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Olá, bem-vindos a mais um "Mudar de Vida". Eu sou a Ana Cristina Marques e hoje é dia para falarmos de autoestima, uma palavra que merece bastante atenção. O que é e por que é tão importante e quais os sinais de que a nossa autoestima já viu melhores dias? Como de costume, são perguntas a serem colocadas à psicóloga clínica Filipa Jardim da Silva. Olá, Filipa.

Olá, Ana.

Bem-vinda outra vez.

Obrigada.

Começo por perguntar o que é a autoestima e por que ela é realmente tão importante. Tu dirias que é um dos pilares centrais da vida, senão o pilar central?

Sim, diria, sem dúvida, que é um pilar central. Nós podemos encarar a autoestima como sendo o valor que nós nos atribuímos a nós mesmos, sendo que esse valor advém de uma avaliação bastante subjetiva. Por isso, se nós nos encararmos como sendo bastante competentes e nos dando mais valor, naturalmente que, por consequência, nos vamos tratar melhor e nos vamos achar mais merecedores também de amor, de nós para conosco e dos outros para conosco. E é esse nível nós percebemos o quão estruturante isto é nas nossas vidas, porque se a relação que nós temos conosco mesmos é realmente uma relação minada, em que nós de base não nos achamos suficientemente bons, não cuidamos suficientemente bem de nós, não nos respeitamos o suficiente, isto naturalmente que vai impactar em todas as outras relações, vai impactar na forma como nós nos cuidamos, nas escolhas que nós fazemos, em tudo.

No caminho da vida, basicamente. E que sinais é que podem ser esses numa pessoa que tem uma autoestima enfraquecida?

Sim, podemos encarar e destacar aqui alguns sinais. Em primeiro lugar, há aqui uma dificuldade, normalmente quando nós temos baixa autoestima, em assumirmos a nossa voz, seja individualmente, seja em grupo. Portanto, habitualmente temos medo de dizer em voz alta o que pensamos, com medo de sermos ridicularizados ou sempre num auto diálogo muito crítico internamente, que aquilo que vamos dizer não é suficientemente inteligente, por exemplo. Depois também temos aqui esta tendência para pedirmos muitas vezes desculpa e nos pormos aqui numa posição inferior ao outro e assumirmos às vezes um excesso de responsabilidade em relação àquilo que é realmente o nosso campo de ação. E isso leva depois a germinar muito em culpa. Depois também temos um outro sinal que acaba muito por ser esta questão da falta de valor. Lá está, achamos sempre aqui numa ótica de síndrome do impostor que nunca somos suficientemente bons. Portanto, às vezes isso mina as nossas expectativas em relação a nós próprios e a maneira como nós nos vemos. E isso naturalmente que também depois impacta numa dificuldade acrescida em fazermos escolhas, uma dificuldade acrescida em pormos limites aos outros. E, por fim, eu diria que em muitas situações de baixa autoestima, nós notamos comportamentos tóxicos compensatórios.

Como por exemplo?

Aquilo que eu não sinto em termos de valor, eu vou me refugiar, por exemplo, numa substância, em comida. Eu vou me deixar emaranhar em relações que são abusivas para mim, porque lá está, não me sinto suficientemente bom, sinto um vazio cá dentro e isto faz crescer uma carência. E essa carência depois vai ser colmatada ou com coisas, com objetos, com comportamentos, com pessoas. Mas no fundo nós percebemos que se nesta nossa relação nuclear conosco estamos muito de costas voltadas e não existe um amor pleno, não existe este respeito, não existe esta admiração por nós mesmos, na nossa versão real, não na nossa versão idealizada. Isto vai se traduzir de várias maneiras.

Há aí duas coisas que tu disseste que eu decorei, que achei importantíssimas e interessantes. A primeira é este medo de falar. Eu imaginei logo que uma pessoa nessas circunstâncias, antes de falar, reflita muito sobre o que vai dizer e que questione a si própria se a informação que vai trazer cá para fora faz sentido ou não faz sentido. E outra questão também é esta ideia do discurso interior negativo, porque às vezes parece abismal o que nós conseguimos dizer a nós próprios, e que nunca na vida diríamos a outras pessoas, digo, de coisas más. Não propriamente elogios.

