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"Melhor é Difícil" é um podcast em que Maria João Avillez entrevista portugueses que são exemplos de excelência, são os melhores nas suas áreas e contam como chegaram ao topo.
Bem-vinda, Ana Pinho. É um prazer para mim conversar consigo. É licenciada em Economia e com estudos universitários em escolas londrinas, administrou desde cedo e com aplauso várias empresas. E, no entanto, dizer o nome de Ana Pinho é talvez evocar, desde logo, intervenção cultural ou lembrar o Museu de Serralves. Pergunto: o interesse e o gosto pela arte estavam já dentro de si? Ou seja, eu posso dizer que a Ana é uma economista dublê de uma mulher de cultura?
Boa tarde, Maria João. É um gosto muito grande estar aqui. Muito obrigada pelo convite. É, de facto, muito bom estar a falar consigo, uma pessoa, se me permite começar por isso, alguém por quem eu tenho uma admiração enorme, que é um exemplo para todos nós, uma mulher pioneira.
Não, Ana. Temos pouco tempo. Obrigada, diz-me isso lá fora.
Tenho que dizer, mas eu agradeço também por isso. Eu acho que desde sempre, desde pequenina, que eu tive um fascínio, talvez pelo belo, no seu sentido mais lato. Sempre fui atenta, curiosa por muita coisa, e nunca estive ligada só a uma coisa. Há pessoas que sabem desde cedo o que é que querem.
E não saem de lá. Claro.
Eu estive até à última para decidir se ia para Economia ou Arquitetura, depois decidi por Economia, talvez pelo meu contexto familiar, embora não tenha tido nenhuma pressão, nem nenhuma influência ativa dos meus pais para o fazer, mas é natural que eu tenha sido influenciada pelo meu contexto familiar, talvez. Mas eu lembro que era miúda e desenhava plantas de casas com uns sete, oito anos. Depois fazia a decoração dos compartimentos, desenhava tudo isso e sempre gostei muito.
Mas venceu a Economia. Venceu a Arquitetura, que é engraçado.
Eu, aliás, fiz um curso de Economia, depois fiz um mestrado em Finanças, trabalhei décadas na área financeira, portanto, sim, mas gosto muito da outra parte.
Mas depois passou também por estudos de arte.
Também, ao mesmo tempo, fiz vários cursos pós-laborais de História da Arte, em Londres, em Lisboa, no Porto. Sempre tive gosto por isso.
Um privilégio.
Sim, sempre tive gosto por ver coisas diferentes.
Claro, e a curiosidade. Esteve no Museu de Serralves em vários postos de comando, em quais e quantos anos?
Estive 15 anos na administração de Serralves. Nos primeiros seis estive no Conselho de Administração como vogal e três desses na Comissão Executiva, desde o momento em que ela foi criada e depois, durante nove anos, presidi ao Conselho de Administração da Fundação de Serralves e agora presido ao Conselho de Fundadores desde o início de 2025.
Eu só sei que quando a Ana entrou, havia 1 milhão de euros em caixa e quando saiu, deixou 35 depois de tudo pago. Nesse sentido, o seu currículo mostra algo de muito interessante. Nós sabíamos que a arte, evidentemente, e a cultura têm que ser muito bem geridas, mas também sabemos que poucas vezes o são. E Serralves foi.
Sim.
Estou-lhe a prestar um tributo.
Muito obrigada, mas não foi só por mim, mas de facto é fundamental quando nós gerimos qualquer tipo de instituição ou empresa, estarmos atentos à sua sustentabilidade. E por isso eu digo que mais ainda quando o que estamos a falar é uma fundação, que apenas em parte consegue gerar receitas próprias para cobrir o seu orçamento. No caso de Serralves, é um terço de receitas próprias, um terço de mecenato e um terço de participação do Estado. Portanto, embora eu acho que é durante este período e nos últimos 10 anos, de facto, no período em que eu liderei Serralves, houve uma ambição muito grande e fez-se muita coisa, mas houve sempre a preocupação, mas isso também já existia no passado, de procurar que a ambição nunca pusesse em causa a sustentabilidade da instituição. Isso é uma coisa que para mim é fundamental.
