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Está no ar o Domínio da Guerra da Rádio Observador, sempre com o Major-General Arnold Moreira. Bom dia, bom-vindo.

Olá, bom dia. Cheio de saudades vossas.

Também nossas. Juntos outra vez.

Cheio de saudades vossas.

Recordo que também nos pode acompanhar com imagem através das redes sociais ou pelo site do Observador. Desde meados de novembro que a administração Trump tem vindo a desenvolver um renovado esforço diplomático para encontrar uma solução para a guerra na Ucrânia. Já aqui apresentamos os 28 pontos do plano Witkoff e as conversações de Genebra para que os interesses europeus e ucranianos fossem respeitados. No passado domingo e segunda-feira reuniram-se em Berlim líderes europeus, ucranianos, norte-americanos para aprofundar e aproximar posições. Ontem houve avanços no Conselho Europeu. Neste momento, Putin está a falar ao país, mas, general, sobre as negociações, em que ponto estamos hoje que há uma nova reunião entre Estados Unidos e Ucrânia?

Sim, é verdade.

Muita coisa a acontecer então nestas duas últimas semanas.

Esta manhã tem boas notícias, porque finalmente conseguimos desbloquear 90 mil milhões de euros que eram necessários para apoiar a Ucrânia durante os próximos dois anos. Não foram os ativos russos congelados.

Foi o plano B, como dizem. Foi o plano B, não há.

Não, portanto, acabou o plano do empréstimo com base na dívida comum por prevalecer. É indiferente, talvez do ponto de vista jurídico seja mais simples e menos perigoso do que o plano que tinha a ver com nos aproveitarmos dos ativos russos congelados. Entretanto, Putin hoje está a falar, depois noutra altura iremos desenvolver esse tema. Talvez seja importante, porque nos últimos 15 dias não fizemos um ponto de situação, recordar aqui um pouco como é que chegamos a Berlim. Chegamos a Berlim quando em meados de novembro foi libertado para os mídia aquele plano de 28 pontos que nós ficamos sempre na dúvida onde é que tinha tido origem, se, na verdade, nas conversações de Witkoff, ou se Witkoff não tinha feito mais do que traduzir em papel aquilo que tinham sido instruções que tinham chegado de Moscovo. E eu recordo que esse documento de 28 pontos estava escrito de maneira a que parecesse que a Ucrânia era o agressor e a Rússia era a vítima de tudo isto. Esse plano não continha limitações para a Rússia, apenas todas as limitações que lá estavam eram para a Ucrânia. E, por outro lado, também não havia garantias de segurança que estivessem suficientemente detalhadas. Portanto, este foi o ponto de partida, um ponto de partida extraordinariamente desequilibrado para o lado da Federação Russa. As reações europeias e ucranianas não se fizeram esperar e conduziram àquilo que chamamos as reuniões de Genebra. O que se passou em Genebra? Em Genebra, os ucranianos tiveram capacidade de, junto dos americanos, mostrar que o plano estava desequilibrado. Na verdade, os europeus só participaram à margem nas cimeiras de Genebra. Isto é, os americanos preferiram reunir-se a sós com os ucranianos. Se bem que os ucranianos tivessem tido, durante ali dois ou três dias antes, capacidade de articular pelo menos um conjunto de posições mais ou menos coerentes e acertadas com os europeus para fazerem ponto de honra nessas conversões de Genebra. Portanto, dos 28 pontos de Genebra saíram basicamente 19, há quem diga 20 pontos desse plano. E então, digamos agora, respirando com mais alívio sobre isso, os europeus conduziram um conjunto de reuniões envolvendo também uma vez Zelensky, outras vezes sem Zelensky, mas reuniões de coordenação que envolveram as três grandes capitais europeias que estão envolvidas neste processo ucraniano. Paris, Londres e agora Berlim. Ora, chegamos, portanto, a Berlim numa altura em que Donald Trump está cheio de pressa, coloca prazo, quer respostas, e chegamos às reuniões de Berlim. Por que a reunião de Berlim é inédita no meio deste processo? É que pela primeira vez temos europeus sentados, que era coisa que até aqui não tínhamos tido. E, portanto, isto é uma vitória também do chanceler Merz, que conseguiu trazer dos Estados Unidos Witkoff e Kushner para estarem em Berlim a conversar também com os europeus.

Não foram os líderes europeus que foram a Washington.