Sim, eu acho que se nós gravássemos o nosso diálogo interno. Aliás, muitas pessoas têm uma certa rejeição e dificuldade em aderir a exercícios de escrita, precisamente por causa disso. Uma das propostas que se faz muito em termos de exercícios de desenvolvimento pessoal são os exercícios de journaling, portanto, de escrever, de passar para o papel o que está presente. E nós percebemos que uma das resistências maiores é o medo de como é que eu vou encarar no papel algo que eu disse, que quando eu digo é abstrato, vai e vem, quando eu escrevo, fica no papel e torna-se concreto. Portanto, eu não consigo fugir àquilo. E muitas vezes, essa, de resto, é uma boa baliza que nós podemos ter, que é perguntar a nós próprios: "Eu diria isto a alguém de quem eu gosto? Eu diria isto até a qualquer outra pessoa, numa base de respeito?" E se a resposta for não, "não diria, não tenho confiança para isso" ou "acho que é desrespeitador", então por que eu estou a dizer isto a mim mesmo? E nós podemos pensar nisto, enfim, são discursos automáticos. É deixarmos cair uma caneta e dizer: "Que estupidez". Quem é que estupidez? Eu sou estúpida. "Ai, que parva que sou. Ai, mais uma burrice que já fiz. Nunca faço nada certo". São estas tiradas pro ar que nós vamos somando e multiplicando ao longo de todo o nosso dia. E todas estas afirmações, por mais diminutas que nós possamos achar que são, verdadeiramente vão esculpindo a nossa identidade e vão ao final do dia traduzindo-se na maneira como nós nos encaramos a nós próprios.

Como nos vemos a nós mesmos. Exatamente. E já que falaste um pouco de se não temos uma relação benéfica conosco mesmos, que isso depois se traduz em todo o resto na vida, incluindo nas relações. E eu queria que me aprofundasse esta ideia de como realmente uma fraca autoestima pode minar as relações que temos com os outros e, de certa forma, paralisar a nossa vida.

Sim. Quando nós não nos amamos, em primeiro lugar, eu diria que vamos ter uma dificuldade grande, que é em reconhecer o amor dos outros para conosco. Portanto, se eu não conheço essa experiência de me amar, eu posso estar perante alguém que gosta de mim, que está a demonstrar apreço e não a reconhecer enquanto tal. Portanto, posso ignorá-la, pode me passar despercebida. Depois, por outro lado, se a reconhecer até, posso ter dificuldade em aceitá-la. E aqui muitas vezes entramos em padrões algo disfuncionais e até sabotadores Que eu, com frequência, tendo uma baixa autoestima, vou tender a me relacionar com pessoas, quer a nível profissional, social, romântico e familiar, que vão confirmar aquilo que eu acho sobre mim, que é, neste caso, que eu não tenho suficientemente valor. E vou tender a me afastar das outras que precisamente mostram o contrário, e vou ter esta atração fatal por uma confirmação e desta profecia, que isto depois vira uma profecia autoconfirmatória de que realmente eu não sou suficientemente bom. Depois também notamos que esta baixa autoestima vai, sem dúvida, impactar nos limites numa relação com o outro, seja o outro uma vez mais num campo profissional ou pessoal. Porque se eu não me respeito e isso, em termos de não verbal e verbal, vai se traduzir todos os dias da minha vida, o outro vai perceber isso e vai lhe dar aqui os limites de até onde que ele pode ir comigo. E não é por acaso que muitas vezes em contextos profissionais, sociais e românticos, quando nós não nos valorizamos, nós também permitimos mais facilmente que os outros nos respeitem. E vai sendo aqui um ciclo que se vai perpetuando.

