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"Ideias Feitas" na véspera da véspera de Natal. O que é que vais desembrulhar hoje, Alberto Gonçalves? Olá. Tens um presente para Mariana Mortágua?
Eu sei que vai com uns dias de atraso, porque entretanto meteu-se o fim de semana e meteram-se outros factos da atualidade, quaisquer. Mas gostaria de falar da despedida da doutora Mortágua, de facto, e nós já sabemos que em Portugal é hábito elogiar-se os mortos, mesmo quando os mortos não tinham grandes atributos dignos de elogio. E quando não há propriamente um funeral, salvo seja, arranja-se outro pretexto para louvar as pessoas. E foi o que aconteceu com a doutora Mariana Mortágua, que deixou o lugar de deputada e a menos que haja uma transferência para o PS a curto ou médio prazo, não é impossível, longe disso, mas se não houver isso é capaz de ter encerrado aqui a sua carreira política. No mínimo, saiu por agora do Parlamento, isso é um facto, e foi muito deprimente, pelo menos para mim foi, ver a alegada Casa da Democracia derreter-se em panegíricos a uma pessoa que tem dedicado toda a vida pública, naturalmente, a combater a democracia. Não me admirei nadinha, até achei adequado, achei legítimo, achei correto que a despedida da doutora Mortágua suscitasse os aplausos dos escassos parlamentares dos partidos de extrema-esquerda e naturalmente da bancada do atual Partido Socialista em peso. Acho que não houve exceções. O doutor Rui Tavares, do Livre, foi ao ponto de parafrasear Álvaro Cunhal e dizer: "Até amanhã e até sempre, camarada". Fica-lhe bem e tudo certo. Agora, fez-me alguma impressão e já não está tudo certo quando partidos e parlamentares de um arco democrático ou de um certo arco democrático tenham alinhado na vassalagem à senhora. Pelo PSD, o doutor Hugo Soares quis, e eu vou citá-lo: "Com respeito e consideração pessoal, dizer que a doutora Mortágua foi de grande lealdade no debate político e engrandeceu, lá está, a Casa da Democracia pela qualidade técnica." E o meu amigo Mário Morim Lopes, da Iniciativa Liberal, admitiu que há um oceano a separá-lo da doutora Mortágua, mas isso não apaga a forma como com combatividade e convicção ela serviu todos os que votaram no Bloco de Esquerda. E o pior que das declarações ainda foi constatar que todos os deputados da Iniciativa Liberal, ao que sei, e uma parte dos deputados do PSD aplaudiram de pé a doutora Mariana Mortágua. Aplaudir o quê? As convicções da senhora? Quer dizer, ter convicções não é necessariamente uma virtude. Podia apontar aqui 470 casos de pessoas que tinham convicções e não eram propriamente casos exemplares no bom sentido. Ter convicções não é uma virtude e sobretudo quando essas convicções, no caso da doutora Mortágua, passam ou passavam e continuam a passar, não parece que vá mudar agora, por defender um projeto totalitário e, passe a redundância, um projeto limitador da nossa liberdade. A verdade é que se o tipo de regime com que a doutora Mortágua sonha e sempre sonhou, e acredito que sempre sonhará, se esse regime alguma vez se realizasse, nós estaríamos desgraçados. E quando estou a dizer nós, refiro-me a todos os cidadãos que não integrassem a oligarquia opressora em que a doutora Mortágua teria certamente lugar de destaque nesse eventual regime. Agora, tudo o que a doutora Mortágua fez nos longos anos que passou na Assembleia da República, com sucesso, infelizmente, ou felizmente, na grande maioria dos casos sem sucesso, foi no sentido de tornar a nossa existência menos livre, mais condicionada, mais dependente e, em suma, mais triste. A palavra acho que será a mais certa. Não vale a pena citar exemplos. Vamos dos ataques permanentes à propriedade privada, depois aquela alucinação final com a flotilha do Hamas, passando por umas cambalhotas e uns volte-faces em redor da questão ucraniana. Também são muitos exemplos, também não cabem aqui. Agora, vale a pena sim lembrar que convicções destas não devem merecer palmas ou respeito de ninguém. Pelo menos de ninguém que não veja no horror comunista uma solução e um desígnio a perseguir. Quem vir no horror comunista uma solução ou um desígnio, acho que, como já disse, faz muito bem em aplaudir a doutora Mortágua. Agora, ela tem como modelo este horror comunista e parece-me absurdo que pegue-se onde se pegar, que haja alguma coisa de louvável nisto na perspectiva de um democrata, claro está. Agora, mesmo a terminar, Vanessa, também vale a pena notar que o Chega, para não ser tudo mau, o Chega e o CDS foram os únicos partidos cujas bancadas não aplaudiram a doutora Mortágua. E vale a pena reparar que o líder da bancada do CDS, o doutor Paulo Núncio, proferiu aquela que me pareceu ser a única frase certeira da sessão ao confessar que não tinha nada de bom a dizer da doutora Mortágua na despedida. E realmente, enquanto pessoa política, de facto, não há nada de bom, não consigo encontrar nada de bom a dizer sobre a doutora Mortágua, a não ser que se foi embora, pelo menos para já. E depois disto, feliz Natal aos ouvintes, feliz Natal, Vanessa e a toda a gente aí da Rádio Observador.
Bom Natal pra ti também, Alberto Gonçalves, pra ti, Mariana Mortágua, não vai fazer falta, o Bloco de Esquerda não te calha no sapatinho. Feliz Natal, Alberto.
Feliz Natal, Vanessa. Tudo de bom.
O Ideias Feitas conta com o apoio do Azeite Talismã.