Mas que é, de certo modo, não estou a interrompê-la, uma marca da casa.
Bem, talvez, mas de facto, eu julgo que é o ponto de partida e de chegada. Quer dizer, quando nós queremos fazer, nós devemos ter, eu acho que devemos ser ambiciosos e fazer coisas novas, e fazer coisas grandes, se possível, se for o caso, se fizer sentido, mas sempre garantindo que encontramos os meios suficientes para o poder fazer.
Para essa ambição.
Porque senão podemos pôr em risco o que existe.
E entrar-se numa espiral de dívida, de ansiedade.
Isso nunca aconteceu em Serralves, nesse aspeto, sim, eu acho que é exemplar, porque houve sempre uma preocupação enorme de procurar fontes de financiamento existentes, seja aumentando o mecenato, aumentando a contribuição do Estado, aumentando as receitas próprias, estando sempre atento aos instrumentos que vão surgindo, seja fundos comunitários, fundos de turismo, fundos ambientais, vistos gold, cultura. Tem que se estar atento ao que existe e tentar maximizar os apoios, porque uma instituição cultural, como é a Fundação de Serralves e outras, apesar da Fundação de Serralves ter até um nível de receitas próprias percentualmente superior ao normal, mesmo assim tem de facto que encontrar esses apoios.
Ana, mas o seu currículo também mostra o seu próprio acerto em lidar com a diversidade. Já falámos há pouco da Economia e da Cultura, mas olhando para si, conhecendo-a e lendo com atenção a sua caminhada, somam-se cargos de administração na banca ou nas empresas, nacionais ou internacionais, e uma presença ativa na academia, em conselhos culturais, em museus, em fundações, em júris É interessante, porque já me disse que sempre foi curiosa e que houve qualquer coisa que começou no ambiente familiar. Mas como é que se gera diversidade? É interessante.
Eu acho que é um privilégio quando nós podemos estar envolvidos em coisas diferentes. Isso é muito mais enriquecedor quando temos essa possibilidade, mas também temos que ter apetência para isso.
Para fazer agulhas, não é?
E há uma coisa que gosto muito, que é não estar, é fantástico. Claro que nós temos sempre uma coisa principal, mas é ótimo estarmos envolvidos em coisas muito diferentes e dá-me um gosto enorme participar em alguns júris diversos. São muitas coisas diversas, podem ser ligados à economia, ser ligados à cultura. Mas também estar, como sempre estive, ligada às empresas e depois estar numa instituição cultural, como Serralves, na academia também.
Na academia, não, Universidade Católica.
Exatamente. No Conselho Superior da Universidade Católica, que estou neste momento, já estive no conselho de administração de uma escola. É interessante, eu gosto muito dessas experiências diferentes, acho muito enriquecedor.
Mas já agora, é um pequeno entre parêntesis, e eu muitas vezes pergunto isto aos meus convidados de excelência, como é o seu caso. Como é que se gere diariamente, sabendo que haja o que houver, o dia tem 24 horas, como é que se gere a acumulação de tantas atividades?
Eu acho que nós, mulheres, estamos habituadas a fazer isso-
Quase naturalmente.
Quase naturalmente. A Maria João sabe bem, muito melhor que eu.
Não, não sei porquê melhor.
O que isso significa. Eu acho que temos sempre que dar prioridade ao que consideramos importante e menos ao que é acessório. Mas claro que isso significa que não vamos a coisas que, eu muitas vezes não fui a momentos com amigos que queria muito ter ido, mas tinha coisas em Serralves, por exemplo, que era impossível eu deixar. E por isso eu sempre dei prioridade. Eu acho que quando algum de nós aceita um desafio e tem um projeto em mãos, não é só para o que é agradável naquele momento. Temos, de facto, que fazer tudo o que isso está presente naquilo que é necessário e fazer tudo o que precisa da nossa presença. Claro que às vezes a família é sacrificada e eu queria dizer que o meu marido é uma pessoa que de facto me ajudou muito em todo este período, porque acredita nestes projetos e é uma pessoa, nesse aspecto, de facto, que me dá um apoio enorme.
Claro, foi colaborador, cúmplice, admirador.
Muito cúmplice.
