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Começa agora uma nova edição do "Domínio da Guerra" com o Major-General José Arno Moreira. Muito bom dia, muito bem-vindo.
Olá, muito bom dia a todos.
Hoje começamos com a Cimeira sobre a Paz na Ucrânia, realizada na Suíça, depois de uma intensa campanha a favor e contra esta cimeira. Ela decorreu finalmente durante o passado fim de semana na Suíça. Houve diferentes leituras sobre o seu sucesso e até tivemos a Rússia a proclamar que foi um tremendo insucesso. Afinal, o que é que resultou desta cimeira?
Começamos por uma tradução errada, que também suscitou dúvidas. Na verdade, eu quando olhei para o painel que estava por detrás das apresentações, o que lá estava escrito não era "Cimeira da Paz", como nós tínhamos dito, mas "Cimeira sobre a Paz".
E aí há uma pequena diferença.
Isto faz toda a diferença. Uma coisa é a cimeira da paz, em que pensamos que estão sentadas à volta da mesa o conjunto das partes envolvidas no conflito, ou até cimeira sobre a paz. E era isso que era preciso discutir aqui. Portanto, quem fez esta tradução, ou propositadamente, ou descuidadamente, não atendeu que esta cimeira não era uma cimeira de paz, era uma cimeira sobre a paz, em que a paz iria ser discutida nos termos em que deveria ser discutida. Fomos também, de alguma maneira, surpreendidos com aquilo que foi a reação de Moscovo. Se Moscovo entendesse que esta cimeira era, como dizia, completamente dispensável, Moscovo não teria empregado todo o esforço que empregou, por um lado para tentar dinamitá-la, fazendo com que um conjunto de países sobre os quais exerce o seu controlo, ou de natureza ideológica ou de natureza estratégica, estivessem presentes na cimeira. E, por outro lado, anunciando no dia anterior à cimeira que estava disposto para um plano de paz, que esse plano de paz incluía um cessar-fogo, desde que fossem satisfeitas um conjunto de reivindicações que ainda não tinham sido expressas de forma tão clara. Essas reivindicações implicavam, do ponto de vista territorial, não apenas a manutenção das linhas naquilo que tem sido tratado como a espécie de encarar a realidade das conquistas territoriais até ao momento, mas Moscovo pretendia, para assinar essa paz, ficar com os territórios que ainda não conquistou e que já incorporou na Constituição da Federação Russa. Ora, isso é extraordinário, porque a Federação Russa está a perder à volta de mil homens por dia. Está ainda muito distante de chegar a esses territórios e queria que neste momento, portanto, sem esforço nenhum, numa manobra que lhe pode vir a custar vários anos para ser conseguida e provavelmente centenas de milhares de mortes e feridos, queria que a Ucrânia entregasse desde já aquilo que são os territórios, por exemplo, tão importantes como os de Kherson e Zaporizhzhia. Isto é, a Federação Russa queria colocar-se já do lado de lá do rio Dnieper. Depois, é preciso ver que a Federação Russa não queria só territórios, queria a desnazificação da Ucrânia, o que significa transformar outra vez a Ucrânia numa espécie de Bielorrússia. Queria o desarmamento da Ucrânia, no sentido da Ucrânia não poder oferecer resistência militar, no caso de a Federação Russa pretender avançar sobre Kiev. E depois pretendia que a Ucrânia desistisse de integrar a NATO e, portanto, ficasse sem aliados do ponto de vista da sua consistência de defesa. Isto é, basicamente, o que Putin estava a dizer é: "Dêem-me tudo aquilo que me permite estar já do lado do rio Dnieper, desarmem-se para que eu, em qualquer altura, por um incidente qualquer que eu possa produzir, possa avançar sem resistência para tomar o resto do território da Ucrânia." Era isto que estava previsto neste contraplano. Ora bem, a cimeira também já teve uma leitura por Moscovo. Moscovo já nos veio dizer a todos que a leitura que deveríamos ter era de que esta foi uma mão cheia de nada e isto foi um tremendo insucesso. Lamento dizer que da minha observação e da minha análise não foi, foi exatamente o contrário. Mas para isso é preciso perceber, retirar o nosso olhar sobre uma peça de puzzle e olhar para o puzzle completo. O que Putin nos está a fazer é focar o nosso interesse exclusivamente sobre a cimeira, sobre uma peça de puzzle. Ora, uma peça de puzzle não permite compreender nada. Este puzzle tem três peças e é a integração desta peça da cimeira nas outras peças do