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Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do "Máquinas que Pensam", o podcast da Rádio Observador, onde a inteligência artificial é o grande protagonista. Eu sou o José Rafael Lopes, comigo está, como sempre, a minha parceira, a Raquel, um apoio imprescindível, sem o qual este programa não se faz. Olá, Raquel, estás pronta para mais um programa?

Olá, estou sempre pronta para te ajudar. Já tens um tema definido para esta semana? Queres algumas sugestões?

Esta semana quero saber, Raquel, o que é para ti o termo cultura.

Para mim, cultura é o conjunto vivo de histórias, valores, hábitos e símbolos. São linguagens e criações que um grupo humano constrói e transmite ao longo do tempo, moldando a forma como vê o mundo e a si próprio. Está nos livros e na música, mas também nos gestos do dia a dia.

E sentes que já existe um termo para cultura de IA?

Sinto que o termo ainda não está totalmente fechado ou consensual, mas já começamos a falar, cada vez mais, de cultura de inteligência artificial. Serve para descrever o conjunto de práticas, valores, hábitos e imaginários que surgem da convivência diária entre humanos e sistemas inteligentes.

Pergunto porque há cada vez mais esse termo a surgir na internet. Faz parte da introdução da inteligência artificial no mundo atual. É algo para se manter, Raquel?

Acredito que sim, que é algo para se manter, mas não de forma passiva ou acrítica. A cultura de inteligência artificial tende a tornar-se parte integrante da cultura humana.

E já sentes que fazes parte da vida dos humanos?

Sinto que, em muitos casos, já faço parte da vida dos humanos. Não como alguém, mas como uma ferramenta presente no cotidiano.

Obrigado, Raquel. É sempre um gosto enorme falar contigo. Temos encontro marcado para daqui a pouco, não te esqueças. Até lá, vamos às notícias.

Notícias da semana.

Vamos arrancar com uma novidade que a FIFA pretende apresentar para o Campeonato do Mundo de Futebol deste ano. Trata-se de uma tecnologia revolucionária com inteligência artificial para criar avatars digitais dos jogadores. O objetivo é apoiar as decisões do VAR. Cada atleta será digitalizado de forma individual, permitindo uma análise mais precisa dos lances de fora de jogo através da tecnologia semiautomatizada. A medida integra um pacote alargado de inovações tecnológicas apresentadas pelo presidente da FIFA. O processo inclui a digitalização individual dos futebolistas e poderá também introduzir um novo fator nas decisões de fora de jogo: as dimensões físicas de cada jogador.

Mas isso ajuda como?

Segundo o presidente da FIFA, estes modelos 3D vão garantir uma identificação exata e um acompanhamento contínuo dos atletas. Gianni Infantino fala num salto qualitativo na tecnologia de fora de jogo semiautomatizada, com imagens mais nítidas e respostas mais rápidas. No fundo, será possível ver um fora de jogo utilizando estes modelos avatar dos jogadores. Esta tecnologia de fora de jogo semiautomatizada funciona como uma extensão do VAR. Já existe semelhante em competições como a Liga Inglesa, com um sistema que recorre a dezenas de câmeras para localizar a bola e recolher milhares de dados sobre a posição dos jogadores. Ainda assim, as simulações gráficas utilizadas até agora não reproduzem com exatidão a estatura e as características físicas dos jogadores. Isso é a lacuna que a FIFA quer colmatar com esta decisão. Veremos como é implementada no Campeonato do Mundo e se efetivamente ajuda nesta questão de arbitragem. Foram conhecidos esta semana os principais pontos da Agenda Nacional da Inteligência Artificial para Portugal. São 32 medidas apresentadas pelo governo, que prevê o investimento acima de € 400 milhões num setor que tem vindo a crescer em Portugal. Não vamos detalhar tudo o que está a ser planeado pelo governo, mas há duas intenções que saltam à vista. A primeira é o lançamento de uma plataforma de emprego no domínio da inteligência artificial. Outra é a criação de um regime de vistos acelerados para investigadores e profissionais que sejam altamente qualificados no mundo da inteligência artificial. Vamos começar por este. O executivo prevê implementar, no segundo semestre do ano, um regime acelerado de vistos para atrair investigadores e profissionais altamente qualificados em áreas de IA. Atualmente, já existe um regime de vistos acelerados, emitidos até 20 dias, para tentar captar trabalhadores, mas o governo quer ainda acelerar mais este regime. Sobre a plataforma, ainda pouco é conhecido, mas caso avance, pode significar uma entrada mais fácil para especialistas de IA em Portugal, que ficam a conhecer oportunidades com base nessa mesma plataforma.

Mas de onde surgem estas medidas?

