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Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio também em 98.7, na Grande Lisboa, e 98.4, no Grande Porto. Desfazemos ideias feitas como é habitual, junta-se a nós o Alberto Gonçalves. Boa tarde, Alberto.
Olá, boa tarde.
Olá, Alberto, boa tarde. Hoje queres falar ainda do caso do jovem cabo-verdiano que foi morto em Bragança. E todas as acusações de racismo que andam à volta deste caso e também de um blog bloqueado?
Sim, eu entretanto fiquei a saber que o blog não está bloqueado, mas todas as páginas de Facebook que fazem link para esse blog ficam automaticamente bloqueadas.
Estamos a falar de que blog, Alberto?
O blog do António Balbino Caldeira, que foi aquela pessoa que denunciou, foi a primeira pessoa, talvez, ou das primeiras, certamente, a trazer a público as trapalhadas do engenheiro José Sócrates. E foi perseguido por isso, e o blog chama-se Do Portugal Profundo. Na altura aquilo foi notícia, foi deixando de ser notícia porque se fez o possível para ocultar o autor do blog e o conteúdo do blog, sobretudo. Entretanto, a pessoa existe. Eu conheci-o numa ocasião e o António Balbino Caldeira é uma pessoa real, não é um pseudônimo daqueles que escrevem teses de mestrado de ex-primeiros-ministros. Mas o caso em questão é a morte deste jovem cabo-verdiano, que era estudante do Politécnico de Bragança, e ele e uns amigos, ele e três amigos, suponho, foram atacados por um grupo de cerca de 15 pessoas na sequência de uma rixa de bar ou de umas palavras trocadas. Os amigos dele sobreviveram, acho que um pelo menos foi agredido também e ele acabou por ser morto. E na altura, por ser cabo-verdiano, e mesmo que a polícia não tivesse dito nada nesse sentido, o Bloco de Esquerda e o Partido Livre vieram falar de racismo e que a morte era obviamente um crime de ódio, um hate crime, como se vulgarizou dizer na América, e houve por aí, não sei se chegaram a consumar umas manifestações ou se pelo menos foram prometidas manifestações de apoio ou de homenagem a este rapaz, coitado, que foi vítima disto. De repente, parece que o caso sofreu um volte-face e as acusações de racismo desapareceram e, sobretudo, desapareceu o facto que parece mais ou menos comprovado, começou a constar por aí, que as pessoas que agrediram o jovem, que mataram o jovem, que agrediram os amigos, que são de um grupo de etnia cigana, que pelos vistos já provocou mais distúrbios na cidade de Bragança e já tinha agredido um rapaz do Bangladesh aqui uns tempos antes disto, isto foi antes do Natal, o caso do Giovani Rodrigues, deste estudante morto. Quem revelou isto, embora a história já constasse por aí, suponho, mas quem revelou isto agora há um ou dois dias com outro pormenor, foi realmente este blog Do Portugal Profundo, que além do caso do engenheiro José Sócrates, já tinha revelado também umas histórias ligadas a uma propriedade imobiliária do atual primeiro-ministro, doutor Costa, que também foi devidamente silenciada na altura. E agora este site, este blog Do Portugal Profundo revelou em pormenor estes detalhes dos autores deste crime em Bragança. Eu não sei se os ciganos em causa tiveram qualquer motivação racial, não é isso que está em causa. O que está em causa é que durante o dia de hoje, qualquer página do Facebook que tentasse ou que conseguisse fazer o link para este blog era automaticamente bloqueada pelo Facebook. Isto mostra, por um lado, as políticas editoriais do Facebook, que não são assim muito abertas, mas é uma empresa privada e estará no seu direito. O que também mostra, e é mais triste, é que há alguém, um conjunto de pessoas, presumo que não seja só uma, que não teria vagar para isso tudo, alguém especializado denunciar páginas de Facebook que contenham artigos ou links para artigos dos quais discorda. Isso é revelador do caráter das pessoas que o fazem. E tudo isto é revelador também dos nossos tempos, porque a questão tinha sido muito apressadamente reduzida a uma questão racial, ou seja, se um rapaz de origem africana aparece morto após um ato violento qualquer, tem que ser obviamente racismo. Se os autores do crime forem certas etnias que não se enquadrem no discurso que convém, ou seja, não sejam brancos, o racismo desaparece automaticamente e, pelos vistos, a morte do rapaz já passa a ser relativamente indiferente às pessoas que estavam muito indignadas com ela. Vamos ver o que é que sai daqui e, sobretudo, se o Bloco de Esquerda e o Partido Livre vão tomar alguma posição acerca do assunto. Eu suspeito que não irão.
Obrigado, Alberto. Bom fim de semana, Alberto Gonçalves.
Igualmente.
Voltamos a desfazer ideias feitas com Alberto Gonçalves na segunda-feira. Entretanto, esta edição vai ficar disponível já a seguir em podcast, nas plataformas habituais e em observador.pt.