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Antes de chegarmos ao jornal das 19h, vamos ter tempo ainda para olhar as notícias que marcam o dia no campo do desporto com mais uma edição do Euromilhões, antes de fecharmos a tarde em direto. Para já, está na hora de desfazer ideias feitas com o comentador do Observador, Alberto Gonçalves. É a primeira edição desta semana.
Vamos desfazer ideias feitas com o Alberto Gonçalves e hoje vamos olhar para esses resultados das eleições legislativas em Itália. Alberto, o que te parece? O que vem aí?
Não sei, Vanessa. Olá, boa tarde. Eu gostava de citar ou de lembrar uma discussão que houve esta semana nas redes sociais entre um embaixador ligado ao engenheiro Sócrates e ao PS, um ex-embaixador, julgo, e um jornalista da Visão, e em que o ex-embaixador invocava como argumento legitimador do seu profundo conhecimento sobre a Ucrânia, o fato de ter lá estado duas ou três vezes. Eu já estive na Itália mais do que duas ou três vezes, seguramente, umas seis ou sete, já não me lembro. E isso não faz de mim um especialista em política italiana, que, aliás, é muito volátil e muda a qualquer instante, como aconteceu ontem, e não quer dizer que não aconteça amanhã. Agora, não é preciso ser um grande especialista em política partidária italiana para reconhecer os sinais que chegam da Europa toda face aos resultados de ontem. E os sinais são os do costume, são aquelai Jesus todo que vem aí a extrema-direita, vem o fascismo, regressou o Mussolini. Não quer dizer que não tenha vindo e que não tenha regressado, mas esta é a história do Pedro e o Lobo. Estamos tão habituados a ouvir a invocação do fascismo sempre que ganha alguém de que a esquerda não gosta, em qualquer país, que é natural que uma pessoa tenta desvalorizar um bocado esses alertas e esse pânico todo. Além do mais, mesmo que em Itália tenha ganho a extrema-direita, e em certa medida ganhou, sim, com certeza, naqueles partidos que formam esta coligação que chega agora ao poder, há ali ideias inequivocamente de extrema-direita, há coisas ali com as quais não me parece difícil concordar, há coisas das quais é absolutamente fácil discordar, melhor dizendo. Agora, por que este pânico face à normalização da extrema-direita ou de vento da extrema-direita e não haver o mesmo pânico quando a extrema-esquerda chega ao poder formal ou informalmente noutros países da União Europeia, quando isso tem acontecido? No caso espanhol, por exemplo, formalmente, no caso português informalmente, mas tivemos partidos que defendem ideologias que não são em nada mais recomendáveis do que as ideologias defendidas por esta senhora Meloni. E, no entanto, não houve este pânico. Este pânico até levou a que, antes das eleições, a senhora presidente da Comissão Europeia, a senhora dona Ursula von der Leyen, viesse aconselhar, mais ou menos ameaçando os italianos a não votarem nos partidos que formaram esta coligação. O que me parece um ato um bocadinho, pelo menos, intrometido. Até porque os italianos votaram e, por definição, o voto é uma escolha livre das pessoas. Presume-se que ninguém foi obrigado a votar nos partidos que votaram ontem em Itália. E esta senhora presidente da Comissão Europeia não foi eleita por população absolutamente nenhuma. Portanto, em termos de credenciais democráticas, acho que é escusado comparar a senhora dona Ursula von der Leyen com a senhora que agora em Itália será a próxima primeira-ministra de Itália. E depois há uns pormenores que não vale a pena fingirmos surpresa por eles não acontecerem. Era de esperar, porque sempre que há uma mulher no poder, e sempre que essa mulher é de esquerda, essa mulher é exaltada pelos progressistas e pelas feministas, em particular, porque uma mulher no poder é diferente de um homem, aquelas coisas todas, e há uma sensibilidade feminina diferente. Se essa sensibilidade feminina for de uma pessoa de um partido que não agrada ao pensamento maioritário entre as feministas, que normalmente tende para a esquerda, aí já não interessa nada haver uma mulher no poder, é exatamente igual ao Mussolini, ou coisa pior. Portanto, não vale a pena assinalar a contradição. Contradições há muitas nesta história, aquela hipocrisia toda em volta dos imigrantes, que todo o discurso da senhora Meloni realmente não é simpático para com os imigrantes, mas ninguém fala, por exemplo, no problema que a Itália tem, de fato, com os imigrantes e na frieza ou na crueldade, se quisermos chamar, como outros países da União Europeia fecharam a porta aos imigrantes pura e simplesmente. Estamos a lembrar da França logo ali acima, e não só, muito longe de ser só a França. Pode-se criticar o tratamento que se dá aos imigrantes ou o discurso sobre os imigrantes quando esse discurso vem de uma área ideológica que não nos agrada. Quando a área ideológica não nos é tão antipática ou não nos é tão contrária, por muito mal, por muito desprezo que se dedique aos imigrantes, ninguém toca no assunto, e os imigrantes e os refugiados, é disso que eu estou a falar, nesse caso nem existem, praticamente. E depois, só assim para dar aqui um tempero ainda mais picaresco a estas coisas todas, cheguei a ver preocupações nas redes sociais, no