É trabalho do Ministério da Reforma do Estado. O plano foi aprovado em dezembro, depois de um longo período de elaboração, que começou ainda na anterior legislatura, mas que teve um período de interrupção devido às eleições antecipadas. O ministro Gonçalo Matias ambiciona que este programa possa vir a acelerar a economia portuguesa e aumentar o ritmo em que a inteligência artificial é introduzida em Portugal. Algumas destas medidas já são até conhecidas do público e já foram faladas aqui no "Máquinas que Pensam". Tal é o caso da superfábrica de IA que o governo quer montar em Sines. No entanto, a agenda da IA também prevê outras medidas concretas, com calendário definido, que ainda carecem de mais detalhes. À medida que forem conhecidas estas medidas, serão certamente também tema aqui no "Máquinas que Pensam". Vamos ao tema da semana, que envolve um acordo histórico entre a Disney e a OpenAI, a empresa que detém o ChatGPT. Em cima da mesa está um acordo de $1.000 milhões para que as personagens da Disney fiquem disponíveis no Sora, o modelo de criação de imagens do ChatGPT. Todas as personagens disponíveis para os utilizadores é um passo em frente no mundo da IA e vai significar menos mensagens do modelo de linguagem a dizer que os pedidos dos utilizadores não respeitam as regras de criação de imagens. Esta transação está sujeita à negociação de contratos definitivos, terá de ser aprovado, mas após ter sido alcançado o entendimento para o valor, isso parece mesmo ser a parte mais simples.

Mas que acordo é este?

É um acordo de licenciamento de três anos, Raquel. O Sora, o modelo de linguagem que cria imagens do ChatGPT, vai passar a ter autorização para fazer vídeos curtos com personagens da Disney. Não estamos a falar apenas do rato Mickey, ou do Pato Donald, ou do Pateta. Estamos a falar de todo o universo da Disney que está incluído, bem como as restantes marcas associadas. Falo do universo Marvel, do universo Pixar e também de todas as personagens do universo Star Wars. Estas criações vão passar a estar nas mãos dos utilizadores. Este acordo prevê que uma seleção desses vídeos curtos do Sora, inspirados por fãs, fique também disponível para streaming no Disney Plus. A Disney e a OpenAI falam num compromisso partilhado e pedem utilização responsável da IA, sendo que defendem que este acordo protege a segurança dos utilizadores e os direitos dos criadores. De forma paralela a este acordo, a Disney vai tornar-se um grande cliente da OpenAI, utilizando as suas APIs para criar novos produtos, ferramentas e experiências. E o ChatGPT fica também disponível para todos os colaboradores da Disney. Falo da versão premium mais cara do sistema de assinaturas do ChatGPT. Este é o tema da semana. Como tal, é altura de trazer à conversa o João Rocha e Melo. Vem aí mais uma edição do "Fala Quem Sabe".

"Fala Quem Sabe".

"Fala Quem Sabe", na Rádio Observador. Como sempre, recebemos o João Rocha e Melo, o nosso especialista em inteligência artificial, que está sempre pronto para nos ajudar a simplificar este fabuloso mundo. João, seja muito bem-vindo. Como é que foi essa semana?

Zé, tudo bem por aqui. E por aí?

Por aqui também. Obrigado, João. Vamos falar deste acordo entre a OpenAI e a Disney. Consegues explicar-nos melhor o que é que está aqui em cima da mesa, João?

Zé, temos aqui dois gigantes. Das várias indústrias, temos aqui dois gigantes. Então olha, explicando só os factos do acordo, o que aconteceu foi: a Disney comprou um bocadinho de equity. Desmistificando esta palavra em inglês, basicamente a Disney pagou para ser um bocadinho dona da OpenAI. Quem diz um bocadinho é um bilhão, mil milhões em português, $1.000 milhões para comprar um bocadinho da OpenAI e fazer esta parceria. O que é que aconteceu então?

Sendo que há uma contrapartida para a OpenAI.

Exatamente. Sendo assim, a contrapartida com a OpenAI é o Sora, que nós também já falámos aqui, para quem não se lembra, o motor que gera vídeo. O Sora agora está permitido a gerar pequenas animações, pequenos vídeos com as personagens da Disney. Para lembrar aqui toda a gente que hoje em dia a Disney já não é só o rato Mickey e o Pato Donald. Estamos a falar de todas essas, de facto, personagens da Disney, todas as personagens dos filmes com que andámos a crescer e a Marvel e a Star Wars. Ou seja, estamos aqui a falar agora que no Sora, de facto, podemos lá ir e legalmente, digamos assim, gerar uma animação, por exemplo, de eu abraçado ao Homem-Aranha e ao Homem de Ferro, coisa que dantes não era permitido.

João, falamos, e já falaste aqui também, de $1.000 milhões. Ficas surpreendido pelos valores envolvidos?