Mas há pouco dizia que também é uma coisa que tem a ver com a condição feminina, e eu também penso que tem, porque a mulher é múltipla e consegue abarcar-
Fazer várias coisas ao mesmo tempo.
Entre aspas, que forem necessárias.
É como conseguimos ouvir também várias coisas e conseguimos fazer.
Exatamente. Ao passo que um homem está mais focado numa coisa que é a sua prioridade, a sua razão de ser, a sua responsabilidade, a sua função. Eu admiro imenso a capacidade de desmultiplicação bem feita numa mulher. É uma coisa que eu sempre admirei.
Sim, eu também.
Olha, estamos de acordo. Gostaria imenso de irmos agora até ao Museu de Serralves e à marca que lá deixou. Não digo que outras pessoas antes de si e depois de si não tenham deixado marca ou não vão deixar uma marca, mas além daquele cofre cheio que eu já mencionei e do incontável aumento de visitantes no seu tempo ou a partir do seu tempo, houve muita coisa que a Ana ou fez ou pôs a caminho de ser feito. Começamos por onde? Pela ala nova do Siza Vieira, pela Casa Cinema Manuel de Oliveira? Não quero dizer eu, diga-me lá o que é que-
Eu acho que nós, neste período, decidimos que a estratégia da fundação devia passar, numa palavra, pela abertura da fundação em vários sentidos. Desde logo, já referimos um pouco, tentando diversificar as fontes de financiamento e aumentando as fontes de financiamento e o valor que se consegue para podermos sustentar o que queríamos fazer. E portanto, que tivemos um enorme aumento de fundadores, 200 novos fundadores, isso significa 20 milhões de euros, é importante. Mas aumentamos também os grandes mecenas das atividades, os vários fundos que já referi. Estamos sempre atentos a novas fontes de financiamento. Aumentamos muito o público. O orçamento passou de 7,5 milhões de euros para 15, mas o público teve um aumento, esse foi um aumento de 100%, mas houve um aumento de 150% dos visitantes, que passaram de cerca de 500 mil em 2015 para 1.250.000 no final de 2024.
É extraordinário. Esse é um número que é extraordinário.
É um número muito interessante a nível internacional. Os números em si, só por um número não significa nada, mas é importante porque significa que a missão da fundação, que é muito importante, está a chegar a muita gente. E houve uma preocupação muito grande de diversificar público, de facto, e isso aconteceu. Por outro lado O que fizemos foi também alargar o âmbito geográfico de atuação. Desenvolvemos muito um programa de exposições e outras atividades nas autarquias portuguesas, por todo o país.
Desenvolveram como?
Em parceria com as autarquias que são fundadoras de Serralves, portanto, levando a coleção de Serralves, fazendo exposições nessas autarquias, a partir da coleção de Serralves, mas não só. Alargamos também, neste período, atividades da Casa de Cinema Manoel de Oliveira, do parque, arquitetura. E isso eu acho que é fundamental para podermos levar a nossa atividade mais perto das pessoas, estejam elas onde estiverem.
Levar o museu para fora de si próprio, do edifício.
Exatamente. E nesse período fizemos cerca de 25 iniciativas ou exposições por ano, o que é muito, de facto, fora de portas.
Tem ideia de quantas autarquias são?
No final de 2024, julgo que tínhamos 45 ou 46. Em 2015 eram 14. Houve, de facto, também aí um grande esforço.
E são bem recebidas? Têm público?
Sim, eu acho que há um cuidado. As exposições às vezes são sobre biodiversidade, fotografia de biodiversidade local, por exemplo, mas quando são a partir da coleção de arte contemporânea de Serralves, há um esforço para adaptar também a exposição ao público que a vai ver. Há cidades que já estão mais habituadas a ver exposições um pouco mais experimentais. Outras, é preciso começar de outra forma. Eu acho que há um grande cuidado dos curadores de fazerem isso. Nós fizemos essa diversificação geográfica também para fora de Portugal. Fizemos muitas parcerias internacionais, levámos exposições de Serralves a vários países do mundo e isso foi importante.
Como é que se começa? Fala-se para um museu, conhecem-se as direções?
