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Gonçalves para a crónica diária. Ideias Feitas, sempre com a assinatura do Alberto Gonçalves. Hoje, Alberto, queres olhar aqui esses cenários, essas possibilidades de uma aliança entre PSD e PS. Olá.
Olá, Vanessa. É porque toda a gente se lembra, ou pelo menos tem a obrigação de se lembrar, a não ser daqueles que sejam muito novinhos, daquilo que aconteceu em finais de 2015. E em finais de 2015, em outubro, novembro, o PSD em coligação com o CDS, tinha acabado de ganhar as eleições sem maioria absoluta. E Pedro Passos Coelho, que é na altura primeiro-ministro e líder dessa coligação, tentou, e sabe Deus com que repulsa política, não faço ideia se pessoal, mas política imagino que sim, tentou negociar um acordo de governação ou, no mínimo, uma espécie de apoio parlamentar com António Costa. E o doutor Costa fingiu, mas fingiu muito mal, ninguém acreditou naquele fingimento, que estava a negociar alguma coisa com a chamada direita. Na verdade, muito depressa se percebeu que o doutor Costa já estava decidido, por um lado, a fintar uma regra tácita do regime, ou seja, a de que o partido ou coligação mais votados deveriam governar e, por outro lado, a conseguir uma maioria na Assembleia da República à custa de outra inovação, que foi a abertura à entrada dos dois partidos comunistas, no caso o PCP e o Bloco de Esquerda, no espaço de influência governamental. Nunca tinha acontecido até aí, passou a acontecer com o doutor Costa. E, portanto, em 2015, o PS, partido derrotado nas eleições, convém repetir isso, preferiu governar aliado a dois partidos antidemocráticos do que governar, de alguma forma, com o PSD, que foi o partido vencedor dessas eleições, em coligação e tudo isso. Dez anos depois, ou seja, agora em 2025, é esse mesmo PS que decreta ser inadmissível que o PSD, que em coligação outra vez, voltou a ganhar as legislativas, se possa aliar de alguma forma ao Chega. Eu vejo por toda a parte, nem sequer é preciso ir às redes sociais, mas nos estúdios das televisões, nas colunas de imprensa, não faltam por aí socialistas cheinhos de responsabilidade e de sentido de Estado a decidir ou a tentar decidir, a proclamar pelo menos, a sentenciar aquilo que o PSD pode e não pode fazer. E segundo eles, o que o PSD não pode fazer é juntar-se de alguma maneira ao Chega. O que o PSD pode, deve e tem de urgentemente fazer é juntar-se ao PS, de modo a impedir, dizem eles, a radicalização do regime. O PS, que agora é apenas o terceiro partido, isso confirmou-se hoje, não está formalmente confirmado, mas já se sabe que o PS é o terceiro partido, ainda se julga mesmo assim no direito de definir regras. E pior, de definir regras que o próprio PS não cumpriu e que à primeira oportunidade voltará a não cumprir. Ninguém tem ilusões sobre isto, porque para alcançar o poder, o PS do doutor Costa não teve escrúpulos nenhuns em radicalizar o regime, em extremar politicamente o nosso sistema. O doutor Pedro Nuno, evidentemente, também não teria ideia, teria ainda menos. E este moderadíssimo José Luís Carneiro, que tudo indica será o próximo chefe da coletividade socialista, fez em 2015 parte desse governo que foi suportado no Parlamento pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda. E não me recordo do doutor José Luís Carneiro ter protestado o extremismo desses partidos ou exigido uma aliança responsável, como eles agora dizem com o PSD. Não me recordo que ele tenha feito nada disso. Foi convidado pro governo, pra uma Secretaria de Estado das Comunidades, uma coisa qualquer, e aceitou. Julgo que livre e alegremente, sem qualquer queixume. Portanto, nesta fase, a questão é a seguinte: acho impossível haver qualquer espécie de pacto entre o PSD e o Chega. E acho também que o doutor Ventura teria que ser particularmente ingênuo pra aceitar qualquer ranginho do gênero. Agora, entre parênteses, só voltando um segundo atrás, Vanessa, eu acho que o doutor Ventura até seria o principal beneficiado de uma aliança PSD e PS, fosse formalizada em que condições fosse, e como os socialistas agora exigem, acho que o Chega seria o principal beneficiado disso. Mas não acho que seja esse o ponto, ou pelo menos não é esse o ponto a que eu quero chegar. O ponto a que eu quero chegar é o seguinte: se o PSD aceita os conselhos e as recomendações, e até as ameaças do PS, que às vezes o tom nem é particularmente simpático. O ex-ministro da Educação, o doutor João Costa escreveu, pediu este acordo PSD e PS de uma maneira nada cordial, quase que exigiu com maus modos uma espécie de acordo entre o PSD e o PS. Mas se o PSD aceita essas ameaças e essas recomendações, o PSD acaba dando razão àqueles que passaram a chamar lhe de PS2, porque se o PSD, que sai reforçado das legislativas como saiu agora, não particularmente reforçado, não muito reforçado, mas alguma coisa reforçado, e que pelo menos simbolicamente, lidera uma direita com cerca de 70% do Parlamento, se mesmo assim o PSD estende a mão pra salvar o PS da irrelevância, o PSD merece cair numa irrelevância semelhante. O PS, neste momento, não deve ser ajudado ou resgatado de nenhuma forma. O PS deve ser castigado. Foi isso que o eleitorado fez no dia 18 de maio e é isso que os partidos em quem o eleitorado votou devem fazer.
E a pergunta é-
E tenho dito, Vanessa.
Percebi. E a pergunta que deixas é: o PSD vai deixar o PS ditar as regras? É o título deste Ideias Feitas. Alberto, amanhã mais. Até amanhã.
Com certeza. Até amanhã, Vanessa.
Até amanhã.
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