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Eu sinto que, neste caso, o que mais guardo na memória é a sensação física que tive nos momentos que partilhei com ela quando ela estava muito angustiada. Ou seja, estou a falar nisso e parece que estou a sentir. Sinto o coração a ficar mais apertado, uma certa angústia, tensão muscular. E a pessoa não se esquece disso. Eu não me esqueço e ela não se esquece. O meu nome é Inês Oliveira, sou pedopsiquiatra e exerço há oito anos. Eu conheci esta jovem há cerca de um ano e meio, quando ela tinha 13 anos. As queixas eram, sobretudo, de ansiedade. Uma ansiedade grave, com grande impacto na funcionalidade da jovem, com crises de ansiedade, com sintomas somáticos, ansiedade de separação e também alguns sintomas da linha obsessiva ou compulsiva. A ansiedade desta jovem era tal, que não conseguia ir à escola. Ou seja, ela queria ir. Não era a jovem que boicotava, que não queria ir, que queria ficar em casa a divertir-se. Ela não aguentava ir. E, ou não conseguia sair de casa ou quando saía e chegava à escola, passado pouco tempo, ligava à mãe a pedir para a mãe a ir buscar. Se eu tenho à minha frente uma pessoa que está muito angustiada e muito tensa, eu naturalmente sinto essa tensão e essa angústia, e sinto que a qualquer momento pode acontecer alguma coisa. Ou seja, a jovem pode não aguentar estar ali, pode ter um ataque de pânico. A hipervigilância dela acabava por levar a uma hipervigilância minha, sem dúvida. E eu acho que isso é inevitável e não é uma coisa de todo má. Nós falamos muito na nossa área, em ressonâncias e contra-ressonâncias, que é o quê? Eu também usar o que o outro me faz sentir, para perceber a forma como ele se sente e para conseguir ajudá-lo melhor. Este meu estado de alerta e esta necessidade de estar a pensar em plano B, em plano C, em plano D, no fundo, era um espelho dela e do sentir dela. E isso também me dá pistas. Ou seja, o que ela me fez sentir, e não é racionalmente, é sentir no meu corpo, permitiu-me perceber o grau de angústia que ela sentia. E esta jovem, provavelmente, foi a pessoa mais angustiada que eu vi em consulta. Tínhamos uma família que não conseguia sair de casa, que não conseguia ir para um sítio público, não conseguia ir pra um centro comercial, que não conseguia fazer férias. E perante isto, perante este estressor tão grande, perante esta tensão tão grande, a postura e a capacidade da família de ser empática, mas também de ser contentora e, portanto, de ajudar à melhoria, em vez de ajudar ao agravamento, é importantíssimo. E eu acho que este caso, esta jovem, esta família, fizeram um trabalho excelente numa situação muito difícil. Eu acho que foi a paciência, a confiança na relação e esta capacidade de contenção, de superação e de resiliência que todos foram demonstrando, e que esta jovem e esta família demonstraram tanto, que me impressionou. E que me impressionou pela positiva, e que me dá um otimismo no sucesso deste processo terapêutico, que se calhar não é tão frequente. Já está a correr muito melhor e eu sei que ainda vai correr melhor. E eu sei que se em algum momento da vida desta jovem as coisas voltarem a piorar, que eles vão conseguir sair daí. E vão conseguir, porque demonstraram competências neles mesmos que me dizem isso. Esta resiliência que nos ajuda a superar qualquer coisa, não só o momento atual, mas o que vier. Sinto que esta família me relembrou esperança. E que isso é muito importante, não só pra mim, Inês, na minha vida, mas pra mim enquanto médica, porque às vezes é cansativo. Às vezes a pessoa fica frustrada, às vezes sente que não é eficaz, que não está a conseguir atingir as metas que gostaria. Eu acho que a resiliência desta jovem e o papel importantíssimo, contentor e adequado da família, marcaram-me muito.
"O Mental" é uma parceria do Observador com o Hospital da Luz. Conta ainda com a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses.