1 Foi perante os líderes políticos do mundo inteiro que António Guterres afirmou que a escala de destruição em Gaza atingiu uma dimensão nunca vista nos seus dois mandatos na ONU. Num ápice as centenas de milhares de mortos na Síria, no Sudão, na Etiópia e no Iémen transformaram-se numa nota de rodapé da história comparadas com Gaza. Não é necessário perceber que o sucedeu em Gaza foi horrível para obrigatoriamente termos de concluir que foi o acto mais horrível de sempre. Não foi. E não é preciso recuar ao Holocausto. Basta dirigir o olhar, a atenção e a honestidade um pouco para o lado para compreender que o mundo não acaba em Israel. Infelizmente, não foi o que fez António Guterres nem os que, como ele, gostam de exibir a sua bondade à custa da maldade judaica. Não é de agora, foi assim no passado e desta forma será até ao fim dos tempos. Os judeus foram expulsos de Portugal e de Espanha porque esta não era a terra deles. Os judeus foram expulsos da Europa porque esta não é a terra deles. Os judeus devem ser expulsos dos 20 mil kms2 que ocupam na Médio Oriente porque aquela não é a terra deles. É quase certo que se os judeus fossem colocados numa ilha deserta do Pacífico, de imediato esta se tornaria num centro geoestratégico indispensável à segurança da humanidade que, ocupada por tais pessoas, colocaria uma séria ameaça à paz e boa vontade no mundo.
2 Verdade seja dita que a ONU deixou de pertencer a este mundo. No final da última Primavera, Portugal conseguiu a eleição para membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Além do triunfo diplomático, além da prova provada que Portugal é bem visto lá fora qual é o feito prático da eleição? A bem ver nenhum. E nenhum, não porque o conselho tenha membros permanentes e estes direito de veto. Na verdade, se o Conselho de Segurança teve alguma relevância no passado foi devido a esse direito de veto e à permanência constante dos estados mais poderosos. Foi o realismo e o pragmatismo político que deram força ao Conselho.
A ONU está caduca, não por não se ter reformado, mas porque o mundo está a mudar para uma realidade em que organizações como as Nações Unidas não têm lugar. A ONU foi um passo de gigante na ideia de uma regulação jurídica que ajustasse as relações internacionais a um mínimo de ordem que, na medida do possível, não derivasse da força. Ou que pelo menos desse uma aparência disso apesar do Direito Internacional ser uma criação ocidental sustentada num equilíbrio conseguido e mantido pela força. A dos EUA e URSS, primeiro; apenas dos EUA, depois.
Esse equilíbrio terminou. Os EUA deixaram de ser a única potência e a outra que se lhe juntou rege-se por uma cultura e princípios diversos da ocidental. A China não é a Rússia que há 500 anos se desenvolveu nas fronteiras da Europa, mas uma potência milenar, anterior ao Império Romano e que desde então se toma pelo centro do mundo.
Não sabemos que novo equilíbrio de forças está a ser forjado. Mas intuímos que organizações como a ONU não terão a relevância que lhes foi dada no pós-guerra. Na última Foreign Affairs, o britânico Mark Leonard, fundador do European Council on Foreign Affairs, faz menção a um mundo dividido em novos blocos que não serão estanques como na Guerra Fria. Mais: que esses blocos criaram ou estão a criar organizações de cariz regional, como os BRIC+, a Organização para Cooperação de Xangai ou a fazer por adaptar outras já existentes à nova dinâmica internacional. A título de exemplo, a China tornou-se num observador do Conselho do Ártico, apesar de geograficamente não estar lá nem perto, pelo que Leonard sugere que os estados europeus façam o mesmo noutras organizações como os já referidos BRICS+, a Organização para Cooperação de Xangai, mas também a ASEAN (em português, Associação de Nações do Sudeste Asiático). Tratam-se cada vez mais de organizações que têm a particulariedade de um estado poder estar numas com uns estados e noutras com outros estados que tenham pouca relação (mesmo relações cortadas) com os primeiros. Serão poucos os capazes de marcar presentes em várias destas organizações regionais. Mas alguns vão conseguir inserir-se numas e noutras, seja pela habilidade dos seus governantes, pela tradição da história ou pela força da geografia. Portugal pode ser um desses casos. O único estado europeu que não é uma potência, mas tem ligações em todos os continentes. Um estado europeu e atlântico que precisa de um apoio marítimo para se manter, tenha este sido o Brasil ou o Reino Unido e como hoje são os EUA. Um estado peninsular que facilite à potência atlântica que o protege o controlo da navegação deste oceano e o acesso ao Mediterrâneo.
O mundo que conhecíamos desabou sem que outro se tenha, entretanto, formado. Por ora vivemos uma incógnita, mas é provável que um lugar no Conselho de Segurança não sirva para mais que um prémio de consolação de quem se dá bem com todos por ser inofensivo. O mais natural é que um país como Portugal se tenha de reposicionar de outro modo se quiser ter a relevância necessária, não digo para marcar a agenda internacional que não há dimensão para isso, mas se manter à tona e continuar como até aqui.
3 EUA e Dinamarca assinaram um acordo sobre a Gronelândia que concede aos EUA a responsabilidade de proteger aquele território em troca de um controlo da ilha no Ártico. Neste acordo, os EUA reconhecem e respeitam a soberania da Dinamarca e o direito à autodeterminação do Gronelândia.
O que aconteceu a 22 de Setembro deste ano não é uma novidade, mas uma repetição do que sucedeu a 9 de Abril de 1941 quando EUA e Dinamarca assinaram um acordo pelo qual os EUA reconhecia a soberania da Dinamarca sobre a Gronelândia ao mesmo tempo que o governo norte-americano tomava o controlo da defesa daquele território.
Em 2026 não estamos numa guerra europeia como em 1941. Mas atenção que em Abril de 1941 os EUA também não estavam em guerra. Para compreender o que Trump pensa sobre a actual situação da Europa não basta a jocosidade para disfarçar a indignação. É preciso mais até porque se compreendermos Trump, a América, estamos em melhores condições para corrigirmos os erros e confrontarmos os nossos adversários. Para Trump, os EUA não estão em guerra como para Roosevelt também não estavam. Ainda. No entretanto, é preciso tomar precauções e preparar o terreno. Durante a Segunda Guerra Mundial, Churchill, que todo e qualquer europeu sensato admira, não teve pejo em pedir ajuda a Washington e em entregar aos EUA as chaves do império e da influência britânica no mundo para salvar o que considerava essencial. O que o governo da Dinamarca fez não foi mais que uma decisão sensata tomada desta vez sem que o seu território tenha sido ocupado, contrariamente ao que aconteceu em 1941. Será com actos como este que esse destino talvez se evite agora.
Outra lição que podemos retirar da Segunda Guerra é que Açores, Madeira e Cabo Verde não tiveram de ser ocupados pelos EUA ou pela Grã-Bretanha, como esteve em cima da mesa por diversas vezes, nomeadamente em Abril de 1941, logo após o acordo dos EUA e da Dinamarca. E não aconteceu porque Salazar (que não nutria qualquer simpatia pelos EUA) não confrontou a administração norte-americana. Foi duro, foi exigente e exasperadamente demorado nas decisões, mas nunca teve dúvidas sobre onde residia a nossa segurança. Se Salazar foi capaz de engolir o sapo norte-americano nós também temos de ser capazes de lidar com Trump com inteligência, perspicácia e muito pragmatismo.