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Olá, bem-vindos a mais um "Mudar de Vida". Eu sou a Ana Cristina Marques e hoje vamos falar dos pequenos choques de passar a viver a dois. Dos desafios de assumir uma relação a eventuais surpresas quando se conhece a família do parceiro ou da parceira. Sempre com a ajuda da psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva. Mas antes de avançarmos, relembro que podem colocar questões e partilhar histórias através do e-mail mudardevida@observador.pt. Já recebemos algumas sugestões e no futuro teremos em conta temas como solidão ou isolamento, entre outras propostas. Voltando ao tema de hoje. Olá, Filipa.

Olá, Ana.

Olá. Comecemos pelo início. Como é que um casal sabe que chegou efetivamente à altura de viver debaixo do mesmo teto?

Sim, há alguns indicadores. Muitos casais, por exemplo, notam que já coabitam praticamente, porque estão sempre na casa um do outro ou sobretudo numa das casas, e portanto notam que essa partilha diária muito constante e permanente já acontece. Notam, sobretudo, que também há um grande investimento na relação e, portanto, quando olham para a frente, veem caminho por percorrer. Há esta vontade de investir na relação, há um projeto a dois, há já programas que se fazem. E depois há aquilo que são algumas experimentações que vale a pena ter antes de uma coabitação, nomeadamente um fim de semana a dois, umas férias partilhadas, eventualmente, um móvel montado a dois. Algumas experiências que vão dando realmente conta de como é que é esta nossa convivência nas pequenas coisas do dia a dia. E depois há realmente também esta dimensão financeira, que vale a pena, que é desmistificar o tema dinheiro. E quando o tema dinheiro surge e vai surgindo de uma forma cada vez mais natural e comunica-se sobre isso, e quando se pensa em: "Pago eu, pagas tu. Olha, se nós um dia os dois tivéssemos este projeto partilhado, como é que seria? Como é que iríamos partilhar este orçamento?" Quando todas essas peças se vão juntando e sobretudo viver junto é porque eu gosto muito desta pessoa e ela me acrescenta e não porque isto é um bom negócio, então estão alguns critérios bem identificados para o casal estar preparado.

Então imagina que um casal identifica esses critérios e que um ouvinte que nos está a ouvir, passe a redundância, e decide que quer fazer esse convite à pessoa com quem namora. Como é que tu dirias que esse convite é mais facilmente feito? Alguma coisa a ter em conta?

Bem, comunicá-lo, expressá-lo por palavras e não por sinais de fumo. Uma relação a dois vive muito desta abertura. Às vezes nós antecipamos demasiado e complicamos um pouco isto de se o outro vai querer, o outro não vai querer, o outro está preparado. Sem dúvida que podemos nos escutar e notar também sinais em nós e notarmos lá está, há uma antecipação e uma vontade de querer estar com esta pessoa, eu sinto-me invadida com ela ou não, o que é que pode ser meu trabalhar, o que é que pode ser de nós os dois trabalharmos. Mas ao final do dia, o outro é um adulto, eu sou uma adulta e se eu tiver vontade e tiver segurança de viver com a outra pessoa, posso sempre começar a apalpar terreno, e portanto a falar sobre o assunto de como é que seria, como é que a outra pessoa se imagina, dizer em algum momento que eu começo a imaginar e a ter essa vontade e porque é que seria importante para mim e perceber o que é que o outro me vai dizendo.

Viver junto é, sem dúvida, uma etapa muito bonita numa relação, mas de certa forma eu acho que vem aqui com algumas expectativas à mistura, não é? Quer dizer, estou me a lembrar daqueles posts nas redes sociais em que tens a versão expectativa versus realidade. E eu queria perguntar-te como é que nós podemos adaptar as nossas expectativas à realidade?

