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Olá, bem-vindos a mais um "Mudar de Vida". Antes de avançarmos para o tema de hoje, relembro que podem colocar questões e partilhar histórias através do e-mail mudardevida@observador.pt. Hoje falamos sobre um tema que eu pessoalmente acho importantíssimo: a relação que temos com os erros e com o falhanço. As perguntas vão ser colocadas, como de costume, à psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva. Olá, Filipa.

Olá, Ana.

Começo por perguntar: na sociedade em que vivemos hoje, não há grande margem para erros. Às vezes a ideia que dá é que até nas organizações a vulnerabilidade das pessoas não é assim tão bem vista.

Sim, na generalidade das organizações, não é. Nós vivemos numa cultura que não permeia a falha, portanto, não nos ensina a olhar para a falha como sendo uma parte do sucesso, de uma jornada de sucesso. E isso desde pequeninos. Já desde as creches, nos jardins infantários, nós vemos muitas vezes comentários: "Não é assim que se faz, não é assim que se desenha, está mal feito. Vamos rasgar, vamos voltar a fazer de novo." Temos os quadros de honra em todo o ensino, a premiar precisamente a excelência, mas uma excelência que é muito enviesada, porque estamos a premiar a excelência, no fundo, em cognição de matemáticas e português. Não estamos a premiar, às vezes, a excelência em dança, em criatividade, em humor. E por isso nós permanentemente, enquanto crianças, enquanto adolescentes, enquanto adultos, vamos mais consciente ou inconscientemente sendo moldados para fugir e evitar o erro e abraçarmos isto de acertar a primeira e de sermos excelentes e fantásticos.

É interessante pensar nisso, quer dizer que ganhamos alguma aversão ao erro. Temos medo de falhar e depois, tendo esse medo, deve haver uma pressão enorme para não falharmos, não é?

Sim, porque este falhar, muitas vezes, e sobretudo na nossa infância, vem associado a um perigo que é perder o afeto, a admiração do outro. E portanto, isto cresce conosco, que é: se eu falhar, a minha professora primária vai ficar chateada comigo. Eu falhei, trouxe um teste menos bom para casa e a minha mãe deixou de me falar a noite toda. Eu vi que ela ficou zangada. E são estas experiências que nos vão moldando e que muitas vezes nos vão interiormente ensinando esta ideia de que é perigoso falhar. Se eu falhar, vou me transformar numa pessoa menos boa, vou perder o afeto dos outros, posso ser rejeitado, posso ser gozado. E isso naturalmente que pode até acontecer. E portanto, estas minhas crenças começam depois a poder ser reforçadas na realidade, com situações à minha volta. E é precisamente isso que depois nos faz entrar na adolescência e na vida adulta com muita falta de treino e com uma perceção muito limitada em relação ao papel importantíssimo da falha para termos uma vida feliz.

E que papel é esse?

Sim, é muito este papel de experimentar, de tentar a vida, esta jornada em que nós estamos no ponto presente e alinhamos futuro para um amanhã. E neste caminho tem que haver diversão. Tem que haver falha, porque sem falha não há tentativa e erro, não há aprendizagem. Seria muito estranho nós nascermos e crescermos e permanecermos sempre neste quadro branco em que nada se mexe, em que nada se altera. E por isso isso é fundamental. Sem falha, não há aprendizagem. Sem falha, não há resiliência. Por isso, sem falha, não há, no fundo, uma vida real. E essa componente, nós também percebemos que em termos de redes sociais, mesmo até nas nossas conversas com amigos, não é tão partilhável. Nós somos também mais educados para, no fundo, partilhar o que corre bem e não o que corre menos bem. Vemos isso em áreas profissionais, na área da parentalidade, no nosso dia a dia, no geral, nas relações. Nós gostamos de partilhar os momentos que são momentos associados à felicidade, a sucesso. São os dos sorrisos que nós gostamos de partilhar. De resto, ainda há dias via uma pessoa numa rede social com alguns seguidores a dizer: "Peço desculpa ter estado agora uma semana mais ausente, mas não me sentia bem disposta e não queria partilhar convosco essa tristeza. Não achei que vocês merecessem essa tristeza."

Mas isso também faz parte.

E faz muita parte. E são todas estas influências que depois nos vão levando a achar que é possível, e a questão é grande essa, é que nós acreditamos em algum momento numa ilusão de que é possível um casal, uma família, uma pessoa profissionalmente e individualmente, estar sempre bem e fazer tudo bem.

Sabes que fiquei a pensar em duas coisas que acho que são quase que irmãs uma da outra, que é nas redes sociais quase não há falhanço, pelo menos não se vê com tanta frequência uma pessoa assumir que falhou ou que cometeu um erro. E realmente, se calhar, há esta cultura de sucesso, que é espelhada nas redes sociais, não nasce nas redes sociais, eu acho que é espelhada. Concordas que são dois conceitos quase que irmãos?

