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Olá, bem-vindos a mais um "Mudar de Vida". Eu sou a Ana Cristina Marques e hoje vamos falar de amigos tóxicos. Quem são, qual o mal que nos podem fazer e como é que nós os podemos identificar. Estas são algumas das questões que vamos tentar responder hoje, sempre com a ajuda da psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva. Olá, Filipa.
Olá, Ana.
Filipa, quem são afinal as pessoas tóxicas e, por consequência, estes amigos tóxicos de que vamos falar hoje?
Se calar começarmos pela definição do que é uma relação saudável. Quando pensamos nisso, pensamos numa relação em que ambas as partes se tentam potenciar e respeitar, em que a diferença é aceite e pode conviver de forma saudável. Quando isso começa a não acontecer, ou seja, quando nós começamos com relações assimétricas em que uma das partes tende a superiorizar-se e tende necessariamente a inferiorizar a outra, quando não há espaço para se sentir o que se sente, quando uma das partes é sempre acusada de estar errada ou de ser menos correta, aí começamos a ter alguns sinais vermelhos do que pode ser uma relação menos saudável. O tipo de pessoas que muitas vezes pode começar com estes padrões. Podemos falar de pessoas que acabam por ter como experiência de vida estas relações tóxicas.
Que já servem de base.
Servam de base. É a sua forma de se relacionar e acabam muitas vezes até num piloto automático e de forma até inconsciente, por replicar no fundo aquilo que é o seu modelo de relação e sem dar em conta, é um modelo de relação distorcido, não é saudável. Depois podemos falar de pessoas, por exemplo, com personalidade antissocial, em que essas, sim, de alguma forma acabam por ter esta necessidade insaciável de controlar tudo e todos à sua volta e naturalmente que também acabam por se envolver e dinamizar relações mais tóxicas. Podemos ainda ter pessoas com traços de personalidade mais narcísicos, que não têm tanta empatia e acabam por estar sempre muito centradas em si, muitas vezes por destruir o outro, inferiorizar o outro, magoar o outro sem ter essa noção. E diria que em quarto lugar, podemos destacar muito as pessoas que acabam por ter uma estrutura de personalidade mais vulnerável, portanto menos autoestima, mais insegurança. Às vezes o síndrome do patinho feio, que depois nos leva também a não conseguirmos estar de igual para igual e muitas vezes nos impossibilita estarmos numa relação saudável.
São quatro perfis de personalidades que representam exatamente isso, não estar de igual para igual numa relação.
Exatamente.
Olha, mas como é que nasce uma relação tóxica? Ela é tóxica à partida, ela vai se tornando tóxica?
Sim, existem essas duas possibilidades. A relação de base pode ser no imediato, logo construída nessas premissas de toxicidade e, nós vamos ter alguns sinais disso mesmo. Ou nós podemos ter uma relação que é relativamente benigna, que é saudável, até que é bastante positiva no seu global, que naturalmente terá os seus pontos menos fortes como todas as relações têm, e são esses pontos menos fortes que em algumas circunstâncias e com alguns gatilhos, podem depois despoletar uma derivação para uma relação tóxica.
Ou seja, coisas que acontecem que fazem com que esses aspectos mais instáveis, talvez, ou de toxicidade sejam acordados, digamos assim?
Sim, porque isso é sempre um tema. Há pessoas que têm muita dificuldade em identificar uma relação tóxica porque ela nem sempre o foi. E associam esta pessoa, seja ela na dimensão amorosa, social, laboral ou familiar, associam esta pessoa a uma pessoa de suporte e conseguem dar inúmeros exemplos concretos e fidedignos de que aquela pessoa já esteve lá para elas e de que aquela pessoa já as apoiou e que já constituiu realmente um suporte de qualidade na sua vida. E isso é o que às vezes dificulta o reconhecimento de que aquela relação derivou, mudou, transformou-se e que neste momento não é uma relação saudável, porque o amor e a amizade também vivem muito desta tolerância, desta compreensão, deste enquadramento persistente de olhar para o outro do melhor ângulo possível e é isso que muitas vezes nos leva a ignorar sinais importantes.