Não foram os líderes europeus que foram a Washington, vieram os negociadores, vieram a Berlim. Isto, de alguma maneira, também do ponto de vista simbólico, pelo menos, também marca aqui uma alteração da posição. E os ucranianos não estiveram sozinhos em Berlim, estiveram, portanto, acompanhados pelos europeus. O chanceler Merz começa a ganhar aqui algum estatuto, também como líder europeu, por duas razões. A primeira, é verdade que Macron e Steimer tinham sido os dois grandes ativistas da causa ucraniana. Merz parecia um pouco--

Mais amargo, mas envolvido nisso.

Sim, mas também tinha sido eleito mais recentemente, mas começa lentamente a ganhar estatuto como líder europeu na questão ucraniana. As conversas de Berlim giraram em torno de três documentos O presidente Stubb, da Finlândia, que é alguém que está sempre muito dentro destes processos, falou no termo três documentos. O que pode dar a impressão de que para além do plano, que era o plano original dos 28 ou dos 19 pontos, pode haver aqui uma outra articulação, que é: não apresentamos um plano à Rússia, há coisas que não dizem respeito à Rússia, e são documentos separados. Isto é, não deixar que a Rússia exerça o seu veto sobre estes documentos, que são documentos separados. Não sei se será assim, e se no final os três documentos serão integrados num único plano. Mas também não era interessante, porque isto marcaria o quê? Marcaria a posição de que a Europa não vai discutir garantias de segurança com a Federação Russa. As garantias de segurança é uma questão entre um Estado soberano, a Ucrânia, e quem o apoia. Vamos ver se isto é assim ou se isto ainda dá mais voltas. Mas quais eram esses três documentos? O primeiro era rever, passarem a revista ao plano de Genebra e, portanto, sair daqui um acordo quadro para um plano de paz assente em 20 pontos. O segundo eram as garantias de segurança para a Ucrânia. E o terceiro, as questões da reconstrução da Ucrânia. Portanto, estes foram os pontos que estiveram em análise em Berlim. O ponto mais importante era o das garantias de segurança. Sempre foi, porque Zelensky mostrou alguma flexibilidade: "Pronto, eu não vou aderir, para já, à NATO, mas eu quero garantias de segurança que estejam articuladas com a força que tem o artigo quinto da NATO". E foi sobre isto que se discutiu basicamente em Berlim. Como é que nós nos organizamos para dar garantias de segurança suficientemente fortes à Ucrânia para elas funcionarem como substituição do artigo quinto da NATO, do qual a Ucrânia não pode beneficiar porque não é membro. O contributo europeu para as garantias de segurança saiu escrito através de uma declaração feita em conjunto pelos líderes europeus. Basicamente, tinha três ou quatro pontos que eu passo aqui a enumerar. O primeiro era o compromisso europeu para liderar uma força multinacional, com contribuições de tropas de países que pertencessem à coligação das vontades. Isto é, a Europa assumia para si a responsabilidade daquilo que era o grosso desta força multinacional de garantias à Ucrânia, sendo que os Estados Unidos apoiavam. A forma como apoiam não está definida, ou pelo menos nós não a conhecemos. Mas seria, portanto, uma força basicamente europeia, com um conjunto de apoios fornecidos pelos norte-americanos. Qual é o volume desses apoios, nós não sabemos. Zelensky desconfia destes apoios americanos, todos nós desconfiamos destes apoios americanos, porque, na verdade, não sabemos como é que é.

Olha, pessoas a ligar a dizer que estão felizes de o ter de volta.