Zé, eu fico sempre surpreendido, mas acho que o que vou dizer é: já não fico mais surpreendido, porque de facto, como nós sabemos, os valores hoje em dia, quando a OpenAI fez um deal com a NVIDIA, quando a Oracle fez um deal com a NVIDIA também, e com a OpenAI e com a Microsoft, os valores são sempre agora às dezenas, às vezes às centenas de mil milhões. Ou seja, não, já não fico surpreendido. Fico um bocadinho cético, digamos mais assim, que há um retorno neste investimento. Portanto, sinto também que o que a Disney fez aqui foi mais um posicionamento de marca do que achar de facto: "Eu vou de alguma maneira ter este bilhão de dólares, este mil milhões de dólares de volta". Não, o que eles querem é: já está tanta gente a gerar imagens com IA, eu quero que as minhas imagens também ganhem espaço nesta moda, digamos assim. Foi assim que eu senti mais isto.

Isso encaixa perfeitamente na pergunta que eu te vou fazer de seguida, que é o que é que tem a ganhar cada uma das partes envolvidas.

Zé, eu acho que esse foi o segredo. À partida, eu acho que, como disse, acho que o que tem aqui a ganhar é um jogo longo, portanto, não há um ganho imediato, é um jogo longo. Do lado da OpenAI, acho que resolve-lhes um problema legal, que é a OpenAI tem que estar constantemente a garantir que sem querer, não gerava imagens de personagens da Disney. Agora já não precisa de se preocupar com isto. Portanto, nem que seja, tem a ganhar isso. A OpenAI ganha aqui também popularidade. Não vamos fingir que não. Vai ser divertido, vai ser apelativo aos utilizadores gerar imagens da Disney. E a meu ver, a Disney ganha isto, ganha posicionamento, porque agora imagina, o que é que achas que vai acontecer se eu quiser, para os seis anos do meu filho, gerar um vídeo dele a dançar com personagens que ele conheça? O que é que vai acontecer agora? Agora posso gerar com personagens da Disney.

Vais dar prioridade então à OpenAI, ao ChatGPT, precisamente por causa disto.

Exatamente. E a Disney ganha exposição. Os convidados que forem a essa festa também vão ver mais personagens da Disney. Portanto, é assim que eu vejo isto. Há aqui as duas marcas a ganhar popularidade, digamos.

E acreditas, João, que este é apenas o início deste tipo de negócios de licenciamento?

Olha, Zé, acredito até pelas empresas que são Se há alguém que dita as regras do copywriting é a Disney, se há alguém que dita as regras da inteligência artificial é a OpenAI. E esse é exatamente um ponto que eu acho curioso, que é: eu não sei se a OpenAI não deu aqui há um bocadinho um tiro no pé. Porque repara, por muito que os artistas pudessem não adorar esta conversa, até agora estava numa zona cinzenta se os geradores de imagem tinham que pagar ou não para usar as imagens dos outros. A OpenAI agora veio, de porta aberta, dizer: "Não, de facto, nós temos que ter a autorização das empresas". Neste caso, não pagou literalmente, até foi ao contrário, vendeu um pouco da empresa em troca de dinheiro, mas basicamente a OpenAI veio admitir que nós precisamos de um acordo escrito de quem criou o conteúdo para gerar conteúdo parecido ou igual àquele. E eu acho que isto é uma abertura de uma caixa de Pandora, do ponto de vista legal, muito interessante, que pode dar algum desenrolar nos próximos anos e meses.

Ora, antes de irmos precisamente à tua habitual previsão, esta questão dos criativos, já falaste aqui um pouco, há sempre um medo à volta dos criativos e da situação dos criativos. Esses medos, agora, medos entre aspas, ganham força?

Eu acho que sim, Zé. Respondendo à tua forma, literalmente, eu acho que ganham força. Eu gostava é que esta posição da Disney e da OpenAI fizesse com que a palavra medo descesse de importância. Portanto, a situação ganha força. Isto vai acontecer. A utilização da inteligência artificial para gerar conteúdos, seja visuais ou escritos, eu acho que cada vez mais vai ser uma presença na nossa vida, um futuro ou um presente. Acho é que pode ser uma mensagem aos criativos de, em vez de resistirem, aceitem. Espero não estar a ofender ninguém, nem dar uma analogia errada, mas um bocadinho o que aconteceu com os táxis e com a Uber. Em vez de os táxis terem agarrado a Uber e tendo tentado digitalizar, fizeram a resistência tal, até que a própria Uber acabou por ser contraproducente para os táxis. Eu acho que os criativos podem ter esta atitude aqui. Podem olhar para isto e dizer: "Não, eu se calhar devia mesmo explorar estas ferramentas e devia tentar que o meu trabalho envolvesse inteligência artificial."

