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Olá, bem-vindos a mais um "Mudar de Vida". Eu sou a Ana Cristina Marques e hoje é dia de falarmos das mudanças que não conseguimos controlar, as boas e as más. Como de costume, as perguntas são colocadas à psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva. Olá, Filipa.
Olá.
Nos últimos episódios estivemos a conversar essencialmente sobre mudanças que nós conseguimos controlar, com mais ou menos facilidade, e que podemos aplicar à nossa vida. Desde perceber se estamos bem numa relação que temos ou se a carreira que escolhemos é a certa. Mas há este outro lado da vida que é marcado por mudanças que nós não conseguimos controlar. E eu queria perguntar-te, de uma forma transversal, que tipo de mudanças é que são essas?
Sim, existem realmente muitas mudanças que fogem ao nosso controle. Existem mudanças inerentes ao ciclo de vida, nomeadamente a própria questão do envelhecimento, da morte. Existem também mudanças que nós não controlamos em relação a outros. Outros que podem tomar decisões que nos implicam, podem ter comportamentos que também têm impacto em nós. E depois existem um sem número de circunstâncias, desde eventos mais positivos ou menos positivos. Podemos pensar numa pandemia, que ninguém controlou o início, numa catástrofe natural, em pequenos acidentes ou em pequenos atrasos. Mas também podemos pensar em coisas boas, de eu estar a tentar engravidar e conseguir engravidar, sair-me um prémio, alguém oferecer-me um convite, pedir-me em casamento. Portanto, há muitas surpresas, há um certo quê de inesperado na vida, que vai dando também uma certa agitação. Às vezes vai dando uma agitação com algumas dores de cabeça, outras vezes vai dando uma agitação que é muito entusiasmante.
Claro. E pegando nas coisas que nós não conseguimos controlar, um pouco mais pela negativa, os assuntos mais sérios que nos marcam, é possível de alguma forma nós prepararmo-nos para estas situações?
Sim, é possível, e se calhar é começarmos logo por esta gestão da nossa expectativa em relação àquilo que nós controlamos e não controlamos. E portanto, muitas destas desilusões e frustrações que nós temos advêm precisamente de uma idealização que nós construímos em torno dos nossos níveis de controle. E nós assumirmos que não controlamos tudo, nunca vamos controlar tudo, e que vamos precisar, sim, é de nos capacitar o mais possível. Portanto, mais do que querer antecipar o que é que vai acontecer, nós queremos realmente ganhar robustez emocional para que aconteça o que acontecer, eu me sinta suficientemente preparada. E isso cruza com o segundo elemento de preparação para a adversidade e para aquilo que nós não controlamos, que é precisamente o nosso autocuidado, o nosso nível de autoconhecimento sobre nós próprias. É pensarmos em nós como uma espécie de avião. Eu não sei se vou encontrar ou não que tipo de meteorologia, mas eu preciso de saber navegá-lo. E se eu souber navegá-lo, pode estar a chover, pode estar trovoada ou pode estar um dia de sol. Eu vou conseguir levar este voo a bom porto e aterrar em segurança. E assim é conosco. Se nós não nos conhecemos, não conhecemos os nossos recursos, os nossos botões internos, por assim dizer, fica mais difícil, depois em momentos, sobretudo, de adversidade, conseguirmos nos regular e adaptar àquilo que vai surgindo.
Ficamos em autopiloto, como já aqui falámos. Estavas a preferir aviões. Mas dirias que uma das coisas mais importantes nestas circunstâncias é mesmo nós sabermos relacionarmo-nos com as nossas emoções nestas situações, ou seja, percebermos o que é que estamos a sentir sem qualquer tipo de julgamento e permitirmo-nos a sentir isso?
Sim, é fundamental. Nós conseguirmos dar nome primeiro à emoção. Reconhecer que ela existe, conseguir identificá-la, conseguir nos dar permissão para que ela exista é fundamental, porque é no fundo isso que depois faz a ponte com a nossa capacidade de tolerarmos desconforto, de também ganharmos flexibilidade mental. "Ok, não foi no caminho que eu queria, não foi exatamente aquilo que eu estava à espera de acontecer, mas e então e agora, para onde é que eu me vou movimentar?" Esta flexibilidade mental é fundamental e de resto é depois também nós fomentarmos muito uma capacidade de abdicarmos que as coisas tivessem corrido exatamente como nós queríamos que corressem. Envolvidos hoje, por exemplo, tantos meses desde este início de pandemia, nós notamos que existem pessoas que ficaram um bocadinho bloqueadas ainda em fevereiro e março. E que ainda não aceitam esta pandemia e tudo o que ela traz. E portanto, se eu continuo a não aceitar, abdicar, que as coisas tivessem sido de uma forma diferente e a relacionar-me com a realidade real, tal como ela é, com as suas coisas boas e com as suas coisas menos boas, eu vou ter mais dificuldade, inerentemente, a me adaptar e a imobilizar.