E ainda nesta ideia de relações não só amorosas, mas todo tipo de relações, uma pessoa com uma fraca autoestima ou com uma autoestima um pouco mais enfraquecida, pode sentir de uma forma mais forte a rejeição, por exemplo, pode ser quase como um ataque?

Sim, pode sentir como um ataque, pode sentir como uma devastação maior, e é quase como se aqui, uma vez mais, a robustez estivesse mais enfraquecida. Alguém que não gosta de si, alguém que não se sente suficientemente bom, vai sentir precisamente com mais intensidade todas as experiências de rejeição. Mais do que isso, aqui a grande questão é que vai interpretar como potencial rejeição aquilo que não o é. E esta é sempre uma das grandes dificuldades em ajudarmos alguém com uma baixa autoestima, é que, por exemplo, em termos sociais ou até profissionais, eu posso estar a fazer uma crítica construtiva a alguém com uma baixa autoestima, e a maneira como esta crítica vai ser interpretada é de uma forma destrutiva, quando eu até posso nem estar a ter essa intenção. E aqui notamos que os nossos filtros mentais, as nossas lentes, ficam muito distorcidas e muito enviesadas. Uma vez mais, quando nós dizemos que a nossa autoestima é fruto realmente de uma percepção muito subjetiva, toda a nossa existência vive com base nessa percepção subjetiva. Nós todos andamos com uns óculos. E eu diria que é importante que nós todos tenhamos atenção a esses óculos e ao longo do dia os vamos limpando e vamos percebendo se estamos com umas lentes mais foscas ou mais embaçadas.

Miropistas.

Exatamente. Mais cinzentas, mais negras, mais transparentes. Não esquecermos isso, que tudo aquilo que eu digo a mim próprio e tudo aquilo que eu leio sobre aquilo que acontece à minha volta é uma percepção, não é um fato, não é uma verdade absoluta. E aquilo que o outro me diz é também uma percepção, é a percepção do outro.

Exato. E por falar em percepção, uma pessoa pode, por exemplo, ter baixa autoestima e ser muito sociável?

Pode, perfeitamente. Aliás, isso é muito frequente.

É?

Sim. Podemos ter casos em que a pessoa, para além de ter uma baixa autoestima, também tem traços de introversão, é mais tímida, é mais envergonhado e de alguma forma, acaba por estar mais isolado. Mas muitas vezes temos aquilo que é uma socialização algo superficial, que é alguém que se dá sem se dar verdadeiramente a conhecer, porque tem algum receio, não é precisamente de qual é que vai ser a opinião dos outros face a si, mas também não esquecermos que temos a tal procura de validação externa, temos a tal carência que se vai somando. E por isso, muitas vezes, nestas situações, nós notamos essa procura incessante de eu vou procurar que alguém me confirme que eu até tenho, ao final do dia, algum valor.

Uma procura que nunca resulta efetivamente, pois não?

Não, porque se eu não reconheço esse valor em mim, o que vai acontecer é que eu não tenho espaço dentro de mim para guardar essa valorização se ela surgir. E mesmo que essa valorização surja, e ela surge sempre, eu vou de alguma forma atenuá-la. Eu vou dizer: "Esta pessoa foi simpática, esta pessoa gosta de mim, esta pessoa percebeu que eu estava a precisar de uma palavra positiva e deu-me". Uma vez mais, o que eu estou a fazer? É descredibilizar todo o meu valor e, neste caso, toda a validação externa. E este é um ciclo vicioso, depois que nos leva, sem dúvida, a um vazio crônico.

Estava agora a rir porque por falar em ciclo vicioso, está a passar na minha cabeça em ciclo o slogan de uma manteiga, portanto, é quase inevitável pensar nisso. Mas continuando, é possível uma pessoa ter autoestima a mais? Isso é uma realidade?