puzzle que faz sentido, porque este puzzle ficou resolvido a semana passada. Esta guerra tem três pilares fundamentais. O primeiro é de natureza económica e é por isso que o puzzle foi resolvido na parte económica com a cimeira do G7. Foram criadas as condições económicas para a sobrevivência económica da Ucrânia. A segunda peça do puzzle é do ponto de vista da organização do apoio institucional militar à Ucrânia, e isso foi resolvido com a cimeira da NATO, que foi com reunião da NATO que articulou um projeto de planeamento de defesa a longo prazo sobre a Ucrânia. E faltava a terceira componente. Portanto, já tínhamos a componente do puzzle Económica, militar e faltava agora a política. E qual era a política? É que todos nós queremos defender a Ucrânia, mas nós não temos, provavelmente, ou não tínhamos antes desta cimeira, um roteiro claro sobre o que significava uma paz justa. Aliás, o tema da paz justa foi falado por Zelensky. Ele disse isto na cimeira, que me parece que é talvez a frase mais importante: "Temos de decidir em conjunto o que significa uma paz justa antes de propor formas de terminar a guerra." A cimeira da paz não é a mesma coisa que a cimeira sobre a paz. Esta cimeira era para definir o que era a paz justa e ela cumpriu esse objetivo. Todos aqueles que são os países que vão ajudar a Ucrânia e estar do seu lado para alcançar a paz justa, acertaram na fórmula. E essa fórmula são duas palavras: integridade territorial. Os países que assinaram esta declaração final, consideram que uma paz justa corresponde à defesa da integridade territorial da Ucrânia. E isto é um avanço muitíssimo significativo. Portanto, todas estas leituras que Moscovo andou a tentar fazer de que desta paz, desta cimeira não resultou nada. Não, resultou aquilo que era fundamental, o entendimento de que uma paz justa passa pela integridade territorial da Ucrânia.
Esta semana também ficou marcada pela visita de Vladimir Putin à Coreia do Norte, onde teve uma ensaiadíssima receção entusiástica. O líder coreano Kim Jong-un declarou que as relações Rússia-Coreia do Norte conheciam uma nova prosperidade e Putin referiu que os dois líderes assinaram um acordo estratégico, contendo uma cláusula de apoio mútuo em caso de agressão. Qual é o balanço que podemos fazer desta visita, senhor general?
Vamos começar pelo lado emotivo. Putin estava felicíssimo. Quem é que não fica feliz quando tem dezenas de milhares de pessoas em parada aos pulos a gritar o seu nome.
Com imagens do presidente Putin ao longo das ruas.
Extraordinário. Portanto, Putin estava verdadeiramente feliz, porque ele é procurado internacionalmente. Existe um mandado para o prender e o entregar em Haia e ele foi recebido entusiasticamente ali. Por outro lado, também Kim Jong-un estava muito feliz, porque não é todos os dias que o líder da Coreia do Norte recebe um chefe de Estado e, sobretudo, um chefe de Estado com uma visibilidade e a importância de Vladimir Putin.
Também foi um momento de propaganda do próprio regime norte-coreano.
Exatamente. Portanto, toda aquela noção que era passada de que a Coreia do Norte era um país isolado, um país pária, um país que em relação ao sistema internacional é alvo de um conjunto enormíssimo de sanções, etc. Afinal, Putin foi ajudar Pyongyang a afastar-se desta ideia. Mas o Ocidente ficou naturalmente preocupado. O Ocidente ficou preocupado por várias razões, porque há três programas que estão a ser desenvolvidos pela Coreia do Norte e que implicam diretamente o Ocidente. É o programa de natureza nuclear. Eu devo recordar que a Coreia do Norte foi o único país no mundo que no atual século fez explodir uma bomba de natureza nuclear, o programa balístico intercontinental e o seu programa espacial. Isto são três áreas sobre as quais o Ocidente mantém um controle muito estrito também do ponto de vista daquilo que são as sanções em termos de equipamentos, de máquinas, de conhecimento sobre a Coreia do Norte. Ora, nós não sabemos o que foi dado em troca. Putin vai lá para receber certamente armamento de natureza convencional para o ajudar na guerra contra a Ucrânia, mas na verdade, pode ter dado coisas em troca e é sobre isto que nós estamos preocupados. Mas não somos os únicos a estar preocupados. A China ficou intensamente preocupada com esta visita.
Esta aproximação entre a Rússia e a Coreia do Norte pode ser problemática para a China?
