Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Olá, bem-vindos a mais um "Mudar de Vida". Eu sou a Ana Cristina Marques e hoje o tema é gravidez. As angústias, os medos e as dúvidas que acompanham esta fase tão importante da nossa vida, mas também os segredos para que a etapa decorra de uma forma bastante mais serena. Para nos ajudar a compreender esta etapa, temos, como de costume, a psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva. Olá, Filipa.
Olá, Ana.
Olá. Como achas que a sociedade olha para a gravidez atualmente?
Existem ainda pessoas que olham para a gravidez como sendo uma espécie de incapacidade ou doença, porque tratam a grávida de uma forma muito protetora. E até muitas organizações ficam logo com muito receio que aquela mulher vai deixar de ser produtiva, vai deixar de ser capaz. Mas também outras pessoas tratam com respeito e é por isso que algumas pessoas dão prioridade numa fila. E é por isso que também muitas pessoas acabam por admirar esta capacidade de se gerar vida com tudo o que tem de melhor e de menos bom. Portanto, pessoas diferentes, culturas diferentes encararão depois esta etapa com algumas particularidades e isso vai fazendo a diferença.
Não há aqui uma resposta certa, não há aqui um dos lados que pese mais na balança?
Não. Existem, sem dúvida, olhares que vão mudando ao longo do tempo. Eu diria que às vezes vai se perdendo um pouco o respeito por esta etapa, a partir do momento em que nos últimos anos, nós conseguimos notar, por exemplo, uma grande pressão em torno da estética nesta etapa da vida. Eu sinto que alguns anos atrás, apesar de sempre houve a preocupação com a manutenção do peso e o que era um ganho de peso saudável para uma gestação que decorra com normalidade, mas não havia tanto esta pressão da grávida fit, a grávida que hoje tem o seu bebê e que passado 15 dias já é suposto entrar nas mesmas calças que usava antes. Essa preocupação com a estética, com o corpo que recupera bem, com o que é uma barriga grande, o que é que é uma barriga— eu acho que isso deve ser das perguntas que as mulheres grávidas mais detestam, que é toda a gente tem uma opinião: "Achas que a barriga é tão pequena, achas que a barriga é tão grande."
Essa é uma fase em que se ouve muitas coisas, muitas opiniões dos outros.
Sim. E nós notamos que a gravidez, a parentalidade, é daquelas áreas em que toda a gente sente que pode opinar e que pode dizer alguma coisa com muito direito. Mas consoante as etapas, nós vamos notando também influências e preocupações diferentes.
Falavas aqui da opinião dos outros, mas o que nos interessa hoje é mesmo a pessoa que está grávida, o que é que ela sente. E acho que é natural que a partir do momento em que uma mulher sabe que está grávida, que surjam um rol de dúvidas sem parar. E eu queria tentar perceber que tipo de dúvidas é que são essas, quais são as dúvidas mais comuns.
Sim, há muitas mulheres que ficam muito focadas em dúvidas relacionadas com a própria gestação. E portanto, que mês a mês vão procurando tentar compreender o que é que vai acontecer ao feto, o que é que vai acontecer ao corpo delas, o que é que é suposto acontecer ou que problemáticas é que podem vir a decorrer. Depois, numa outra etapa, à medida que a gestação avança, também vão havendo preocupações que têm a ver mais com o pós-parto, de como é que se dá banho, em que berço é que ele vai dormir, qual é que é a cadeirinha suposta de segurança para ele andar no carro, portanto, aqui um conjunto de logísticas. E depois ainda vêm outras preocupações por parte de algumas mulheres, nomeadamente, qual é que vai ser o impacto deste bebê numa dinâmica a dois, como é que nós enquanto família vamos lidar com a entrada deste bebê. Para mulheres que já têm filhos, como é que este bebê vai ser aceito pelos irmãos. E também uma preocupação em termos dos outros papéis, nomeadamente da dimensão carreira. Como é que eu vou compatibilizar aquilo que é a minha carreira agora com este papel de maternidade. Estas são algumas das preocupações que vão avançando no tempo à medida que a gestação e que o próprio nascimento, depois, também se dá.