E por falar em sinais, eu queria saber quais são, porque eu tenho ideia que uma relação tóxica depende muito desta noção do controle e de alguém exercer mais poder do que o outro. Mas eu queria perceber então quais são os sinais mais comuns para que uma pessoa que nos esteja a ouvir consiga identificar que está numa relação tóxica ou que faz parte dela.
Sim.
No outro sentido.
Se nós estivermos a sermos vítimas de uma relação tóxica, eu diria que vale a pena escutarmos e olharmos para o nosso corpo. Quando nós saímos do contato com este tipo de pessoas, habitualmente nós sentimos um grande nível de tensão. Sentimos, por exemplo, um diálogo interno muito mais negativo e muito mais crítico, há um grande autoquestionamento. Parece que saímos daquela interação a colocarmos muito em causa sobre nós próprios e muito a nos retirarmos legitimidade daquilo que somos e daquilo que fizemos e até de alguns raciocínios que podemos ter apresentado. Às vezes também acontece que já antes de eu ir ter com esta pessoa, eu começo a sentir alguma tensão que eu não consigo associar ou ler como estando associada àquela pessoa e vou atribuir que estou num dia não ou que estou num dia muito estressada e muito acelerada, mas existe essa tensão que já tem a ver com o contato.
Como se não conseguíssemos ficar aliviadas ou aliviados na presença do outro.
Exatamente.
Como se estar ali a falar com a pessoa fosse um ato exaustivo.
Sim, exato. Porque há um lado meu que começa a reconhecer, por exemplo, que há certos temas que eu não devo tocar com aquela pessoa, porque senão vão gerar muito conflito. Há um lado meu que já sabe que quando fizer aquela partilha, provavelmente vai ser criticado, e é depois uma crítica que eu vou comprar. Há um lado meu que se sente já a restringir e a controlar internamente o que eu posso e não posso dizer, o que é correto ou não é correto dizer.
Como se tivéssemos com muitos filtros a falar com outra pessoa.
Muitos filtros. E isso é um indicador muito concreto. Agora, depois na própria interação, o que é que podem ser outros indicadores muito explícitos desta dinâmica tóxica? Quando as nossas emoções não são respeitadas nem são legitimadas, nós ouvimos sempre algo como: "Isso não faz sentido", "Estás a pensar errado", "Isso não faz sentido estares a sentir isso". Quando, por exemplo, nunca há espaço para um diálogo construtivo. Qualquer tipo de discordância é logo um confronto e uma das partes necessariamente tem que estar certa e a outra parte tem que estar errada, sendo que nós já sabemos quem é que vai ter que assumir que não está certo. Depois, muitas vezes também acontece que alguns fatos e algumas situações verdadeiras são negadas e são deliberadamente distorcidas para precisamente manter uma assimetria na relação. Muitas vezes há esta culpabilização de uma das partes, não há o conceito de responsabilidade nem de partilha, há a culpa. Uma vez mais, uma das partes tem que ser o mau da fita E depois, muitas vezes aquilo que nós vamos sentindo é a tal desilusão, que parece que eu estou a desiludir o outro e em algum momento parece que eu própria já estou desiludida comigo, da versão de pessoa que eu me estou a transformar.
E não com o outro? Essa desilusão só chega quando as pessoas se apercebem de que a outra pessoa é tóxica?