Putin e Kim Jong-un esqueceram-se de olhar para cima. Se eles olhassem para cima, viam que há dois cordelinhos pendurados em cada um deles. Só que os dois cordelinhos estão exatamente na mesma mão, que é a mão de Xi Jinping. É Xi Jinping que mantém vivos os dois, mantém viva a Federação Rússia, comprando-lhe energia e fornecendo-lhe equipamentos e, por outro lado, mantém também vivo o regime da Coreia do Norte, porque isso faz parte dos interesses da China, evitar que uma união das Coreias se possa traduzir naquilo que é uma aproximação do Ocidente às fronteiras com a China. E, portanto, mantém cuidadosamente com uma linha de vida, que são estes dois cordelinhos. Ora, a China não deu autorização para que os dois agora se entendessem e procurassem novas formas de liberdade de ação estratégica, de cooperação entre si, sem que isso passe por aquilo que é o entendimento da China do que deve ser o papel de cada um destes países a desempenhar. Portanto, a China não deve ter gostado nada disto. Até há indicações de que esta visita não era para ser agora, era para ser feita na altura em que Putin visitou Xi Jinping, mas a China percebeu que não era boa ideia na mesma visita meter a Coreia do Norte e a China. E então, a visita à China foi a visita à China para dar solenidade e não um ponto de passagem para ir à Coreia do Norte. Esta visita tem um aspecto que, do meu ponto de vista, é o aspecto que explica esta aproximação. E não tem nada a ver com a Coreia do Norte, nem com a Ásia-Pacífico. Tudo isso são histórias para nos encantar. Isto só tem uma explicação: pressionar a Coreia do Sul a não fornecer equipamento para a Ucrânia. É este o entendimento estratégico e é esse o entendimento que devemos ter desta visita. Foi à Coreia do Norte como um sinal para a Coreia do Sul se não intrometer na guerra da Ucrânia e não fornecer equipamento militar muito sofisticado que pode vir a desequilibrar a guerra na Ucrânia. É esta a leitura que eu faço desta visita.
Desta visita de Putin à Coreia do Norte. No Médio Oriente, assistimos esta semana a um crescendo da confrontação Israel-Hezbollah. Deixou de falar-se do acordo de paz Israel-Hamas e passou a falar-se outra vez na possibilidade de uma verdadeira guerra entre Israel e o Hezbollah. As ações violentas conduzidas pelas duas partes estão em crescendo e já se fala até numa invasão do sul do Líbano pelas forças de Israel. Senhor General Arno Moreira, o que é que podemos esperar?
Esta foi uma semana muitíssimo difícil e ainda continua a ser uma semana muito difícil para o governo de Israel. Em primeiro lugar, do ponto de vista interno, este governo Netanyahu perdeu o apoio dos moderados e isso faz diferença. Foi obrigado a extinguir o gabinete de guerra. E isto faz muita diferença, porque o aconselhamento dos moderados era tido também e visto pelos aliados de Israel, nomeadamente pelos Estados Unidos, como muito frutuoso. A capacidade de haver alguém com uma voz mais pró-americana dentro do funcionamento do gabinete de guerra era vista como uma vantagem. E portanto, como Netanyahu perdeu os elementos moderados que o aconselhavam, ficou agora mais na mão dos outros elementos mais extremistas do seu governo. Depois, segundo momento difícil, é que reclamou publicamente com os Estados Unidos. Ora, os Estados Unidos têm sido uma linha absolutamente vital no apoio, quer de natureza política, e é preciso ver que os Estados Unidos já se atravessaram no Conselho de Segurança várias vezes para evitar que fossem aprovadas resoluções contra Israel. E, por outro lado, os Estados Unidos continuam a ser o principal fornecedor de equipamento militar para a Ucrânia. E, portanto, segundo momento. O terceiro momento mais difícil é que as Forças de Defesa de Israel parecem ter ganho agora uma liberdade estratégica nova, com declarações que parece que dispõem elas próprias de uma autonomia de natureza estratégica e que deixaram de se reconhecer naquilo que eram as orientações do governo. À medida que isto se desenvolve e que, portanto, existe um sinal claro para o exterior das divisões no interior da sociedade israelita, naturalmente que o Hezbollah sente que há aqui um momento de fraqueza e tem vindo a intensificar fortemente aquilo que é o bombardeamento de áreas críticas e, sobretudo, a expulsão, através desses bombardeamentos e da criação dessas condições de caos no norte de Israel. Já cerca de 160 mil pessoas foram obrigadas a deixar a região, cerca de 80 mil que vivem no sul do Líbano e que tiveram que ir para partes mais interiores do Líbano, que era uma população israelita que também dá volta dos 60, 80 mil pessoas que já tiveram que retirar da região. Estamos, portanto, aqui perante um problema muito complicado, que é a possibilidade de ser aberta uma segunda frente de guerra na altura em que o problema do Hamas não está ainda resolvido.