Sim, as expectativas são sempre aqui um calcanhar daqueles. Vale a pena desconstruí-las muito, sem dúvida. Nós, às vezes, compramos estas ilusões que verdadeiramente nos atrapalham e nos prejudicam viver o bom que é e que existe na realidade, porque os pequenos desencontros e quem nunca teve uma discussão a mobilar uma casa, quem nunca se desencontrou e frustrou na preparação e na montagem de um qualquer móvel, quem é que tem conceitos de arrumação e de limpeza que são diferentes. E tudo isso faz parte aqui de uma relação real. Portanto, no fundo, quanto mais as pessoas se vão focando naquilo que está a acontecer momento a momento, escutam o seu corpo, escutam a forma como se estão a sentir com aquele companheiro e ouvem menos a sua cabeça face a comparações que podem fazer com outras relações que já tiveram ou com outras pessoas. E não estou a dizer que essas comparações não vão acontecer. Essas comparações vão acontecer, é automático, faz parte de nós, mas é nós de alguma maneira reconhecermos quando elas acontecem e não as alimentarmos. É natural e imediato que elas possam acontecer, mas irmos priorizando mais o momento presente e menos aquilo que idealmente poderia ser, aproveitando e construindo o melhor que pode ser aqui e agora.

Construir o melhor que pode ser. Isso é um ótimo conselho. Viver junto tem algumas situações um pouquinho mais difíceis de gerir ou possivelmente mais difíceis de gerir, como a partilha do espaço, por exemplo, as divisões das tarefas. Estavas a falar em limpeza e isso é essencial. E eu perguntava-te como é que as pessoas podem, de alguma forma, trabalhar estas questões para que a longo prazo isso não sature uma relação, porque são realmente desafios de viver a dois.

Sim Ajuda quando nós não nos focamos só no concreto, pequenino, e temos esta noção de que quando falamos de lavar louça, arrumar pratos e ter a roupa arrumada, não estamos só a falar do concreto dessas atividades. Estamos a falar, no fundo, de valores e de necessidades nossas. Nós todos temos necessidades de arrumação, de organização do espaço, de tranquilidade daquilo que existe à nossa volta, do ruído dos espaços. Às vezes não é pequenino isso da cor. É porque realmente existem pessoas que são mais sensíveis a cores fortes e outras que não o são. Quando nós, de alguma maneira, levamos essa noção mais abrangente e comunicamos abertamente com a outra pessoa e também fazemos o nosso trabalho de casa, no sentido de não irmos com uma lista que não tem fim de condições e de percebermos o que é que pra nós é realmente mais impactante no nosso bem-estar. E quando vamos tendo esta comunicação aberta e desconstruída e vamos realmente comunicando ao outro, mais do que exigências, necessidades, e em que lhe explicamos o porquê que pra nós é tão importante não entrarmos todos os dias de manhã na cozinha e termos uma pilha de louça por lavar. De que forma é que aquilo impacta em nós, de que forma que impacta no nosso começar o dia e que sensibilizamos a pessoa, mas também nos comprometemos a negociar que, se calhar, há outra coisa que gostávamos e que é bastante difícil pro outro, e que vamos nos tentar flexibilizar. Quando há esta negociação, quando há esta comunicação respeitadora e em que vamos tentar chegar a um bom porto, sem dúvida que conseguimos então planear, dividir tarefas e respeitar as necessidades, os espaços e as preferências de cada um, sabendo sempre que nunca vamos estar num plano ideal, mas sabendo que é possível construir um espaço mútuo de respeito que funcione pros dois.

E falaste em espaço mútuo de respeito e eu ia perguntar-te, mesmo vivendo com outra pessoa, imagino que seja fundamental ter momentos a sós. E isso é importante de se reter, não é? Que mesmo no apartamento, às vezes é demasiado pequeno, mas mesmo no apartamento, tem que haver algum espaço, nem que seja emocional, só pra nós.

