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Olá, bem-vindos a mais um "Mudar de Vida". Eu sou a Ana Cristina Marques e hoje é dia de falarmos da adaptação a uma nova cidade ou país. Caso conheça alguém que se vai mudar, ou caso seja você mesmo a mudar-se, hoje o programa é para si, porque viver noutra cidade ou noutro país é uma experiência cheia de oportunidades, mas também de desafios acrescidos. Para falar sobre isso, temos, como sempre, a psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva. Olá, Filipa.

Olá, Ana.

Filipa, quão importante é ponderar uma mudança destas, seja de cidade ou de país? O que é que deve pesar mais numa balança nesta altura?

Sim, é uma decisão que carece, para ser bem decidida, sempre dá alguma reflexão e alguma preparação. Sobretudo, por exemplo, de pensarmos qual é que vai ser o impacto desta mudança nas várias dimensões da nossa vida, em termos académicos ou profissionais, em termos sociais, em termos familiares, por exemplo. Tentarmos cruzar esta ideia de mudarmos com os nossos próprios valores e objetivos de vida, tentarmos perceber então se eu mudar para esta cidade ou para este país, de que forma é que isto vai me aproximar de alguns dos meus objetivos, que valores é que eu tenho que também podem ser alimentados com esta possibilidade de mudança. E depois fazermos algum reconhecimento do que é que temos enquanto competências pessoais que nos vão poder ajudar nesta mudança, mas o que também podemos ter enquanto características que podem dificultar. E assim já fazemos, de alguma forma, uma previsão e uma orçamentação do que é que podem ser forças e dificuldades nesta transição para depois, de forma inteira, eu diria, sobretudo isso, de forma inteira, informada, consciente, podermos abraçar a mudança se essa for a decisão.

Claro, ou seja, fazer uma reflexão interior antes de tomar uma decisão tão importante como esta, porque, como dizia há pouco, pode ser uma aventura entusiasmante, mas que não deixa de ter os seus momentos de angústia, imagino eu. E do ponto de vista psicológico, quais dirias que são os principais desafios? Porque pensando assim num repente, lembro-me da comparação com a antiga realidade, porque nós deixamos um dia a dia para vivermos outro dia a dia. E há também aqui a questão da gestão de expectativas, não é?

Sim. Há aqui o tema imediato da segurança. Porque todos nós temos uma necessidade de termos segurança ao longo da nossa vida, necessariamente que essa mudança é diferente de pessoa para pessoa. E, portanto, nós temos pessoas que abraçam mais a novidade e a diferença com mais facilidade e com mais flexibilidade e portanto, adaptam-se mais rapidamente. Nós temos outras pessoas que são mais resistentes precisamente a essa mudança e que são capazes, obviamente, de se adaptar a ela, mas que vão sentir mais tempo uma intranquilidade e uma insegurança. E, portanto, o tema aqui da insegurança é, sem dúvida, um grande foco que deveremos ter aqui em consideração. Depois, necessariamente, a questão da própria integração nos grupos sociais, esta rede de suporte. Quando nós mudamos de cidade e mudamos de país, podemos nos sentir perdidos e desintegrados. É como se eu aqui não tenho a minha comunidade, ou aqui sou o estrangeiro, ou sinto-me aquilo que é o outsider, o estranho, o diferente. Não tenho as minhas pessoas ainda. Isso necessariamente é aqui realmente também uma questão. Depois, consoante a mudança que estejamos a falar, podemos acrescentar até questões como também a própria capacidade de comunicação, porque se eu for para um outro país em que a língua é diferente e eu possa ainda estar em processo de aprendizagem dessa língua, necessariamente que esse também vai ser aqui um tema que me vai fragilizar uma vez mais em termos também de segurança. Portanto, é mais um desafio a ser aqui ultrapassado.