Sim, precisamente. Ou seja, quando nós também começamos esta relação e se a relação já tem créditos, pior ainda, porque nós vamos tentar sempre enquadrar de uma forma muito benigna aquilo que está a acontecer e vamos sempre puxar para nós a responsabilidade do que nós estamos a sentir, nunca atribuindo ao outro. Se a relação já começou tóxica, isso também pode estar a dizer alguma coisa sobre a minha própria estrutura de personalidade, sobre os meus próprios limites, e isso também vai poder, de alguma forma, dificultar eu assumir, eventualmente por medo do conflito, medo de ficar sozinha, medo de não ser aceite, medo das consequências no fundo desta interação. Porque às vezes há isto, mesmo quando estamos a falar de amigos, portanto, na prática não há nenhuma interação profissional, nem nenhuma hierarquia, mas às vezes há esta sensação de hierarquia na relação.
E isso não é natural?
Não é saudável, nem é natural. São tudo indicadores de que nós não queremos. Nós queremos uma relação de igual para igual, em todas as esferas da nossa vida, de resto. Queremos ser um ser humano a relacionar-se com outro ser humano. Mesmo quando estamos a falar com uma chefia, mesmo quando estamos a falar com uma mãe, com um pai, com um sogro, com uma amiga de uma amiga, nós queremos essa sensação de legitimidade. Eu sou um ser humano com direito a ter a minha perspectiva de tudo, com direito a ter as minhas escolhas. E há este limite em que eu não vou querer passar, que eu não vou querer dizer que o outro está certo ou que está errado. Eu vou me querer dar a legitimidade, se tiver espaço para isso, de dar o meu parecer, mas sempre com esta humildade.
Mas não impor.
Exatamente.
Exatamente. Mas estamos aqui a falar sobre essas relações tóxicas e parece tão estranho que seja possível confundir-se amor com algum tipo de manipulação, porque é disso, de alguma forma, que estamos a falar, não é? Mesmo que seja voluntária ou involuntária. Como é que isto acontece?
Sim, lá está. O amor e a amizade têm uma componente de posse, necessariamente. E são duas áreas relacionais em que, no fundo, nós acabamos por projetar muito na dinâmica a dois e na dinâmica até de grupo, muito daquilo que nós estamos a sentir e muito daquilo que nós estamos a passar. E por isso, necessariamente, quando eu estou mais em piloto automático, quando eu estou com muitas defesas, defesas que no fundo me fazem negar e entrar em contato com aquilo que realmente está a acontecer. Um exemplo muito concreto: se eu estiver a passar por uma fase da minha vida, vamos supor que eu estou extraordinariamente frustrada com a minha relação amorosa. E, portanto, esta frustração está a ganhar um peso dentro de mim, que eu essencialmente tenho dois grandes caminhos à minha frente. Eu posso seguir um caminho que é o de assumir para mim que não estou bem e que de alguma forma quero refletir sobre o que é que me está a gerar também a frustração nesta relação amorosa, quero eventualmente refletir com o meu parceiro, com a minha parceira, sobre o que é que está a acontecer. Posso querer trabalhar essa dinâmica relacional e este é um caminho de responsabilização, de empoderamento, de consciência. Posso optar por um outro caminho, que é no fundo um caminho de mais cegueira e um caminho de reatividade, em que eu para evitar entrar em contato com esta minha dimensão de frustração, vou no fundo destilar frustração em relação aos outros e vou adotar uma postura muito mais crítica em relação aos outros, não só em relação às dinâmicas amorosas dos outros, mas de uma forma geral. E, portanto, isto vai fazer com que eu vou endurecer a minha postura na relação. E de repente, estou a dar uma opinião ou outra pessoa está a partilhar algo comigo e eu vou assumir uma posição muito dura em que a outra pessoa, com mais ou com menos consciência, se vai sentir mal. E aquilo que eu estou a fazer é, no fundo, consciente ou inconscientemente, a desviar-me da minha própria dor e a projetar a minha insatisfação no outro. E isto é muito frequente.
Sim, e imagino que seja difícil de separar as duas coisas. Esse caminho da responsabilização com o caminho de fugir da própria dor, no sentido em que as pessoas às vezes não se apercebem de que fase em que estão. Mas ia perguntar-te também, no meio disto tudo, o que é que ter um amigo tóxico, neste caso ter, já vamos ao ser, mas ter um amigo tóxico, o que é que isso diz de nós?
