seis horas.

E é feito quantas vezes por semana?

Três vezes por semana.

Quatro a seis horas, três vezes por semana.

Sim. Existe o turno diurno, o intermédio, o noturno e depois a longa noturna, que são os doentes que dormem mesmo no centro de hemodiálise. Geralmente entram entre as 23h, meia-noite, e saem à volta das 6h, 7h da manhã.

E durante o sono fazem o tratamento.

E durante o sono fazem o tratamento.

E portanto, estava a falar, obviamente, que com essa carga de tratamento, a questão nutritiva durante esse período é importante.

É bastante importante, sim, porque há relatos de doentes que aproximadamente entre uma hora e meia, duas horas, a pessoa tem necessidade de ingerir qualquer coisa. E digo lhe, realmente, nos centros que eu tenho visitado ao longo do país, nota-se a necessidade, ou seja, as pessoas têm mesmo carência económica e às vezes fazem disso uma refeição. Inclusivamente há colegas que dão a famosa sandes para eles poderem levar para comer em casa.

Para casa depois. E portanto estava a dizer que além do tratamento, obviamente, alguns centros de hemodiálise fornecem essa-

Todos.

Todos fornecem.

Não conheço nenhum que não o faça.

Extra requisitos clínicos, como diz.

Efetivamente, mas isso é uma situação para o doente que desconhece, ou seja, pensa que é uma situação já inserida no pacote da diálise.

Mas não está.

Mas não está.

O José Miguel Correia há pouco falou do impacto que isto poderá ter, de facto, na inovação, isto é, trazer fármacos novos, técnicas, práticas clínicas novas, que vão surgindo, que a tecnologia vai desenvolvendo de alguma maneira e que podem não ser, de alguma forma, cobertas pelo esquema atual do preço compreensivo. Sente de alguma maneira que isso já possa estar a acontecer?

Sim, acho que já há novos fármacos no mercado, novos medicamentos, que possam não estar a ser incluídos neste preço compreensivo. Ou seja, considero que o preço devia ser personalizado por doente. Se calhar o doente A não necessita o medicamento que toma o doente B. E então assim havia uma adaptação direta, possivelmente mais eficaz ao tratamento. Isto é a palavra de um doente.

Claro. A flexibilidade, no fundo, a associação acha que o sistema devia permitir alguma flexibilidade, isto é, adaptar devidamente o tratamento à necessidade de cada doente.

Efetivamente, mas atualmente não é uma realidade devida aos avanços da ciência e da medicina.

Daquilo que vai conhecendo em relação àquilo que é praticado noutros países, há alguma inspiração, isto é, há algum país que tenha um sistema que ache que é melhor e que de alguma forma gostasse de ver aplicado em Portugal? É difícil, porque sabemos que os sistemas são muito diferentes e uns incluem umas coisas, outros outras, e uns têm uns pagamentos diferentes também.

Efetivamente. Comparando com os nossos vizinhos, com Espanha. Espanha é um país sui generis, porque tem o governo central, depois tem as comunidades autónomas, que por si só também aplicam sistemas diferentes, regras. Tem as suas situações parecidas ou iguais às de Portugal, mas eu acho que seria mais a situação, como referi antes, de personalizar o tratamento.

Claro, ir adaptando.

Sim, ir adaptando.

Muito bem, José Miguel Correia, presidente da Direção Nacional da APIR, Associação Portuguesa de Insuficientes Renais. Obrigado pela sua presença.

Obrigado eu pelo convite.

Ajuda-nos a pensar no sistema português de hemodiálise. Chega ao fim então mais este episódio do podcast onde discutimos a sustentabilidade da hemodiálise em Portugal. Brevemente regressamos com um novo convidado. Até lá.