Sim, há uma parte que é feita, por exemplo, em coproduções internacionais com outros museus de arte contemporânea, neste caso, é feito muito. Mas também, às vezes levamos, por exemplo, fizemos várias exposições a partir da coleção Miró, que entrou em Serralves e que nós levamos a vários países. Levámos a Nápoles, a Pádua, a Izmir. Levamos exposições do Siza a Xangai. Há uma grande vontade em levar Portugal também ao mundo, para além de trazer o mundo, que é isso que nós mostramos em Serralves, a Portugal. E depois houve também, finalmente, uma abertura em termos de âmbito de atuação, porque deixámos de estar tão concentrados na atividade do museu. Embora no museu também tenha havido reforço, porque voltámos a fazer, que tinham sido feitas no passado e depois tinham deixado de ser feitas, as grandes exposições no parque, que as pessoas têm grande apetência para isso, mas a Casa de Serralves, que é um edifício extraordinário.
Que era uma casa, não é? Que era a casa que lhe disse.
Exatamente. E como disse fizemos o projeto de recuperação, mas passámos o ano inteiro a ter exposições na casa, porque antigamente, em 2016, até essa altura, só havia uma exposição em julho, agosto, e o resto do ano a casa estava para aluguer, o que é bom em termos de receita, mas considerámos que ela tem que estar ao serviço da arte. Depois, claro que fizemos a nova ala Álvaro Siza, que é uma ala fundamental, eu diria, para o futuro do museu, porque é uma ala dedicada à coleção.
Foi uma ideia sua, não?
Sim.
Sim, eu gosto de ouvir esse sim.
Isso acho que sim, acho que pode dizer que sim.
E o Siza Vieira gostou muito de ter feito isso.
Sim, eu acho que nós temos a sorte, o privilégio gigantesco de termos o Siza em Serralves todos os dias. Há uma imensa gente que vai a Serralves para ver o Siza, que é absolutamente genial. É por muitos considerado o maior arquiteto vivo. Eu acho que às vezes em Portugal não se dá a verdadeira importância. Mas ele é, de facto, absolutamente extraordinário. Não só reforçamos a atividade do museu, mas construímos a Casa de Cinema Manoel de Oliveira e desenvolvemos a vertente do cinema. O parque, que desde o início da fundação tinha sido um elemento estruturante e fundamental, passou a desenvolver muitas atividades, mais atividades de educação ambiental, exposições, que as pessoas gostam também muito de ver as exposições de biodiversidade. É uma coisa interessante para o público em geral. E depois, a arquitetura, finalmente, que de facto autonomizámos e isso é uma área de enorme crescimento.
Eu vou lhe falar da arquitetura já daqui a um bocadinho, com um bocadinho mais de demora, e sobretudo ainda também do parque, que a Ana me tinha dito um dia, nunca mais me esqueci, que o parque em si já é rival do resto, pela sua importância, pela sua dimensão. Mas temos que fazer aqui uma pequena pausa. Vou pedir a todos que nos estão a ver ou ouvir que esperem por nós. Voltamos já já a seguir. Estávamos a falar de uma ideia que penso que também foi sua, de autonomizar a arquitetura, e também falámos do parque, já lá vou, mas agora gostava de ouvir, porque a arquitetura é uma disciplina tão fascinante, tão interessante, que a Ana se lembrou que por causa disso mesmo merecia ser autonomizada. Conte lá um pouco essa história.
Isto é uma decisão do conselho de administração, evidentemente.
Não, mas foi proposta por si.
A arquitetura é uma área em crescimento em todos os museus do mundo. E nós já verificamos isso em Serralves, constatamos isso todas as vezes que há uma exposição de arquitetura, já antes acontecia, porque começámos a fazer várias a partir de 2016, mas agora temos um espaço para o fazer, porque um dos pisos do novo edifício é dedicado à arquitetura. Tem imensa gente, e não só arquitetos, é isso que Serralves tem, porque leva a arquitetura junto do público em geral. Mas todas as iniciativas que nós fazemos à volta da arquitetura, conferências, lançamentos de livros, têm sempre imensa gente. Pelo menos no Porto, isso é um facto.
É muito sedutora a disciplina da arquitetura.