Em prosseguir, não é?
Exatamente, um conjunto de recursos para prosseguir.
Isso é uma ideia interessante, até porque eu queria perguntar-te se existem diferentes formas de nós reagirmos a uma situação que nós não controlamos. Imagino que haja a fase da negação e que pelo meio também haja outros pontos até chegarmos à aceitação. E no meio disto tudo, gostava que falasse um pouco sobre estas diferentes formas de reagir e também de perceber como é que perante uma situação que nós não controlamos, por exemplo, e agora um cenário um pouco mais triste, como a perda de alguém próximo, como é que nós lidamos com a frustração, de nos sentirmos impotentes face a algumas coisas que nos vão acontecendo na vida.
Sim. Em primeiro lugar, depende muito do nosso ciclo de vida, da nossa estrutura de personalidade. Ou seja, nós pensarmos em lidar com a adversidade ou com algo que nós não controlamos quando temos dois anos, seis anos, 10 anos. Há ali realmente um conjunto de características e nós primeiro precisamos realmente de perceber que em momentos diferentes da nossa vida nós vamos ter recursos diferentes para lidar com a adversidade e com aquilo que nós não controlamos. Depois também tem a ver não só com o timing da nossa vida e com os nossos recursos, mas também esta imprevisibilidade vem acompanhada pelo quê? Quando nós pensamos em luto, não existem dois lutos iguais, nem mesmo na mesma pessoa.
Correto.
As circunstâncias que envolvem estas adversidades, e isso de resto evoca em nós um grande exercício de empatia, porque é muito fácil nós irmos para um caminho de comparação, que muitas vezes é injusto para nós e para os outros, de: "Eu também já fui despedido", ou "Eu também já perdi um pai", ou "Também já acabaram uma relação amorosa comigo". Sim, mas a minha experiência é única e irrepetível até para mim, na minha própria vida. A experiência de cada um de nós é realmente única E não se vai repetir. Portanto, esse respeito pelas nossas experiências e pelas experiências dos outros é importante. Mas de uma forma geral, nós conseguimos pensar numa primeira etapa de alguma surpresa, que se pode revestir por choque, se realmente for algo que me suscita muita imprevisibilidade, muita impotência também e sofrimento. E depois esse choque e, no fundo, essa certa negação que pode surgir, vai evoluindo por um caminho que pode espoletar alguma zanga, por exemplo, alguma raiva, até alguma necessidade de internamente eu negociar, como se eu fizer aquilo, então se calhar o resultado vai ser diferente. Lá está, procurar o controle que eu entretanto perdi. E necessariamente aquilo que nós queremos é avançar para uma aceitação no sentido de nos adaptarmos. E este não é um processo que se possa fazer sem turbulência. Há aqui emoções que nós não conseguimos, por maior robustez emocional e autocuidado que nós tenhamos, há coisas que doem e que invariavelmente vão doer.
Precisam do seu tempo também, não é?
Sim, precisam do seu tempo, precisam do respeito, precisam até, eu acho, desta naturalização e legitimidade para doerem. A nossa vida é feita de prazer e é feita também de dor. São duas metades que a complementam e aqui sem preferências. Acho que vale a pena nós nos assumirmos enquanto seres complementares. Isso ajuda muito no processo de adaptação.
E neste processo de adaptação, também, quão importante é estarmos conscientes das coisas, estarmos neste presente e não focados nem no passado nem no futuro.
Fundamental. Porque quando nós estamos no momento presente, nós conseguimos mobilizar recursos de sobrevivência, que se estivermos em modo demasiado racional, emaranhados naquilo que eu achava que queria que fosse, naquilo que eu já me tinha preparado para ser, naquilo que era justo ser. E se eu me perder nesse mundo mental, eu não vou conseguir usar todos os meus recursos que estão lá no meu corpo, disponíveis para eu conseguir realmente lidar e usar. E sem contar que nós muitas vezes quando vamos para o mundo das ideias, tendemos a nos relacionar com as coisas de uma forma ainda pior do que aquilo que elas são. Portanto, quando estamos com os nossos sentidos ligados, estamos nos a relacionar realmente com a realidade real. Sem melhorar ou piorar, simplesmente a nos relacionarmos com aquilo que existe.