Ora, acontece que o segundo mecanismo era o mecanismo de monitorização. O mecanismo de monitorização do cessar-fogo seria liderado pelos Estados Unidos, que é quem tem competências na área de intelligence suficientes para liderar um processo. Teria também uma composição internacional, mas a liderança seria dos Estados Unidos. Depois, o apoio da Europa à reconstrução do sistema e da manutenção do sistema das Forças Armadas da Ucrânia. Depois, os investimentos que são precisos fazer na Ucrânia para as questões da reconstrução e da recuperação da Ucrânia. E a declaração ainda acrescentava, no final, aquilo que entretanto tinha sido uma decisão tomada ao nível da União Europeia, de que os fundos soberanos russos estavam congelados e, portanto, não podiam ser mexidos daqui. O que é que temos agora? Temos agora que continuam reuniões entre a delegação ucraniana e a delegação norte-americana, agora julgo que nos Estados Unidos, e prevê-se que provavelmente no fim de semana, que a Rússia envie uma delegação aos Estados Unidos para conversas. O que é que mudou no meio disto tudo? Mudou o seguinte: é que a Federação Russa agora tem que responder perante um novo quadro que lhe vai ser proposto. Isto é, a Federação Russa tem até agora feito o seguinte, que é: tem tido um conjunto de atores que vão dizendo: "Não, não, nós não". Mas ela tem que formalmente dizer se concorda ou não com o plano que lhe vai ser apresentado. Nós esperamos que o plano seja o plano que foi negociado em Berlim. Isto é, que todos estes dias tenham permitido consolidar um plano para mostrar agora a Moscovo, e Moscovo tem agora que formalmente dizer se concorda ou se não concorda com aquele plano, ou o que é que é preciso mudar nesse plano. Portanto, a bola do lado europeu já me parece suficientemente tratada para ser coerente e, sobretudo, ter trazido os Estados Unidos para este processo de reorganização. Vamos ver agora o que é que Moscovo consegue retirar daqui. Enfim, nem demasiado otimistas, nem demasiado pessimistas, mas agora a bola está do lado da Federação Russa

Entretanto, nos primeiros dias de dezembro, Vladimir Putin esteve em visita oficial à Índia, onde teve uma recepção muito calorosa por parte de Narendra Modi. Na altura, não demos muita importância midiática a esta visita, mas ela traduziu-se num conjunto significativo de entendimentos com implicações de natureza global. O que importa destacar nesta visita, General?

Nós já tínhamos assistido a Putin recebido com pompa e circunstância em Anchorage, já tínhamos visto Putin recebido com pompa e circunstância em Pequim e agora vimos Putin recebido com pompa e circunstância na Índia. Isto deve dar para pensar um bocadinho. Três dos grandes actores internacionais recebem com pompa e circunstância Putin. Este aspecto simbólico também é importante. E depois Narendra Modi procurou dar aqui também um aspecto de natureza, de cordialidade, de simpatia, de amizade, de intimidade, tal e qual como Xi e como Putin. E como o Trump também já o tinham feito. Há dois aspectos que foram tratados nesta reunião. Por que esta reunião aconteceu agora? Por causa das sanções dos Estados Unidos à importação de petróleo por parte da Índia. Ora, Putin sentiu que havia aqui uma oportunidade. Isto é, os Estados Unidos estão a sancionar a Índia, eu vou tentar abrir aqui uma grande oportunidade de negócio com a Índia, mostrando que ela que não liga às sanções de Washington, porque tem aqui na Rússia um parceiro. Há aqui uma janela de oportunidade. E depois, isto tem a ver também com um desenvolvimento de natureza económica que a Rússia e a Índia também precisam. A Rússia estará a precisar qualquer coisa como 10 milhões de imigrantes para a sua economia. Ora, a Índia tem muita gente que precisa de trabalho e, portanto, um dos aspectos terá sido procurar convencer Narendra Modi a fornecer mão de obra para a indústria da Rússia. Depois, há projetos da energia nuclear e foi firmado um acordo para um crescimento muitíssimo grande das trocas comerciais entre os dois. E Putin foi garantir a Modi que não tem problema com o petróleo. O petróleo a preços baixos é coisa que a Federação Russa lhe pode continuar a entregar. Mas depois ficaram aqui aspectos menos bem definidos, pelo menos do ponto de vista público, mas que foram falados, certamente. São os aspectos relacionados com a defesa. E eu trago este aspecto aqui porque isto me parece importante.

Dizemos depois.

A Índia continua a procurar um caça de quinta geração para as suas Forças Armadas e gostaria muito de ter um avião russo, que é o Su-57. A Federação Russa não tem tido capacidade de o poder fazer, até por causa da guerra na Ucrânia. E também o sistema antiaéreo da Índia, que assenta nos S-400 russos, também nunca acabou por ser completado. Isto é, há um conjunto de baterias que nunca foram entregues e a Rússia também tem dificuldades em os entregar neste momento. A Rússia gostaria de produzir drones. Estes drones, gostaria de os produzir na Índia, porque a Índia tem capacidade industrial, ficam ali bastante perto e portanto gostaria muito também de desviar alguma da produção de drones para a Índia, o que já começa a ser preocupante, porque a Índia tem capacidade industrial para fazer isso. Mas, na verdade, não foi anunciado nenhum acordo na área da defesa. Até que, e este é que é o aspecto importante, uma semana depois, subitamente aparece uma lei assinada por Putin que diz o seguinte: simplifica-se o deslocamento de tropas e equipamentos militares entre a Federação Russa e a Índia, isto é, os dois países passam a poder mover forças de natureza militar de forma simplificada entre os dois territórios. O que isto quer dizer é uma coisa que temos que acompanhar, mas é uma coisa para a qual devemos estar atentos.

