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Olá, bem-vindos a mais um "Mudar de Vida". Eu sou a Ana Cristina Marques e hoje vamos falar de amor, de amizade e de companheirismo. A pergunta essencial é: quando a paixão acaba, é o fim ou o começo do amor? Uma pergunta que imagino que não tenha uma resposta propriamente simples, mas para nos ajudar, temos hoje, como de costume, a psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva. Olá, Filipa.
Olá, Ana.
Filipa, o amor pode ser também companheirismo ou uma coisa anula a outra?
O amor inclui companheirismo, inclui amizade também. Portanto, quando nós pensamos em amizade, companheirismo, amor, podemos encontrar dois fatores que estão lá partilhados, que é intimidade e que é compromisso. Porque no companheirismo e na amizade existe, por intimidade, esta ideia da ligação emocional que eu sinto com alguém, que no fundo vai diferenciar se aquela pessoa é uma mera conhecida ou é alguém em quem eu confio, com quem me quero expor e vulnerabilizar, que está presente na amizade, no companheirismo, como está presente numa relação romântica. E esta questão também do compromisso, porque quando eu gosto de alguém, em termos de amizade, eu de alguma maneira sou leal, priorizo aquela pessoa na minha vida, romanticamente também. Portanto, são dois critérios. Naturalmente que na amizade e no companheirismo vão existir elementos depois que vão ser diferentes de uma relação romântica, mas estes dois são partilhados. Portanto, sim, o companheirismo cabe e aconselha-se, de resto, numa relação romântica.
Mas numa relação romântica pode haver algum momento em que o companheirismo substitui, de facto, esse romantismo, esse amor?
Sim, pode acontecer. Esta ideia de amor, vale a pena também nós pensarmos que existem várias etapas. Quando nós conhecemos alguém, independentemente de ser um amor mais à primeira vista ou fomos conhecendo e fomos nos apaixonando, individualmente vamos ter esta etapa da paixão. Nós todos reconhecemo-la, à partida, desejavelmente. Perdemos sono, perdemos fome, temos dificuldade em pensar noutra coisa, muitas borboletas na barriga, que ela é a melhor pessoa da nossa vida. Mais ou menos intenso, mas há sempre muitas endorfinas e portanto nós estamos em paixão. Essa paixão depois vai derivando para um amor romântico, em que existe desejo, em que existe esta vontade de estar com o outro, a intimidade. E esse amor romântico depois vai alternando entre uns momentos mais românticos, uns momentos mais companheiro e essa alternância vai acontecendo. Quando nós deixamos de ter desejo sexual, quando esta componente da sexualidade deixa de existir, quando deixa de existir esta perspectiva de continuidade exclusiva com esta pessoa, em que um conjunto de projetos começam-se a desenhar dentro de nós que não passam nem que envolvem esta outra pessoa, aí podemos pensar que estamos a viver com alguém de quem gostamos muito, mas com quem já não estamos enamorados.
Claro. Eu ia perguntar-te precisamente quais eram os sinais de que o amor se transformou exclusivamente em amizade. Imagino que esses sejam alguns deles. Quando uma pessoa se apercebe de que estes sinais existem, o que é que se pode fazer a partir daqui?
Sim. É importante reconhecer. Quando o comprometimento diminui, quando nós começamos a estar mais em modo funcional de coabitação e não propriamente de intimidade, portanto, deixam de existir gestos, deixam de existir palavras que de alguma forma diferenciam aquela pessoa como realmente um companheiro romântico. Quando deixa de haver esta noção do futuro, vale a pena reconhecer. E reconhecendo, em primeiro lugar, é um trabalho muito individual, porque aí também vale a pena termos em atenção que num casal, e não só numa relação romântica, mas sobretudo numa relação romântica, vale a pena não dizer tudo exatamente aquilo que nós estamos a pensar no momento em que pensamos. Por isso há aqui um trabalho de casa, de observarmos o que é que está a acontecer, o que eu estou a sentir, desde quando, o que me está a preocupar, o que me está a inquietar, qual é que é a conjetura de vida pessoal e qual é que é o contexto de vida a dois em que nós estamos a atravessar. Portanto, explorar e fazer um pouco essa investigação antes de decidirmos o que queremos partilhar e o que é produtivo partilhar. Porque o outro também tem sentimentos, porque o outro também tem realmente as suas emoções.