Trabalhar com o que temos. É um caso por aí. E estamos aqui a falar de mudanças que nós não conseguimos controlar, desde, como disseste há pouco, alguém ser despedido ou alguém ser pedido em casamento, o envelhecimento, por exemplo, que é uma daquelas grandes mudanças. Mas também há outra questão, porque uma mudança que nós não podemos controlar pode ser uma pessoa na nossa vida em que chega a um ponto, se calhar, em que temos que aceitar que ela é assim e que não há volta a dar. Que opinião tens sobre isso?
Sim, esse respeito é fundamental. Nós muitas vezes tendemos a nos relacionar uns com os outros numa perspectiva da versão que eu hei de ser e a versão que aquela pessoa vai ser. E há aqui, uma vez mais, esta complementaridade de se eu, por um lado, posso investir em melhorar-me e, portanto, em alcançar a minha melhor versão e em potenciar a melhor versão do outro com o qual eu me relaciono, vale a pena ao mesmo tempo eu não perder de vista que aqui agora o meu eu real é o meu eu real e o outro tem um eu real. Portanto, nós muitas vezes precisamos desse respeito, por esta ideia de que eu não vou poder forçar ninguém a mudar, nem vou conseguir controlar o que o outro pensa sobre mim, nem sobre o mundo. Eu posso é escolher o que eu vou alimentar, em termos de pensamento, sobre aquilo que o outro faz e sobre aquilo que o outro pensa sobre mim e sobre o mundo. Portanto, é aí que reside muito o nosso controle.
É engraçado que estamos aqui a discutir mudanças que nós não conseguimos efetivamente controlar e que em todas as respostas que está a dar, vejo a ideia da ilusão. Dos sonhos que temos, da idealização versus ilusão ou idealização e ilusão, digamos assim. É engraçado pensar que isso pode afetar, de facto, a forma como nós percecionamos as coisas.
Sim, porque às vezes parece que nós começamos a viver numa espécie de vida com Photoshop. Ou seja, a idealizar um caminho sem adversidade. E isso, de resto, torna-nos menos bem preparados para a vida real. E claro que ninguém, idealmente, quer sofrer e se nós pudermos escolher adversidades de menor grau, ainda bem que possam ser de menor grau. Mas a vida real tem realmente estes dois lados. Nós podemos controlar muito. Nós passamos os últimos episódios e ainda vamos ter outros quantos a falar sobre aquilo que nós podemos controlar. Mas este exercício de humildade perante aquilo que está fora do nosso alcance, é realmente fundamental.
E a outra coisa que nós não conseguimos controlar, que é o que os outros pensam de nós também. E que é uma ideia importantíssima a trabalhar.
Sim, e que é uma oportunidade também de reforçarmos a nossa diferenciação. E não ficarmos dependentes da ideia de um consenso. Uma vez mais, pessoas diferentes vão criar níveis de empatia diferentes uns com os outros. Ao final do dia, nós temos que decidir se queremos viver uma vida com propósito alinhada com os nossos valores ou se queremos ser populares. São duas coisas diferentes. E se quisermos ser unanimemente populares, aí provavelmente vamos ter muitas máscaras sociais, porque consoante a pessoa com quem vamos estar relacionados, vamos nos desdobrar em imensos papéis. Se quisermos estar alinhados com os nossos valores, com certeza que nos vamos adaptar ao outro, mas vamos aprender também a lidar quando o outro não nos aprecia.
E se puderes fazer agora um curto resumo sobre esta conversa, quais dirias que são os três elementos-chave para conseguirmos ultrapassar o impacto de algo que não conseguimos controlar?
Olha, eu destacaria a flexibilidade mental, em primeiro lugar, ou seja, esta nossa capacidade que pode ser treinada, de ganharmos perspectiva sobre aquilo que está a acontecer, para que possamos escolher então o melhor ângulo e a perspectiva que nos é mais construtiva. Escolheria também compaixão, no sentido de nós podermos ter empatia por nós e darmos legitimidade ao que sentimos, darmos legitimidade ao que está presente, sem nos forçarmos a sentir uma coisa diferente daquela que estamos realmente a sentir. E também, necessariamente, o foco da nossa qualidade de atenção. Quanto mais estivermos conectados conosco no momento presente, mais vamos conseguir mobilizar todos os nossos recursos cognitivos e emocionais, para conseguirmos nos adaptar à adversidade.
E é assim que terminamos mais um "Mudar de Vida". Para a semana voltamos para falar sobre como podemos mudar o nosso estilo de vida, da alimentação à relação que temos com o trabalho.
Esta é também uma conversa que se vai debruçar sobre o conceito de burnout. Por agora ficamos com Bob Dylan com o tema "The Times They Are a-Changin'". Até lá. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.