Sim, sem dúvida. E vale a pena nós podermos desconstruir, porque não há criação e não há processo de criação, como também não há processo de equilíbrio nas nossas vidas, sem estas partes que correm menos bem. E isso, de resto, em termos de processos de desenvolvimento pessoal e mesmo mais recentemente, também tenho vindo a partilhar isso com o novo projeto da Academia Transformar, que é um processo de tentativa e erro. Não foi quando eu quis, foi quando foi possível face ao esforço que eu podia fazer. E muitas vezes em termos de ajustamento de expectativas, de processos de coaching e processos de psicoterapia, isso é sempre uma preocupação que eu tenho. Qual é que é a perspectiva de equilíbrio e de bem-estar daquela pessoa? Porque quando alguém me diz: "Eu quero trabalhar para deixar de sentir ansiedade, eu quero trabalhar para poder deixar de estar triste e, portanto, eu quero abolir a experiência da tristeza e da ansiedade", eu chamo sempre a atenção. Isso não é uma vida real, não é para esse objetivo ilusório que nós podemos trabalhar.

Claro.

Nós podemos trabalhar é para mudar a nossa relação com a falha, para mudarmos a nossa relação com as emoções, elas deixarem de ser inimigas e passarem a ser uma fonte de informação.

Porque as emoções, estavas a falar de tristeza, por exemplo, e ansiedade. A pessoa que sente tristeza e ansiedade pode encarar isso como uma falha no seu percurso, não é?

Exatamente.

É por isso que também questões tão importantes como a depressão ainda são tabu, pelo menos no país em que vivemos.

Porque tem essa conotação, precisamente, falha que tu dizias. A tristeza, a zanga e o medo são emoções que muitas vezes nós ainda ouvimos sendo descritas como emoções negativas. Portanto, emoções negativas, emoções a evitar. A evitar, porque se nós não as conseguimos evitar, estamos a falhar. E daí a associação depois à doença mental. E muitas pessoas são as primeiras ainda a reconhecer o seu estigma em relação à doença mental de: "Mas vai, é só uma questão de te mentalizares que. Para de pensar assim." Mas porque é que continuas a dizer isso a ti próprio? Ainda há muita falta de informação realmente muito concreta sobre o que é que são estes mecanismos no nosso cérebro. Nós não ouvimos ninguém, felizmente, ou quase ninguém, a dizer a alguém que parte uma perna: "Olha, que falhado que tu és. Que falhado! Agora tens gesso na perna porque partiste a perna." Não, nós ouvimos empatia. Aqui em relação à depressão, à ansiedade, a qualquer doença psicológica, não é isso que ouvimos. Muitas vezes o que ouvimos é: "Vá, anima-te. Respira. Força para a frente."

E no fundo nós queremos agradar o outro, não é?

Sim. E não é assim que se cura a doença psicológica e muitas vezes estes processos de desejabilidade social, nós queremos agradar o outro, nós queremos fazer parte da tribo onde nós nos enquadramos, e muitas vezes escondemos as nossas falhas, escondemos as nossas vulnerabilidades.

Usaste aí a palavra falhado e eu queria perguntar-te se há realmente alguma diferença entre falhar e ser um falhado.

Sim, obrigada por perguntares isso, porque é uma diferença muito importante de realmente clarificar. Falhar, como nós estávamos a ver, é uma parte de um processo de aprendizagem, é uma parte de um processo de criação, é uma parte da vida. Quando nós falhamos, nós podemos aprender com essa falha. Realmente é uma oportunidade que temos de aprender. E falhar é no fundo apenas um pequeno retrocesso, um obstáculo que surge no nosso caminho face a uma qualquer meta. É por isso encarado aqui numa lógica também de "mindset" mais de crescimento. Eu olho para a falha dessa forma. Quando nós pensamos no conceito de falhado, quem assume essa conotação para si próprio, está a assumi-la precisamente de uma forma rígida. Não encara a falha como sendo algo temporário e como fazendo parte de um processo maior, encara o processo como estando terminado e personaliza aquela parte do processo como se dissesse algo sobre si. E portanto, não aprende com a falha, não se dá essa possibilidade, desiste, para, anula-se, porque sente que acredita que não é capaz.

E falando agora da falha, mais no contexto laboral, tu achas que se calhar lidamos mal com os nossos erros porque também colamos demasiado a nossa identidade àquela profissional? Isso pode acontecer?

Sim, pode muitas vezes acontecer. Nós passamos tantas horas a fazer algo, que necessariamente podemos nos confundir com esse algo. São tantas horas, às vezes, se nós formos a pensar. E muito neste mecanismo automático do fazer. Há pessoas que acordam e deitam-se neste mecanismo, sem algum momento pararem para se perguntarem: "O que é que eu estou a sentir? O que é que eu estou a pensar? O que é que o meu corpo me está a comunicar?" E estas perguntas ainda são perguntas muito desafiantes para muitas pessoas. E isso mostra-nos realmente como nós temos esta tendência de estarmos muito em piloto automático. É um modo que nos desliga das nossas necessidades fisiológicas e psicológicas. Portanto, percebe-se porque é que nos interessa perpetuar muitas vezes o modo de piloto automático. É um modo em que nós muitas vezes superamo-nos a esse nível de desempenho, porque o nosso lado humano se esbate um pouco, mas é perigoso, quando nós nos tornamos fazedores apenas e deixamos a nossa essência de ser, sentir.