Preocupados, não é? E continua a reaproximação entre Donald Trump e Lukashenko. Esta semana, o regime bielorrusso libertou mais de uma centena de prisioneiros políticos e os Estados Unidos aliviaram o seu regime de sanções a Minsk. General, qual é a lógica por trás de tudo isto?

Pois, e aqui é que está a cortina de fumo, eu não estou a ver essa lógica.

É que primeiro disse Trump e pensei que ia dizer Putin. Eles já estão mais próximos do que nunca. É mesmo Trump e Lukashenko.

O primeiro aspecto, é moralmente bizarro trocar pessoas por pessoas. É moralmente bizarro isto. Mas isto tem acontecido ao longo do tempo, desde aquelas famosas trocas de espiões entre a União Soviética e os Estados Unidos. Isso sempre aconteceu. Também já trocámos prisioneiros palestinianos com reféns israelitas. Trocar pessoas por pessoas. Trocar pessoas por sanções é também moralmente bizarro. Por quê? Porque são duas vitórias para Lukashenko e nenhuma vitória para os Estados Unidos, porque Lukashenko está cheio de prisioneiros de guerra, não sabe o que há de fazer e para poder continuar, é aliviar, até porque melhora a sua imagem internacional. Por outro lado, os Estados Unidos aliviam as sanções.

Portanto, é só alívios para Lukashenko.

É só alívios para Lukashenko. Há aqui uma cortina de fumo qualquer que não nos mostra o que os Estados Unidos vão lucrar com isto.

Podem ser já, já, já, mas há uma certeza aqui.

Certamente que antigamente isto fazia algum sentido, quando os Estados Unidos eram os grandes defensores das liberdades e portanto estariam dispostos a dar concessões para conseguir regimes mais liberais. Mas não parece ser essa a atuação dos Estados Unidos agora. Isto é, Lukashenko não se vai tornar mais liberal pelo fato de ficar sem estas sanções. Portanto, vamos ver no futuro. Eu desconfio de uma coisa, tenho uma teoria, mas a teoria é muito rebuscada. Maduro pode ir parar à Bielorrússia Maduro, no final disto tudo, pode ir parar à Bielorrússia.

Cá estaremos para ver.

É muito rebuscada esta teoria, mas vamos ver.

Tem razão. O nosso ponto de mira foca-se hoje no ritmo de progressão das forças russas em território ucraniano. O ano está a chegar ao fim. General, o que nos dizem os dados de 2025?

Os dados pela Federação Russa dizem que a Federação Russa conquistou cerca de 6000 km² de território ucraniano em 2025. Destes 6000 km², na verdade, estão reconhecidos apenas pelo Instituto de Estudo da Guerra cerca de 4700. Mas isto é indiferente. Qualquer um destes valores é inferior a 1% do território da Ucrânia. Isto é, durante todo o ano de 2025, as conquistas territoriais da Federação Russa foram inferiores a 1% do território ucraniano. Afinal, Pokrovsk ainda não caiu e, pelo contrário, em Kupiansk, o que tem havido é um avanço das forças ucranianas. Portanto, as coisas não estão tão fáceis como Putin, certamente, no discurso estará a dizer. E eu trago aqui um dado para finalizar isto. Se tivéssemos posto um caracol na fronteira junto a Avdiivka no início da operação, em 24 de fevereiro de 2022, esse caracol estaria neste momento em Viena, Áustria. Portanto, teria percorrido 1600 km. As forças russas, entre Avdiivka e Pokrovsk, avançaram 45 km. Isto é, um caracol é 40 vezes mais rápido a avançar do que as forças russas. Mas isto não tem a ver com as forças russas, tem a ver com a coragem das forças ucranianas.

É mesmo. General Álvaro Mourão, muito obrigada por mais um domingo da RSN. Foi um gosto tê-lo connosco. Boas festas. Até para a semana.

Boas festas para todos.