E pode não estar a passar pelo mesmo processo que a pessoa nesta situação que tu descreveste está a passar.
Pode não estar, de todo, a viver a mesma vivência e por isso há que equilibrar, por um lado, o respeito para partilhar com o outro, se considerarmos que é importante e que não passa, que não é uma transição, é partilhar com o outro o que estamos, no fundo, a viver, com respeito, obviamente, pela sensibilidade do outro, e sobretudo com respeito também pela proteção que nós queremos da relação. Porque a forma como se dizem aqui as coisas vai impactar na relação de forma diferente. Se eu digo à pessoa com quem eu estou algo como: "Olha, eu acho que já não gosto de ti. E portanto eu acho que já não há amor entre nós." Isto vai ter um impacto. Outra coisa é eu dizer: "Eu queria falar contigo porque eu tenho estado aqui a pensar e acho que aquilo que eu sinto por ti tem evoluído e eu não me quero aqui acomodar na relação, nem te quero faltar ao respeito. Então queria pensar contigo sobre o que está a acontecer, sobre o que é isto que está aqui entre nós, que tu me ajudasses também a perceber um bocadinho o que está aqui a acontecer dentro de mim." É a mesma partilha, mas de uma forma diferente.
É escolher as palavras, não é?
Sim, escolher as palavras também em função da informação que eu tenho. Se a informação que eu tenho dentro de mim é muito clara e é no sentido de término, enfim, naturalmente que vale a pena que essa comunicação vá conduzindo o outro nessa direção. Mas sempre que nós pudermos sinalizar ao outro o que está a acontecer dentro de nós, sem simplesmente lhe dar uma comunicação fatal e final numa dose única Eu diria que isso ajuda.
Até porque é uma questão de responsabilidade na relação. As pessoas têm que ir comunicando de alguma forma o que se está a passar, porque imagino que descuidar esta comunicação para depois culminar tudo num momento é muito-
É muito duro. E por isso é que às vezes, quando isso acontece, é em transições como vamos viver juntos, vamos comprar uma casa ou vamos ter um filho, que essa comunicação que não foi partilhada, se adensa e intensifica e depois recebemos uma comunicação fatal. Isso é bastante duro e de resto, pode depois colocar em causa uma relação de amizade. Porque precisamente se nós notamos que aquilo que nos liga àquela pessoa é um enorme carinho e queremos salvaguardar, se formos comunicando gradualmente o que está a acontecer e realmente envolvermos o outro também neste trabalho de nos ajudar realmente a perceber o que está a acontecer conosco, uma vez mais porque somos três entidades: eu, tu e nós. Então se formos ajudando o outro a compreender o que está a acontecer e realmente também envolver o outro neste processo, seja numa direção de salvarmos a relação, seja numa direção de ficarmos realmente só como companheiros e amigos, conseguimos salvaguardar melhor os dois cenários. Quando vivemos estes processos de forma muito solitária e achamos que temos a responsabilidade de sozinhos decifrar tudo, até o momento em que percebemos que já decifrámos tudo e que já vamos tarde, se calhar vamos nos magoar mais e vamos magoar mais o outro. Portanto, uma vez mais, uma relação é feita de adultos, ou mesmo que não estejamos a falar de adultos, é feita de duas pessoas que têm competências cognitivas e emocionais, mesmo na adolescência, e que não queiramos infantilizar o outro, que não queiramos fazer, no fundo, leituras de mente a adivinhar o que é que o outro está a pensar ou como é que o outro vai reagir se eu lhe disser A, B ou C. Que possamos dar sempre um espaço de liberdade ao outro, de se permitir expressar e reagir em função daquilo que nós temos para partilhar. E este espaço é importante nós salvardarmos.