Sim, quando um casal se junta, existem estas três entidades: eu, tu, nós. Por isso, vale a pena que estas entidades possam alternar e que eu possa ter espaço e tempo para mim e que o outro possa ter espaço e tempo para ele, mesmo que isto possa significar estarmos em almofadas diferentes e separadas numa mesma sala, que é relativamente pequena. E depois existe a tal terceira entidade, que são o nós e este tempo para estarmos os dois. De resto, é sempre importante termos essa premissa base numa relação para mantermos uma ligação saudável. Eu existo antes desta pessoa. E eu preciso existir inteira e esta pessoa precisa, então, de me acrescentar valor, o que é diferente de quando eu sinto que dependo desta pessoa e que só existo na presença dela. Por isso nós não queremos alimentar, de alguma forma, relações que são mais codependentes. Nós queremos sempre ter a nossa própria identidade e em que o outro me vai acrescentar e eu vou lhe acrescentar valor. E por isso, depois, quando estamos aqui na entidade, nós estamos mutuamente a partilhar e acrescentar valor um ao outro. Mas eu existo sem ser nesta relação, esta pessoa existe sem ser na relação comigo.

Claro. E há pouco falaste brevemente de dinheiro. Acho que esta é uma questão importantíssima. Porque, à partida, acho que talvez seja ponto assente que o dinheiro costuma gerar algumas confusões e ser até motivo de discussões, não é?

Curiosamente, eu sinto de muitos casos que tenho acompanhado, que o tema dinheiro acaba por ser um tema muito mais tabu do que, por exemplo, o tema sexualidade e preferências sexuais. É mais estranho pra muitas pessoas partilharem, por exemplo, quanto é que têm na sua conta bancária, qual é que é o seu ordenado, quanto é que têm de poupanças, quanto é que se sentem confortáveis em gastar, do que às vezes preferem uma posição sexual preferida. E há aqui todo um tema em relação ao dinheiro e é uma boa prática os casais aprenderem a falar sobre dinheiro, ultrapassarem essas dificuldades, perceberem se têm valores financeiros e uma educação financeira parecida e como é que se vão querer conjugar, porque ir andando e ir vendo às vezes não funciona. Por isso, começarmos a ver casas sem termos falado de, na prática, como é que vamos fazer em relação ao orçamento. E não estamos aqui a falar de ser tudo necessariamente 50/50. Estamos a falar de como é que nós os dois vamos fazer isto funcionar.

Claro, como é que funciona pra cada casal.

Exatamente. E até em termos das despesas depois partilhadas, vamos abrir uma conta a dois e manter as nossas contas individuais? Vamos pôr os nossos ordenados aí pra uma conta partilhada? Não vamos abrir conta partilhada nenhuma, vamos simplesmente pagar despesas de forma partilhada? Tudo isto, esta educação financeira é tão importante como a comunicação sexual, como a comunicação dos nossos valores e projetos de vida, é uma dimensão realmente fundamental.

Interessantíssimo. Ia te perguntar também isso relacionado com esta ideia de que aparentemente hoje em dia é mais comum as pessoas viverem juntas do que efetivamente casarem. E eu queria perguntar-te como é que isso interfere, pois precisamente na ideia do que é meu, do que é teu, do que é nosso.

Vai interferir na medida da concessão de compromisso, de lealdade, de amor de cada pessoa. Pra algumas pessoas, o casar, mais do que qualquer papel assinado, é um simbolismo muito forte de compromisso ou de um maior ainda comprometimento e de partilha com a sociedade e com a família daquele amor. E quando isso não acontece, às vezes fica sempre esta sensação de que eu estou a viver um amor menos assumido, um amor menos comprometido, mesmo quando na prática já tenho carro, casa e às vezes crianças partilhadas. Por isso, é algo muito pessoal. Importa, uma vez mais, é que nós tenhamos essa honestidade de perceber quando é que às vezes estamos a ceder em fruto a circunstâncias como o dinheiro, ou fruto, depois, às vezes, de crenças que são só do outro lado. Porque uma pessoa que não acredita que o casamento vai acrescentar valor, pode estar com uma pessoa que tem este sonho romântico de casar. E como é que vamos negociar estas duas visões muito diferentes. Sobretudo, num sentido prático, uma relação em que ambos se casam não é uma relação com maior nível de compromisso do que ambos viverem juntos. Isso vale a pena diferenciar. O nível de compromisso E lealdade é algo muito pessoal, não tem a ver com fatores externos. De resto, todas as pessoas que acham que os fatores externos são uma segurança pra sua relação vão se frustrar pelo caminho e podem se vulnerabilizar em relação a isso. É verdade que quanto mais nós vamos construindo de forma conjunta, mais nós vamos tendo pontos de ligação, mas nós podemos ter uma construção muito edificada e ainda assim, em algum momento, seguirmos caminhos separados. Por isso, que possamos, ao final do dia, perceber o que é que nos mantém unidos. E em relação a este tema, que consigamos negociar e estar apaziguados com a decisão, seja vivermos juntos, seja nos casarmos, seja nos casarmos pela igreja, pelo civil, que isso depois é todo um outro tema também.