Twitter, por exemplo, pessoas preocupadíssimas com o que vai ser agora Das pessoas LGBT em Itália, o que lhes vai acontecer agora. E essas pessoas que manifestam essas preocupações têm na sua biografia do Twitter, que é ali no cabeçalho do Twitter, a bandeira da Palestina, que como se sabe, é um país, uma região ou um território que trata particularmente bem os LGBT. Portanto, tudo isto e todo este pânico deriva muito da hipocrisia, deriva muito do oportunismo político e deriva muito de uma outra coisa: da necessidade que a esquerda tem de limitar o espectro político, ou seja, de decidir o que é aceitável e o que não é aceitável. Eu, por mim, algumas pessoas podem discordar, mas eu tendo à moderação. Eu não gosto da extrema-direita, não gosto da extrema-esquerda, gosto que a minha vida possa prosseguir sem grandes contratempos, sem grandes cambalhotas e infelizmente, nem sempre o mundo permite que isso aconteça. Gosto de uma certa continuidade, gosto de sossego. Não gosto nada de radicalismos, justamente por gostar de sossego. Agora, a esquerda, que não gosta de sossego, nem gosta de continuidade, nem gosta de nada disso, só se manifesta contra possíveis mudanças se essas mudanças vêm de uma determinada área, porque assim pode definir o que é aceitável e o que não é. E o que é aceitável para a esquerda é uma área muito restrita, muito pequena, que vai no máximo, nos casos de extrema boa vontade, até um certo centro social-democrata, que para eles já é bastante. No fundo, para eles, isso é que é extrema-direita. Tudo que vá à direita disso, ou que seja mais nacionalista, que é uma coisa que eu não gosto nada, nacionalismos, ou que seja mais liberal do ponto de vista económico, é uma coisa que já me é mais simpática, tudo o que vá mais para esses caminhos, a esquerda vai etiquetar logo isso de fascismo. E vai etiquetar de fascismo, não porque realmente ache que é fascismo, a não ser que a pessoa seja particularmente tonta, mas porque assim vai demonizar logo boa parte da área política ou da área ideológica e impedi-la de chegar ao poder, ou quando não impede, pelo menos de chegar ao poder com aquilo que é a legitimidade popular com que de facto chega. Ou seja, estas eleições em Itália e as reações às eleições de Itália, o objetivo é cobrir as eleições de ilegitimidade, da ideia que isto não devia ser assim, não pode ser assim, isto não pode acontecer. E depois dá as explicações o mais esdrúxulas possível. O Bloco de Esquerda diz que isto foi um falhanço das políticas do centro. A doutora Ana Gomes diz que foi um falhanço das políticas neoliberais, não estou a ver naquelas estão. O LIVRE diz que isto é uma falta de união das esquerdas, ou seja, tudo o que falta aqui é a esquerda não ganhar, é a esquerda não ser poder, que como se sabe, quando a esquerda pura e dura é poder, as coisas costumam correr naturalmente bem e os países que são da esquerda pura e dura ou têm regimes assim, normalmente são bastante prósperos e recomendáveis. E aí esse é o objetivo, é fazer com que tudo que escape a uma certa normalidade, não é o centro neste caso, é um certo espectro ideológico, tudo que escape a isso não possa ser aceitável e não possa existir. E esta demonização da extrema-direita de facto, de pessoas que têm simpatias ou de partidos que têm simpatias fascistas de facto, ou simplesmente da direita moderada, da direita mais moderada que se possa imaginar, a demonização de tudo isto serve para a esquerda criar a ideia de que só a vitória da esquerda em eleições é legítima, quando a vitória é de outra área qualquer, não é. E normalmente o epíteto com que designam qualquer outra força política, que neste caso da coligação italiana até se aplica num ponto ou outro, mas não é para levar a sério, porque esse epíteto de fascista é aplicado a tudo o que se mexe à direita daquilo que a esquerda acha admissível. Portanto, é o que temos e no caso italiano, isto não parece que traga uma revolução particularmente grave para a União Europeia, até porque a senhora Meloni já afirmou solidariedade com os valores da União Europeia e da NATO, etc. Aliás, já temos à esquerda ou à extrema-esquerda, o senhor Varoufakis a dizer que esta coligação que ganhou Itália são colaboradores da União Europeia e da NATO, que isto é mais do mesmo. Portanto, isto está aqui para todos os gostos, há discursos para todos os gostos, contradições para todos os gostos, mas vamos ver o que vai acontecer. Acho que não vai acontecer nada de profundamente dramático, mas que pessoalmente me dá algum gozo ver algumas forças que se mexem na Europa e algumas forças que gostavam de reservar o poder só para eles, que têm instintos absolutamente totalitários, estarem perfeitamente contrariados com estes resultados. Esse gosto dá. O facto da senhora Meloni também não me parecer especialmente recomendável, essa é outra questão. Mas ela ganhou em Itália e ganhou com os votos dos italianos. Não me compete a mim decidir de forma contrária.
Quando a democracia não é a deles, é fascismo, é o título escolhido pelo Alberto Gonçalves para o podcast de hoje, que fica disponível já a seguir no nosso site e também nas plataformas habituais. Alberto, até amanhã.
Até amanhã, Vanessa.