E há um grande interesse pela arquitetura e não apenas pelos dois Pritzker que nós temos, o Siza e o Eduardo Souto Moura, mas pelos novos arquitetos. Nós temos imensos novos arquitetos que estão a trabalhar no mundo.
Mas o Porto tem essa marca de uma grande escola de arquitetura.
Sim, mas eu acho mesmo que esse é um fenômeno a nível global, talvez mais cá, de facto. Eu acho que a arquitetura portuguesa tem uma presença, uma importância internacional maior, em termos relativos, do que a do país, digamos assim, se eu posso dizer isso. E, portanto, para mim, é lógico que isso seja uma linha de atuação e uma linha estratégica, mas isso é uma coisa que acontece no mundo todo. Mas em Serralves, isso não é uma coisa que eu tenha inventado. Sim, essa foi uma ideia, mas porque a missão de Serralves não é só aumentar o conhecimento à volta da arte contemporânea. É multidisciplinar, é a arte contemporânea, a arquitetura, o cinema, o ambiente, a paisagem. Portanto, foi isso que nós tentámos fazer, foi puxar por todas essas vertentes da missão de Serralves.
Esta série chama-se "Melhor é Difícil". É difícil haver, enfim, difícil não será, mas em Portugal, melhor é difícil que Serralves.
Eu não posso dizer isso.
Pode, pode.
Posso? Agora já posso.
Pode.
Eu acho que Serralves é uma história feliz, desde até antes da fundação ser criada. A fundação foi criada por pessoas que tinham uma grande missão.
Lembra um bocadinho do princípio da história.
De facto, foi uma junção e uma parceria entre o Estado e privados, que decidiram criar ali aquele que foi o primeiro museu de arte contemporânea do país, mas também não só criar uma instituição que se dedica à cultura contemporânea em sentido lato, não apenas à arte contemporânea, mas lá está, por exemplo, o parque, que foi desde sempre muito inovador nos programas de educação ambiental, que agora toda a gente faz, mas há 37 anos não era bem assim. E, portanto, houve uma ambição internacional sempre grande. O primeiro diretor do Museu de Serralves foi um espanhol, o Vicente Todolí, que depois foi pra Tate Modern a seguir.
É verdade.
Não estou com isto a dizer que há, evidentemente, diretores e curadores portugueses, mas houve sempre uma vontade em que a instituição se internacionalizasse também. E o facto de, desde o princípio, no que respeita, por exemplo, ao museu, aquilo que se exibe é arte internacional, é portuguesa e não portuguesa, estrangeira. E isso é a forma como se coleciona e a forma como se exibe. Sejam exposições de grupo, sejam exposições monográficas. E isso é importante, porque é uma forma de colocar também os artistas portugueses em contexto internacional. Eu acho que isso é muito rico.
Em contexto internacional, sim, claro.
E é, de facto, trazer os estrangeiros para que os portugueses vejam, portugueses e não portugueses, porque há muitos estrangeiros que vão a Serralves também, mas levar também os portugueses, mostrá-los ao lado dos outros. A arte é arte global.
Já vou voltar a isso, no dar a ver arte, mas ainda sobre o parque. Vocês têm a noção, por exemplo, que há pessoas pra quem o parque é um tal atrativo que lhes chega e não entram nos edifícios porque se satisfazem com o prazer de passear por aquele parque, os jardins, os canteiros, o passadiço, etc. Ou normalmente há uma interação sempre entre o edifício e o parque, para os visitantes?
Não, eu acho que o parque é a coisa talvez mais extraordinária.
É extraordinário.
Tem Serralves, é o ponto de partida, é a base de tudo. É um parque, que é considerado o jardim mais bonito do mundo, um parque classificado, e felizmente, portanto, temos que ter sempre muito cuidado, dá muito trabalho fazer qualquer coisa. A nova ala deu muito trabalho para ser aprovada, mas é fundamental que isso assim seja. Mas, de facto, mesmo que seja o público em geral, como diz, porque Serralves tem essa vantagem. Nós fizemos muito também nos últimos tempos para usar o parque para atrair pessoas, para que ali venham e depois vejam outras coisas que lá há. Mas o parque é o ponto de partida. Mesmo os artistas que vêm do mundo inteiro consideram o parque absolutamente extraordinário. E houve uma grande preocupação, de facto, nos últimos anos, e fizemos um restauro de todas as áreas do parque.