Olha, dirias que os dias maus, quando são vividos lá fora, longe do nosso contexto habitual, têm um peso diferente? Por exemplo, quando bate a saudade ou quando alguma coisa acontece mal e nós não temos efetivamente a tal rede de apoio de que estavas a falar, há probabilidade das coisas serem sentidas com maior impacto?

Podemos assistir às duas realidades. O fato de eu estar distante das pessoas que são as minhas pessoas mais de referência, pode me dar também uma possibilidade de eu me reinventar e me descobrir de uma forma diferente e até encarar as dificuldades com lentes diferentes e até perceber que tenho competências que até à data não tinha percebido, perceber que tenho uma mentalidade mais resiliente do que aquela que me era dada a possibilidade de pôr à prova na minha casa e na minha cidade mãe, porque quando nós estamos por nossa conta, sem dúvida que vamos ter essa necessidade e às vezes surpreendemos positivamente com as competências que encontramos em nós. Noutros momentos ou noutras situações, também pode acontecer o inverso, que é precisamente essa falta de suporte, a par da novidade, a par da sensação de desintegração, do esforço de adaptação a tanta coisa. Às vezes estamos a falar de mesmo muita coisa, uma moeda nova, uma língua nova, um clima diferente, uma cultura diferente. Aí, sem dúvida que alguns desafios podem ser aqui toldados por esta sensação de saudade e de dificuldade acrescida. Dependerá muito de circunstâncias para circunstâncias e também de um pouco das próprias competências pessoais e emocionais daquela pessoa, das circunstâncias em que aquela transição se está a dar e que esses desafios estão a surgir.

Estavas a falar de todas as coisas que têm que mudar quando nós mudamos de cidade ou de país, sobretudo agora, neste caso, de país. Estava a pensar que isso é preciso ter uma bagagem emocional bem composta para conseguirmos adaptar-nos a uma nova língua, a novas pessoas, a uma nova cultura, a novos hábitos. E é uma transformação que nós temos que aceitar que é capaz de levar algum tempo.

Sim, e que pode ser difícil, mesmo a nível nacional. Por exemplo, se eu passar de uma realidade como uma pequena aldeia, uma pequena vila e vir para um grande centro urbano, eu também vou sentir esse choque. Se eu passar de viver com os meus pais para passar a viver sozinha ou com pessoas que eu não conheço De parte nenhuma eu vou sentir esse choque. E, portanto, quer cá dentro, de uma maneira mais extremada, quer para o estrangeiro, esta questão realmente do custo de adaptação em qualquer idade, porque a verdade é que às vezes podemos romantizar, por exemplo, as mudanças aos 18 anos, aos 19 anos, aos 20 anos, e até vê-se muitas vezes as famílias a serem as primeiras a promover essas mudanças de: "Vai, tu és novo, vai para fora, abraça essa mudança". E sim, isso pode ser positivo, mas vale sempre a pena olhar para a bagagem que aquele jovem tem e antes de o empurrar e de o incentivar a essa transição, que o possamos então dotar aqui de uma bagagem e de um kit de preparação para a mudança positivo e que o ajude, no fundo, depois a surfar por entre essas adversidades e que o prepare também para não romantizar só essa mudança. Porque há algumas transições que se revelam muito difíceis, precisamente por falta de competências sociais, emocionais, pessoais e também às vezes por uma certa idealização. E às vezes acontece um fenómeno que é nós ficamos presos à mudança que abraçamos com dificuldade em assumir que essa mudança não foi positiva e que não está a ser vivida por nós de uma forma positiva, como se fosse um fracasso, eu voltar para casa ou eu dizer que aquela experiência no estrangeiro não correu bem. E isso não tem que ser um fracasso. É simplesmente uma experiência que importa retirar o máximo de aprendizagem possível, mas se não for por ali, há que reconhecer, sem culpas, sem críticas destrutivas e voltar aqui, no fundo, a definir novas coordenadas na nossa jornada.

