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"Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves e hoje queres falar sobre a implacável justiça britânica, Alberto.
Olá, Ricardo. Quero sim, senhor. Pelo menos é o que parece, é o que dizem. Anda por aí um enorme entusiasmo após a prisão do príncipe Andrew, da Inglaterra e, sobretudo, anda por aí uma vontade imensa em fazer notar as diferenças entre essa justiça implacável e democrática do Reino Unido e o regabofe antidemocrático que são os Estados Unidos atuais. Isto, sobretudo, na medida em que, estando na mesma referido múltiplas vezes como o príncipe nos ficheiros do senhor Epstein, o senhor Donald Trump continua à solta. Aliás, a pretexto disto, acho que foi ontem, o conhecido jornalista Mário Crespo afirmou na CNN Portugal que não se pode sequer comparar a Europa civilizada, da qual o Reino Unido é o expoente máximo, com os Estados Unidos. Vamos por partes. Em primeiro lugar, o príncipe ou o ex-príncipe, como já vi referido, não sei muito bem como estas coisas se fazem, mas o príncipe Andrew não foi preso, foi detido durante 11 horas e foi solto logo a seguir. Neste momento, que eu saiba, está solto. Em segundo lugar, todo o caso não mostra a eficácia da justiça britânica, mostra quando muito justamente o contrário, visto que o sujeito em questão já é suspeito de envolvimento na agora famosa rede de prostituição e pedofilia desde 2001 e com suspeitas cada vez mais graves e mais claras nos anos seguintes. E por isto ou por aquilo, tudo indica que o príncipe Andrew está em liberdade há cerca de 25 anos a mais do que deveria estar. E pelos vistos, assim vai continuar, pelo menos nos tempos mais próximos. Quanto ao senhor Trump, entre as inúmeras referências que lhe são feitas nos ficheiros do senhor Epstein, não há uma única capaz de justificar legalmente a impugnação do seu cargo ou, noutras circunstâncias, a sua acusação e posterior detenção e prisão, essas coisas, e condenação, etc. Ao contrário do que acontece com o irmão do atual rei de Inglaterra, há menções circunstanciais sobre o senhor Trump, estou a falar dele, sem qualquer relevância criminal e nos poucos casos mais delicados que podiam ter consequências penais, a coisa, ao que parece, resume-se a um ou dois testemunhos que as próprias autoridades do Departamento de Justiça norte-americano consideram pouco fiáveis. E o que é engraçado é que o interesse que tantos mantêm em volta dos fechos Epstein, e isto não é surpresa para ninguém, parece limitar-se à possibilidade de os mesmos poderem incriminar Trump a bem ou a mal. E tudo o resto é desprezível. Os media nacionais, por exemplo, podiam interessar-se pelas referências ao neurologista português António Damásio, que teve encontros com o senhor Epstein em 2009 e 2013. Fui confirmar isto. Isto aconteceu um ano e cinco anos depois do senhor Epstein ter sido condenado por solicitação de prostituição de uma menor de idade. Foi em 2008. O professor Damásio garantiu que não sabia do crime, natural que não soubesse, ele e milhares de pessoas que são citadas nos ficheiros. O Trump, ao que se sabe, e para desgosto de muitos, até cortou relações com o senhor Epstein em 2004, portanto quatro anos antes da primeira condenação do ex-líder desta rede de prostituição. Agora, nada disto deve demover os mais empenhados em chamar a atenção para o declínio civilizacional americano e o vigor justiceiro da Europa, principalmente do Reino Unido. Por um lado, mesmo que Trump nunca venha a ser acusado ou condenado nesta história, pode-se sempre insinuar que foi protegido por um sistema que ele mesmo ajudou a corromper. Ele está a destruir, como se sabe, a Federação e a República. Por outro lado, e ainda que o príncipe Andrew permaneça afinal em liberdade, o que não falta no Reino Unido atual são pessoas que estão presas por delito de opinião, por discurso de ódio, por uma série de motivos que antigamente, pelo menos nas democracias, não costumava dar prisão. E estes crimes, o tal discurso de ódio, o delito de opinião, pelos vistos no Reino Unido são crimes bem mais graves do que a pedofilia. E realmente nisto o jornalista Mário Crespo tem razão. Não se pode comparar o Reino Unido com a América.
Obrigado, Alberto e bom fim de semana.
Bom fim de semana, Ricardo.
Um abraço.
Um abraço.
O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite Talismã.