E é frequente uma pessoa questionar-se: "Será que eu sou capaz?" Isso é uma dúvida que existe muitas vezes e que é falada, que é discutida?
Sim. Muitas mulheres assumem que têm muito esta questão de "Serei eu merecedora de ser mãe? Serei eu capaz de ser uma mãe suficientemente boa?" Sendo que às vezes a pergunta é: "Serei eu capaz de ser uma mãe boa, ser uma mãe quase perfeita?" Esse é um tema, aliás, não é agora o foco do nosso episódio de hoje, mas muitas vezes, precisamente na fase em que as mulheres estão a tentar engravidar, esse tipo de crenças limitadoras pode ser um obstáculo depois a um bom início de gestação. Esta ideia de que eu não mereço engravidar ou não vou ser uma boa mãe, porque se calhar não tive uma boa experiência enquanto filha, porque se calhar tenho uma autoestima mais vulnerável. Portanto, essas são algumas das dúvidas, para além de outras, de "Serei eu capaz de fazer este pequeno ser me amar? Serei eu capaz de assegurar a sobrevivência desta criança que vai nascer?" Porque realmente, no espaço de segundos, nós passamos de existir um bebê dentro de uma barriga para existir um bebê cá fora, real, que precisa muito de nós.
E que é uma responsabilidade para a vida. Isso é importantíssimo.
É uma responsabilidade, mas a ideia aqui chave é que todas as mulheres se lembrem de que este processo é realmente um processo de aprendizagem contínua. Portanto, um grande foco e uma mensagem importante a passar na gravidez e na parentalidade, vale a pena estarmos focados no aqui e no agora. Isto em relação, por exemplo, a preocupações. Muitas vezes a mulher grávida acabou de engravidar e já está a tentar ler e investigar, e hoje, com esta questão das redes sociais e da internet, ainda pode ser mais desafiante, do que é que pode acontecer de menos bom no primeiro, no segundo, no terceiro trimestre. Já pode estar a navegar em torno de questões das cólicas de um recém-nascido, quando ainda está no primeiro trimestre. E portanto, que nós possamos nos focar no aqui e no agora e lembrarmos que as nossas competências são adquiridas e vão sendo treinadas. Portanto, é natural que à medida que nós vamos aprendendo a ser mães, vamos aprendendo um conjunto de competências.
Claro. Estavas a falar dessa necessidade de ler bastante informação ou de consumir muita informação, até correspondente a fases que não são aquelas em que as pessoas se encontram. Imagino que isso tenha a ver com a necessidade de controle que uma pessoa tem para saber gerir esta etapa.
Sim, a gravidez Que mais tem é, sem dúvida, imprevisibilidade e é uma fase que gera muita impotência. Ou seja, nos primeiros meses nós não sentimos o bebê, não estamos a fazer ecografias todos os dias, não sabemos exatamente o que está a acontecer lá dentro, vamos confiando nas nossas sensações e no processo. Essa é sempre uma sugestão, é que possamos primeiro confiar no médico que nos acompanha e confiar naquilo que vão sendo as diretrizes e a informação que esse médico nos vai passando. Se quisermos investigar em outros canais, seja em livros, seja em sites que possam ser fontes suficientemente fidedignas e credíveis, mas que o façamos sempre numa dose sensata e particularmente ligado ao que está a acontecer ou o que vai acontecer imediatamente a seguir, sem que de alguma forma estejamos a viajar demasiado no tempo e a alimentar depois aquilo que vai ser uma ansiedade antecipatória que pode não ser positiva.
Por falar em ansiedade antecipatória, ainda falando sobre dúvidas, o que tu dirias que é preocupação natural e o que é que já começa a ser exagero, preocupação exagerada? Existe essa dinâmica?