Todo um outro tema, exato. E viver junto é um passo importantíssimo numa relação, mas também é conhecer a família do outro, não é? E depois daquele primeiro momento em que conhecemos os familiares um do outro, em que é possível começarmos a passar mais tempo juntos, queria perguntar se há algum momento em que se passa tempo demais ou de menos com os familiares dos outros, e o que podemos fazer quando parece existir alguma intromissão?

Sim, isto já podia ser outro episódio, porque a família que vem com a pessoa com quem nós estamos numa relação é realmente todo um outro mundo e todo um outro universo. Vale a pena, eu diria, atribuir responsabilidades partilhadas em que a minha família, se calhar, sou eu a porta-voz, a tua família és tu a porta-voz, e isto ao final do dia protege ambos, porque às vezes há aqui situações que se geram de maior vulnerabilidade por causa disso, de eventualmente as pessoas se precipitarem depois, às vezes, em querer colocar aqui alguns limites e criarem ali alguns conflitos. Primeiro, nós não somos obrigados a gostar da família, da pessoa que amamos e da pessoa com quem estamos numa relação, mas precisamos aprender a respeitá-las e encontrar aqui um ponto de equilíbrio. Cada família, neste caso, cada casal, vai precisar também encontrar o seu ponto de equilíbrio. Se quer estar em rotinas muito regulares de todos os domingos vamos almoçar com os teus pais ou com os meus pais, ou se funciona no fundo, uma dinâmica mais flexível de uma vez por mês, logo se vê que dia, a que horas e em que fim de semana, sem aquele compromisso todos os domingos à 13h estamos lá. Portanto, isso vai ser mais uma dimensão que vai implicar aqui muita comunicação, muita inteligência emocional, por parte de ambas as partes aqui no casal, porque nós aqui depois entramos num legado de valores de pessoas muito diferentes, com conceções muito diferentes.

Que é preciso respeitar, não é?

Sim, que é preciso respeitar e encontrarmos aqui meios-termos. Sobretudo nós não casamos com a família com quem nós estamos a casar ou com quem nós estamos a viver, mas são pessoas importantes que já existiam na vida desta pessoa antes de nós aparecermos. E esse respeito e essa cordialidade, eu diria que vale a pena daí ser normalmente sempre esta boa prática, que se eu tenho algo a dizer ou algo que não me satisfaz, se calhar, eu posso, no fundo, pedir a quem é da família para também colocar esses limites. E essa é uma dimensão que também vai ser crítica na evolução de uma relação.

Claro, porque é preciso ter em conta que esta relação está aqui para ficar, não é? Exatamente.

Sim, por isso é que algumas pessoas levam algum tempo a apresentar os namorados ou as namoradas à sua família e isso muitas vezes pode ser visto como desconfiança, mas na verdade, às vezes pode ser só o tempo pessoal daquela pessoa, de que eu quero ter mais segurança para levá-lo para a minha família e quando o levo, isso traduz compromisso, isso traduz também um investimento e uma perspectiva de futuro na relação.

E é com esta perspectiva de futuro que terminamos mais um episódio do "Mudar de Vida". Para a semana voltamos para falar sobre o que acontece quando a paixão acaba, se esse é o fim ou o começo do amor. Até lá, fiquem com "Landslide" dos Fleetwood Mac. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.