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"Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo. Obrigado.
E hoje quero dizer aos festejos da vitória do PSG na Liga dos Campeões que acabaram em motins.
Acabaram e se calhar já começaram assim. Acho que as pessoas sabem, já viram as notícias, acho que passou nas notícias que depois da vitória na Liga dos Campeões do Paris Saint-Germain, houve milhares de criaturas que saíram às ruas, uns para festejar, com certeza, normalmente, e outros desataram a incendiar e a demolir o que lhes aparecia à frente. E houve centenas de feridos, uma boa parte deles agentes da polícia, agredidos até com verrelhetes e não sei o que mais. Houve centenas de carros incendiados, houve quase mil detidos ou mais de mil detidos, acho que pelas últimas informações. Que não são detidos, mas que na vasta maioria já terão sido libertados ou devem ser libertados em breve. Houve prejuízos de um valor que não será fácil de calcular e há a certeza de que semelhante barbárie não foi a primeira no seu género e não será a última. E houve também as explicações da praxe que procuram legitimar a barbárie. Uma das explicações, não é a principal, mas foi uma das que eu ouvi por aí, prende-se com a violência associada ao futebol. Mas como argumento é fraquinho, porque ainda que as vitórias internacionais de equipas francesas, seja da seleção, seja lá do Paris Saint-Germain, sejam já há muitos anos acompanhadas de uma espécie de simulacro de guerra civil, a verdade é que isto não acontece necessariamente noutros países. A seleção portuguesa de futebol foi campeã da Europa há 10 anos, ou coisa que valha, e os portugueses e as pessoas que viviam em Portugal, em geral, não saíram pelas ruas fora a pegar fogo a tudo. E quando a França ganhou o Europeu de 1984, que eu esse até acompanhei com algum interesse, era miúdo, isso também não aconteceu. As pessoas que viviam em França, os franceses ou não franceses, também não vieram pegar fogo ao que calhava. E de qualquer maneira, em França, mesmo que não haja jogos de futebol, nem vitórias para celebrar ou derrotas para lamentar, já para aí há 30 anos que os bárbaros arranjam qualquer pretexto para destruir o que calha. A explicação mais utilizada para justificar isto é o desenraizamento ou a exclusão social dos jovens que vivem em bairros sociais e são, sobretudo, de ascendência magrebina. E a propósito disto, é curioso notar que enquanto todos fogem a identificar a origem dos autores da maioria dos distúrbios, logo a seguir, todos usam a mesma ascendência para justificar as causas sociológicas dos mesmos distúrbios. Ou seja, para efeitos de culpa, a origem não importa. Para efeitos de desculpa, a origem importa imenso. Infelizmente, também acho que não é este argumento que vai explicar nada, porque há muitos imigrantes de outras origens que também vivem em bairros sociais, naturalmente, e pelos vistos, o desenraizamento e a exclusão social não lhes dá para pegar fogo à propriedade alheia. E além disso, há muitas comparações que podemos estabelecer, mas os portugueses dos bidonvilles na década de 1960, quem lhes dera, eles sonhariam em ter um apartamento num bairro social. Viviam em condições muito piores, e nem por isso organizavam motins à primeira oportunidade. E hoje há inúmeros pobres, imigrantes ou não imigrantes, se for preciso, bem mais pobres até do que os bárbaros que cometem estas atrocidades e que não participam nas atrocidades, porque não são assim. Ou seja, numa época em que o padrão é ninguém ser culpado por nada, eu acho que convém notar, pelo menos de vez em quando, lembrar, que este estado de coisas é culpa, com certeza, das pessoas que os praticam, em primeiro lugar, há que as responsabilizar e essa falta de responsabilização pesa nisto tudo, mas também é com certeza culpa dos governos e da quantidade suficiente de eleitores capaz de eleger governos. Porque em França, e infelizmente não é só em França, França talvez seja a vanguarda deste tipo de episódios, mas pela Europa afora e quase sem exceções, nós vamos tendo vergonha da nossa própria história. Isto não é nacionalismo, é uma questão apenas de mero bom senso, de alguma razoabilidade. Não é positivo, não traz coisas boas, não é propenso a trazer coisas boas, nós exibirmos sistematicamente esta fraqueza generalizada e evidente que convida que o nosso mundo seja tomado por selvagens ou, se quiserem um eufemismo, por agentes do caos ou por vítimas da exclusão social. Claro que a imigração tem sido desmesurada, tem sido descontrolada e isto tem, sem dúvida, muito a ver com o assunto. Mas muitos imigrantes, evidentemente, também não são criminosos. E os criminosos das ruas francesas não são apenas imigrantes ou filhos de imigrantes. Acho que o problema vai mais fundo. E a própria escala da imigração, que é imensa, que é, repito, desmesurada, é indistinguível do fato de que o Ocidente está a abdicar de se preservar, de defender aquilo a que chamávamos o modo de vida, ou seja, de garantir a sobrevivência de uma espécie de civilização que nós íamos tendo. Não sei se este declínio acentuado é aquilo que quisemos que acontecesse, se isto foi deliberado. Acho que não, mas a verdade é que é aquilo que deixamos acontecer e que está a acontecer e que promete acontecer cada vez mais. E com esta nota de otimismo, despeço-me com amizade para evocar o pessoa idoso, engenheiro Sousa Veloso. Até amanhã, Ricardo.
Um abraço, até amanhã, Alberto.
Um grande abraço.
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