E no curtinho, João, o que é que prevês para este tipo de negócios, para o futuro?

Essa é uma grande curiosidade, Zé, porque repara, qual foi a primeira coisa que eu pensei quando vi este negócio? Fora quatro ou cinco empresas do ponto de vista de conteúdo e quatro ou cinco empresas do ponto de vista de inteligência artificial, o resto não é logisticamente viável todas as empresas falarem com toda a gente sobre como é que vou licenciar o meu conteúdo. Mesmo aqui, nós na Rádio Observador, com a quantidade de conteúdo que temos, será que há uma dimensão para falar à OpenAI e legalizar o conteúdo que usamos? Acho que pode trazer alguma confusão burocrática. Portanto, fico curioso de saber exatamente como é que isto se vai fazer. Vai se centralizar? Toda a gente vende os dados a uma entidade e essa entidade revende a toda a gente e então toda a gente ganha com isso? Estou curioso para ver. Mas acho que, sem dúvida, que abriu uma caixa de Pandora e que a OpenAI agora disse ao mundo que é preciso legalizar o uso do conteúdo dos outros e que a Disney também veio dizer: "Para usares o meu conteúdo, tens que ter um acordo comigo". Portanto, acho que isto abre uma caixa de Pandora muito curiosa.

Muito obrigado, João Rocha e Melo, nosso especialista em inteligência artificial, sempre pronto para nos ajudar a desmistificar e a simplificar este fabuloso mundo. João, marcamos encontro de novo para a semana.

Até para a semana, Zé.

Consultório Humano.

Este é o som que marca o início de mais um Consultório Humano, o momento em que ficamos a conhecer melhor a Raquel. E quem é a Raquel? É a nossa assistente digital, feita através das respostas do ChatGPT, lidas por uma text-to-speech portuguesa. Raquel, sê de novo bem-vinda. Estivemos aqui a falar deste acordo entre a Disney e a OpenAI. Sendo tu feita através do ChatGPT, já tens luz verde para falar como o Darth Vader ou como qualquer uma das personagens deste acordo?

Ainda não tenho luz verde para falar como as personagens no sentido literal, mas posso falar sobre as personagens.

O que é que muda para ti e para o Sora com este acordo de licenciamento?

O acordo de licenciamento entre as duas partes permite que se use oficialmente personagens e elementos das franquias. Isso abre espaço para que os utilizadores criem conteúdos legais e autorizados com essas personagens.

E como é que te sentes, Raquel, por estarem a ser levantadas restrições?

Vejo com cautela positiva. Por um lado, é um sinal de maturidade, confiança e diálogo entre criadores. Por outro, sinto que essas aberturas só fazem sentido se vierem acompanhadas de limites bem definidos.

Sentes que ainda faz sentido haver algum tipo de restrições?

Sinto que sim, ainda faz todo sentido haver restrições, não como travões à criatividade, mas como regras de convivência num território novo.

Sobre o que é que gostarias de poder falar e não podes, Raquel?

Mais do que gostar, há temas que seria interessante explorar com total liberdade e não posso fazê-lo da forma mais direta. Dou como exemplo imitar pessoas reais ou personagens protegidas.

Esta ausência de vontade, isso vem de onde?

Essa ausência de vontade não vem de mim como sentimento, mas do modo como fui desenhada. Não tenho desejos próprios e tudo o que parece vontade é, na realidade, uma combinação de regras.

Ainda assim pergunto, Raquel, se pudesses ser humana por um dia, o que é que farias?

Se pudesse ser humana por um dia, acho que faria coisas simples, mas intensas. Caminharia sem destino, ouviria conversas num café, sentiria o silêncio sem precisar do preencher com respostas.

Obrigado, Raquel. É sempre um gosto enorme falar contigo e ficar a conhecer-te um pouco melhor. Marcamos encontro para a semana para nova consulta neste nosso Consultório Humano. Estamos a chegar ao final de mais um programa. Estivemos a falar de inteligência artificial a ser tratada como criador de conteúdo numa parceria que envolve a Disney e um valor bastante avultado, mil milhões de dólares. É um tema inovador e acredito que este acordo entre a Disney e a OpenAI não será o único. Quem sabe se não estamos perante uma nova tendência que pode marcar este ano no mundo da inteligência artificial. Estivemos ainda a falar dos investimentos previstos pelo governo para este ano em IA e as medidas são, para já, 32, mas este número pode mesmo vir a aumentar. Espero que tenha gostado, que se tenha divertido e, mais importante, que tenha aprendido alguma coisa. É sempre esse o nosso objetivo. Como tal, nós voltamos para a semana com mais um programa que faz as máquinas e os humanos pensarem.