Que interessante a ideia de um restauro de um parque.
O roseiral, o jardim das aromáticas, a horta, a estufa, a mata, depois de construirmos o treetop.
Eu chamo passadiço, não sei se é assim que vocês dizem.
É o passadiço.
Foi uma ideia sua, isto não sei mesmo.
Isto foi uma estrutura, que é extraordinária para podermos atrair. Nós temos que conseguir chamar a atenção das pessoas e temos que lhes dar instrumentos para elas quererem vir. E, portanto, hoje em dia as pessoas têm muita coisa.
Interpelá-las, claro.
Têm muitos sítios onde podem ir e nós não podemos ficar parados. Serralves é lindíssimo, o parque é lindíssimo, por isso isto foi uma ideia para Melhor levarmos os programas de educação ambiental às pessoas, nomeadamente as escolas. Tem um pequeno auditório exterior onde quem está a falar para as escolas fala no meio da natureza, é extraordinário fazê-lo ao nível da Copa das Ares.
Temos que dizer que o passadiço vai, o nível do passadiço é o nível da Copa das Ares. Isso é que é uma ideia genial.
E é totalmente horizontal, porque não há muitas estruturas destas no mundo, mas várias delas têm que subir e descer. Ali, ela chega a ter 25 metros, julgo eu, no ponto mais alto, mas é sempre horizontal, porque aproveitou-se o declive da mata para poder fazer essa estrutura. E isso é fundamental para chamar mais pessoas, como também é fundamental os grandes eventos, que são abertos e gratuitos, e há muita gente que vai pela primeira vez a Serraves nessa altura e depois torna-se público regular. Mas tem razão, há pessoas que vão e veem tudo, há pessoas que vão e só querem visitar o parque, outras só querem visitar o museu. Enfim, tudo isto, nós temos é que ter capacidade de atração de públicos diferentes.
Faz um friso muito enriquecedor e muito desafiante para quem está ao leme da instituição. Se bem posso resumir o que a Ana tem dito até agora, o que a Ana quis quando era a responsável principal pela boa saúde da fundação e do museu, quis uma permanente dinâmica de abertura.
Sim.
Assente na sustentabilidade das contas, evidentemente, e com vantagens competitivas. Mas abrir, levar o museu, como disse, exposições das autarquias, torná-lo ele próprio, trazer o mundo para o museu através de tudo aquilo que temos estado a falar. E há pouco, quando falou das exposições e da arte contemporânea, os tempos mudam, os museus também, a arte também, a criatividade ou criação também. Como é que se dá a ver arte hoje? Como é que se deve, como é que se faz?
Primeiro, ter muita preocupação em comunicar e em chegar às pessoas. Antes de elas lá estarem, temos que fazer com que elas queiram vir. Portanto, a comunicação numa instituição como esta, a área da comunicação é fundamental, porque eu, se calhar, vou aqui falar numa imagem que é como se nós estivéssemos numa fábrica de sapatos e fizéssemos sapatos extraordinários, lindíssimos, com enorme qualidade, mas depois ninguém os fosse vender. Aqui não é exatamente assim, mas é quase. Nós temos exposições de grande qualidade, temos programas no parque que apelam a muita gente, temos ciclos de cinema extraordinários, temos uma conversa sobre arquitetura extraordinária, mas as pessoas não sabem que isso existe, ninguém lá vai. Mas o que eu diria, depois de irem, mas também para as levar lá, o que nós temos que fazer é ter sempre alguma coisa que as atraia. Nomeadamente, se falarmos das exposições, mas não é só exposições, termos uma exposição âncora, com a qual nós conseguimos atrair não apenas as pessoas que já gostam de ir a museus ou especialistas de arte contemporânea, no caso do museu, por exemplo, mas levar outras pessoas que se calhar entram ali pela primeira vez ou que entram menos vezes, mas quando vão ver essa exposição também veem outras coisas que nós queremos que elas vejam. E esse é que eu acho que é um ponto fundamental.
E depois querem voltar.
Exatamente.