Claro. E é uma mensagem, sem dúvida importante, numa altura em que tantas famílias estão a começar a conhecer a colocação na faculdade ou que já conhecem a respetiva colocação. E pode haver adolescentes a saírem de casa ou não. Mas aqui no meio desta mudança de cenário, digamos assim, de cenário, a qualquer idade, pode sempre haver algum risco de uma pessoa sentir solidão, porque a rede de apoio ficou lá atrás. Que conselhos darias para uma pessoa que se possa estar a sentir sozinha?

Sim, independentemente da idade, tudo o que seja este autocuidado, este tempo para nós nos escutarmos. Tínhamos nós 18, 20, 30 ou 40 anos, é muito importante. Portanto, que eu possa reservar no meu dia a dia este tempo e este espaço para eu me questionar como é que eu estou a lidar com esta mudança, para poder reconhecer o que é que está a ser o melhor desta mudança e o que é que está a ser o menos bom e, no fundo, o que é que eu posso fazer para tornar esta mudança cada vez melhor. Isso é importante. Depois também que eu possa pedir ajuda sempre que isso for necessário, sem vergonhas, sem esta sensação de fracasso. E que eu possa, sobretudo, ir então construindo depois uma rede de suporte, uma rede que pode passar por pessoas que vivem no mesmo espaço do que eu ou que estudam no mesmo espaço do que eu, na mesma instituição, ou que trabalham na mesma empresa, consoante aqui a faixa etária. Mas à medida que, no fundo, começamos por procurar estabelecer pontes e conexão com pessoas que já estão em ambientes nos quais nós nos movimentamos, sem dúvida que é aqui mais fácil, é facilitador se o fizermos.

Olha, e considerando então que não há essa rede de apoio e que uma pessoa quer criar uma nova rede de apoio, há alguns truques para que seja mais fácil conhecermos pessoas novas, travarmos amizades?

Sim. Se nós ficarmos no nosso cantinho isolados.

Não acontece nada.

Não acontece nada. E, portanto, para nós conhecermos pessoas novas, nós precisamos, sem dúvida, nos expormos à novidade e à interação em contextos diferentes. Para nós estabelecermos uma ligação e uma conexão a alguém, ajuda que esse contacto seja repetido no tempo. E portanto, quando nós, por exemplo, assumimos que temos um determinado hobby, um determinado interesse, e se nós o explorarmos, numa ótica de um conjunto de workshops ou numa aprendizagem de uma determinada língua ou de um instrumento musical, ou a prática de um desporto em modo coletivo, nós necessariamente estamo-nos a colocar num contexto onde pessoas, pelo menos com aquele interesse comum conosco, já estão e que nós nos vamos, no fundo, cruzar com essas pessoas e encontrar com essas pessoas de forma repetida no tempo, naquele dia, naquela hora agendada. E isso, sem dúvida, que cria aqui um contexto muito mais propício a que eu me possa dar a conhecer e que eu possa conhecer o outro e que desse conhecimento se comece a estabelecer aqui uma ligação e eventualmente uma amizade.

Claro. E para quem tem amigos ou familiares que já se mudaram, qual é que é a responsabilidade de quem fica para trás? Ou seja, que dever é que eu tenho como amiga, como mãe, como pai, como prima, como o que quer que seja, que dever é que eu tenho também para alimentar aquela relação e assegurar que não vai ser a distância a destruir a ligação?