Olha, não diz nada em absoluto. Acho que essa é uma mensagem importante. Um dos mitos que prolifera é que só pessoas com fraca autoestima têm relações tóxicas. Isso não é verdade. Todos nós, em alguns momentos da nossa vida, ciclicamente, eu diria, vamos ser apanhados nessa situação, seja numa dimensão amorosa, seja numa dimensão social. Isso já me aconteceu várias vezes ao longo da minha vida. Acontece a muitas das pessoas com as quais eu trabalho e acompanho, e portanto, é algo frequente. Portanto, primeira ideia, não há um protótipo de pessoa exatamente a quem isto acontece. Segundo, a culpa para aqui não é chamada. Portanto, uma vez mais, vale sempre a pena nós olharmos para isto de uma forma compreensiva e tentarmos perceber a cada momento da nossa vida, o que isto pode estar a dizer sobre nós e pode estar a dizer que naquele momento da minha vida eu realmente posso estar com poucos limites nas minhas relações sociais, posso estar-me a vulnerabilizar demasiado, posso estar eu própria a me inferiorizar ou posso estar muito numa postura de cuidadora, é uma possibilidade, como também outra possibilidade é precisamente aquilo que falávamos de aquela relação por diversos fatores evoluiu num sentido mais negativo e eu de alguma maneira ainda estou a ter aqui alguma dificuldade em separar e em perceber o que é o quê, por créditos precisamente que aquela relação tem e uma vez mais, auto-observação, muita atenção plena, muita curiosidade e sempre esta escuta ativa de não ignorarmos e não atropelarmos sensações nossas.
Estamos aqui a falar sobre relações tóxicas na amizade, mas estas relações podem existir em diferentes campos da nossa vida, não é? Seja no amor, no trabalho, entre colegas. Assumindo isso, assumindo que há esta diversidade, em que momento é que dá para reparar uma relação tóxica e em que momento é que já não há salvação possível?
Sim, o que muda aqui de todos esses campos que tu falaste, necessariamente, é que se a relação tóxica, quanto mais é a convivência com esta pessoa, maiores serão os danos, no fundo, dessa relação. Portanto, uma coisa é, pode ser muito duro eu ter uma amiga ou ter um colega de trabalho com quem tenho uma relação tóxica, mais duro ainda será se for um companheiro com quem coabito ou uma companheira ou uma chefia. Mas aqui, necessariamente, de alguma forma, as coisas também vão sendo dinâmicas e há que olhar um bocadinho momento a momento para o que é que vai acontecendo.
Ou seja, não há um momento certo, não há um padrão certo para definir que a relação acabou ou pode continuar? Não tem que ver com a nossa energia pessoal, se podemos ou não investir mais?
Sim, tem muito a ver com os nossos limites e tu falavas em reparação e isso vai sempre necessitar que ambas as partes possam reconhecer a relação como não estando a ser saudável. Portanto, se ambas as partes não reconhecem a relação enquanto tal, enquanto sendo tóxica, nós não vamos conseguir ter margem de recuperação e de trabalhar a relação. E por isso é que tantas relações tóxicas acabam, infelizmente, por gerar a necessidade de uma rutura e é uma rutura assertiva e que tem que ser feita em muitas situações com legitimidade. Portanto, não é fazer mal ao outro, mas é nós nos afastarmos e assumirmos que aquela relação não tem capacidade naquele momento para continuar a ser investida. É precisamente porque do outro lado eu não vou ter essa recetividade, eu não vou ter essa capacidade de envolvimento. E quando assim é, há que o reconheceres e prosseguir.
E é com o reconhecimento que ficamos por aqui. Antes de dizermos adeus, recordamos que podem enviar as sugestões para o e-mail mudardevida@observador.pt. Por agora, fique na companhia dos The Verve com o tema "Bitter Sweet Symphony".
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