Sim, nós podemos destacar aqui esta questão de o que é que é ter uma boa autoestima e o que é que é já ter uma estrutura narcísica. E algumas pessoas eu acho que têm medo de ter uma boa autoestima, precisamente fazendo confusão com uma estrutura de personalidade mais narcísica. Quando nós temos uma boa autoestima, nós respeitamo-nos e valorizamo-nos, damos valor, sabemos que somos bons no que fazemos, acreditamos no nosso potencial, isso empodera-nos, isso dá-nos confiança no nosso dia a dia. Quando nós já estamos num funcionamento mais narcísico, nós achamos que somos melhores que os outros. E estamos nessa linha comparativa em que isso nos dá uma certa legitimidade para agirmos de uma determinada forma, às vezes até atropelando o outro e desrespeitando o outro. Portanto, são duas coisas diferentes.

Muito diferente.

Sim.

Ok. Olha, e estamos aqui a falar de autoestima, de fraca autoestima ou de alta autoestima, mas como é que nós podemos efetivamente trabalhar este conceito? Porque eu imagino que no decorrer da nossa vida, ela não seja constante, tenha altos e baixos.

Sim, ela vai tendo vários ataques, de resto, e uma vez mais, convém aqui desconstruir o que é que são conceitos da autoestima ideal. Este é um trabalho para a vida, que nós temos, que podemos escolher ou não. Mas a ideia de trabalhar a nossa autoestima Começa precisamente pela forma como nós nos tratamos. Portanto, as questões da autocuidado são basilares. Se eu respeito o meu sono, se eu respeito as minhas necessidades emocionais e fisiológicas, naturalmente que eu vou trabalhar por uma melhor autoestima. Também o investimento que eu faço naquilo que é o meu autoconhecimento e o meu desenvolvimento pessoal. Se eu procuro perceber quem é que eu sou, as minhas principais competências, os meus principais valores, naturalmente que isso me dá uma margem maior para depois, no meu dia a dia, poder fazer escolhas mais alinhadas. Também ser criteriosa na maneira como eu distribuo o meu dia. O que é que eu priorizo? Que pessoas é que eu permito que se aproximem de mim? O próprio training, a própria importância de saber dizer que não, de saber delegar. Tudo isso são limites muito importantes para a nossa autoestima. E destacaria também que em alguns momentos nós podemos precisar de ajuda profissional para trabalharmos a nossa autoestima. Ela pode ficar de tal forma danificada, que em algum momento, de forma autónoma, já podemos não ser capazes de a reabilitar, porque como percebemos, depois entramos um bocadinho nesta cegueira de não conseguirmos ver de forma diferente aquilo que está tão próximo e podemos beneficiar. E isso, de resto, só vai ser sinal de coragem e de inteligência emocional e nunca de fraqueza.

Exato, exatamente. Boa resposta. Acho que esta pergunta é sem resposta, mas dirias que a melhor relação que vamos sempre ter é aquela que nós temos com o espelho?

É a relação primordial. A relação que nós temos conosco de dentro para fora, seja internamente, psicologicamente, seja com o espelho, é uma relação basililar e acho que vale a pena ser cultivada desde a nossa infância, passando pela turbulência gigante da adolescência. E mesmo hoje em dia, com todas estas pressões que existem de ideais de beleza, ideais de sucesso tão proliferados em termos de redes sociais, vale a pena uma vez mais termos a noção de no nosso dia a dia irmos fazendo este trabalho de manutenção permanente. Sim, eu posso perseguir uma melhor versão de mim e tenho todo o direito de o fazer, ao mesmo tempo que eu possa cativar em mim um espaço para ter lados meus que eu não aprecio tanto, que não são se calhar tão bonitos e tão fortes como eu gostaria, mas aprender a respeitá-los. Aprender também a encará-los como meus e com todo o respeito que lados melhores e piores merecem.

E é com respeito que terminamos mais um "Mudar de Vida". Para a semana voltamos a pôr a conversa em dia e desta vez vamos falar sobre mudanças que não conseguimos controlar, como o luto, as traições ou os despedimentos. Por agora ficamos na bela e belíssima companhia de David Bowie com o tema "Changes". Até lá.

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