E passamos para a cortina de fumo desta semana. Houve responsáveis ocidentais fazer avisos à China de que esta não pode continuar a alimentar a agressão russa enquanto pretende manter os seus laços comerciais com o Ocidente. A China reagiu com indignação, acusando o Ocidente de atirar achas para a fogueira. Senhor General, estamos mesmo a alimentar a fogueira ou está a China a procurar esconder-se por detrás de uma imensa cortina de fumo?
Stoltenberg está mais assertivo também.
Foi ele que fez uma das vozes, que fez estas declarações. Também Blinken.
O secretário-geral da NATO disse isto: "Xi Jinping está a tentar dar a impressão de que se está a afastar deste conflito para evitar sanções e manter os fluxos comerciais". Isto é, quer o melhor dos dois mundos, faz de conta que não participa no conflito, ganha com tudo aquilo que é a energia barata que vem da Federação Russa e, por outro lado, disfarça o seu apoio à Federação Russa de maneira a que não perca aquilo que são os fluxos comerciais que mantém com o Ocidente. E, portanto, a China tenta passar, como nós costumamos dizer, entre os pingos da chuva.
E ter o melhor dos dois mundos.
Ter o melhor dos dois mundos. Qual é o problema aqui e onde é que está a cortina de fumo? A cortina de fumo está na indignação É que a China reagiu de uma forma indignada, que é aquela forma com que os miúdos reagem quando são apanhados com a mão nos bolos. E portanto, como Stoltenberg carregou exatamente no botão crítico, que é a China não pode continuar a querer que o Ocidente mantenha os fluxos comerciais consigo enquanto alimenta, através da Rússia, uma das mais sérias guerras que ocorreu na Europa e que prejudica seriamente a segurança e a estabilidade do continente europeu e também a sua economia. Portanto, a China vai ter que escolher mais tarde ou mais cedo.
E terminamos com o Ponto de Mira. Hoje o nosso Ponto de Mira está colocado nas eleições presidenciais no Irão. Começamos a conhecer os candidatos presidenciais e um deles parece surpreendentemente muito mais liberal do que os outros. Como é que é possível que tenha sido autorizado a concorrer? O que é que se está a passar no Irão?
O presidente Ebrahim Raisi, o anterior presidente, faleceu a 19 de maio naquele acidente de helicóptero e portanto foram marcadas eleições de acordo com a Constituição. Essas eleições serão agora no dia 28 de junho. Estamos quase lá. Portanto, a campanha eleitoral praticamente não existiu. O presidente do Irão é a segunda pessoa mais importante naquilo que é a organização do Estado do Irão depois do líder supremo. E existe um conjunto de obstáculos a ultrapassar para se poder ser considerado candidato. Existe uma agência de monitorização eleitoral que faz uma espécie de aprovação dos candidatos que podem concorrer. Ora, concorreram 80 pessoas, houve 80 candidatos para estas eleições presidenciais. Isto é extraordinário.
É muita gente no Irão.
80 candidatos, incluindo quatro mulheres que são da ala conservadora ou da ala ultraconservadora. No dia 9 conheceram-se os seis candidatos e um deles diz que uma das soluções para o Irão passa pela reaproximação aos Estados Unidos da América, o que é completamente contrário àquilo que é a linha oficial mantida até agora. Depois, quais são os temas? Há três temas. Um dos temas tem a ver com a relação do Irão com o Ocidente. O segundo tema tem a ver com a melhoria das condições económicas e sociais da população. E o terceiro é interessante porque é igual também no Ocidente. Um dos temas principais é o controle da imigração, sobretudo os imigrantes afegãos. Um dos candidatos quer reduzir o número de afegãos presentes no país e outro pretende devolvê-los ao Afeganistão. É interessante como em geografias e geopolíticas tão diversas, o tema da imigração acaba por ser igual.
Os temas acabam por ser os mesmos. Major-General Arno Moreira, muito obrigado. O "Domínio da Guerra" está de volta na próxima semana.
Prazer. Obrigado.