Sim. A consistência da ligação é importante, portanto, eu construir novas rotinas. Se eu estou a viver, por exemplo, no mesmo espaço que uma pessoa, na mesma cidade, e esta pessoa muda, então que eu possa construir novas rotinas e possa acordar: "Olha, todas as sextas-feiras vamos jantar", por assim dizer, mesmo que seja por videoconferência, à distância de um ecrã, "mas vamos partilhar esta refeição" ou "todos os fins de semana vamos fazer aqui uma videochamada". Esta ideia também de um diálogo curioso e de um diálogo com espaço para a partilha. Se eu faço uma pergunta fechada: "Está tudo bem? Está tudo a correr bem, não está?" É natural que a partilha vai ser também muito mais condicionada. Se eu faço uma pergunta aberta de: "Conta-me como é que está a ser esta tua experiência, fala-me da tua semana". Então estas perguntas abertas vão demonstrar mais curiosidade da minha parte, mas também vão dar mais espaço a que o outro possa ser honesto. Esta procura também do suporte, da não idealização, de não ir atrás desta ideia de: "Ai, entraste no curso que tu mais querias" ou "Conseguiste aquela vaga naquele trabalho, deves estar maravilhado com tudo isto". Não irmos atrás dessas idealizações e, portanto, também podermos ter este balancear de: "Olha, então o que é que está a correr melhor e diz-me o que é que está a correr menos bem", dando já esse espaço e essa legitimidade para que hajam partilhas daquilo que corre menos bem, para que depois nós, enquanto familiares, enquanto amigos, possamos também dar suporte. E de resto, essa atenção é fundamental para que mesmo à distância se possa perceber quando é necessário ativar aqui alguma rede de suporte acrescida, quando é necessário nos metermos num avião ou num carro ou num autocarro Quando é necessário a nossa presença física junto daquela pessoa. Isso é muito importante.

Fiquei a pensar nessa dica muito útil de fazer uma pergunta aberta, de incentivar a partilha, porque quantas vezes não perguntamos "como estás?" e nem sequer esperamos pela resposta. Quer dizer, é um vício, é uma coisa que faz parte quase do nosso cumprimento, não é?

Sim.

Uma mudança destas também é uma oportunidade para crescer, sem dúvida nenhuma, até para sairmos das rotinas que tínhamos antes e para desfazer um bocado de crenças que tínhamos sobre nós e que os outros também tinham sobre nós. Convém deixar isso claro. O que é que tens a dizer sobre esta observação?

É que nós somos seres sociais. Então quando estamos permanentemente sempre no mesmo ambiente, é natural que a ideia que nós temos sobre nós foi uma ideia que nós construímos na relação com estas pessoas. Então se ao longo de 15, 18, 20 anos, estas são sempre as mesmas pessoas, é natural que em algum momento estas relações também vivam de passado e não só de presente. E, portanto, que eu vá sendo vista de uma determinada forma, que pode não estar totalmente atualizada com a minha versão presente. E que eu me possa sentir um pouco refém. Isso, de resto, eu acho que é algo que leva muitas vezes a mudanças de cidade, de trabalho, de país. É esta vontade de começar de novo, esta vontade de me redescobrir por pessoas e lentes que não me conhecem, que não têm passado e não têm história comigo. Muitas vezes também esta não identificação com as lentes e com a mentalidade de pessoas que nós temos à nossa volta. E não é por acaso que tantas relações, por exemplo, entre pais e filhos melhoram substancialmente, quando deixam de coabitar no mesmo espaço e quando às vezes estão separados por muitos quilómetros, porque de repente tudo aquilo que pesava no dia a dia e os muitos conflitos do dia a dia se atenuam e passa a existir aqui um distanciamento saudável que permite às vezes até curiosamente mais intimidade e mais proximidade. Sem o desgaste do dia a dia. E isso é muito importante, mas sobretudo destacar que há tanto de desafio como de oportunidade neste tipo de mudanças e que vale a pena nós legitimarmos e estarmos atentos a estas duas componentes daquilo que é uma mudança de cidade, que é uma mudança de país.

E que há sempre espaço para crescermos, não é?

Sem dúvida.

E ficamos por aqui. Antes de dizermos adeus, recordamos que podem enviar sugestões e perguntas ou até quem sabe partilhar histórias através do e-mail mudardevida@observador.pt. Até lá, fique com o Tame Impala com o tema "Yes, I am changing".

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