A Ana é uma grande adepta de parcerias e concretizou-as, e já agora aqui explicou. Pergunto-lhe o seguinte: para tudo é preciso equipas, mas eu acho que a Ana gosta muito do trabalho de equipe, que fez essas equipes, que escolheu-as bem, mas gosta, sobretudo, de as liderar ou não? Tenho ideia que o fator liderança em si é um impulso, não direi uma necessidade, mas é um impulso, é uma coisa que gosta, que acha que pode fazer bem. É isto.
Eu gosto, embora eu também tenha outros projetos e outras situações, outras empresas em que não sou eu que lidero e eu participo com muito gosto. Mas claro que tenho um imenso gosto em liderar equipas. O que eu acho que é fundamental é nós conseguirmos entusiasmar as pessoas num determinado projeto, naquilo que queremos fazer, porque nunca ninguém consegue. As equipas são absolutamente fundamentais para levar a cabo. Nós podemos ter um enorme sonho e é ótimo poder concretizá-lo, mas só o conseguimos concretizar se conseguirmos entusiasmar à nossa volta muita gente, as equipes que trabalham, as pessoas que trabalham no projeto, as pessoas que vão apoiar. É muito bom quando nós próprios, e eu vejo sempre isso assim, acho muito difícil alguém conseguir fazer alguma coisa pela qual não tenha uma paixão ou entusiasmo, porque não conseguimos transmitir aos outros esse entusiasmo. Quando isso existe e quando o projeto é bom e nós temos entusiasmo, quem o transmite tem o entusiasmo, eu acho que nós conseguimos levar muita gente conosco.
É o fator contagiante. Mas como é que o dar a ver a arte, além desse entusiasmo, pode obter alguma coisa ditada pelo hoje, pelos tempos que estamos a viver, no sentido que agora não é como foi em 1950 ou no século passado, ou que daqui a 30 anos podemos estar Preocupados ou convocados para como é que eu vou mostrar isto?
Sim, em especial, neste caso, num museu de arte contemporânea.
Exatamente.
Mas que é também no cinema. Nós temos que estar atentos às novas tecnologias e temos que, e neste caso, são os diretores que propõem ao conselho de administração, mas estrategicamente têm que seguir aquilo que é definido estrategicamente e depois, em concreto, são evidentemente as direções que propõem e que decidem o que vão propor. Mas se nós temos hoje, quando vamos a um museu de arte contemporânea, vemos muito mais instalações, vídeo, já temos obras de inteligência artificial, mas ao mesmo tempo as pessoas continuam a querer ver, e é isso que devemos também tentar fazer sempre. Continuam a querer ver pintura. A pintura pode ser diferente hoje em dia, mas continuam a ver.
Uma tela. É preciso uma tela, é preciso referências. É preciso haver uma referência. Estou a pôr no que uma pessoa pode pensar, não estou a falar de mim. A pessoa pode querer ter a vontade ou o reencontro com uma tela, ao fim de ver dessas exposições de instalações ou de vídeo.
Exatamente.
Não é?
E é nisso que está a riqueza e que está o truque, digamos assim, se se pode considerar isso um truque, mas é a forma de atrair o interesse de pessoas diferentes e de gostos diferentes. Mas aquilo que disse é interessante e é verdade. As referências continuam a existir e são importantes sempre. Por exemplo, quando nós ficamos com a coleção Miró em depósito, o Serralves, o eixo temporal é pós anos 60, digamos assim. Mas, de facto, nós pensamos nisso, mas o Miró, para já trabalhou até 83, até morrer. Portanto, ainda tem 20 anos de período que encaixa no que faz Serralves, mas ele é absolutamente uma referência para os artistas que trabalham hoje em dia. E por isso, para nós, foi, e na altura, a diretora do museu de então, a Suzanne Cotter, com quem eu conversei imediatamente quando essa possibilidade surgiu, desde logo foi adepta a que de facto nós aceitássemos em depósito essa coleção e desenvolvêssemos um programa à volta dela, que é o que tem sido feito, porque faz todo o sentido em todo o resto que o museu faz, digamos assim.