Exato. Estava a dizer fazer. E nesse conceito, aliás, só falha quem faz, imagino eu. Mas nesse conceito, ainda na esfera profissional e não só na esfera profissional, há aqui um conceito que eu gostava que me explicasses, que é o síndrome do impostor.

Sim, o síndrome do impostor é precisamente esta ideia que nós podemos às vezes desenvolver que somos fraudes. E que os outros têm uma imagem de nós que é falsa, que nós somos muito bons a projetar algo que na verdade não somos e vivemos permanentemente com esta sensação de insegurança e de que se o outro descobre aquilo que eu realmente sou, não vai gostar de mim, não me vai aceitar. E é avassalador. Nós podemos viver numa prisão quando tornamo-nos reféns de um síndrome do impostor. É muito difícil aceitarmos elogios. É muito difícil nos darmos mérito próprio. Porque sentimos que estamos sempre na iminência de que a nossa verdadeira essência, que é negativa aos nossos olhos, seja revelada. E isto uma vez mais também é muito perpetuado, às vezes por idealizações de desempenho, idealizações de pessoas. E esta desconstrução vale a pena. Mais iniciativas como algumas que já têm existido de uma ode à falha, os grandes falhanços de grandes empreendedores, os lados menos cor-de-rosa da parentalidade, os lados descabelados do nosso dia a dia, esta dita beleza sem filtros que tantas vezes se promove também mais em termos também de redes sociais. É importante que esse lado mais realista, menos perfeito, mais rude, mais bruto, menos trabalhado, venha cada vez mais ao de cima, sem medos.

Eu até creio que há maior adesão por esse falhanço. Acho que é uma bandeira que as pessoas estão a começar a usar de alguma forma, no bom sentido, para explicar que as coisas acontecem e que é normal. Mas acho que também que falhar tem muito que ver com a nossa relação entre a expectativa que nós temos de como as coisas vão acontecer. E eu queria perceber se há uma relação entre expectativa, entre ilusão e aquele medo de errar, porque às vezes nós queremos muito seguir aquele caminho, mas também temos muito medo de o seguir.

Sim, quanto mais queremos alcançar algo, mais nos precipitamos para a ação, mais pressão podemos colocar e isso muitas vezes induz-nos precisamente a falhar, a errar. E se interpretamos essa falha como sendo um sinal de que não vamos chegar à meta, estamos a interpretá-la mal. E de resto, um professor meu tem uma frase maravilhosa Que diz sempre que o verdadeiro erro é a persistência do mesmo erro. Por isso, isto reporta-nos para a ideia da aprendizagem. Que possamos todos abraçar a falha e que possamos todos também desenvolver a capacidade de aprender com as nossas falhas. Portanto, há que falhar com qualidade cada vez mais. E isso dar-nos orgulho e sinceramente olharmos para um caminho e orçamentarmos. Portanto, aqui a grande ideia é: ao invés de eu temer falhar, ao invés de eu começar a evitar sequer que em algum momento vou errar, é eu definir a minha meta e contar que vou falhar, contar que vou errar. Quando isso acontecer, me felicitar, porque é sinal que eu estou neste caminho de forma dedicada, aprender com essas falhas e seguir em frente com essa aprendizagem.

Porque às vezes esse medo de falhar, de cair em erros, pode mesmo atrasar ou impedir uma mudança necessária, não é?

Pode. Há muitas mudanças que nunca chegam sequer a ser tentadas, porque as pessoas não conseguem se comprometer por medo de falhar. E por isso é que o número um de muitas mudanças é precisamente esta ideia do compromisso. E eu muitas vezes em processos de mudança pessoal, peço à pessoa para se comprometer com esse processo em voz alta e por escrito, e muitas vezes a resistência que tenho é essa: "Então, mas eu vou me comprometer a, e quando eu falhar, então vou estar a deitar este compromisso ao lixo." Não, eu comprometer-me com uma mudança é eu dizer exatamente o contrário. É eu dizer que quando eu falhar, eu vou me levantar, pôr os olhos na meta e perseguir com as aprendizagens que eu preciso de fazer. Isso é compromisso, isso é vida. Por isso, que possamos mais vezes partilhar as nossas falhas. Não só nós aprendermos com as nossas falhas, como dar até a oportunidade a outros de aprenderem com as nossas falhas. E podermos não só ter estes momentos de celebração de sucesso, mas também sim alguns momentos de celebração de insucesso.

É com esta celebração do insucesso que terminamos mais um episódio do "Mudar de Vida". Para a semana voltamos para falar sobre as grandes mudanças que acontecem a dois. Portanto, vamos ver. Até lá, vinha com o tema "Ramble On" dos Led Zeppelin. Boa semana.

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