Olha, e voltando um pouco atrás, a uma situação em que não há uma conclusão definitiva, queria perguntar-te se o sentimento da gratidão pode ser confundido com o amor, e se há relações que se podem manter coladas precisamente pela gratidão.
Sim, a gratidão e o amor, de alguma forma, vão estando aqui muito de mãos dadas. E às vezes há esta sensação de que a admiração pelo outro pode deturpar um pouco a relação amorosa. Ou seja, às vezes eu posso estar com alguém que eu admiro muito, com alguém que eu tenho uma dívida de gratidão, mas com alguém com o qual eu já não estou apaixonada, já não tenho um amor romântico. E isso pode me dificultar a leitura das minhas emoções ou a minha decisão. E por isso ao final do dia que possamos separar. E sobretudo esta questão também da idolatração versus admiração versus gratidão. Há aqui esta conjetura. Às vezes nós estamos com aquela pessoa por aquilo que ela nos faz sentir e não por aquilo que nós sentimos com ela, ou por aquilo que os outros sentem que aquela pessoa é, e não verdadeiramente por aquilo que nós sentimos com ela. E, portanto, às vezes o que acontece é que nós adoraríamos amar uma pessoa, porque nos damos muito bem com ela e porque ela é uma pessoa extraordinária, mas nós não amamos. E em algum momento termos a honestidade de fazer essa diferenciação, muito embora requeira coragem.
Porque não será um processo certamente fácil ter que fazer essa introspeção tão profunda, não é?
Não é. Mas uma vez mais, algumas pistas, uma relação quer-se de companheiros, no sentido de "eu encarno como estando ao mesmo nível da outra pessoa". E quando o nosso discurso interno, e às vezes externo também para os outros em voz alta, nós estamos sempre muito com esta ideia de: "Não, porque esta pessoa é maravilhosa, porque eu não mereço esta pessoa, porque ela é incrível, nunca mais na minha vida vou encontrar uma pessoa como esta, porque ela tem qualidades que enfim, nunca mais alguém vai gostar de mim como esta pessoa gosta". São algumas pistas que nós podemos às vezes explorar se é uma admiração e um amor saudável ou se de alguma forma já existem aqui algumas nuances que vale a pena explorar.
E diz-me uma coisa, para ajudar a pôr os pontos nos Is, porque este tema é particularmente complexo. É certo que o que nós sentimos vai sofrendo alterações ao longo da relação. Ou seja, já aqui falaste no início, é marcado pela paixão, pelas borboletas, pelas noites que ficam por dormir, e isso acaba por esmorecer. Portanto, qual é que é a diferença entre o que nós sentimos sofrer alterações ao longo da relação, e ele já não existir?
Quando não existe desejo de estar com o outro, quando já não existe a vontade de tocar no outro, quando já não existe a vontade de partilhar uma coisa importante que aconteceu com o outro, de escutar a opinião do outro, isso são sinais de que nós já não estamos propriamente no amor romântico. Porque de resto, existirão pessoas que gostam muito da fase da paixão, mas a verdade é que a fase do amor romântico é extraordinariamente serena, com tudo de bom que a paixão tem, mas já sem aquelas hormonas aos saltos e aquela inquietude toda. E sobretudo porque a familiaridade e a intimidade que se vai construindo, dá-nos uma segurança que pode ser muito bonita de se viver com outra pessoa. Agora, quando realmente já não há esta procura do outro e quando estamos os dois numa coabitação, por exemplo, muito funcional, em que partilhamos tarefas e em que a nossa comunicação anda toda em torno de tarefas e questões do nosso dia a dia, mas já não há o que tu sentes, o que eu sinto. Já não há um beijo que não seja só um chocho repenicado. Já não há um abraço, já não há o querer saber do outro, já não há antecipação por uma viagem a dois, já não existem objetivos partilhados. São alguns indicadores que nos valem a pena aqui cativar a atenção.