Sim, eu acho que o foco no momento pode ser um fator que nos ajuda a diferenciar, ou seja, tudo o que são questões que me inquietam relacionadas com uma vivência que eu estou efetivamente a experienciar. Vamos supor, estou na primeira etapa, no primeiro trimestre da minha gestação. Tive uma contração fora de tempo. Vou falar com a minha médica sobre isso e se calhar vou querer ler um pouquinho sobre o tema. É ajustado, é uma preocupação que no fundo quer me dotar aqui de um ajustamento e de uma adaptação a esta adversidade. Agora, se eu não tive contrações antes do tempo e já estou a ler que isso é uma coisa que pode acontecer e já estou a ir à procura de todas as adversidades que podem acontecer no primeiro, no segundo, no terceiro trimestre, e estou a ligar à minha médica a dizer: "Olha, eu vi que isto pode ser uma complicação, será que eu estou a passar por isso?" Nós já vamos estar, sem dúvida, numa ansiedade que é tóxica, numa ansiedade que é demasiado intensa e que se vai revelar contraproducente. E dar nota de que nós ao longo de uma gestação podemos começar a desenvolver quadros de ansiedade e depressão ligados precisamente a este quadro. Não são só depois do parto, podem já começar a surgir durante a gestação e isso é o que justifica, por exemplo, muitas mulheres no segundo e no terceiro trimestre queixarem-se que têm sonhos muito maus, com cenários que é tudo aquilo que nós não queremos que aconteça, quer relativos à gravidez, quer relativos ao parto, com imagens muito duras. E quando isso acontece, é no fundo nós notarmos que isso está a acontecer, também percebemos que é todo o nosso corpo a se mobilizar e a se adaptar perante todas estas alternâncias hormonais e esta nova realidade que está a acontecer, e ao mesmo tempo depois não alimentarmos essas realidades virtuais e nos focarmos naquilo que queremos que aconteça e não em filmes de terror.
Olha, e é certo que no começo da gestação as mudanças físicas podem ainda não ser tão evidentes, mas ao longo do tempo começam a surgir uma série de alterações que vão acontecendo ao corpo, como o sono, o cansaço, as cólicas, o ter mais vontade em urinar ou os famosos enjoos. Existem ferramentas psicológicas para uma mulher lidar melhor com estas alterações físicas sobre as quais não tem controle?
Sim. Eu diria que toda mulher que engravida vale a pena munir-se com boas doses de flexibilidade, em primeiro lugar. Ou seja, mais do que aquilo que eu quero que aconteça, vamos ver o que é que vai acontecer. Eu vou me flexibilizando entre aquilo que são as minhas expectativas e aquilo que é a realidade. Essa flexibilidade é sempre importante. Que haja também no fundo alguma capacidade de gerir desconforto, porque não há como pintar de cor-de-rosa aquilo que é um enjoo, aquilo que são desconfortos físicos, aquilo que é o peso de uma barriga que vai limitando também na mobilidade, naturalmente. Às vezes a não aceitação dessas limitações ou a não aceitação desse desconforto, paradoxalmente é engraçado perceber como ainda o agudiza. Quando nós não lutamos contra o enjoo, simplesmente aceitamo-lo como sendo uma parte menos boa de uma coisa grandiosa e bonita, é mais fácil tolerar. E depois a própria capacidade também de regularmos as nossas emoções e regularmos também as nossas sensações físicas, porque se eu me focar num desconforto físico, é natural que eu vou sentir como mais intenso. Se eu o notar, lhe der espaço para existir, mas me distrair e desfocar a minha atenção para um outro foco qualquer mais prazeroso, é natural que a minha perceção de dor e desconforto até possa aligeirar. Isso é importante, esse respeito, sobretudo, porque cada experiência há de ser uma experiência única. E é esta flexibilização entre aquilo que é a nossa gravidez ideal e aquilo que é uma gravidez que pode correr melhor, pode correr menos bem, mas que sobretudo tem o seu espaço para existir.