Encaixa, eu não gosto nada da palavra, não é nada bonita, mas parece quase feito de propósito. Foi quase um milagre. Faz muito sentido. Olhe, agora de maneira nenhuma a sua vida, eu estava apenas a falar de uma grande marca que deixou em Serralves, mas eu sei que a Ana toca outras, não é outras teclas do mesmo piano, é outros instrumentos. Eu gostaria de falar um bocadinho de que é que conserva uma melhor recordação do tempo em que lidou com as finanças e com as empresas. O que a atraía? O que gostava de fazer? O que puxava por si?
Eu sempre gostei muito do contacto com as pessoas e disso gosto muito. Eu lembro-me quando eu comecei, eu trabalhei primeiro no Porto, três anos, mas depois fiz um mestrado em Londres e depois trabalhei em Londres, num banco e fazia research de ações e tinha que viajar pelo mundo. Pelo mundo, enfim, Europa e Estados Unidos, em que ia visitar vários investidores e gostava muito disso. Eu gostava muito de conversar com eles, também gostava de escrever os relatórios, mas gostava mais de conversar com eles.
É tão interessante conversar com uma pessoa, não é?
Gostava de lhes explicar o que é que nós estávamos ali a propor. Portanto, essa fase foi interessante, mas não consigo dizer.
Não, eu não lhe peço que escolha.
Eu depois tive uma longa carreira na banca, mais na banca de investimentos, na área de capital markets, que é levar empresas ao mercado, fazer operações de fusões e aquisições, dívida, emissão de dívida. E eu também gostei disso porque era bastante diversificado. E finalmente, também tive uma parte em que estive a montar um banco. Eu trabalhava num banco, que é um dos maiores bancos do mundo, e decidiram ter um banco em Portugal, o UBS, é um banco suíço. E de facto decidiram fazer uma estrutura local na área do health management, do private banking, e eu liderei esse projeto para abrir aqui um banco. Portanto, foi muito diversificada a minha vida na área financeira, embora eu goste mais da economia real, eu goste mais da vida das empresas. Para mim, eu gosto da área financeira.
Está como peixe na água, na água financeira e na cultura é tão interessante.
Mas também gosto da economia real. Portanto, eu gosto de muitas coisas.
Ai, que bom, que é gostar de muitas coisas. E sabe que quem é curioso não envelhece. Não envelhece mesmo. Queria agora perguntar-lhe, agora está um pouco mais livre, não é? Já dissemos que está na academia, em júris, em aconselhamento cultural, nas empresas, etc. Mas tem algum projeto que esteja a começar ou que gostaria de começar uma vez que está um pouco mais livre?
Eu estou um pouco mais livre, embora eu seja daquelas pessoas que se ocupa sempre.
Não, eu sei.
Deve saber.
Sim, claro.
O que eu quero dizer. Mas eu deliberadamente, eu quis o ano passado, quis mesmo não me ter assim em muitas coisas, porque tinha imensa coisa que eu tinha que tratar. Francamente, este período eu quero também ter mais tempo, e tenho tido durante o último ano, para estar com a minha família, estar com os meus pais, que eu tenho o enorme privilégio de poder estar com eles, e por isso tenho feito isso. Mas claro que estou também a fazer mais coisas ligadas à minha família e vou com certeza, acho eu, concretizar ou estar em novos projetos.
Não podemos dizer, para acabarmos, temos só mais um minutinho ou dois. Não nos pode dizer onde é que a vamos ver ou ouvir ou saber que está a liderar?
Não, não tenho nada de concreto para dizer, mas tenho vontade de fazer novas coisas.
Fazer novas coisas. E quando não faz nem novas nem velhas coisas, o que é que faz? Viaja, não é?
Gosto imenso de viajar, gosto de estar em casa.
Parada.
Gosto de estar com os amigos, gosto muito de estar com a minha família. Gosto de visitar instituições culturais e gosto muito da vida.
Se eu disser energia e inovação, estou bem a defini-la, não estou?
Não sei, energia sim, acho que sim.
Eu assumo a criatividade e a inovação. Ana Pinho, foi um gosto enorme falar consigo. Muito obrigada por ter vindo aqui ao "Melhor é Difícil", e também deve ser difícil ser melhor que a Ana Pinho. Obrigada.
Muito obrigada, mas não. Obrigada.