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O Miguel Pinheiro já está conosco para uma nova edição do Bom, o Mau e o Vilão. Olá, Miguel, bom dia.
Bom dia.
Bom dia. Quem é o teu bom de hoje?
O bom é Luís Montenegro, porque ontem o Primeiro-Ministro, que agora, convém sempre notar, é também ministro da Administração Interna, voltou a estar nas zonas afetadas e, além disso, anunciou que o Governo está a preparar uma espécie de versão portuguesa do PRR, um plano de recuperação e resiliência para responder aos efeitos do mau tempo e que tem investimentos em infraestruturas, energia, comunicações, água, saneamento, escolas, hospitais, reconstrução de casas. Não se conhecem os detalhes, mas isto foi discutido ontem em Conselho de Ministros e parece que em breve vamos saber o que está em causa. Ao mesmo tempo, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que a reconstrução da parte do país afetada pela tempestade e pelas cheias vai ser uma parte importante da vida do governo nos próximos três anos. Isto mostra que, aos poucos, o governo começa a perceber o que está em causa, mas ainda não é suficiente. Parece que o Luís Montenegro devia aproveitar a saída da ministra da Administração Interna para criar um novo cargo, por exemplo, um cargo de vice-primeiro-ministro para a reconstrução, um cargo que existiria enquanto o país não estivesse todo de pé. O país precisa de uma medida política simbólica forte, que nos mostre que isto é mesmo para levar a sério, que nos mostre que isto não são só anúncios de planos, que depois para concretizar é uma chatice e já ninguém se lembra. É preciso alguém que esteja ali sentado ao lado do primeiro-ministro e que se certifique de que isto é para fazer e é para fazer rápido.
Como aconteceu com a troika e com o calendário que nos foi imposto. Era para fazer as medidas, naquele caso, cumprir medidas naqueles prazos.
Acho que é um bom exemplo.
Cumprir obras.
Acho que é um bom exemplo. E portanto, criava ali um cargo de vice-primeiro-ministro. Está mesmo ali perto do centro do poder, tem a autoridade política do primeiro-ministro e concentra-se nisto. No limite, até, já que os governos gostam tanto às vezes de descentralizar ministérios, tem um gabinete de trabalho ali na zona e depois vem a Lisboa para falar com o primeiro-ministro, para desbloquear problemas e para vir aos Conselhos de Ministros.
É só tomarem nota.
Eu acho que era importante as pessoas perceberem que isto não é mais do mesmo.
Sem dúvida.
Miguel, o teu mau é a justiça.
Nós vamos tendo assim a cada dia, realmente. Como se sabe, Duarte Lima foi acusado pelo homicídio de Rosalina Ribeiro no Brasil em 2009. O julgamento devia ter começado em Portugal em novembro de 2022, mas ao que parece, desde essa altura tem sido adiado. Segundo vi ontem numa notícia da Agência Lusa, primeiro faltava notificar testemunhas que estão no Brasil e como se sabe, para ir para o Brasil, uma pessoa tem que entrar numa nau, tem que atravessar o Oceano Atlântico, tem que andar ali a navegar e depois chegar ao Brasil, essa terra distante. E depois faltavam, e continuam a faltar, umas gravações. E agora que se passaram quatro anos, o tribunal português pediu às autoridades brasileiras que nos enviem todo o processo de Duarte Lima em papel. Em papel. Mandem lá isso em papel. E segundo a Agência Lusa, que consultou o processo, claro que não há resposta do Brasil a isto. Atenção, eu percebo que Portugal não manda no Brasil. A justiça portuguesa não manda na justiça brasileira, como é evidente. Mas se não existe uma forma de a nossa justiça dialogar com a justiça brasileira, em que há anos e anos de história comum, uma cultura comum.
Uma língua.
Uma língua comum, tratados uns atrás dos outros de cooperação, pertencem às mesmas organizações. Se com o Brasil nós não conseguimos ter uma forma de trabalho minimamente regular e funcional, então, de facto, é impossível. E realmente, quanto mais sabemos da nossa justiça, pior. Isto é de uma pessoa se sentar a um canto a chorar.
Claro, sozinha já não funciona, então quando tem que se articular com outra, esquece, não é?
É, é isso mesmo. É deixar os anos passarem.
O teu vilão fez nomeações.
Foi o Ministério da Saúde. Ontem foram nomeados os novos conselhos de administração de duas das maiores unidades locais do país, a ULS São José e a ULS Amadora Sintra, e deu-se uma coincidência extraordinária.
Então?
Eu até fiquei: "Olha, qual seria a probabilidade de uma coisa destas acontecer?" A sério, eu acho que estas pessoas deviam jogar no, não sei como é que é.
Euro milhões.
Euro milhões, Totoloto, não sei o que é que há. Deviam jogar estas coisas, porque vocês não querem ver que o novo presidente de São José, que é a segunda maior ULS do país, é militante do PSD?
Não acredito.
Quase jura.
Não é? Bem, sendo que, atenção, a anterior presidente era militante do PS. Portanto, a anterior presidente era militante do PS e membro do Secretariado Nacional do Partido Socialista, e o novo presidente, lá está, militante do PSD e foi presidente da concelhia do Partido Social-Democrata de Vila do Conde nas últimas autárquicas. Ele empenhou-se, porque agora, nas eleições de 2025, esteve à frente da candidatura do PSD à Assembleia Municipal do concelho. Atenção. Obviamente, só para não haver aqui equívocos, ninguém perde competência por ser membro de um partido, como é óbvio. Ninguém deve ser prejudicado por ser membro de um partido. Mas de facto, é impressionante como em Portugal, pelos vistos, as pessoas que nos dizem que são as mais competentes, têm sempre um cartão do partido, seja ele qual for, seja de um, seja de outro. Há sempre, ali na carteira, ao pé do cartão Multibanco, há sempre um cartão do partido. É extraordinário, de facto. Incrível.
Que por coincidência, é do partido que está no governo naquele momento.
Não é? Ainda por cima. E dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo sítio. Não é?
Há coisas estranhas.
É, mas pronto.
Vamos ao resumo. O bom desta sexta-feira é Luís Montenegro. O mau, a nossa justiça, e o vilão de hoje é o Ministério da Saúde. São as escolhas do Miguel Pinheiro, num episódio que fica disponível em podcast.