Claro, flexibilidade não só nas questões físicas, mas também nas questões emocionais. Porque emotividade, oscilações de humor ou irritação são cenários possíveis durante esta etapa. E se são cenários possíveis durante esta etapa, que tipo de apoio se deve esperar das pessoas que estão à nossa volta, de quem vai receber o filho connosco? Que tipo de apoio é que nós podemos e devemos esperar?
Sim, as ferramentas são aqui muito em espelho, portanto, aquilo que serve para nós enquanto mulheres grávidas, é também aquilo que se espera das pessoas à nossa volta, que é: primeiro, sem dúvida, esta atenção e esta curiosidade por perceber como é que está a ser a experiência desta mulher que está grávida e a própria mulher grávida para com ela mesma. Às vezes não cairmos no erro de acharmos que sabemos que todas as mulheres grávidas passam pelo mesmo. E este espaço para indagar como é que tu te estás a sentir, este espaço para a queixa. Isso é algo que muitas vezes não existe. Há um atropelo da legitimidade da grávida em se queixar, com esta ideia de: "Mas não te esqueças que é uma bênção. Foca-te no positivo." Sim, há que nos focarmos no positivo, dando legitimidade também ao negativo. E dito isto, às vezes, há a necessidade de uma mulher poder se queixar sem crítica, sem julgamento. Isso são aspetos muito importantes. E por isso essa atenção, essa empatia, essa compaixão, essa capacidade de uma escuta curiosa e de uma presença de qualidade, sem mais este julgamento, são, sem dúvida, bons ingredientes para qualquer pessoa que está à volta de uma grávida.
Importante também é a questão da depressão pós-parto. E eu queria perguntar-lhe, sucintamente, naturalmente, mas quais os sinais e como é que nós efetivamente podemos combater a depressão pós-parto?
Sim, essa é uma questão muito importante. A prevalência tem sido bastante elevada e às vezes com contornos mais gravosos do que aquilo que possamos pensar. Portanto, por um lado, fazer aqui uma diferenciação rápida entre aquilo que é um quadro de baby blues e aquilo que é uma depressão pós-parto. Um baby blues é, no fundo, uma tristeza passageira, que habitualmente dura entre três a 14 dias após o parto. E que pode justificar algumas oscilações de humor, algum aumento de irritabilidade, episódios de choro mais fácil, até 14 dias após o parto. A partir daí, tudo aquilo que seja esta permanência destas oscilações de humor, de maior irritabilidade, de sentimentos sentidos como realmente muito desconfortáveis, esta sensação permanente que eu não sou uma boa mãe, às vezes até um desligamento do próprio bebê, esta alteração em termos de sono, que não tem só a ver com o bebê, e mesmo alterações de apetite, tudo isso são sinais que a própria pessoa, em termos de auto-observação, é importante treinar-se para conseguir ler, identificar e pedir ajuda, mas sem dúvida que as pessoas aqui à volta têm esse papel fundamental. E para além de depressão pós-parto, fala-se menos, mas também vale a pena salientar o que é a ansiedade pós-parto. Quando muitas mulheres têm este pensamento obsessivo em torno do que é que não vão ser capazes de fazer e de tudo o que pode correr mal e o que é que pode acontecer, que podem agredir o bebê, e todos os perigos e mais alguns em torno da rotina diária em torno do bebê, quando isso se torna muito obsessivo e faz com que a mulher depois até crie medo de pegar no bebê e de se envolver nas suas rotinas, isso também é um sinal de alerta. Portanto, a gravidez pode ser uma fase muito bonita, o pós-parto também, mas não tem que ser igual para toda a gente. E a saúde psicológica, a par da saúde física, é muito importante que todos nós, profissionais de saúde, cidadãos, familiares, possamos estar atentos.
E é com estes sinais de alerta que terminamos o episódio de hoje para a semana há mais. Até lá, fique na companhia de Peter Gabriel com a belíssima "Solsbury Hill".
Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.