Estavas a falar de paixão versus aquele amor mais sereno, e eu estava a pensar que é muito fácil romantizar a paixão até na cultura popular, e não se romantiza necessariamente esse amor sereno. Parece que isso é tão mais aborrecido do que a paixão.
Sim, e por isso é que este amor companheiro, este amor romântico, vai tendo aqui as suas alternâncias. Porque nós podemos estar com alguém há cinco anos, há sete anos, há 10 anos E os dois reconhecermos que quando temos um fim de semana só para nós ou quando preparamos um programa a dois, que aquela chama já não é exatamente igual, mas há uma chama que volta a surgir quando pensamos: "Eu quero comprar uma roupa nova para levar para este fim de semana." Isso é amor, isso é querer agradar o outro, isso é querer me sentir na minha melhor versão para usufruir também deste espaço a dois. E de resto, o amor romântico precisa de ser cultivado, precisa de ser alimentado. Normalmente, também o que pode acontecer é um amor que não é alimentado vai esmorecer ou até desaparecer. É um exercício, como já vimos, um pouco de jardinagem. Portanto, é natural que a rotina, os filhos, as obrigações, o piloto automático, o aceleramento dos dias possa tomar conta e aqui afetar muito a dinâmica romântica dos casais. O cansaço do dia a dia pesa muito e não propriamente ajuda na líbido das pessoas, mas por isso é que é importante nos contrariarmos. E nós já falamos aqui de um ponto que se toca aqui nesta questão, que é: tal como não podemos estar à espera de sentirmos a maior das motivações para começarmos, se for importante, precisamos é de começar. Aqui, curiosamente, e lamento realmente ir contra a ideia romântica de muitas pessoas, mas em relação à líbido e ao desejo sexual é exatamente igual. Se nós formos estar à espera sempre de que as borboletas todas estejam na nossa barriga e de que hajam as circunstâncias ótimas e a vontade toda para termos um momento mais íntimo com o nosso companheiro ou com a nossa companheira, nós às vezes vamos poder correr o risco de se passar muito tempo em que a intimidade se vai esmorecendo. E intimidade não é só a relação sexual, é também a intimidade do toque, é também a intimidade da proximidade física, da partilha emocional. E, portanto, se eu for estar à espera de ter energia e vontade para partilhar algo mais íntimo, para contar um episódio do meu dia, para criar um cenário de maior romantismo, se calhar, esse cenário e essa oportunidade ótima nunca vão aparecer.
Até porque é importante lembrar que não há relações perfeitas. Quer dizer, é importante lembrar isso.
Não há. As relações são feitas de diferenças que se vão acomodando no dia a dia, são feitas de encontros e desencontros, de diálogos mais bem-sucedidos e de diálogos menos bem-sucedidos. É importante reservarmos aqui algum orçamento nas nossas relações, se calhar, para uma porta que é fechada, para um tom de voz que se eleva, para um dia em que não há tanta paciência e tudo isso vai sendo acomodado, desde que não se perca a admiração, o respeito pelo outro. De resto, há sempre este ingrediente que tem sido visto que está sempre muito presente quando as relações entram numa certa decadência e caminham para o fim, que é quando se perde o respeito. Quando eu já não me preocupo em salvaguardar a emoção do outro, os sentimentos do outro, quando eu falo por cima do outro, quando eu já não me preocupo em escolher palavras, quando eu já não me preocupo se estou ou não a magoar o outro. Tudo isso é um mau indicador. Quando eu perco a admiração pelo outro, são aqui realmente indicadores a ter em consideração. Portanto, que possamos aqui cultivar relações perfeitamente imperfeitas na nossa realidade.
E é com o perfeitamente imperfeito que ficamos hoje por aqui e antes da despedida, recordamos que pode enviar sugestões e perguntas ou até mesmo partilhar histórias através do e-mail mudardevida@observador.pt. Até lá, ficamos na companhia de George Harrison com o tema "All Things Must Pass". Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto